‘Um grande encontro de saberes’: 3º SIBSA reúne mais de 600 participantes e reafirma compromisso com a justiça socioambiental

Foto: Roan Nascimento I Abrasco

3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA) chegou ao fim nesta sexta-feira (29), em Cuiabá (MT), após quatro dias de debates, intercâmbio de saberes e mobilização em defesa da justiça socioambiental e do Bem Viver. Realizado na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o evento reuniu 619 participantes de todas as regiões do Brasil, com forte presença de movimentos sociais, que representaram 36% do público presente. Ao todo, a programação contou com 52 atividades, entre duas reuniões de pré-simpósio, seis Grandes Rodas, 15 Rodas de Saberes e 29 Rodas Temáticas.

Para a presidente do 3º SIBSA, Karen Friedrich, o evento foi um espaço de troca de saberes e articulação de resistência. “Foi muito bonito ver as pessoas resistindo e fortalecendo sua capacidade de enfrentar esse modelo de exploração e destruição dos recursos naturais. Acho que o Brasil é um dos países que podem dar exemplo para o planeta de como a gente pode superar esse colapso ambiental. E apresentar outras formas de produzir alimentos, de conviver com a natureza, de conviver em harmonia nas cidades”, enunciou.

A diversidade de perspectivas e experiências também marcou a produção científica e técnica apresentada durante o simpósio. Foram compartilhados 176 trabalhos, distribuídos entre 98 relatos de pesquisa, 62 relatos de experiência, 14 produções técnicas e duas produções artísticas. As apresentações abordaram temas relacionados aos impactos da crise climática, saúde dos territórios, povos e comunidades tradicionais, agrotóxicos, racismo ambiental, participação social, ciência comprometida com a transformação social e estratégias de resistência diante dos desafios contemporâneos.

O pesquisador Guilherme Franco Netto, que também presidiu o 3º SIBSA, entende que o evento entregou para a sociedade uma agenda e caminhos para enfrentar o atual contexto, marcado pelas emergências climáticas. “O simpósio culmina em uma proposição coletiva. Queremos entregar para a sociedade uma agenda da saúde coletiva capaz de contribuir para o enfrentamento do colapso ecológico e climático. Essa é uma das nossas principais expectativas”, sistematizou. 

O presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, considera que o Simpósio contribuiu para que a Abrasco amplie seu escopo de atuação e abra diálogo com outros públicos. “Um momento de celebração, de celebração da diversidade, de celebração da inclusão, de celebração da democracia. Na história da Abrasco, nós fomos mudando, nós fomos ampliando as nossas fronteiras. Este evento é um encontro que nos deixa engrandecidos, que nos deixa maravilhados, onde a tradição encontra a ciência, onde a luta política encontra a academia. Este é o melhor resultado”, comemorou.

O último dia de atividades foi marcado pela conferência do climatologista Carlos Nobre, referência internacional nos estudos sobre mudanças climáticas, além da cerimônia de premiação dos trabalhos de destaque apresentados no evento. A programação de encerramento também contou com a leitura da Carta Política do 3º SIBSA, documento construído coletivamente que reúne análises, reivindicações e compromissos em defesa da saúde, da democracia, dos territórios e da vida frente ao agravamento das crises socioambientais.

Durante o encerramento do Simpósio, a reitora da UFMT, Marluce Aparecida Souza e Silva, celebrou a diversidade do encontro e o comprometimento dos participantes e organizadores na construção de uma ciência socialmente engajada, que contribua com a defesa do meio ambiente, da educação e da saúde. “Estou encantada e quero agradecer, pois eventos como esse são o que mais precisamos na Universidade Federal de Mato Grosso”, afirmou.

Ainda nos agradecimentos finais, a integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra de Mato Grosso (MST-MT), Itelvina Masioli, também celebrou a realização de um evento que valoriza uma ciência em defesa da vida e do povo brasileiro. “É preciso reconhecer a importância desse Simpósio, que poderia chamar de um grande encontro de saberes. Dos saberes sistematizados, pesquisados, mas também dos saberes dos nossos povos, que lutam e resistem no nosso território”, registrou.

O momento solene ainda contou com a premiação de trabalhos apresentados por simposistas nas Rodas de Saberes, durante o evento. Ao todo, foram 14 produções premiadas, abordando desde a reorganização da Atenção Primária à Saúde diante das emergências climáticas até os impactos do uso de agrotóxicos e seus desdobramentos para a saúde reprodutiva.

Confira os trabalhos premiados!

Além dos trabalhos, também houve um momento para premiar os filmes que participaram da mostra audiovisual do evento em homenagem a Silvio Tendler. Foram 30 produções inscritas. Os trabalhos premiados foram: “Entre Orações e Montanhas” (2025), de Danilo Candombe; “Terra Nova” (2023), de Ziel Karapotó; e “Equilíbrio” (2020), de Olinda Tupinambá.

