{"id":962,"date":"2018-07-24T12:06:30","date_gmt":"2018-07-24T15:06:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=962"},"modified":"2025-06-17T16:08:09","modified_gmt":"2025-06-17T19:08:09","slug":"a-retomada-mbya-guarani-da-fazenda-do-arado-velho-um-olhar-desde-a-etnoarqueologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=962","title":{"rendered":"A retomada Mbya Guarani da Fazenda do Arado Velho: um olhar desde a etnoarqueologia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Confira artigo de Marcus A. S. Wittmann (NIT\/UFRGS) e Carmem Guardiola (NIT\/UFRGS) sobre a retomada Guarani Mbya do Arado Velho. Mais sobre <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2018\/06\/25\/ao-indio-o-que-e-do-indio-retomada-guarani-mbya-no-arado-velho-porto-alegre\/\"><strong>aqui<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAqui \u00e9 meu lar!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas palavras definem o sentimento e a certeza do lugar que deve ocupar um mbya guarani no mundo. Alexandre Acosta Kuaray sente este pertencimento porque sabe que seu deus Nhanderu fez este mundo caminhando, trazendo \u00e0 exist\u00eancia as \u00e1guas, terras para as ro\u00e7as, o milho, a mandioca, o feij\u00e3o, a batata doce, a ab\u00f3bora, a melancia, a pitanga, o tabaco, a erva mate, as \u00e1rvores, as ervas medicinais e os animais. Este \u00e9 um mundo sagrado, sem ele n\u00e3o h\u00e1 mbya, e sem os mbya n\u00e3o h\u00e1 um mundo onde essas subst\u00e2ncias, alimentos e coisas possam existir. Alexandre caminha hoje neste que \u00e9 o seu lar, seu lugar de existir. O contato com este mundo que j\u00e1 foi pisado pelos deuses e seus ancestrais lhe traz esta certeza de um bem viver junto aos seus. Sente-se alegre, seguro e forte ao ver sua filha e neta neste contato com o divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivendo sujeitos \u00e0 confinamentos em meio \u00e0 um arquip\u00e9lago de pequenos territ\u00f3rios, cercados por centros urbanos e fazendas de monocultura de soja e pecu\u00e1ria, os mbya guarani, impedidos de exercer livremente sua territorialidade, lutam e (re)existem, caminham e se alegram. A inefic\u00e1cia das solu\u00e7\u00f5es propostas pelas pol\u00edticas indigenistas desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e os seguidos ataques \u00e0 seus direitos e suas vidas os impele a retomar os seus territ\u00f3rios como maneira de garantir as suas formas de reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao amanhecer com a presen\u00e7a do deus Sol, Alexandre Acosta Kuaray compartilhou com sua fam\u00edlia seus sentimentos sobre o aviso de Nhanderu em seus sonhos: uma nova caminhada estava por se realizar. Contudo, os tempos do juru\u00e1 &#8211; o homem branco -, tempos de um viver com cercas e propriedades privadas, vem h\u00e1 s\u00e9culos os impedindo de caminharem livremente como seu deus o fez, e como eles mesmos os faziam h\u00e1 centenas de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos fatores foram os que conduziram Alexandre e outras tr\u00eas lideran\u00e7as, junto com suas fam\u00edlias, para um lugar reconhecido como lar, reconhecido como seu. O sonho trazido por Nhanderu apontou um local onde \u00e9 poss\u00edvel uma exist\u00eancia feliz, viver no dia a dia se reproduzindo socialmente, percorrer livremente as matas, ficar ao redor do fogo, se concentrar e se fortalecer atrav\u00e9s da fuma\u00e7a do petyngua, o cachimbo guarani, dan\u00e7ar pelas e para as divindades, aguardar a chegada de novas crian\u00e7as mbya e se comunicar em sua pr\u00f3pria linguagem. Entretanto, a chegada e perman\u00eancia nesse lugar n\u00e3o viria sem luta. Nhanderu conduziu os mbya guarani para a Ponta do Arado, \u00e0 beira do lago Gua\u00edba (Porto Alegre\/RS).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seus pertences, lonas, panelas, suas sementes sagradas e seu mbaraka, seguiram alegres pelo reencontro com seus ancestrais e esperan\u00e7osos por voltar a um local tradicional. Nas primeiras horas da manh\u00e3 do dia 15 de junho chegaram \u00e0 Ponta do Arado Velho, local que j\u00e1 possui as marcas da caminhada do povo guarani h\u00e1 centenas de anos materializadas n\u00e3o apenas em s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, mas na pr\u00f3pria paisagem da regi\u00e3o. Mesmo assim, as amea\u00e7as dos ditos propriet\u00e1rios do local, onde querem levantar um condom\u00ednio de luxo, n\u00e3o demoraram a chegar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entendermos