{"id":912,"date":"2018-06-25T17:22:45","date_gmt":"2018-06-25T20:22:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=912"},"modified":"2025-06-17T16:09:04","modified_gmt":"2025-06-17T19:09:04","slug":"ao-indio-o-que-e-do-indio-retomada-guarani-mbya-no-arado-velho-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=912","title":{"rendered":"Ao \u00edndio o que \u00e9 do \u00edndio: retomada Guarani Mbya no Arado Velho, Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>H\u00e1 dez dias, ind\u00edgenas Guarani Mbya retomaram suas terras ancestrais no Arado Velho, no bairro Bel\u00e9m Novo, Porto Alegre. Desde ent\u00e3o, veem-se amea\u00e7ados \u2014 inclusive com armas \u2014 pelo empreendimento que quer privatizar a \u00e1rea e expuls\u00e1-los dali para que deem lugar a duas mil casas em tr\u00eas condom\u00ednios de luxo.<\/em><\/p>\n<p><iframe title=\"Ao \u00edndio o que \u00e9 do \u00edndio: retomada Guarani Mbya no Arado Velho, Porto Alegre\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/b0Qx5T_v1HM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi num sonho que a terra chamou,<\/strong> e isso o homem branco jamais entender\u00e1: ele que insiste em expuls\u00e1-los para as periferias de suas cidades barulhentas e polu\u00eddas ou cerc\u00e1-los em um s\u00f3 canto, tirando-os de seus locais sagrados, \u00e9 surdo j\u00e1, n\u00e3o escuta; o chamado da terra, por\u00e9m, imp\u00f5e-se com clareza a quem sabe ouvir: estava ali, no Arado Velho, bairro Bel\u00e9m Novo, Porto Alegre, a terra usurpada &#8211; apenas uma delas. E era hora de retom\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que um grupo de Guarani Mbyas navegou pelo Rio Gua\u00edba at\u00e9 as areias sagradas, sabendo ir ao encontro do que sempre procuraram, atentos \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Ao desembarcar, o cacique Tim\u00f3teo Karai Mirim olhou a mata verde e as \u00e1rvores cobertas de barba de bode \u2014 que deixavam o cen\u00e1rio ainda mais bonito: que alegria!, que tranquilidade!, sentiu, de cora\u00e7\u00e3o leve. Os p\u00e9s estavam enfim postos no ch\u00e3o do qual jamais deveriam ter sa\u00eddo. O grupo avan\u00e7ou algumas dezenas de metros e montou acampamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, logo nas primeiras noites, aquelas de frio mais intenso, uma visita pouco agrad\u00e1vel: <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2018\/06\/mpf-e-brigada-militar-apuram-abordagem-de-homens-armados-a-guaranis-na-fazenda-do-arado-velho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>homens armados, dizendo-se policiais, amea\u00e7aram os \u00edndios e os empurram de volta \u00e0 orla<\/strong><\/a> \u2014 \u00e1rea p\u00fablica na qual os Guaranis se viram cercados. Ali montaram uma vez mais suas barracas, duas lonas azuis grandes seguras por paus de madeira, propiciando algum teto para proteger da chuva. O ataque dos supostos policiais tem explica\u00e7\u00e3o: no territ\u00f3rio ancestral ind\u00edgena, um empreendimento de luxo pretende construir tr\u00eas condom\u00ednios fechados com cerca de duas mil casas; a presen\u00e7a Guarani por \u00f3bvio \u00e9 inc\u00f4moda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a chegada ind\u00edgena, na sexta-feira, dia 15\/6, seguran\u00e7as privados circulam pela \u00e1rea, fotografando e filmando a movimenta\u00e7\u00e3o do grupo e, al\u00e9m disso, a de qualquer pessoa que se aproxime dali, inibindo a chegada de ajuda e doa\u00e7\u00e3o de roupas e alimentos. Os pescadores da regi\u00e3o foram amea\u00e7ados para que n\u00e3o fa\u00e7am o transporte de apoiadoras e apoiadores at\u00e9 a \u00e1rea (para que se evite a parte j\u00e1 privatizada, onde a passagem \u00e9 bloqueada, \u00e9 necess\u00e1rio que se percorra um trecho pelas \u00e1guas do Gua\u00edba). O barco que ajudou na travessia dos ind\u00edgenas foi misteriosamente sabotado, tendo o motor danificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/preservaarado.wordpress.com\/entenda\/#ComoImobFZ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>O projeto dos