Lítio Verde com mineração a céu aberto?

Greentech da mineração? A cava é aberta. A cova pode ser de rios, biomas, culturas e gentes O lítio, tão presente no Vale do Jequitinhonha (MG), é abordado por mineradoras e corporações como um mineral para a transição energética, capaz de produzir energia limpa, desenvolvimento e de amortecer a emergência climática. Mas será que a venda de lítio no exterior é capaz de diminuir emissões globais se o extrativismo fóssil segue? Dentro do sistema desigual de produção e consumo do capitalismo, o lítio extraído por uma empresa pode frear o aquecimento planetário?  ⚠️ O que a propaganda não diz é que quando vem de empresas, a transição é sobre descarbonizar o consumo no Norte global, promovendo a destruição ampliada dos ecossistemas no Sul. Mineração verde, sustentável e de zero impacto são palavras usadas por mineradoras que dizem agir por uma “transição energética”. Mas essa transição energética que defendem é uma falácia do capitalismo em crise. O que ocorre é uma expansão energética, pois é a fase em que o capitalismo amplia sua exploração, In natura, para toda tabela periódica. 📍 Em julho percorremos comunidades e municípios do Vale do Jequitinhonha impactados pela mineração de Lítio.  Marcelo Barbosa, do Movimento por Soberania Popular na Mineração (MAM), mostra a cava da Sigma Lithium e os impactos da empresa, que visa crescer e se refere a região como “Lithium Valley”. Expõe, ainda, a fragilidade a que territórios de vida são submetidos em nome do lucro do setor minerário. 📢 “O que tem de mais arcaico e atrasado, a mineração a céu aberto, é o que tem sido colocado em Araçuaí pela Sigma na mineração do lítio, dizendo que é mineração verde. O que nos preocupa, além dos impactos causados, da falsa narrativa de sustentabilidade, é a velocidade com que o povo de Araçuaí, do Vale do Jequitinhonha, têm sido roubado nesse processo do lítio, que é um bem comum do povo brasileiro”, afirmou. Confira o vídeo e saiba mais: Precisamos falar de transição energética. Mas quando esse papo vem de empresas transnacionais que visam acumular infinitamente lucro, num mundo finito e ecologicamente em colapso, a conta não fecha. Quem paga o preço, com as próprias vidas, é o povo.  A conversa das corporações não é de fato sobre sustentabilidade ou uma transição real,  é sobre novos produtos para o acúmulo de riquezas.  Seguimos na luta contra o saque de nossos minérios, por uma transição energética soberana, popular, com justiça social, econômica, racial e de gênero! Contexto mineiro: De olho na Operação Rejeito e nas contradições do setor minerário Atualmente, Minas Gerais é palco da Operação Rejeito, uma ação conjunta entre a PF, Controladoria Geral da União (CGU), Ministério Público Federal (MPF) e Receita Federal, para investigar conglomerado de mais de 40 empresas da área minerária.  A operação revelou um esquema bilionário de corrupção e danos ambientais em atividades de mineração em Minas Gerais, e identificou fraudes em licenças ambientais, exploração ilegal em áreas protegidas e um esquema que envolvia empresários, políticos e servidores públicos. Fato que traz a tona muitas das contradições do setor, já apresentadas por pesquisadores, movimentos sociais, organizações de base, ambientalistas e comunidades afetadas pelas atividades de mineradoras. A operação aponta, ainda, práticas sistemáticas do setor minerário, que atua com uma série de violações de direitos. É o modus operandi de muitas mineradoras trabalharem fora da legalidade, comprando licenças ambientais e escamoteando dados. Fato que já causou, inclusive, rompimento de barragem de rejeito com vítimas humanas e rastro de destruição. De acordo com Marcelo Barbosa, apesar da importância da operação, caso não se altere profundamente o modelo de mineração brasileira, sobretudo, nesse caso específico, a forma como tem acontecido os processos de licenciamento e de controle por parte do estado, da atividade mineradora, veremos outros episódios como esse. “Se não conduzirmos urgentemente o processo para uma legislação mais rígida, do ponto de vista do controle social e popular da atividade mineradora e não revertermos esse quadro de enfraquecimento das instituições fiscais do Estado veremos novos episódios desses acontecendo”, avalia o integrante do MAM.