A organização também aproveitou o momento para homenagear pessoas e coletivos que contribuíram com a área de Saúde e Ambiente, no campo da Saúde Coletiva, e na luta em defesa da saúde, especialmente de populações vulnerabilizadas. Os pesquisadores e abrasquianos Lia Giraldo e Wanderlei Pignati foram agraciados, assim como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Também houve uma homenagem póstuma ao cineasta e documentarista Silvio Tendler.

+++ Saiba mais – 3º SIBSA: ‘Antes de ser cinema, o meu trabalho é escuta’; homenagens a Silvio Tendler inspiram debates sobre arte e território

Por uma agenda socioambiental da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico e climático

O pesquisador Carlos Nobre ministrou, por vídeo, a última conferência do 3º SIBSA. O cientista falou sobre “Por uma agenda socioambiental da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico e climático”. Nobre trouxe diversos dados sobre os impactos das emergências climáticas na saúde, com ênfase na poluição do ar provocada pelo uso de combustíveis fósseis e pelas queimadas. De acordo com o membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), já há estudos que indicam 150 mil casos de doenças relacionadas às queimadas em municípios da região Amazônica. Algumas pesquisas apontam, inclusive, queda na expectativa de vida da população em virtude da má qualidade do ar.

Carlos Nobre também fez um alerta sobre as ondas de calor. O aumento da temperatura média mundial em 1,5°C traz sérios impactos para a saúde das populações. “Essas ondas de calor, hoje, já estão levando a mais de 500 mil mortes por ano, especialmente de pessoas idosas, bebês e pessoas com alguma doença. No Brasil, entre 10 e 14 mil mortes por ano. E por que isso aumenta tanto em países como o Brasil? Há muito pouca vegetação nas cidades”, explicou.

O palestrante encerrou suas considerações com um chamado à ação em defesa dos biomas brasileiros e no combate aos efeitos das emergências climáticas. “Precisamos trabalhar para combater as duas emergências, a climática, ao zerar o uso de combustíveis fósseis, e salvar todos os biomas. Que o Congresso brasileiro passe uma lei proibindo qualquer desmatamento em biomas brasileiros e que se exija uma grande restauração dos biomas”, afirmou.

Carta do 3º SIBSA

As atividades foram encerradas com a leitura coletiva da Carta Política do 3º SIBSA, documento que reúne uma síntese do que foi debatido durante o Simpósio, suas principais contribuições e propostas para aprimorar políticas públicas. O documento ressalta a importância do campo da Saúde Coletiva e do SUS, considerado pelos participantes como a maior política social do Brasil, além de destacar a escolha de Cuiabá para sediar o evento. Mato Grosso abriga três dos seis biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado e Pantanal — e condensa, em seu território, as contradições mais agudas do modelo hegemônico de desenvolvimento, marcado por conflitos fundiários, práticas laborais predatórias e lutas territoriais de seus povos.

A carta também enfatiza a diversidade de participação no 3º SIBSA, com 36% do total de participantes oriundos de movimentos sociais. Segundo o documento, o dado demonstra que o objetivo de ampliar o espaço para a diversidade cultural dos territórios e de suas demandas foi alcançado. Além disso, o texto registra que surgiram, ao longo do evento, novas palavras de ordem e conceitos de interesse para o avanço do conhecimento intercultural.

A carta registra ainda que existe uma aceleração deliberada do desmonte regulatório, a exemplo da facilitação do registro de agrotóxicos e da flexibilização do licenciamento ambiental. Segundo o documento, esse processo reduz a capacidade do Estado de avaliar impactos cumulativos e sinérgicos sobre a saúde e os ecossistemas, dificulta a demarcação de terras indígenas e quilombolas e compromete o avanço da reforma agrária. Tais fatores representam uma ruptura com os fundamentos constitucionais da proteção à saúde, ao ambiente e aos direitos dos povos. Também está posto que é necessário agir e articular redes.

“O 3º SIBSA reafirma que a ciência emancipatória exige a articulação entre os saberes produzidos na academia e aqueles oriundos dos povos. Promovemos como contraposição a agroecologia e a economia solidária como projetos de cuidado ancorados em evidências e em práticas sintonizadas com as tramas da vida. Defendemos diálogos entre as ciências e relações entre os seres humanos, natureza, espiritualidade, território, tempo e vida coletiva.”

Leia a carta na íntegra:

Destacamos, ainda, que o trabalho “EXPOSIÇÃO A AGROTÓXICOS E TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: EVIDÊNCIAS E DESAFIOS NO CONTEXTO DE VACARIA/RS, escrito por Eduardo Raguse, Alice Hertzog Resadori e Marcos André Conte, foi um dos premiados no Simpósio.

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