condom\u00ednios de luxo levanta muitas controv\u00e9rsias<\/strong><\/a>: ainda em 2015, houve uma altera\u00e7\u00e3o no Plano Diretor de Porto Alegre para que se ampliasse em 12 vezes o n\u00famero de casas permitidas na \u00e1rea da Fazenda do Arado Velho, territ\u00f3rio em disputa. Tal mudan\u00e7a foi feita sem nenhuma consulta popular: n\u00e3o houve sequer uma audi\u00eancia p\u00fablica para debater a quest\u00e3o. A decis\u00e3o arbitr\u00e1ria foi mais tarde suspensa pela Justi\u00e7a, exatamente pela aus\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o popular. Tamb\u00e9m tramita uma\u00a0acusa\u00e7\u00e3o de fraude na parte geol\u00f3gica do estudo apresentado pelo empreendimento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_916\" aria-describedby=\"caption-attachment-916\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-916 size-large\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-300x200.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-768x512.jpg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-500x333.jpg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas-800x533.jpg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/criancas.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-916\" class=\"wp-caption-text\">Crian\u00e7as s\u00e3o tamb\u00e9m permanentemente vigiadas por seguran\u00e7as privados<\/figcaption><\/figure>\n<figure style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/preservaarado.files.wordpress.com\/2016\/08\/12138303_902539399842778_8885652766161085433_o.jpg?w=1000&amp;h=&amp;crop=1\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"666\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Vista a\u00e9rea da fazenda, inundada em \u00e9poca de cheia. Foto do <a href=\"https:\/\/preservaarado.wordpress.com\/fotos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Preserva Arado<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a terra chamou, e ela n\u00e3o prioriza os interesses privados de empresas que querem somente o lucro; pelo contr\u00e1rio, protege-se deles: a presen\u00e7a ind\u00edgena \u00e9 a garantia da preserva\u00e7\u00e3o e do equil\u00edbrio ambiental na regi\u00e3o. Um empreendimento megaloman\u00edaco, promovendo a mega-concentra\u00e7\u00e3o de casas, carros e pessoas, al\u00e9m de privatizar a natureza do Arado, t\u00e3o rica, certamente acabaria por degradar o lugar. Para se ter no\u00e7\u00e3o, como o terreno ali \u00e9 baixo, seria necess\u00e1rio aterrar uma \u00e1rea equivalente a 200 campos de futebol para a constru\u00e7\u00e3o de ruas e casas <span style=\"font-size: 1rem;\">\u2014<\/span> com a utiliza\u00e7\u00e3o de cerca de um milh\u00e3o de metros c\u00fabicos de terra. E para carregar essa terra toda seriam necess\u00e1rias 125 mil ca\u00e7ambas de caminh\u00e3o. O impacto que isso causaria \u00e9 devastador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais que isso, o empreendimento pretende agora expulsar os ind\u00edgenas de suas terras sagradas: <a href=\"https:\/\/preservaarado.wordpress.com\/arquivo\/sitioarq\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>s\u00edtios arqueol\u00f3gicos datados da era pr\u00e9-colonial foram encontrados na regi\u00e3o do Arado Velho<\/strong><\/a>, com diversos artefatos, ferramentas e cer\u00e2micas t\u00edpicas dos Guarani, mostrando que ali estavam estabelecidas aldeias inteiras at\u00e9 a invas\u00e3o do homem branco.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-917 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/fumo-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-918 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-300x200.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-768x512.jpg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-500x333.jpg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos-800x533.jpg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/maos.