o contexto etnoarqueol\u00f3gico da Ponta do Arado, devemos entender essa \u00e1rea n\u00e3o apenas como um local com remanescentes materiais de uma ocupa\u00e7\u00e3o pret\u00e9rita guarani, mas tamb\u00e9m dentro de um contexto ambiental e cosmol\u00f3gico para essa popula\u00e7\u00e3o. A Ponta do Arado se insere na paisagem cultural mais abrangente da bacia hidrogr\u00e1fica do lago Gua\u00edba. O pr\u00f3prio nome Gua\u00edba vem do guarani, significando \u201clugar onde o rio se alarga\u201d (gua = grande; i = \u00e1gua; ba = lugar) (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2014, p. 82). Para compreendermos a ocupa\u00e7\u00e3o guarani pret\u00e9rita e a (re)ocupa\u00e7\u00e3o atual, devemos ter como eixo a dimens\u00e3o global hist\u00f3rica, social e cosmol\u00f3gica desse povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do lago Gua\u00edba, percorrendo suas margens, pontais e ilhas at\u00e9 o norte da lagoa dos Patos encontramos um total de 37 (trinta e sete) s\u00edtios arqueol\u00f3gicos referentes \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o guarani. S\u00edtios esses que s\u00e3o definidos pelos pr\u00f3prios mbya guarani como \u201cmarcas do caminhar dos av\u00f3s\u201d (BAPTISTA DA SILVA et al., 2010, p. 19), demonstrando e pontuando deste modo uma rela\u00e7\u00e3o de ancestralidade e imemoralidade com um territ\u00f3rio (um local geogr\u00e1fico) e uma territorialidade (um sistema de assentamento e rela\u00e7\u00e3o com o local, a paisagem e seus habitantes) que nunca deixou de ser tradicional para esse povo. As mais antigas data\u00e7\u00f5es da ocupa\u00e7\u00e3o guarani no estado do Rio Grande do Sul atingem os primeiros s\u00e9culos do primeiro mil\u00eanio. Para a regi\u00e3o do lago Gua\u00edba ainda h\u00e1 poucos estudos mais aprofundados de sua cronologia, todavia, sabemos que ali h\u00e1 s\u00edtios arqueol\u00f3gicos ocupados pela popula\u00e7\u00e3o guarani h\u00e1 poucas centenas e at\u00e9 dezenas de anos antes da chegada dos europeus no territ\u00f3rio brasileiro (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2014, p. 110).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo hist\u00f3rico p\u00f3s-contato com os europeus foi para os guarani, assim como para todos os povos ind\u00edgenas, uma a\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, morte, expuls\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de suas terras. A \u00e1rea de Porto Alegre, antiga sesmaria de Viam\u00e3o, era um local povoado por ind\u00edgenas (tanto guarani quanto kaingang), como os relatos hist\u00f3ricos e os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos comprovam, at\u00e9 o s\u00e9culo XVII. Entretanto, em meados do s\u00e9culo XVIII a presen\u00e7a ind\u00edgena na regi\u00e3o j\u00e1 era praticamente invis\u00edvel. Os guaranis foram deslocados nesse per\u00edodo para as Miss\u00f5es Jesu\u00edticas, escravizados ou escaparam para regi\u00f5es mais in\u00f3spitas. A (re)ocupa\u00e7\u00e3o guarani nessa \u00e1rea se deu apenas ap\u00f3s o decl\u00ednio dos Sete Povos das Miss\u00f5es, com alguns grupos de ind\u00edgenas sendo deslocados para a Aldeia dos Anjos, futura Gravata\u00ed, e alguns outros voltando aos poucos para a regi\u00e3o (NOELLI et al, 1997; PEREIRA, PRATES, 2012). As consequ\u00eancias desse processo hist\u00f3rico podem ser visualizadas e sentidas ainda hoje com as poucas e pequenas terras ind\u00edgenas na grande Porto Alegre, sendo a grande maioria n\u00e3o apta para o modo de vida guarani, ou seja, ter mata nativa e \u00e1gua, o que propicia n\u00e3o apenas implanta\u00e7\u00e3o de ro\u00e7as, mas tamb\u00e9m a coleta de vegetais para fins medicinais (AGUILAR, 2013, p. 105-106). Sendo assim, a retomada do Arado Velho \u00e9 n\u00e3o apenas um direito dos guarani, mas tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de d\u00edvida hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de um contexto de sociabilidade, devemos nos atentar para a rela\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea espec\u00edfica para com as demais aldeias e s\u00edtios localizados em outras regi\u00f5es do Rio Grande do Sul, em outros estados da regi\u00e3o sul e sudeste do Brasil, bem como com os pa\u00edses lim\u00edtrofes do cone sul americano (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2014, p. 86). Todas essas \u00e1reas s\u00e3o comprovadamente locais de ocupa\u00e7\u00e3o milenar do povo guarani. As aldeias que povoam o territ\u00f3rio guarani, como as