Mulheres Guarani de SC acreditam no diálogo para acabar com a cultura patriarcal nas aldeias

Textos e fotos por Luiza Dorneles em cobertura do primeiro encontro de mulheres Guarani articulado pela Comissão Guarani Yvyrupa.

Diálogo. Entre tantas palavras em Guarani proferidas em falas na Opy no segundo dia do I Encontro das Kunhangue de Santa Catarina, essa em português resume a necessidade apontada pelas mulheres Guarani do Estado. Muitas ainda sofrem violências verbais, simbólicas, físicas, sexuais, morais dentro das Tekoas (aldeias) de seus próprios parentes homens. O que elas querem? É simples. Diálogo. Trocar com os homens em pé de igualdade.

Vítima de um relacionamento abusivo, ameaçada de morte pelo próprio companheiro, Jera – Elisiane Antunes – hoje se ergueu. De microfone na mão e sorriso no rosto, ela inspira Kunhangue de Santa Catarina a seguir em frente. Nenhuma de nós está só. 

Kerexu – Eunice Antunes –, irmã de Jera, comenta que o olhar das mulheres é ativo e atencioso dentro das Tekoas: estão sempre de olho no comportamento de cada um e de cada uma das Kunhangue (mulheres Guarani, dos Awakue (homens Guarani) e das crianças. Esse olhar também se traduz em palavras – as Kunhangue compartilham as informações que percebem para que assim o cuidado seja dividido entre todos e todas. Muitas vezes são consideradas fofoqueiras em função desse compartilhamento de informações entre suas familiares quando, na realidade, só gostariam de dividir as responsabilidades de cuidado que, na maioria das famílias, ainda estão nos ombros e no colo das mulheres. “Nós não queremos ir contra os homens, mas estar lado a lado. Estamos juntos. Se alguém tombar, se alguém morrer na luta, todos nós iremos sentir porque somos uma família – é um parente nosso”, desabafa Kerexu. 

Como a gestão da política externa de muitas aldeias ainda está nas mãos do Cacique – por exemplo, demandas a serem levadas para órgãos responsáveis por implementar políticas públicas nos territórios –, muitas pautas percebidas por esse olhar atento das Kunhangue no dia a dia das Tekoas acabam não sendo consideradas relevantes e acabam circulando somente na articulação da gestão interna territorial. As mulheres são chefes das famílias, priorizam os filhos e os companheiros em relação a si próprias, e mesmo com toda sua dedicação e amor colocadas em gestos, palavras e ações, não têm suas necessidades consideradas – às vezes por falta de iniciativa de uma escuta atenta dos homens, outras por dificuldade delas mesmas em expor suas visões e sentimentos. Elas são atravessadas pelo medo de serem ridicularizadas e muitas estão traumatizadas por terem sido vítimas de agressões enraizadas na cultura patriarcal. Deise, professora na Aldeia de Tavai, município de Canelinha, se dirige às Kunhangue – “Nós somos fortes, corajosas! Desde a barriga de nossa mãe a gente vem sofrendo. Em casa temos nossos filhos, a gente se preocupa mais com o filho do que o pai. Precisamos perder o medo de falar.”.

Entre cachimbadas do Pentý (tabaco) e tomadas de chimarrão, as Kunhangue de SC escutam atentamente as falas de companheiras de Tekoas (aldeias) de norte a sul do Estado.

Após essa fala da Deise, uma companheira agredida se encorajou e contou, pela primeira vez em público, a história de uma agressão que sofreu. Maya (nome fictício) chegou em frente ao fogo para falar de cabeça baixa e ombros curvados para dentro. Olhando o tempo inteiro para baixo, proferiu sua fala. Era casada, tinha seis filhos, todos do mesmo pai. Até que um dia apareceu um homem, também casado, e começou a persegui-la. Ela sentiu, mas não fez nada – preferiu seguir sua vida na normalidade, como muitas mulheres vítimas de perseguição ainda fazem, silenciam. Esse homem, no entanto, não voltou para sua “vida normal”. Maya estava caminhando tranquilamente pela estrada, voltando para casa cansada após um dia de trabalho, um pouco distraída, quando de repente o homem salta do meio do mato e a agarra. “E homem é forte, né?”, ela comenta. O resto da história você deve imaginar… Já aconteceu com uma, duas, três, quantas mais?

Quantas de nós precisarão ser levadas para o mato, estupradas, para que consigamos dar um basta nessa cultura de violência contra as mulheres? Maya hoje não consegue se relacionar com homens. Foi considerada culpada por sua própria família e teve a sorte, a benção, de encontrar uma irmã de espírito que a acolheu e, através de seu amor, deu forças para que ela conseguisse seguir em frente. Mesmo com a cabeça baixa diante de todas, quando sentou ao meu lado para conversar, Maya erguia o rosto e sorria nos momentos em que contava sobre Maria (nome fictício), essa amiga, companheira, que ela considera mesmo a irmã que não teve. Quando uma mulher tomba, outra mulher a acolhe, outra mulher a levanta. Assim somos. Cooperativas, cuidadosas, amorosas e corajosas. Se precisamos lembrar de alguma história para nos fortalecermos, que possamos lembrar das inúmeras, incontáveis vezes em que fomos apoio umas para as outras. Em que acolhemos lágrimas, tristezas, decepções. Em que fomos ombro, colo, abraço. Com amor nos fazemos, com amor nos fortalecemos, com amor nos transformamos, com amor seguimos. Com amor e tempo, todas nós seguiremos de cabeça erguida. Se uma cair, a outra segura. 

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