Nova Santa Rita avança na regulação contra os impactos de agrotóxicos e frente social é fortalecida

Audiência do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos é marcada por pressão e demandas populares   Sob forte mobilização popular, o município de Nova Santa Rita sediou, na última quinta-feira (02/07), a audiência do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. Mesmo sob condições climáticas adversas e forte chuva, o evento registrou lotação máxima. Reuniu moradores da região, produtores locais, representantes de movimentos sociais e autoridades para debater as urgentes restrições à pulverização aérea de agrotóxicos e os riscos de contaminação ambiental.  O encontro foi coordenado pela procuradora Ana Paula Carvalho de Medeiros e contou com a presença de lideranças políticas e jurídicas, como o prefeito da cidade, o presidente da Câmara de Vereadores, a promotora Ana Maria Marchesan e o procurador da República Marco Antônio Delfino (MPF-MS), que abriu os trabalhos apresentando uma palestra sobre o panorama do uso de agrotóxicos no Brasil.  Após a fala de Delfino, se abriu espaço para o público em geral. No momento, Eduardo Raguse, representando a Amigas da Terra Brasil, fez fala trazendo dados sobre o uso de agrotóxicos em nosso país e a ligação do agronegócio com a emergência climática. “Gases de efeito estufa são os causadores das mudanças climáticas que nos levaram, em 2024, à enchente. Estamos apreensivos que um novo caso possa vir a acontecer.  75% das emissões brasileiras vêm do agronegócio”, denunciou.  Oito dos dez agrotóxicos mais utilizados no país são proibidos na União Europeia. Entre 2023 e 2024, foram registrados os maiores índices de conflitos ambientais, segundo dossiê da Comissão Pastoral da Terra (CPT). “Foram mais de 2.000 casos de conflitos ambientais ligados ao agronegócio no Brasil. 87% desses casos devido à pulverização aérea, o que a gente da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos têm classificado como uma verdadeira guerra química. Porque não é somente a deriva de agrotóxicos que está acontecendo no país, mas agrotóxicos estão sendo despejados sobre comunidades de maneira deliberada pelo setor do agronegócio”, explanou . Eduardo complementou ainda que “Não há uso seguro de agrotóxicos. Isso não existe, apesar do setor dizer e remeter que com boas práticas se pode fazer o uso seguro. Centenas de estudos disponíveis, relatórios e dados demonstram que o Brasil está envenenado. Essa é a verdade”.  Na sequência, ele apresentou documento elaborado junto a mais de 70 organizações e movimentos sociais, cientistas, produtores rurais, cooperativas e redes a nível local, nacional e internacional. Na carta-manifesto foram elencados cinco pontos de prioridade para provocar encaminhamentos do Fórum. Confira a carta na íntegra aqui e fique por dentro das demandas populares: Os territórios de vida agroecológicos em contraposição à violência do agronegócio  O encontro foi marcado pela fala de produtoras agroecológicas, como Graciela Stornini de Almeida, assentada do MST, que narrou a vivência e a pressão de ser alvo da deriva de agrotóxicos do agronegócio. Expondo um dos momentos em que tiveram que lidar com a violência da deriva, que afeta diretamente a saúde familiar, do território e da produção de alimentos agroecológicos, ela destacou a importância da mobilização popular. “A deriva não foi só em Nova Santa Rita, foi também em Eldorado. E agradeço muito as famílias de Eldorado que estão aqui, e aos companheiros das cooperativas que se mobilizaram até aqui”, salientou. Sérgio Poletto (FETAR-RS) evidenciou o quão alarmante é o contexto em sua cidade: “Vacaria é uma das cidades com maior índice de crianças que estão nascendo com autismo. Vacaria é uma das cidades com maior índice de pessoas hoje fazendo hemodiálise e com sintomas de câncer. É porque a cidade está tomada por agrotóxicos”. A relação entre o aumento de casos de autismo em Vacaria com a exposição da população à agrotóxicos foi objeto de estudo recentemente apresentado no 3º SIBSA – Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, realizado pela ABRASCO, em Cuiabá/MT. O trabalho foi um dos premiados no Simpósio. A partir da fala de Graciela, a Audiência também contou com apresentação de documento narrando episódios da deriva de agrotóxicos e pressão do agronegócio à qual são submetidos territórios da reforma agrária e agroecológicos. O documento apresenta a luta das famílias atingidas, que não diz respeito apenas à reparação de um episódio de contaminação. Trata-se da defesa da vida, da saúde, da produção de alimentos saudáveis, da reforma agrária, da agroecologia e do direito das presentes e futuras gerações a viverem em territórios livres da contaminação por agrotóxicos. As famílias atingidas exigem justiça, reparação integral dos danos sofridos e medidas estruturais que impeçam a repetição de tragédias como essa. Como narra o documento: “O Estado deve cumprir seu dever de proteger a população, fiscalizar rigorosamente o uso de agrotóxicos e promover políticas públicas voltadas à transição agroecológica e à redução progressiva da dependência de agrotóxicos”. Confira a fala de Graciela na íntegra: Lara Rodrigues,dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul, expôs: “Quando falamos do fim do uso de agrotóxicos, nós estamos falando da nossa continuidade e da nossa permanência no planeta. Estamos falando como seres humanos. Ou mudamos o nosso modelo de produção ou a humanidade, a biodiversidade e todo esse conjunto com a gente fazendo parte, não tem um futuro. A agroecologia é o nosso caminho de futuro. É o caminho da reforma agrária popular que diz que vamos construir uma sociedade baseada na solidariedade, na produção de alimento, numa vida digna e junto à natureza, uma vida melhor para todas e todos”. Eduardo também reforçou a necessidade do fortalecimento da agroecologia. “Nova Santa Rita é um exemplo de que é possível produzir de maneira agroecológica, inclusive com escala. Porém, o uso de agrotóxico impede muitos produtores de serem agroecológicos. Já houve mais de um relato de produtores que querem produzir agroecológico e não podem porque a sua água vem de uma produção que usa veneno. E aí não vão conseguir se certificar, se tenciona para aderirem à produção com agrotóxico”.   Mobilização recorde apresenta carta manifesto de 70 entidades Um dos pontos altos do evento foi a apresentação de um documento articulado rapidamente pelas

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