{"id":6986,"date":"2024-09-16T15:17:36","date_gmt":"2024-09-16T18:17:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6986"},"modified":"2025-06-12T13:08:21","modified_gmt":"2025-06-12T16:08:21","slug":"o-violento-avanco-do-capital-sob-os-territorios-de-vida-e-o-motor-da-emergencia-climatica-na-luta-dos-movimentos-sociais-e-na-organizacao-dos-povos-esta-o-freio-desta-tragedia-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6986","title":{"rendered":"O violento avan\u00e7o do capital sobre os territ\u00f3rios de vida \u00e9 o motor da emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Na luta dos movimentos sociais e na organiza\u00e7\u00e3o dos povos est\u00e1 o freio desta trag\u00e9dia anunciada"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Em entrevista para o Grupo Carta de Bel\u00e9m, Fernando Campos abordou a rela\u00e7\u00e3o das enchentes no Rio Grande do Sul e seus consequentes impactos na vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o com os processos de privatiza\u00e7\u00e3o, captura corporativa do Estado, desmontes na legisla\u00e7\u00e3o ambiental e avan\u00e7o das l\u00f3gicas de mercado nos territ\u00f3rios de vida. Evidenciando o que nos trouxe at\u00e9 a recente calamidade em solo ga\u00facho, exp\u00f4s a fragilidade a qual boa parte da popula\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 submetida, meses ap\u00f3s as enchentes. Prop\u00f4s, ainda, quais caminhos e solu\u00e7\u00f5es apontam para que o futuro n\u00e3o seja inundado por um passado que traz a marca de uma trag\u00e9dia h\u00e1 muito anunciada.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fernando faz parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Amigas da Terra Brasil (ATBr), uma organiza\u00e7\u00e3o internacionalista de base que luta por justi\u00e7a socioambiental e constr\u00f3i a soberania alimentar, territorial e dos povos, que integra o Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB).<\/span><\/i><\/p>\n<p><b><i>Confira a entrevista na \u00edntegra:\u00a0\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/b><b>Fernando Campos<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de calamidade em fun\u00e7\u00e3o da enchente, que atingiu grande parte do Rio Grande do Sul de diversas formas, e que trouxe de cara a situa\u00e7\u00e3o dos ambientes degradados no caminho dessas \u00e1guas. Mas h\u00e1 toda uma flexibiliza\u00e7\u00e3o ambiental que permitiu o desmatamento, h\u00e1 o n\u00e3o respeito \u00e0s \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanente (APPs) e toda legisla\u00e7\u00e3o ambiental. O grande respons\u00e1vel \u00e9 o agroneg\u00f3cio, de forma direta, com a produ\u00e7\u00e3o de soja e eucalipto, e at\u00e9 mesmo de outras culturas que s\u00e3o desenvolvidas em locais que deveriam ser preservados. Com isso ocorre a grande invas\u00e3o de \u00e1gua dentro dos rios, assoreados, com barragens que n\u00e3o garantem a press\u00e3o da \u00e1gua, que foram destru\u00eddas no caminho, que foram enchendo e gerando ondas de alagamento, numa velocidade maior que a das chuvas, fazendo com que as pessoas fossem pegas desprevenidas, pois n\u00edvel da \u00e1gua subiu muito r\u00e1pido.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O contexto geral \u00e9 a resposta da degrada\u00e7\u00e3o ambiental que de forma s\u00f3lida existe nos territ\u00f3rios. H\u00e1 muitos lugares onde essa realidade \u00e9 gritante. Se olhar fotos aparecem todos esses caminhos das \u00e1guas, e \u00e9 poss\u00edvel ver que n\u00e3o foram respeitadas as legisla\u00e7\u00f5es ambientais. Os grandes projetos de morte acabaram gerando mortes, seja os da minera\u00e7\u00e3o, do agroneg\u00f3cio ou da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, jogando moradias em locais de risco. As \u00e1guas vindo pelos rios Ca\u00ed e Jacu\u00ed, todos esses rios que chegam em Porto Alegre (RS), encontraram um sistema de preserva\u00e7\u00e3o, de conten\u00e7\u00e3o