Por Amigas da Terra Brasil
Considerando a atual conjuntura eleitoral, entendemos que nos cabe, enquanto Amigas da Terra Brasil, situar a eleição do ponto de vista da justiça ambiental e no que diz respeito à questão ambiental e climática.
As eleições de 2026 acontecem em um momento decisivo para o futuro socioambiental do Brasil. Não está em disputa apenas quem ocupará a Presidência da República, mas o modelo de desenvolvimento do país, a forma de enfrentar a emergência climática, quem controlará nossos territórios e recursos naturais e se a riqueza brasileira será utilizada para ampliar direitos e soberania ou para aprofundar nossa condição de exportadores de matérias-primas.
A principal batalha climática brasileira
O Brasil responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Mas nossa estrutura de emissões é diferente daquela dos países industrializados: aproximadamente 48% estão relacionadas à mudança do uso da terra e ao desmatamento, enquanto a agropecuária responde por cerca de 27%. Considerados conjuntamente, o agronegócio é responsável por aproximadamente três quartos das emissões brasileiras.
A principal batalha climática brasileira, portanto, é combater o desmatamento, proteger os biomas e transformar o modelo do agronegócio que continua degradando e envenenando nossos territórios.
Neste sentido a diferença entre os governos Bolsonaro e Lula é concreta. Durante o governo Jair Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia aumentou significativamente, chegando a 13.038 km² em 2021 e 11.568 km² em 2022. Houve desestruturação de políticas e mecanismos de fiscalização ambiental. A declaração do então ministro Ricardo Salles sobre aproveitar a pandemia para “passar a boiada” tornou-se símbolo dessa orientação.
A partir de 2023, o governo Lula retomou o PPCDAm e recompôs estruturas de fiscalização. O desmatamento da Amazônia diminuiu 21,8% em 2023, 43,8% em 2024 e 50% em 2025, em comparação com os anos anteriores. Em 2024, as emissões brasileiras associadas à mudança de uso da terra caíram 32,5%, segundo o SEEG.
Esses resultados não significam que o problema esteja resolvido. O Brasil continua destruindo seus biomas, expandindo fronteiras agropecuárias e minerais e mantendo uma política de expansão da exploração de petróleo e gás. A diferença está na capacidade e na disposição do Estado de enfrentar o desmatamento e regular interesses econômicos.
A emergência climática já está acontecendo
A política climática também precisa enfrentar a adaptação. Secas, enchentes, tempestades, ciclones e incêndios extremos já provocam perdas humanas, econômicas e territoriais.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul atingiram cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios e provocaram 183 mortes. O Guaíba chegou a 5,37 metros em Porto Alegre. Estudos apontam que a mudança climática tornou o evento aproximadamente duas vezes mais provável.
A resposta do governo Lula incluiu assistência de emergência, reconstrução e, principalmente, investimento em adaptação. O governo federal destinou cerca de R$ 6,5 bilhões a um fundo específico para reconstrução e infraestrutura de adaptação climática no Rio Grande do Sul. O atual Plano Clima inclui uma Estratégia Nacional de Adaptação e 16 planos setoriais e temáticos de adaptação.
Minerais estratégicos e soberania
A dita transição energética o pano de fundo de uma disputa pelo controle dos minerais estratégicos. Lítio, terras raras, níquel, grafite, cobre e outros recursos são fundamentais para tecnologias de eletrificação, armazenamento, indústria e principalmente para as guerras.
O risco é repetir a velha lógica colonial: o Brasil fornece minério barato e importa produtos de alta tecnologia.
O governo Lula vem defendendo maior beneficiamento, processamento, industrialização e desenvolvimento tecnológico no país. Flávio Bolsonaro, por outro lado, tem apresentado o Brasil como quintal dos Estados Unidos, garantindo os minerais críticos de seu interesse para reduzirem sua dependência da China.
Para nós, soberania mineral não significa simplesmente aumentar a mineração. Significa decidir democraticamente o que extrair, onde, quanto, para quem e para quê, garantindo direitos territoriais e agregação de valor no Brasil.
Também precisamos disputar o Congresso
Nenhuma política socioambiental será implementada apenas pela Presidência. O Congresso pode fortalecer ou desmontar a legislação ambiental, garantir ou retirar recursos de fiscalização e ampliar ou restringir direitos territoriais.
Por isso, não basta escolher quem ocupará o Palácio do Planalto. Temos que cambiar este Congresso inimigo do povo!
Para a Amigas da Terra Brasil, alguns princípios não podem ser negociados: defesa da democracia; justiça ambiental e climática; proteção dos territórios; direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais; soberania sobre nossos bens comuns; transição energética justa, popular e feminista; democratização da energia; diversificação econômica; reformas agrária e urbana, e enfrentamento das estruturas que transformam territórios e populações em zonas de sacrifício.
E, em última análise, trata-se também de uma luta pela própria democracia: se o futuro do Brasil será moldado por instituições públicas e pelo controle democrático sobre seu território e seus bens comuns, ou cada vez mais pelo poder econômico concentrado, por interesses geopolíticos estrangeiros imperialistas, pelo militarismo, por milícias e pelo extremismo religioso.
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