atuais na grande Porto Alegre, os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e agora a retomada da Ponta do Arado, s\u00e3o tekoh\u00e1 guarani:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O tekoha , para o Guarani, talvez seja a s\u00edntese da concep\u00e7\u00e3o e da rela\u00e7\u00e3o que esse povo mant\u00e9m com o meio ambiente. No plano f\u00edsico poder\u00edamos dizer que o tekoha \u00e9 a aldeia, \u00e9 o lugar onde a comunidade Guarani encontra os meios necess\u00e1rios para sua sobreviv\u00eancia. \u00c9 a conjuga\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios espa\u00e7os que se entrecruzam: o espa\u00e7o da mata preservada onde praticam a ca\u00e7a ritual; espa\u00e7o da coleta de ervas medicinais e material para confeccionar artesanatos e construir suas casas; \u00e9 o local onde praticam a agricultura; \u00e9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o s\u00f3cio pol\u00edtico, onde constroem suas casas de moradias, a casa cerimonial\/Opy, o p\u00e1tio das festas, das reuni\u00f5es e do lazer. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber o tekoha sem a composi\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, ou apenas um dos espa\u00e7os; nesse caso, n\u00e3o poder\u00e3o viver a plenitude e assim se quebra a rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com o meio, produzindo o desequil\u00edbrio (BRIGHENTI, 2005, p. 42).<\/em><\/p>\n<p>Deste modo, n\u00e3o devemos perder um entendimento mais aprofundado do modo de ser guarani, sua rela\u00e7\u00e3o com o que chamamos de natureza, com os animais, e sua religiosidade ou cosmologia. O guarani reko, o modo de ser e viver guarani, extrapola a dimens\u00e3o b\u00e1sica do espa\u00e7o f\u00edsico e geogr\u00e1fico, ou seja, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o deles terem uma terra onde viver, pois a rela\u00e7\u00e3o com o local envolve tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com outras entidades e divindades, como certos tipos de animais, \u00e1rvores, plantas, subst\u00e2ncias, \u00e1gua, dentre outras que povoam esses cosmos guarani. \u00c9 atrav\u00e9s desses outros seres e subst\u00e2ncias que os mbya guarani fazem sua medicina, curam suas doen\u00e7as espirituais e f\u00edsicas, constroem suas casas e seus adornos. S\u00e3o essas rela\u00e7\u00f5es e entidades que s\u00e3o encontradas nos territ\u00f3rios tradicionais desse povo, e a Ponta do Arado Velho, por ser uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e9 um dos territ\u00f3rios ao longo do curso do Gua\u00edba que ainda preservam essas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando para a localiza\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e densidade dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos guarani ao longo da bacia hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba (MAPA 1), os quais se estendem desde a atual cidade de Porto Alegre at\u00e9 a desembocadura para a lagoa dos Patos, nota-se um certo padr\u00e3o de assentamento. Esse sistema de ocupa\u00e7\u00e3o do lago Gua\u00edba denota um sistema estrat\u00e9gico de posicionamento de habita\u00e7\u00f5es e acampamentos ao longo do curso d\u2019\u00e1gua. Essas antigas aldeias ocupam principalmente os pontais, as ilhas e as ba\u00edas, em locais abrigados do vento sul, tal estrat\u00e9gia demonstra:<\/p>\n<p><em>(&#8230;) a import\u00e2ncia dos deslocamentos aqu\u00e1ticos neste territ\u00f3rio, sugerindo que os s\u00edtios situados em ambas as margens do Gua\u00edba, bem como nas ilhas, estavam integrados em uma mesma rede de sociabilidade. Tratar\u00eda-se, portanto, de um territ\u00f3rio com caracter\u00edsticas socioculturais cont\u00ednuas, circunscrito a um espa\u00e7o geogr\u00e1fico disperso em fun\u00e7\u00e3o do ambiente lagunar. Assim como se configuram no presente os assentamentos mby\u00e1, podemos pensar as ocupa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-coloniais do Gua\u00edba enquanto \u201cilhas\u201d articuladas por um complexo sistema s\u00f3cio-cosmol\u00f3gico, compartilhando os recursos do territ\u00f3rio e conectando-se entre si tamb\u00e9m atrav\u00e9s dos \u201ccaminhos das \u00e1guas\u201d, ordenados pelo sistema de ventos e correntes (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2013, p. 67-68)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse horizonte s\u00f3cio-cultural, ambiental e cosmol\u00f3gico na bacia hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba pode ser entendido como uma