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo nas noites frias e escuras, Tim\u00f3teo n\u00e3o teme o enfrentamento com os interesses de grandes corpora\u00e7\u00f5es: sabe estar seguro pelo esp\u00edrito de seus ancestrais, verdadeiros donos do territ\u00f3rio. Logo na primeira noite na Ponta do Arado Velho, seu tio os viu, cercando o grupo e zelando por eles. Ora, de nada adiantam metralhadoras contra os ventos e trov\u00f5es e tempestades que o homem branco ter\u00e1 que enfrentar; as balas n\u00e3o podem sangrar a natureza sagrada, e isso Tim\u00f3teo sabe bem. Por isso, sente-se alegre e tranquilo: \u00e9<span style=\"font-size: 1rem;\">\u00a0esse o sentimento que descansa no cora\u00e7\u00e3o daquele que sabe estar em seu lugar, enquanto medo e amea\u00e7as fazem sombra no cora\u00e7\u00e3o do invasor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 1rem;\">Olhando as crian\u00e7as que brincam nas areias, duas delas suas\u00a0\u2014 e todas elas vigiadas amea\u00e7adoramente pelos seguran\u00e7as privados \u2014, Tim\u00f3teo esbo\u00e7a um sorriso leve ao dar uma longa tragada em seu petyngu\u00e1: est\u00e1 exatamente onde deve estar; o chamado da terra fora ouvido. Alegria e tranquilidade mesmo: afinal a retomada, como a pr\u00f3pria palavra indica, apenas deu ao \u00edndio o que \u00e9, e sempre foi, do pr\u00f3prio \u00edndio.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_915\" aria-describedby=\"caption-attachment-915\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-915 size-large\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/timoteo-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"787\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-915\" class=\"wp-caption-text\">Tim\u00f3teo e o seu petyngu\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para ver mais fotos da retomada Guarani Mbya no Arado Velho, acessa o nosso <a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/154989916@N03\/albums\/72157696596902711\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Flickr<\/a>. As fotos s\u00e3o do Douglas Freitas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dez dias, ind\u00edgenas Guarani Mbya retomaram suas terras ancestrais no Arado Velho, no bairro Bel\u00e9m Novo, Porto Alegre. Desde ent\u00e3o, veem-se amea\u00e7ados \u2014 inclusive com armas \u2014 pelo empreendimento que quer privatizar a \u00e1rea e expuls\u00e1-los dali para que deem lugar a duas mil casas em tr\u00eas condom\u00ednios de luxo. Foi num sonho que a terra chamou, e isso o homem branco jamais entender\u00e1: ele que insiste em expuls\u00e1-los para as periferias de suas cidades barulhentas e polu\u00eddas ou cerc\u00e1-los em um s\u00f3 canto, tirando-os de seus locais sagrados, \u00e9 surdo j\u00e1, n\u00e3o escuta; o chamado da terra, por\u00e9m, imp\u00f5e-se com clareza a quem sabe ouvir: estava ali, no Arado Velho, bairro Bel\u00e9m Novo, Porto Alegre, a terra usurpada &#8211; apenas uma delas. E era hora de retom\u00e1-la. Assim que um grupo de Guarani Mbyas navegou pelo Rio Gua\u00edba at\u00e9 as areias sagradas, sabendo ir ao encontro do que sempre procuraram, atentos \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Ao desembarcar, o cacique Tim\u00f3teo Karai Mirim olhou a mata verde e as \u00e1rvores cobertas de barba de bode \u2014 que deixavam o cen\u00e1rio ainda mais bonito: que alegria!, que tranquilidade!, sentiu, de cora\u00e7\u00e3o leve. Os p\u00e9s estavam enfim postos no ch\u00e3o do qual jamais deveriam ter sa\u00eddo. O grupo avan\u00e7ou algumas dezenas de metros e montou acampamento. Contudo, logo nas primeiras noites, aquelas de frio mais intenso, uma visita pouco agrad\u00e1vel: homens armados, dizendo-se policiais, amea\u00e7aram os \u00edndios e os empurram de volta \u00e0 orla \u2014 \u00e1rea p\u00fablica na qual os Guaranis se viram cercados. Ali montaram uma vez mais suas barracas, duas lonas azuis grandes seguras por paus de madeira, propiciando algum teto para proteger da chuva. O ataque dos supostos policiais tem explica\u00e7\u00e3o: no territ\u00f3rio ancestral ind\u00edgena, um empreendimento de luxo pretende construir tr\u00eas condom\u00ednios fechados com cerca de duas mil casas; a presen\u00e7a Guarani por \u00f3bvio \u00e9 inc\u00f4moda. Desde a chegada ind\u00edgena, na sexta-feira, dia 15\/6, seguran\u00e7as privados circulam pela \u00e1rea, fotografando e filmando a movimenta\u00e7\u00e3o do grupo e, al\u00e9m disso, a de qualquer pessoa que se aproxime dali, inibindo a chegada de ajuda e doa\u00e7\u00e3o de roupas e alimentos. Os pescadores da regi\u00e3o foram amea\u00e7ados para que n\u00e3o fa\u00e7am o transporte de apoiadoras e apoiadores at\u00e9 a \u00e1rea (para que se evite a parte j\u00e1 privatizada, onde a passagem \u00e9 bloqueada, \u00e9 necess\u00e1rio que se percorra um trecho pelas \u00e1guas do Gua\u00edba). O barco que ajudou na travessia dos ind\u00edgenas foi misteriosamente sabotado, tendo o motor danificado. O projeto dos condom\u00ednios de luxo levanta muitas controv\u00e9rsias: ainda em 2015, houve uma altera\u00e7\u00e3o no Plano Diretor de Porto Alegre para que se ampliasse em 12 vezes o n\u00famero de casas permitidas na \u00e1rea da Fazenda do Arado Velho, territ\u00f3rio em disputa. Tal mudan\u00e7a foi feita sem nenhuma consulta popular: n\u00e3o houve sequer uma audi\u00eancia p\u00fablica para debater a quest\u00e3o. A decis\u00e3o arbitr\u00e1ria foi mais tarde suspensa pela Justi\u00e7a, exatamente pela aus\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o popular. Tamb\u00e9m tramita uma\u00a0acusa\u00e7\u00e3o de fraude na parte geol\u00f3gica do estudo apresentado pelo empreendimento. Mas a terra chamou, e ela n\u00e3o prioriza os interesses privados de empresas que querem somente o lucro; pelo contr\u00e1rio, protege-se deles: a presen\u00e7a ind\u00edgena \u00e9 a garantia da preserva\u00e7\u00e3o e do equil\u00edbrio ambiental na regi\u00e3o. Um empreendimento megaloman\u00edaco, promovendo a mega-concentra\u00e7\u00e3o de casas, carros e pessoas, al\u00e9m de privatizar a natureza do Arado, t\u00e3o rica, certamente acabaria por degradar o lugar. Para se ter no\u00e7\u00e3o, como o terreno ali \u00e9 baixo, seria necess\u00e1rio aterrar uma \u00e1rea equivalente a 200 campos de futebol para a constru\u00e7\u00e3o de ruas e casas \u2014 com a utiliza\u00e7\u00e3o de cerca de um milh\u00e3o de metros c\u00fabicos de terra. E para carregar essa terra toda seriam necess\u00e1rias 125 mil ca\u00e7ambas de caminh\u00e3o. O impacto que isso causaria \u00e9 devastador. Mais que isso, o empreendimento pretende agora expulsar os ind\u00edgenas de suas terras sagradas: s\u00edtios arqueol\u00f3gicos datados da era pr\u00e9-colonial foram encontrados na regi\u00e3o do Arado Velho, com diversos artefatos, ferramentas e cer\u00e2micas t\u00edpicas dos Guarani, mostrando que ali estavam estabelecidas aldeias inteiras at\u00e9 a invas\u00e3o do homem branco. Mesmo nas noites frias e escuras, Tim\u00f3teo n\u00e3o teme o enfrentamento com os interesses de grandes corpora\u00e7\u00f5es: sabe estar seguro pelo esp\u00edrito de seus ancestrais, verdadeiros donos do territ\u00f3rio. Logo na primeira noite na Ponta do Arado Velho, seu tio os viu, cercando o grupo e zelando por eles. Ora, de nada adiantam metralhadoras contra os ventos e trov\u00f5es e tempestades que o homem branco ter\u00e1 que enfrentar; as balas n\u00e3o podem sangrar a natureza sagrada, e isso Tim\u00f3teo sabe bem. Por isso, sente-se alegre e tranquilo: \u00e9\u00a0esse o sentimento que descansa no cora\u00e7\u00e3o daquele que sabe estar em seu lugar, enquanto medo e amea\u00e7as fazem sombra no cora\u00e7\u00e3o do invasor. Olhando as crian\u00e7as que brincam nas areias, duas delas suas\u00a0\u2014 e todas elas vigiadas amea\u00e7adoramente pelos seguran\u00e7as privados \u2014, Tim\u00f3teo esbo\u00e7a um sorriso leve ao dar uma longa tragada em seu petyngu\u00e1: est\u00e1 exatamente onde deve estar; o chamado da terra fora ouvido. Alegria e tranquilidade mesmo: afinal a retomada, como a pr\u00f3pria palavra indica, apenas deu ao \u00edndio o que \u00e9, e sempre foi, do pr\u00f3prio \u00edndio. Para ver mais fotos da retomada Guarani Mbya no Arado Velho, acessa o nosso Flickr. 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