No dia 19 de Junho aconteceu em Porto Alegre a Feira da Cidadania, organizada pela Secretaria Geral da Presidência da República, órgão central nas articulações do governo com movimentos e organizações populares. Abaixo está a fala que a nossa companheira Any Moraes, da MMM RS e Coletivo Periferia Feminista, compartilhou:
Falo em nome da Marcha Mundial das Mulheres e das mulheres que sustentam a vida nos territórios populares do Rio Grande do Sul.
Para nós, as mudanças climáticas não pode ser separada das desigualdades produzidas por um modelo econômico que concentra riqueza e transfere para as mulheres a responsabilidade pelo cuidado e pela sobrevivência. Justiça climática exige enfrentar as desigualdades de gênero, raça e classe e colocar a sustentabilidade da vida no centro das políticas públicas.
O que vivemos no Rio Grande do Sul não foi apenas resultado das chuvas extremas. Foi também consequência de anos de negligência, fragilização das políticas públicas, da falta de planejamento e da ausência de participação das comunidades na construção das respostas.
Denunciamos há muitos anos que a destruição ambiental, a mercantilização da natureza e o desmonte das políticas públicas atingem de forma mais dura as mulheres, especialmente as mulheres negras, periféricas, indígenas, camponesas e chefes de família. E quando a crise climática encontra a desigualdade social, os impactos são muito mais profundos.
Por isso, o principal desafio que temos hoje não é apenas reconstruir o que foi destruído. É preparar os territórios para os eventos extremos que continuarão acontecendo.
Para isso, a adaptação climática e a gestão de riscos precisam ser construídas com participação popular. Os planos de contingência, os sistemas de alerta, as estratégias de prevenção e os investimentos públicos devem dialogar com quem vive nos territórios e conhece sua realidade. As soluções estão no território!
É fundamental reconhecer as organizações comunitárias como parte estruturante da gestão de riscos e da adaptação climática!
Essas experiências precisam deixar de ser vistas apenas como ações emergenciais e passar a ser reconhecidas como parte permanente das políticas públicas.
Defendemos a criação de mecanismos permanentes de formação, participação e articulação dessas lideranças na governança da adaptação climática e da gestão de riscos.
Falar em prevenção também significa enfrentar as causas da crise climática. Não podemos discutir adaptação sem discutir a emissão de gases de efeito estufa e os impactos de grandes empreendimentos sobre os territórios.
Aqui no RS temos o caso da CMPC, com ausência de consulta adequada às comunidades indígenas e pelos impactos desconsiderados, e isso reforça a necessidade de alinhar desenvolvimento econômico, justiça ambiental e proteção dos bens comuns.
O Brasil precisa construir uma cultura permanente de prevenção, preparação e resposta organizada às emergências climáticas. Não podemos continuar atuando apenas depois que a tragédia acontece. É preciso fortalecer a capacidade dos territórios, das comunidades e do poder público para agir antes, durante e depois dos desastres.
Experiências internacionais, como a das nossas companheiras cubanas na preparação comunitária para desastres, demonstram que comunidades organizadas salvam vidas, reduzem perdas e fortalecem a capacidade de resposta diante das emergências.
A solidariedade e o trabalho voluntário salvaram vidas no Rio Grande do Sul, mas solidariedade não substitui política pública. É preciso de orçamento!
Não haverá adaptação climática sem justiça social. E não haverá justiça climática sem a participação dos povos organizados na construção das soluções.
Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres!

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