s\u00e9rie de lugares, dos quais nenhum \u00e9 mais importante que o outro, de reprodu\u00e7\u00e3o do modo de ser tradicional guarani. Tal sistema \u00e9 comprovado e toma for\u00e7a na manifesta\u00e7\u00e3o atual de (re)ocupa\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o pelos mbya guarani (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2013, p. 69), atrav\u00e9s de acampamentos (Lami\/Tekoh\u00e1 Pind\u00f3 Poty, Passo Grande\/Tekoh\u00e1 Petim e Flor do Campo), aldeias (Itapu\u00e3\/Tekoh\u00e1 Pind\u00f3 Mirim, Cantagalo\/Tekoh\u00e1 Jataity, Coxilha Grande\/Tekoh\u00e1 Por\u00e3) e retomadas, como \u00e9 o caso do Arado Velho. Com isso, a retomada da Ponta do Arado n\u00e3o \u00e9 uma anomalia dentro da territorialidade guarani. Territorialidade essa que se mant\u00e9m desde os tempos pr\u00e9-coloniais, como atestado pelos vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos. Assim, esses territ\u00f3rios que est\u00e3o e continuam sendo reclamados pelos mbya guarani como territ\u00f3rio tradicional, s\u00e3o lugares de manuten\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de seu modo tradicional de vida, de seus costumes e sua l\u00edngua, ou seja, direitos constitucionais abarcados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988.<\/p>\n<figure id=\"attachment_963\" aria-describedby=\"caption-attachment-963\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-963 size-full\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/mapa.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"775\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/mapa.png 567w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/mapa-220x300.png 220w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/mapa-366x500.png 366w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-963\" class=\"wp-caption-text\">S\u00edtios da Tradi\u00e7\u00e3o Guarani no Lago Gua\u00edba: 1) RS-JA-23: Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, 2) Arroio do Conde, 3) RS-SR-342: Santa Rita, 4) RS-JA-16: Ponta do Arado, 5 ) RS-LC-71: Ilha Chico Manuel, 6) RS-JA-02: Lami Bernardes, 7) RS-JA-01: Reserva Biol\u00f3gica do Lami, 8) PA-300: Rog\u00e9rio Christo, 9) RS-LC-18: Morro do Coco, 10) RS-JA-07: Lajeado, 11) RSLC- 01: Cantagalo, 12) RS-323: Ilha das Pombas, 13) RS-LC-08: Praia das Pombas, 14) RSLC- 11: Praia da On\u00e7a, 15) RS-LC-70: Ilha do Junco, 16) RS-LC-39: Morro da Fortaleza, 17) RS-LC-74: Praia da Pedreira, 18) RS-LC-07: Praia do Ara\u00e7\u00e1, 19) RS-LC-15: Praia do S\u00edtio, 20) RS-LC-16: Prainha, 21) RS-LC-17: Morro do Farol, 22) RS-LC-75: Lagoa Negra, 23) RS- 324: Tarum\u00e3, 24) RS-LC-22: Teko\u00e1 Por\u00e3, 25) RS-LC-21: Teko\u00e1 Mare\u00ff, 26) RS-LC-20: Teko\u00e1 Yma, 27) Arroinho I \/\/\/ <strong>MAPA 1.<\/strong> Localiza\u00e7\u00e3o de s\u00edtios Guarani na Bacia Hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2013, p. 59)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00edtio arqueol\u00f3gico (RS-JA-16), a antiga e agora nova tekoh\u00e1, da Ponta do Arado foi pesquisado no final dos anos 1990 e in\u00edcio dos 2000 (GAULIER, 2001-2002). As pesquisas arqueol\u00f3gicas atestam a import\u00e2ncia do s\u00edtio como local de ocupa\u00e7\u00e3o guarani na beira do Gua\u00edba, conjuntamente com o s\u00edtio da Ilha Francisco Manuel (RS-C-71). Todavia, apenas o segundo foi escavado, tendo sido descoberto uma quantidade de material arqueol\u00f3gico e uma estratigrafia de ocupa\u00e7\u00e3o no s\u00edtio, inclusive com uma fogueira, muito densa e importante para se pensar a ocupa\u00e7\u00e3o e mobilidade guarani na regi\u00e3o.<br \/>\nO s\u00edtio da Ponta do Arado n\u00e3o foi escavado (Gaulier, a arque\u00f3loga respons\u00e1vel pelas primeiras pesquisas na \u00e1rea, relata que o local se encontrava em lit\u00edgio frente ao propriet\u00e1rio), tendo apenas o material em superf\u00edcie sido recolhido e algumas sondagens efetuadas. Esse s\u00edtio \u00e9 constitu\u00eddo por duas \u00e1reas, uma que vem desde a beira da praia, e outra mais para o interior da mata, totalizando no m\u00ednimo 2.000m\u00b2. Em ambas foram descobertos fragmento de cer\u00e2mica guarani, e a segunda \u00e1rea foi relatada pelos moradores locais como uma antiga planta\u00e7\u00e3o, o que o solo escurecido parece comprovar. Gaulier apontou em sua publica\u00e7\u00e3o (2001-2002) a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do s\u00edtio e seu estudo. Com a retomada guarani na Ponta do Arado, possibilita-se