das cheias sem manuten\u00e7\u00e3o, com portas que n\u00e3o fechavam, sistemas de esgotos que deveriam ser lacrados para evitar o refluxo mas n\u00e3o estavam, v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o estavam com manuten\u00e7\u00e3o. Isso vem de governos de direita negacionistas, que nesse processo n\u00e3o estabeleceram essas manuten\u00e7\u00f5es, numa logica de estado m\u00ednimo, de privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, de desestrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es que garantiriam esse tipo de manuten\u00e7\u00e3o. O Departamento de Esgoto (DEP) foi desmanchado e assimilado a outras estruturas que teriam o mesmo foco. Seja no campo, na zona rural ou na zona urbana, o negacionismo toma conta, n\u00e3o h\u00e1 manuten\u00e7\u00e3o nos sistemas de prote\u00e7\u00e3o. E essa situa\u00e7\u00e3o continua quando essa \u00e1gua sai do Gua\u00edba e vai para a Lagoa dos Patos, ent\u00e3o come\u00e7a o alagamento em outras regi\u00f5es. O Litoral Sul, que pega todas as cidades que est\u00e3o em torno da Lagoa, que n\u00e3o tinham prote\u00e7\u00e3o, a\u00ed se gerou essa situa\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel com a subida das \u00e1guas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, a princ\u00edpio, o maior motivador \u00e9 o negacionismo, a falta de ci\u00eancia, de t\u00e9cnica em rela\u00e7\u00e3o a essas situa\u00e7\u00f5es e ao mesmo tempo essa situa\u00e7\u00e3o toda em que alguns s\u00e3o atingidos diretamente e uns mais que os outros. Pessoas da periferia, de locais onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de investimento do Estado, acabaram sofrendo consequ\u00eancias bem maiores. E a\u00ed a gente tem pessoas que perderam tudo, cidades inteiras devastadas, a agricultura familiar totalmente destru\u00edda nos territ\u00f3rios, \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gicas destru\u00eddas tamb\u00e9m. Ent\u00e3o o impacto vem dessa vis\u00e3o negacionista e sua origem nos setores corporativos que trabalham lobbys para flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o e lucro dessas empresas (seja da minera\u00e7\u00e3o, do agro\u2026), de forma a ampliar seus lucros explorando ao m\u00e1ximo a natureza e bens comuns.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Quais s\u00e3o os desafios?<br \/>\n<\/b><b>Fernando Campos: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Devemos indicar os respons\u00e1veis, para que isso n\u00e3o fique impune. S\u00e3o eles: as grandes corpora\u00e7\u00f5es, o poder corporativo, os Estados capturados de forma direta com pol\u00edticas que fazem uso de empresas e setores para avan\u00e7ar no processo eleitoral, e com isso eles fazem lobby para ganhar mais recurso, e financiamento para essas empresas, seja na flexibiliza\u00e7\u00e3o das legisla\u00e7\u00f5es ambientais, por exemplo, onde o Estado favorece esses setores. Precisamos indicar os respons\u00e1veis, seja no setor do agroneg\u00f3cio, da constru\u00e7\u00e3o civil, da minera\u00e7\u00e3o. Outro desafio foi estabelecer uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. H\u00e1 quase 40 dias da enchente ainda tem pessoas desabrigadas, pessoas que ainda n\u00e3o tem uma solu\u00e7\u00e3o de moradia, vivendo em abrigos prec\u00e1rios, sem m\u00ednima estrutura, muitos deles sem alimenta\u00e7\u00e3o para as pessoas, e muitas vezes eles tem que escolher alimentar s\u00f3 a fam\u00edlia, ou s\u00f3 as crian\u00e7as. Situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, e as pessoas continuam em risco, em inseguran\u00e7a alimentar. E para al\u00e9m disso tem toda a quest\u00e3o da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o prejudicadas, as fam\u00edlias sem poder voltar a trabalhar, sem poder voltar a ter sua renda, entregues a um Estado que deveria garantir direitos e este Estado est\u00e1 em colapso total, pois \u00e9 um estado m\u00ednimo que n\u00e3o tem capacidade de incorporar essas situa\u00e7\u00f5es. E a\u00ed a gente v\u00ea uma l\u00f3gica voluntarista, onde parece que s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o da sociedade vai resolver os problemas. Ent\u00e3o a gente precisa, nesse momento, mostrar que essa l\u00f3gica do estado m\u00ednimo gera viola\u00e7\u00f5es diretas, crise ambiental, e para isso a gente precisa de um estado forte, que garanta direitos, que fa\u00e7a esse di\u00e1logo com a sociedade. Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma outra quest\u00e3o que a gente v\u00ea a cada momento, esse estado negacionista de extrema direita, em que n\u00e3o aceitam a participa\u00e7\u00e3o direta e n\u00e3o aceitam os Conselhos, que s\u00e3o enfraquecidos, que n\u00e3o agregam na constru\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es. S\u00e3o de faz de conta, n\u00e3o constroem uma participa\u00e7\u00e3o da sociedade. Prefeituras e governo do estado priorizando reuni\u00f5es com empresas e empres\u00e1rios, como se eles fossem a solu\u00e7\u00e3o, e na verdade foram eles que nos trouxeram at\u00e9 aqui, a essa situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, de crise. Ent\u00e3o, de alguma forma a gente acredita que o desafio neste momento \u00e9 indicar os respons\u00e1veis e buscar as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o priorizando os movimentos sociais que est\u00e3o nos territ\u00f3rios, que est\u00e3o atuando, t\u00eam expertise. Exemplos como a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica, em que o pessoal se organiza e garante alimenta\u00e7\u00e3o, o processo do Minha Casa Minha Vida Entidades, que produzem moradia, e as melhores moradias a disposi\u00e7\u00e3o, onde o lucro das empresas \u00e9 transformado em qualidade e dignidade de moradia, seja no tamanho da casa, n\u00famero de quartos, com horta, equipamentos para horta, constru\u00e7\u00e3o e sentir de comunidade, e n\u00e3o um teto como moradia de forma prec\u00e1ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Quais s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es?<br \/>\n<\/b><b>Fernando Campos: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">A gente acredita muito que o papel do Estado \u00e9 fundamental, um estado forte na l\u00f3gica de reconstru\u00e7\u00e3o de um estado que possa garantir os direitos, que esteja preparado para este tipo de situa\u00e7\u00e3o. A gente v\u00ea um total despreparo para estabelecer condi\u00e7\u00f5es, tudo tem levado muito tempo e esse tempo n\u00e3o garante a vida das pessoas, seja no pr\u00e9, durante ou no p\u00f3s, a dificuldade \u00e9 muito grande de garantir a vida das pessoas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo vejo que as solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o nos movimentos sociais. \u00c9 preciso encarar os movimentos sociais como forma de atua\u00e7\u00e3o junto com o estado. A agilidade dos movimentos sociais \u00e9 muito maior que a do Estado. Quando come\u00e7aram\u00a0 todas as situa\u00e7\u00f5es, os primeiros a atuarem foram os movimentos sociais, foram as Cozinhas Solid\u00e1rias de Emerg\u00eancia que foram instauradas, que garantiram de forma r\u00e1pida a redu\u00e7\u00e3o de danos em rela\u00e7\u00e3o ao impacto sofrido. As comunidades que estavam organizadas reduziram seus preju\u00edzos, vulnerabilidades, a partir do apoio. Ent\u00e3o tem o papel do movimento social de organizar, seja na constru\u00e7\u00e3o da soberania alimentar\u2026 \u00c9 importante entender os processos como eles se d\u00e3o, porque essa rela\u00e7\u00e3o entre solidariedade, entre Cozinha Solid\u00e1ria, agricultura familiar, isso vai garantir a soberania. N\u00e3o s\u00f3 a seguran\u00e7a alimentar, mas tamb\u00e9m a soberania, a garantia de la\u00e7os entre o urbano e o rural. \u00c9 importante que isso seja garantido. E que pol\u00edticas p\u00fablicas como Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) possam