“Se essas árvores geneticamente modificadas são liberadas no meio ambiente você não pode voltar atrás”, afirma Anne Petermann

A Amigos da Terra Brasil entrevistou a coordenadora do programa global Stop Engineered Trees, Anne Petermann. A pesquisadora explica a situação atual das pesquisas e introdução na natureza de árvores geneticamente modificadas, quais os resultados desta ação e o que pretendem as empresas que lideram este movimento comercial. A entrevista foi realizada a partir do debate “Ameaças e Impactos dos Monocultivos de Árvores e das Árvores Transgênicas”, realizado em parceria com a WRM (World Rainforest Movement) no Clube de Cultura em Porto Alegre no ínicio de abril. Anne destaca que uma vez liberadas no meio ambiente os reflexos estão além do que as pesquisas são capazes de prever: “por exemplo, as árvores que foram modificadas para matar insetos: o pesticida na árvore está em cada uma das células da árvore, então não apenas na madeira, mas nas folhas, no pólen, então não só os insetos-alvo do pesticida serão mortos, mas também são impactados os insetos benéficos, como abelhas e borboletas, outros polinizadores, ou os insetos que comem essas pragas também serão afetados, ou os pássaros… os impactos continuam cadeia alimentar acima e é desconhecido quão longe eles vão”. Ela lembra ainda que o prazo de desenvolvimento das árvores é de anos, diferente de culturas como milho e soja em que o ciclo é de meses: “elas também podem ser prejudicadas por isso e essas são todas as coisas que não foram estudadas o suficiente para saber quais serão os impactos de longo, ou mesmo de curto prazo”. Acompanhe a íntegra da entrevista: Amigos da Terra Brasil – Você pode explicar o que são árvores transgênicas? Anne Petermann – A questão com as árvores transgênicas é que elas são diferentes de árvores cultiváveis “normais”. Essas árvores foram modificadas em suas células, em seu DNA, para fazer coisas que elas nunca fariam na natureza. Elas estão sendo modificadas para crescer de maneiras que as árvores, na natureza, não podem crescer, para matar insetos, para tolerar serem pulverizadas com químicos que as matariam de outra maneira, para ter a madeira modificada, a madeira produzida pela árvore é diferente, ou para crescer muito, muito rápido. Então, é isso que as árvores transgênicas são. Porque elas nunca existiram na natureza. Elas têm impactos que nós não podemos sequer entender, já que nós não sabemos como essas árvores se comportariam em um ecossistema florestal, ou em qualquer ecossistema, com os solos, com a vida selvagem, com os pássaros e também com as pessoas que vivem no entorno. ATB – Quais são os impactos ao meio ambiente e às comunidades que estão ao redor dessas plantações massivas? AP – O impacto da árvore no meio ambiente depende de como ela foi geneticamente modificada. Então, uma árvore que foi geneticamente modificada para resistir a herbicidas tóxicos, por exemplo, resultará em muito mais herbicida sendo pulverizado nas plantações. Isso significa que haverá maior poluição da água, maior poluição dos solos, mais pesticidas contaminando comunidades locais e todos os impactos muito ruins que acontecem por causa dos agrotóxicos. Ou, por exemplo, as árvores que foram modificadas para matar insetos: o pesticida na árvore está em cada uma das células da árvore, então não apenas na madeira, mas nas folhas, no pólen, então não só os insetos-alvo do pesticida serão mortos, mas também são impactados os insetos benéficos, como abelhas e borboletas, outros polinizadores, ou os insetos que comem essas pragas também serão afetados, ou os pássaros… os impactos continuam cadeia alimentar acima e é desconhecido quão longe eles vão. Mas também podem impactar as comunidades que vivem no entorno, quando elas inalam pólen, este pólen contém pesticida. Elas também podem ser prejudicadas por isso e essas são todas as coisas que não foram estudadas o suficiente para saber quais serão os impactos de longo, ou mesmo de curto prazo. Então, isso é um outro exemplo, eles não querem saber as coisas ruins, logo eles [as empresas] não procuram por isso. ATB – Depois que essas árvores forem liberadas e todos esses impactos negativos se apresentarem, o que pode ser feito? AP – Se essas árvores são liberadas no meio ambiente em larga escala, o problema é que você não pode voltar atrás, você não pode dizer, sabe, “isso é uma má ideia, vamos recolher essas árvores de volta”, porque elas foram liberadas. Então, se lhes foi permitido estar no meio ambiente, elas podem dispersar seu pólen, suas sementes, ou, em caso de árvores de eucalipto, elas podem brotar de novo dos tocos, se você as cortar, então elas crescem e não há como voltar atrás. Então é por isso que nós estamos dizendo que elas devem ser barradas antes de serem postas no meio ambiente, porque se elas forem liberadas em escala comercial, não há meios de impedir que elas se espalhem. ATB – Como podemos diferenciar uma árvore transgênica de uma árvore natural? AP – O problema de identificar quando uma árvore foi modificada em relação a uma árvore não modificada é que é muito difícil, porque elas parecem exatamente a mesma árvore. Se for uma árvore modificada para tolerar herbicidas, você pode diferenciá-la ao pulverizá-la com um químico e ela não morrer. Mas para a maioria das árvores a única maneira de realmente saber é fazendo um teste, um teste genético, para verificar se ela foi modificada – e isso não é algo fácil. Novamente, esse é o motivo para não querermos essas árvores liberadas de maneira alguma: porque uma vez que elas estão soltas no ambiente, é muito difícil de descobrir para onde elas foram. ATB – Então, o que significam os termos “modificada” e”transgênica”? AP – Basicamente, eles significam a mesma coisa. Bem, tem algumas tecnologias de engenharia genética que não são transgênicas, elas são… é a mesma tecnologia, mas em vez de usar material genético de um organismo diferente, eles usam material genético da mesma espécie que estão modificando. Então, ainda é engenharia genética, eles ainda estão invadindo a célula com essa tecnologia muito destrutiva, mas não é transgênico. ATB – Como está a