a\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas de um maior entendimento do local, atrav\u00e9s dos saberes dos ind\u00edgenas, quanto sua preserva\u00e7\u00e3o pelos descendentes daqueles que h\u00e1 centenas de anos viveram, pescaram, plantaram e ca\u00e7aram naquele local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a sozinha do s\u00edtio RS-JA-16 na Ponta do Arado n\u00e3o \u00e9 prova de uma ocupa\u00e7\u00e3o pouco densa no local. Como j\u00e1 demonstrado por Noelli (1993), devemos pensar os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos como parte de um sistema de mobilidade guarani. Os raio de mobilidade e troca entre diferentes aldeias para recolher diferentes materiais de uso cotidiano dos guarani pr\u00e9-coloniais podiam exceder 50km. O que isso mostra \u00e9 que n\u00e3o devemos entender um s\u00edtio arqueol\u00f3gico apenas como um ponto material espec\u00edfico na ocupa\u00e7\u00e3o guarani pret\u00e9rita, mas sim como um grande sistema de vias terrestres e aqu\u00e1ticas que liga diferentes pontos da regi\u00e3o com caracter\u00edsticas ambientais diferentes. Al\u00e9m disso, em muitas regi\u00f5es de encosta de morro e alagadi\u00e7as da cidade de Porto Alegre ocorreram diversos trabalhos de retirada de sedimento, terraplanagem e aterro, o que pode ter causado a destrui\u00e7\u00e3o de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos (NOELLI et al, 1997). A constru\u00e7\u00e3o do empreendimento, um condom\u00ednio de luxo, na \u00e1rea da Fazenda do Arado, o qual j\u00e1 se encontra em processo de licenciamento ambiental, ir\u00e1 movimentar diversas toneladas de sedimentos e aterro no local e na regi\u00e3o. A retomada do Arado Velho pelas fam\u00edlias guarani n\u00e3o \u00e9 apenas uma luta pela preserva\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea espec\u00edfica, mas sim por todo um sistema territorial que abarca muito al\u00e9m da beira do lago Gua\u00edba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do s\u00edtio arqueol\u00f3gico guarani, h\u00e1 na Ponta do Arado outros patrim\u00f4nios culturais dos s\u00e9culos XVIII e XIX da cidade de Porto Alegre. A fazenda do Arado, de propriedade de Breno Caldas, \u00e9 um marco arquitet\u00f4nico e paisag\u00edstico do Bairro Bel\u00e9m Novo e arredores, tendo sido um n\u00facleo de produ\u00e7\u00f5es agro-pastoris e cria\u00e7\u00e3o de cavalos. Nos arredores da fazenda h\u00e1 diversas estruturas, principalmente de habita\u00e7\u00e3o, que foram identificadas por pesquisadores e pelos moradores locais como casas de bisav\u00f3s e de outros parentes da comunidade, al\u00e9m de outras \u00e1reas onde fragmentos cer\u00e2micos guarani foram descobertos (TAVARES, 2011). A Ponta do Arado se apresenta como uma paisagem rara no contexto portoalegrense e ga\u00facho, possuindo um valor paisag\u00edstico, est\u00e9tico, cultural, patrimonial e social incomensur\u00e1vel (TOCCHETTO et. al., 2013). As pesquisas arqueol\u00f3gicas no local para o licenciamento ambiental do empreendimento da Fazenda do Arado indicaram o potencial e valor patrimonial da \u00e1rea como um todo (abrangendo tanto o patrim\u00f4nio ind\u00edgena guarani, quanto as estruturas habitacionais coloniais e modernas). O relat\u00f3rio (TAVARES, 2011) sugeriu o registro coletivo desses diferentes bens como um grande s\u00edtio arqueol\u00f3gico, uma grande \u00e1rea e sistema arqueol\u00f3gico de 3km\u00b2 abarcando diferentes per\u00edodos da ocupa\u00e7\u00e3o humana no local. Todavia, o IPHAN (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional) n\u00e3o acatou a recomenda\u00e7\u00e3o da equipe de arqueologia, argumentando quest\u00f5es de cunho legal. S\u00edtios arqueol\u00f3gicos, segundo a legisla\u00e7\u00e3o vigente, s\u00e3o apenas locais espec\u00edficos e delimitados onde h\u00e1 presen\u00e7a de material arqueol\u00f3gico, n\u00e3o sendo definidos dentro de uma ideia de paisagem cultural ou de territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade de Porto Alegre vem sofrendo uma descaracteriza\u00e7\u00e3o cultural, social, paisag\u00edstica, patrimonial e ambiental da sua \u00e1rea de orla, o cais do Porto Mau\u00e1 e o pr\u00f3prio empreendimento da Ponta do Arado s\u00e3o exemplos disso. A retomada guarani dessa localidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma luta pelos seus territ\u00f3rios tradicionais, mas tamb\u00e9m uma luta de todos n\u00f3s pela preserva\u00e7\u00e3o do lago Gua\u00edba e seus arredores como uma \u00e1rea cultural e ambiental. O