garantir essa rela\u00e7\u00e3o a partir da pol\u00edtica p\u00fablica e novamente, com os movimentos sociais sendo a porta de entrada disso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Precisamos de agilidade na solu\u00e7\u00e3o das moradias. T\u00eam pessoas que perderam tudo, a casa, a vida, \u00e9 muito importante que as fam\u00edlias mais atingidas consigam reorganizar suas vidas. As situa\u00e7\u00f5es de precariedade dos abrigos, de viola\u00e7\u00f5es de direitos s\u00e3o constantes nesses espa\u00e7os. H\u00e1 falta de autonomia, de privacidade, onde isso \u00e9 fundamental. Muitos im\u00f3veis vazios que poderiam estar garantindo essa moradia, sejam im\u00f3veis do governo do estado, dos munic\u00edpios, da Uni\u00e3o, ou im\u00f3veis privados, que estejam a disposi\u00e7\u00e3o do aluguel social, da compra assistida, mas que consiga garantir a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade, e n\u00e3o s\u00f3 em situa\u00e7\u00e3o de crise. As fam\u00edlias precisam de moradias, os espa\u00e7os das escolas precisam ser desocupados, as aulas precisam voltar. Ent\u00e3o moradia e manuten\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, as fam\u00edlias conseguirem ter acesso a comida, as cozinhas solid\u00e1rias de emerg\u00eancia, s\u00e3o fundamentais para garantir o m\u00ednimo e ao mesmo tempo os agricultores que foram atingidos consigam retornar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, numa a\u00e7\u00e3o conjunta do urbano e do rural.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda no tema das solu\u00e7\u00f5es \u00e9 muito importante que a gente coloque a quest\u00e3o do problema fundi\u00e1rio, primordial nesta discuss\u00e3o. A quest\u00e3o fundi\u00e1ria \u00e9 a principal violadora de direitos, principal tema. Precisa de uma solu\u00e7\u00e3o. Nesse momento devemos colocar isso como uma meta de garantir a reforma agr\u00e1ria, de garantir a titula\u00e7\u00e3o dos quilombos, garantir a demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas. Os problemas gerados a partir da precariza\u00e7\u00e3o da vida das pessoas, falta de capacidade de resposta em situa\u00e7\u00f5es de crise, vem por parte das injusti\u00e7as ambientais nos territ\u00f3rios,\u00a0 pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o atendem, n\u00e3o existe uma democracia direta. A principal solu\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do clima \u00e9 a quest\u00e3o fundi\u00e1ria, s\u00e3o os povos nos territ\u00f3rios. Locais preservados s\u00e3o locais onde as comunidades vivem, s\u00e3o locais com ambiente preservado de forma segura. \u00c9 preciso garantir o territ\u00f3rio, a comunidade dentro do territ\u00f3rio para preserva\u00e7\u00e3o dos impactos \u00e0 natureza, ao ambiente, que garanta o bem viver nestes territ\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p><b>Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Como a quest\u00e3o da agroecologia e soberania alimentar est\u00e3o inseridas nesse contexto?<br \/>\n<\/b><b>Fernando Campos: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0A quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o especificamente: tivemos a Confer\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a e Soberania Alimentar, em que se falou em comida de verdade. J\u00e1 v\u00ednhamos implementando esses processos da Cozinha Solid\u00e1ria de Emerg\u00eancia do MTST, regulamentando junto ao Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Social, junto a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) a compra de alimentos n\u00e3o s\u00f3 da cesta b\u00e1sica, mas tamb\u00e9m da agricultura familiar, para garantir a comida de verdade. Quando se fala em sa\u00fade, imunidade, esses alimentos s\u00e3o fundamentais, garantem a sa\u00fade e a alimenta\u00e7\u00e3o. Vem de produ\u00e7\u00e3o sem agrot\u00f3xicos, que gera uma l\u00f3gica garantida e apoiada a partir das pol\u00edticas p\u00fablicas, e n\u00e3o a l\u00f3gica do agroneg\u00f3cio que garante commodities e n\u00e3o alimento para as pessoas, al\u00e9m de contaminar diretamente as \u00e1guas, solo, ar, pessoas e animais. \u00c9 isso\u2026 Como pensar o problema da fome, sem apoiar o agroneg\u00f3cio que gera outros impactos, inclusive do que estamos vivendo hoje? Agroneg\u00f3cio n\u00e3o pode ser a solu\u00e7\u00e3o, devemos fortalecer a agricultura familiar, que preserva vidas e garante vida.