Ação no STF questiona legalidade de projeto de lítio no Vale do Jequitinhonha

Processo alega ilegalidades no licenciamento da mineradora Sigma Lithium e riscos de “racismo ambiental” Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) a ser protocolada no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana questiona a legalidade do projeto de extração de lítio da empresa Sigma Lithium S.A. no Vale do Jequitinhonha. A ação contesta também um financiamento de R$ 486,7 milhões concedido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a expansão do projeto, conhecido como “Grota do Cirilo”.  O aporte, originário do Novo Fundo Clima, visa ampliar a produção de concentrado de lítio de 270 mil para 520 mil toneladas anuais. Segundo o BNDES e a Sigma, o projeto é um exemplo de sustentabilidade, classificado como “carbono líquido zero”, sem uso de químicos nocivos, barragens de rejeitos ou água potável. No entanto, a ADI, apresentada pela Deputada Federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), sustenta que o empreendimento agrava a crise climática e social na região.  A contestação judicial e as alegações de ilegalidade  A peça jurídica, embasada por uma nota técnica do consórcio de universidades LIQUIT (UFMG, Unimontes, UFVJM e London South Bank University), aponta o que chama de “ilegalidade calculada” no processo de licenciamento ambiental. Entre os principais argumentos, a ação sustenta que o projeto foi deliberadamente dividido em partes menores, uma manobra conhecida como license-splitting, com o objetivo de evitar um estudo de impacto ambiental integrado, o que violaria o Decreto Estadual nº 47.383/2018.  No campo da participação social, o documento aponta duas falhas graves: a não realização da Consulta Prévia, Livre e Informada das comunidades quilombolas afetadas — um direito fundamental assegurado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) — e acusações de que as audiências públicas foram manipuladas para simular um apoio popular inexistente, prática conhecida como astroturfing.   :: Acompanhe o podcast Visões Populares e fique por dentro da política, cultura e lutas populares de MG e do Brasil :: A ADI questiona ainda a própria imparcialidade dos estudos de impacto, que teriam sido elaborados e aplicados pela própria Sigma, levantando a suspeita de conflito de interesses e comprometendo a independência técnica necessária. Com base nesses argumentos, a ADI classifica o financiamento do BNDES como um ato de “corrupção ambiental” e um “crime de lesa-pátria”, afirmando que ele desvirtua a finalidade do Fundo Clima.  Impactos na Comunidade e no Meio Ambiente  Um morador da comunidade de Poço Dantas, que não quis se identificar por medo de retaliação, relata os impactos diretos da operação. “São 24 horas por dia com barulho e poeira. Só que eles não divulgam isso”. Segundo ele, a poeira constante causa problemas respiratórios em crianças. “Tem crianças recém-nascidas, uns três que deram pneumonia devido à poeira. A poeira que essa pedra produz, o espodumênio, é poeira cíclica”. Ao relatar uma morte recente de um senhor por silicose, ele explicou que as detonações causam “um fedor nas casas e que ouviu de um funcionário que a fumaça não faz mal, no que ele retrucou. “Não faz mal pra você que não está respirando ela aqui, mas faz para nós que respiramos 24 horas essa poeira”, critica.   Tais detonações para extração do mineral também teriam provocado rachaduras nas casas, mas a mineradora nega a relação. A ADI reforça essas preocupações, destacando que o cenário levou a rede hospitalar de Araçuaí, cidade-polo da região, ao colapso, com aumentando 30% na demanda.   A questão hídrica é outro ponto crítico. A Sigma obteve outorga para usar 3,6 milhões de litros de água por dia em uma região semiárida que enfrenta escassez crônica, fato agravado por um cenário climático extremo: um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) revelou que o Vale do Jequitinhonha concentra 18 das 20 cidades que mais aqueceram no Brasil em 2023.  Sobre a água fornecida pela empresa, o mesmo morador de Poço Dantas critica. “A água que ela tá dando é uma caixa de mil litros para uma família passar um mês”.  Controvérsias e cenário financeiro  Apesar de se projetar como um modelo de responsabilidade Ambiental, Social e Governança (ESG), a Sigma Lithium enfrenta críticas sobre sua transparência. Durante o encontro Clímax 2025, o midiativista Ricardo Targino, da Mídia Ninja, denunciou. “A empresa opera com um grau de opacidade absolutamente incompatível com a vida democrática, pois não se digna a responder às comunidades ou à imprensa”, afirmou.    :: Receba notícias de Minas Gerais no seu Whatsapp. Clique aqui :: A professora Aline Weber, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), corroborou. “Nem a receber ninguém. A Sigma não responde. Essa postura, somada às tentativas da empresa de silenciar pesquisas acadêmicas, reforça a percepção de que a Sigma tem algo a esconder.”  Além do lítio: a luta pela dignidade territorial  A narrativa da mineração no Vale não é apenas sobre o lítio, mas sobre um modelo de desenvolvimento que se repete há séculos. A luta local, personificada na ADI, é um chamado global por justiça socioambiental. Exemplos como o de Romilda Santos, liderança do Quilombo Mata dos Crioulos, expressa a dor da expulsão e a desigualdade racial: “Cadê o direito humano? Não é para preto, ele é somente para branco. Eu fui expulsa da lapa que eu nasci, da lapa que eu cresci.”   A ADI dedica um capítulo ao “Racismo Ambiental”, argumentando que a população do Vale, majoritariamente preta, parda e indígena, sofre um impacto desproporcional, sendo tratada nos relatórios da mineradora como “parte impactada” em vez de “parte interessada”, o que revela uma “profunda desumanização”.   Joyce Silva, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), resume a percepção sobre a empresa. “É uma grande fachada. Eles usam o marketing para cooptar as comunidades, mas não deixam o povo falar dos problemas. Há diretamente uma repressão.”  Transição energética: um debate em disputa  O caso acende um debate sobre o modelo de transição energética, tema central do Clímax 2025 – 2º Encontro de Cultura, Comunicação e Clima. Organizado pela Mídia NINJA, Instituto YÉKIT e Fundação Marielle Franco em Diamantina (MG), cidade que, nesta semana apresenta o 40° Festivale, o evento reuniu especialistas e lideranças para confrontar a narrativa do “lítio verde”.  Enquanto o BNDES e a Sigma defendem o

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