ambiente e a paisagem da bacia hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba nos mostram n\u00e3o apenas uma intensa ocupa\u00e7\u00e3o e mobilidade guarani que perdura h\u00e1 quase um mil\u00eanio, mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da luta pela preserva\u00e7\u00e3o desse ecossistema e dessa paisagem cultural. A retomada dos Guarani da Ponta do Arado \u00e9 mais uma afirma\u00e7\u00e3o da fala \u201csem tekoh\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 teko\u201d, ou seja, sem o territ\u00f3rio tradicional n\u00e3o h\u00e1 modo de vida tradicional, sem territ\u00f3rio, sem terra, n\u00e3o h\u00e1 exist\u00eancia para os guarani. As retomadas trazem a reprodu\u00e7\u00e3o dos modos dos deuses, as retomadas garantem que a fauna e flora se mantenham preservadas, as retomadas garantem a manuten\u00e7\u00e3o do modo de vida tradicional, as retomadas de territ\u00f3rios s\u00e3o retomadas tamb\u00e9m de direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Tim\u00f3teo, Neri, Alexandre e Bas\u00edlio, lideran\u00e7as que caminham hoje pela fazenda do Arado Velho, armas, metralhadoras, homens encapuzados e amea\u00e7adores, n\u00e3o os colocam medo, mas a destrui\u00e7\u00e3o destes territ\u00f3rios divinos, sim. L\u00e1 est\u00e3o sorrindo e cantando, comemorando a vida junto com seus ancestrais que l\u00e1 j\u00e1 estiveram. E l\u00e1 ficar\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_964\" aria-describedby=\"caption-attachment-964\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-964 size-large\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/foto-artigo-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"394\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-964\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Acosta, Tim\u00f3teo Kara\u00ed Mirim e Neri, lideran\u00e7as mbya guarani da Retomada da Fazenda do Arado Velho. Foto: Carmem Guardiola.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGUILAR, Renata Alves dos Santos. Cidade rururbana de Porto Alegre: uma an\u00e1lise etnoconservacionista sobre as \u00e1ras protegidas e os espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o Guarani-Mbya. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Desenvolvimento Rural, Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural. Porto Alegre, UFRGS, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BAPTISTA DA SILVA, S.; TEMPASS, M. C. &amp; COMANDULLI, C. S. Reflex\u00f5es sobre as especificidades Mby\u00e1-guarani nos processos de identifica\u00e7\u00e3o de Terras Ind\u00edgenas a partir dos casos de Itapu\u00e3, Morro do Coco e Ponta da Formiga, Brasil. Amaz\u00f4nica, Vol. 2, N. 1, 2010, pp. 10-23.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BRIGHENTI, Clovis Antonio. Necessidade de novos paradigmas ambientais: implica\u00e7\u00f5es e contribui\u00e7\u00e3o guarani. Cadernos PROLAM\/USP, Ano 4, Vol. 2, 2005, pp. 33-56.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DIAS, Adriana Schmidt. BAPTISTA DA SILVA, S\u00e9rgio. Arqueologia guarani no lago Gua\u00edba: refletindo sobre a territorialidade e a mobilidade pret\u00e9rita e presente. IN: MILHEIRA, Rafael Gudes; WAGNER, Gustavo Peretti. Arqueologia Guarani no litoral sul do Brasil. Curitiba, Appris, 2014, pp. 81-114.<br \/>\n________. Seguindo o fluxo do tempo, trilhando o caminho das \u00e1guas: territorialidade guarani na regi\u00e3o do lago Gua\u00edba. Revista de Arqueologia, Vol. 26, N. 1, 2013, pp. 58-70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GAULIER, Patr\u00edcia Laure. Ocupa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3rica guarani no munic\u00edpio de Porto Alegre, RS: considera\u00e7\u00f5es preliminares e primeira data\u00e7\u00e3o do s\u00edtio arqueol\u00f3gico [RS-71-C] da Ilha Francisco Manoel. Revista de Arqueologia, Vol. 14-15, 2001-2002, pp. 57-73.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOELLI, Francisco Silva. Sem tekoh\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tek\u00f3. Em busca de um modelo etnoarqueol\u00f3gico da aldeia e da subsist\u00eancia guarani e sua aplica\u00e7\u00e3o a uma \u00e1rea de dom\u00ednio do delta do rio Jacu\u00ed-RS. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Hist\u00f3ria, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, PUCRS, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NOELLI, Francisco S.; SILVA, Fab\u00edola A.; VIETTA, Katya; TOCCHETTO, Fernanda B.; CAPPELLETTI, \u00c2ngela; COSTA, Jo\u00e3o Felipe G. da.; SOARES, Andr\u00e9 Luis R.; MARQUES, Karla J. O Mapa arqueol\u00f3gico parcial e a revis\u00e3o historiogr\u00e1fica a respeito das ocupa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas pr\u00e9-hist\u00f3ricas no munic\u00edpio de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Revista de Hist\u00f3ria Regional, Vol. 2, N. 1, 1997, pp. 209-221.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PEREIRA, C\u00e9sar Castro; PRATES, Maria Paula. Nas margens da estrada e da hist\u00f3ria juru\u00e1: um ensaio sobre as ocupa\u00e7\u00f5es Mby\u00e1 na regi\u00e3o hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba (estado do Rio Grande do Sul). Espa\u00e7o Amer\u00edndio, Vol. 6, N. 2, jul.\/dez., 2012, pp. 97-136.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TAVARES, Alberto. Diagn\u00f3stico Arqueol\u00f3gico Interventivo na \u00e1rea do Antigo Haras do Arado, Bel\u00e9m Novo. N\u00ba 01512.001438\/2011-69. Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional, Superintend\u00eancia do Rio Grande do Sul, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOCCHETTO, F. B., PINTO, M. V. C., POSSAMAI, R., FLUCK, R. M., DEROSSO, S. G., \u00c1VILA, F., DE MORAES VIEIRA, S. R.. S\u00edtios arqueol\u00f3gicos hist\u00f3ricos da \u00e1rea rural de Porto Alegre: um patrim\u00f4nio a ser pesquisado e preservado. Revista Memorare, Vol. 1, N. 1, 2013, pp. 207-217<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confira artigo de Marcus A. S. Wittmann (NIT\/UFRGS) e Carmem Guardiola (NIT\/UFRGS) sobre a retomada Guarani Mbya do Arado Velho. Mais sobre aqui. \u201cAqui \u00e9 meu lar!\u201d Estas palavras definem o sentimento e a certeza do lugar que deve ocupar um mbya guarani no mundo. Alexandre Acosta Kuaray sente este pertencimento porque sabe que seu deus Nhanderu fez este mundo caminhando, trazendo \u00e0 exist\u00eancia as \u00e1guas, terras para as ro\u00e7as, o milho, a mandioca, o feij\u00e3o, a batata doce, a ab\u00f3bora, a melancia, a pitanga, o tabaco, a erva mate, as \u00e1rvores, as ervas medicinais e os animais. Este \u00e9 um mundo sagrado, sem ele n\u00e3o h\u00e1 mbya, e sem os mbya n\u00e3o h\u00e1 um mundo onde essas subst\u00e2ncias, alimentos e coisas possam existir. Alexandre caminha hoje neste que \u00e9 o seu lar, seu lugar de existir. O contato com este mundo que j\u00e1 foi pisado pelos deuses e seus ancestrais lhe traz esta certeza de um bem viver junto aos seus. Sente-se alegre, seguro e forte ao ver sua filha e neta neste contato com o divino. Vivendo sujeitos \u00e0 confinamentos em meio \u00e0 um arquip\u00e9lago de pequenos territ\u00f3rios, cercados por centros urbanos e fazendas de monocultura de soja e pecu\u00e1ria, os mbya guarani, impedidos de exercer livremente sua territorialidade, lutam e (re)existem, caminham e se alegram. A inefic\u00e1cia das solu\u00e7\u00f5es propostas pelas pol\u00edticas indigenistas desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e os seguidos ataques \u00e0 seus direitos e suas vidas os impele a retomar os seus territ\u00f3rios como maneira de garantir as suas formas de reprodu\u00e7\u00e3o social. Ao amanhecer com a presen\u00e7a do deus Sol, Alexandre Acosta Kuaray compartilhou com sua fam\u00edlia seus sentimentos sobre o aviso de Nhanderu em seus sonhos: uma nova caminhada estava por se realizar. Contudo, os tempos do juru\u00e1 &#8211; o homem branco -, tempos de um viver com cercas e propriedades privadas, vem h\u00e1 s\u00e9culos os impedindo de caminharem livremente como seu deus o fez, e como eles mesmos os faziam h\u00e1 centenas de anos. Muitos fatores foram os que conduziram Alexandre e outras tr\u00eas lideran\u00e7as, junto com suas fam\u00edlias, para um lugar reconhecido como lar, reconhecido como seu. O sonho trazido por Nhanderu apontou um local onde \u00e9 poss\u00edvel uma exist\u00eancia feliz, viver no dia a dia se reproduzindo socialmente, percorrer livremente as matas, ficar ao redor do fogo, se concentrar e se fortalecer atrav\u00e9s da fuma\u00e7a do petyngua, o cachimbo guarani, dan\u00e7ar pelas e para as divindades, aguardar a chegada de novas crian\u00e7as mbya e se comunicar em sua pr\u00f3pria linguagem. Entretanto, a chegada e perman\u00eancia nesse lugar n\u00e3o viria sem luta. Nhanderu conduziu os mbya guarani para a Ponta do Arado, \u00e0 beira do lago Gua\u00edba (Porto Alegre\/RS). Com seus pertences, lonas, panelas, suas sementes sagradas e seu mbaraka, seguiram alegres pelo reencontro com seus ancestrais e esperan\u00e7osos