<\/span><\/p>\n<p><em><strong>Conte\u00fado originalmente publicado no site do Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB), em: <a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/o-violento-avanco-do-capital-sob-os-territorios-de-vida-e-o-motor-da-emergencia-climatica-na-luta-dos-movimentos-sociais-e-na-organizacao-dos-povos-esta-o-freio-desta-tragedia-anunciada\/\">https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/o-violento-avanco-do-capital-sob-os-territorios-de-vida-e-o-motor-da-emergencia-climatica-na-luta-dos-movimentos-sociais-e-na-organizacao-dos-povos-esta-o-freio-desta-tragedia-anunciada\/\u00a0<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista para o Grupo Carta de Bel\u00e9m, Fernando Campos abordou a rela\u00e7\u00e3o das enchentes no Rio Grande do Sul e seus consequentes impactos na vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o com os processos de privatiza\u00e7\u00e3o, captura corporativa do Estado, desmontes na legisla\u00e7\u00e3o ambiental e avan\u00e7o das l\u00f3gicas de mercado nos territ\u00f3rios de vida. Evidenciando o que nos trouxe at\u00e9 a recente calamidade em solo ga\u00facho, exp\u00f4s a fragilidade a qual boa parte da popula\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 submetida, meses ap\u00f3s as enchentes. Prop\u00f4s, ainda, quais caminhos e solu\u00e7\u00f5es apontam para que o futuro n\u00e3o seja inundado por um passado que traz a marca de uma trag\u00e9dia h\u00e1 muito anunciada.\u00a0 Fernando faz parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Amigas da Terra Brasil (ATBr), uma organiza\u00e7\u00e3o internacionalista de base que luta por justi\u00e7a socioambiental e constr\u00f3i a soberania alimentar, territorial e dos povos, que integra o Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB). Confira a entrevista na \u00edntegra:\u00a0\u00a0 Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o? Fernando Campos: A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de calamidade em fun\u00e7\u00e3o da enchente, que atingiu grande parte do Rio Grande do Sul de diversas formas, e que trouxe de cara a situa\u00e7\u00e3o dos ambientes degradados no caminho dessas \u00e1guas. Mas h\u00e1 toda uma flexibiliza\u00e7\u00e3o ambiental que permitiu o desmatamento, h\u00e1 o n\u00e3o respeito \u00e0s \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanente (APPs) e toda legisla\u00e7\u00e3o ambiental. O grande respons\u00e1vel \u00e9 o agroneg\u00f3cio, de forma direta, com a produ\u00e7\u00e3o de soja e eucalipto, e at\u00e9 mesmo de outras culturas que s\u00e3o desenvolvidas em locais que deveriam ser preservados. Com isso ocorre a grande invas\u00e3o de \u00e1gua dentro dos rios, assoreados, com barragens que n\u00e3o garantem a press\u00e3o da \u00e1gua, que foram destru\u00eddas no caminho, que foram enchendo e gerando ondas de alagamento, numa velocidade maior que a das chuvas, fazendo com que as pessoas fossem pegas desprevenidas, pois n\u00edvel da \u00e1gua subiu muito r\u00e1pido.