Primeiro encontro de mulheres Guarani de Santa Catarina discute formas de preservar a saúde do povo no estado

Texto e fotos por Luiza Dorneles em cobertura do primeiro encontro de mulheres Guarani articulado pela Comissão Guarani Yvyrupa.

O I Encontro Estadual das Kunhangue de Santa Catarina acontece entre os dias 27 e 31 de julho na Tekoa Pira Rupa, no Maciambu, em Palhoça. Mulheres Guarani de diferentes cidades do Estado se reúnem para compartilhar suas vivências nas aldeias e pensar, juntas, formas de preservar seu modo de vida – o “nhande reko”.

A Anciã do encontro, Kerexu – Tereza Ortega, saudou todas, que considerou “suas netas”.

Acontece nesse momento, entre os dias 27 e 31 de julho, o primeiro Encontro Estadual das Kunhangue de Santa Catarina – Kunhangue quer dizer mulher em Guarani – na Tekoa Pira Rupa. Mulheres Guarani de diferentes partes do Estado relataram, no primeiro dia de encontro, violências sofridas nas aldeias como chefes de família e lideranças comunitárias. A maior preocupação das mães Guarani muito se assemelha às mães de culturas não-indígenas: como iremos deixar a Terra para nossos filhos? Como estamos preparando nossos filhos para cuidar melhor de nossos territórios e aldeias?

Kerexu Yxapyry – Eunice Antunes – comenta que hoje a luta das mulheres Guarani é por reconhecimento da importância de suas presenças dentro dos territórios como corpos e espíritos que cuidam das crianças, das plantações, da gestão dos espaços. Kunhangues de diferentes Estados reúnem-se para pensar e construir soluções de preservação e continuidade ao “nhande reko” – o modo de vida Guarani – em um momento histórico no qual muitos povos já se alimentam mais de industrializados, muitas vezes ultraprocessados, do que daqueles de sua cultura original como a mandioca, o milho, a jaboticaba. Minha Yvoty – Cristiana Samaniego – relata o aumento de casos de diabetes e de problemas renais dentro das aldeias. Ela considera as mudanças nos hábitos alimentares como o principal fator causador das doenças e ressalta a importância de uma alimentação saudável e livre de agrotóxicos – “Tentei plantar milho aqui na aldeia, mas tem um arrozal aqui do lado onde jogam agrotóxico e o veneno mata tudo que tentamos plantar”, desabafa. 

“Minha vó ia comer fruta no mato, plantava milho, plantava batata doce, ia pescar… Meus filhos não conhecem esse tipo de comida e, se eu trouxer hoje, talvez nem comam. Comecei a pensar sobre isso… O que eu tô fazendo aqui? Como vou trazer esse sustento pra minha família pra que amanhã eles sejam saudáveis, pra que amanhã eles sejam felizes? Vocês vão aprender a plantar sua comida. Foi aí que começamos a mudar nossa realidade. Buscar conhecimento e tentar praticar, trazer pra dentro de casa, não só falar”.

(Kerexu Yxapyry – Eunice Antunes – no I Encontro Estadual das Kunhangue de Santa Catarina)

Minha Yvoty – Cristiana Samaniego – tem uma filha com paralisia cerebral. Hoje com 17 anos, sua filha já está no primeiro ano do Ensino Médio. Quando compartilhou a luta que foi criar uma filha com deficiência de uma forma saudável, com todos os cuidados e atenção especiais dos quais ela precisa, algumas lágrimas saíram junto. Cristiana é reconhecida dentro da aldeia Tekoa Pira Rupa, onde acontece o encontro, como uma excelente liderança. Sua força, seu amor, sua autonomia e independência inspiram Kunhangue de toda Santa Catarina. Hoje, ela conta com o apoio de seu marido como um parceiro com o qual divide uma vida de responsabilidades e cuidados.  

Delegações de norte e sul do Estado chegaram para participar do encontro. 

Aldeias do norte – Piraí, Yvapurú, Jaboticabeira, Morro Alto, Tarumã Mirim, Tarumã, Pindoty.

Aldeias do sul – Imaruí, Biguaçú Tekoa Porã, Amaral, Canelinha, Tekoa Vy´A (Major Gercino), Morro da Palha, Território Indígena Morro dos Cavalos.

As falas acontecem dentro da Opy (lê-se Opã), a casa de rezo, bioconstruída com barro, madeira e palha. Do lado de fora, crianças brincam, cachorros circulam, homens cozinham as refeições.

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Geny Lopes
4 anos atrás

Tô amando esse encontro das kunhangue, assim teremos mais forças e coragens pra enfrentar a luta de cada dia. E assim teremos vozes e visibilidade dentro da sociedade indígena. Só gratidão ao kerexu me inspiro muito a ela 👏👏👏.

3 anos atrás

Muito bom!! parabéns pelo conteúdo.
Vou compartilhar com amigos.

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