por voltar a um local tradicional. Nas primeiras horas da manh\u00e3 do dia 15 de junho chegaram \u00e0 Ponta do Arado Velho, local que j\u00e1 possui as marcas da caminhada do povo guarani h\u00e1 centenas de anos materializadas n\u00e3o apenas em s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, mas na pr\u00f3pria paisagem da regi\u00e3o. Mesmo assim, as amea\u00e7as dos ditos propriet\u00e1rios do local, onde querem levantar um condom\u00ednio de luxo, n\u00e3o demoraram a chegar. Para entendermos o contexto etnoarqueol\u00f3gico da Ponta do Arado, devemos entender essa \u00e1rea n\u00e3o apenas como um local com remanescentes materiais de uma ocupa\u00e7\u00e3o pret\u00e9rita guarani, mas tamb\u00e9m dentro de um contexto ambiental e cosmol\u00f3gico para essa popula\u00e7\u00e3o. A Ponta do Arado se insere na paisagem cultural mais abrangente da bacia hidrogr\u00e1fica do lago Gua\u00edba. O pr\u00f3prio nome Gua\u00edba vem do guarani, significando \u201clugar onde o rio se alarga\u201d (gua = grande; i = \u00e1gua; ba = lugar) (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2014, p. 82). Para compreendermos a ocupa\u00e7\u00e3o guarani pret\u00e9rita e a (re)ocupa\u00e7\u00e3o atual, devemos ter como eixo a dimens\u00e3o global hist\u00f3rica, social e cosmol\u00f3gica desse povo. Ao longo do lago Gua\u00edba, percorrendo suas margens, pontais e ilhas at\u00e9 o norte da lagoa dos Patos encontramos um total de 37 (trinta e sete) s\u00edtios arqueol\u00f3gicos referentes \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o guarani. S\u00edtios esses que s\u00e3o definidos pelos pr\u00f3prios mbya guarani como \u201cmarcas do caminhar dos av\u00f3s\u201d (BAPTISTA DA SILVA et al., 2010, p. 19), demonstrando e pontuando deste modo uma rela\u00e7\u00e3o de ancestralidade e imemoralidade com um territ\u00f3rio (um local geogr\u00e1fico) e uma territorialidade (um sistema de assentamento e rela\u00e7\u00e3o com o local, a paisagem e seus habitantes) que nunca deixou de ser tradicional para esse povo. As mais antigas data\u00e7\u00f5es da ocupa\u00e7\u00e3o guarani no estado do Rio Grande do Sul atingem os primeiros s\u00e9culos do primeiro mil\u00eanio. Para a regi\u00e3o do lago Gua\u00edba ainda h\u00e1 poucos estudos mais aprofundados de sua cronologia, todavia, sabemos que ali h\u00e1 s\u00edtios arqueol\u00f3gicos ocupados pela popula\u00e7\u00e3o guarani h\u00e1 poucas centenas e at\u00e9 dezenas de anos antes da chegada dos europeus no territ\u00f3rio brasileiro (DIAS, BAPTISTA DA SILVA, 2014, p. 110). O processo hist\u00f3rico p\u00f3s-contato com os europeus foi para os guarani, assim como para todos os povos ind\u00edgenas, uma a\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, morte, expuls\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de suas terras. A \u00e1rea de Porto Alegre, antiga sesmaria de Viam\u00e3o, era um local povoado por ind\u00edgenas (tanto guarani quanto kaingang), como os relatos hist\u00f3ricos e os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos comprovam, at\u00e9 o s\u00e9culo XVII. Entretanto, em meados do s\u00e9culo XVIII a presen\u00e7a ind\u00edgena na regi\u00e3o j\u00e1 era praticamente invis\u00edvel. Os guaranis foram deslocados nesse per\u00edodo para as Miss\u00f5es Jesu\u00edticas, escravizados ou escaparam para regi\u00f5es mais in\u00f3spitas. A (re)ocupa\u00e7\u00e3o guarani nessa \u00e1rea se deu apenas ap\u00f3s o decl\u00ednio dos Sete Povos das Miss\u00f5es, com alguns grupos de ind\u00edgenas sendo deslocados para a Aldeia dos Anjos, futura Gravata\u00ed, e alguns outros voltando aos poucos para a regi\u00e3o (NOELLI et al, 1997; PEREIRA, PRATES, 2012). As consequ\u00eancias desse processo hist\u00f3rico podem ser visualizadas e sentidas ainda hoje com as poucas e pequenas terras ind\u00edgenas na grande Porto Alegre, sendo a grande maioria n\u00e3o apta para o modo de vida guarani, ou seja, ter mata nativa e \u00e1gua, o que propicia n\u00e3o apenas<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":915,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[602,1837,5,1835],"tags":[],"class_list":["post-962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-retomadas-e-direito-a-cidade","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=962"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9945,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions\/9945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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