\u00a0 O contexto geral \u00e9 a resposta da degrada\u00e7\u00e3o ambiental que de forma s\u00f3lida existe nos territ\u00f3rios. H\u00e1 muitos lugares onde essa realidade \u00e9 gritante. Se olhar fotos aparecem todos esses caminhos das \u00e1guas, e \u00e9 poss\u00edvel ver que n\u00e3o foram respeitadas as legisla\u00e7\u00f5es ambientais. Os grandes projetos de morte acabaram gerando mortes, seja os da minera\u00e7\u00e3o, do agroneg\u00f3cio ou da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, jogando moradias em locais de risco. As \u00e1guas vindo pelos rios Ca\u00ed e Jacu\u00ed, todos esses rios que chegam em Porto Alegre (RS), encontraram um sistema de preserva\u00e7\u00e3o, de conten\u00e7\u00e3o das cheias sem manuten\u00e7\u00e3o, com portas que n\u00e3o fechavam, sistemas de esgotos que deveriam ser lacrados para evitar o refluxo mas n\u00e3o estavam, v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o estavam com manuten\u00e7\u00e3o. Isso vem de governos de direita negacionistas, que nesse processo n\u00e3o estabeleceram essas manuten\u00e7\u00f5es, numa logica de estado m\u00ednimo, de privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, de desestrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es que garantiriam esse tipo de manuten\u00e7\u00e3o. O Departamento de Esgoto (DEP) foi desmanchado e assimilado a outras estruturas que teriam o mesmo foco. Seja no campo, na zona rural ou na zona urbana, o negacionismo toma conta, n\u00e3o h\u00e1 manuten\u00e7\u00e3o nos sistemas de prote\u00e7\u00e3o. E essa situa\u00e7\u00e3o continua quando essa \u00e1gua sai do Gua\u00edba e vai para a Lagoa dos Patos, ent\u00e3o come\u00e7a o alagamento em outras regi\u00f5es. O Litoral Sul, que pega todas as cidades que est\u00e3o em torno da Lagoa, que n\u00e3o tinham prote\u00e7\u00e3o, a\u00ed se gerou essa situa\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel com a subida das \u00e1guas.\u00a0 Ent\u00e3o, a princ\u00edpio, o maior motivador \u00e9 o negacionismo, a falta de ci\u00eancia, de t\u00e9cnica em rela\u00e7\u00e3o a essas situa\u00e7\u00f5es e ao mesmo tempo essa situa\u00e7\u00e3o toda em que alguns s\u00e3o atingidos diretamente e uns mais que os outros. Pessoas da periferia, de locais onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum tipo de investimento do Estado, acabaram sofrendo consequ\u00eancias bem maiores. E a\u00ed a gente tem pessoas que perderam tudo, cidades inteiras devastadas, a agricultura familiar totalmente destru\u00edda nos territ\u00f3rios, \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gicas destru\u00eddas tamb\u00e9m. Ent\u00e3o o impacto vem dessa vis\u00e3o negacionista e sua origem nos setores corporativos que trabalham lobbys para flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o e lucro dessas empresas (seja da minera\u00e7\u00e3o, do agro\u2026), de forma a ampliar seus lucros explorando ao m\u00e1ximo a natureza e bens comuns. &nbsp; Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB): Quais s\u00e3o os desafios? Fernando Campos: Devemos indicar os respons\u00e1veis, para que isso n\u00e3o fique impune. S\u00e3o eles: as grandes corpora\u00e7\u00f5es, o poder corporativo, os Estados capturados de forma direta com pol\u00edticas que fazem uso de empresas e setores para avan\u00e7ar no processo eleitoral, e com isso eles fazem lobby para ganhar mais recurso, e financiamento para essas empresas, seja na flexibiliza\u00e7\u00e3o das legisla\u00e7\u00f5es ambientais, por exemplo, onde o Estado favorece esses setores. Precisamos indicar os respons\u00e1veis, seja no setor do agroneg\u00f3cio, da constru\u00e7\u00e3o civil, da minera\u00e7\u00e3o. Outro desafio foi estabelecer uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. H\u00e1 quase 40 dias da enchente ainda tem pessoas desabrigadas, pessoas que ainda n\u00e3o tem uma solu\u00e7\u00e3o de moradia, vivendo em abrigos prec\u00e1rios, sem m\u00ednima estrutura, muitos deles sem alimenta\u00e7\u00e3o para as pessoas, e muitas vezes eles tem que escolher alimentar s\u00f3 a fam\u00edlia, ou s\u00f3 as crian\u00e7as. Situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, e as pessoas continuam em risco, em inseguran\u00e7a alimentar. E para al\u00e9m disso tem toda a quest\u00e3o da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o prejudicadas, as fam\u00edlias sem poder voltar a trabalhar, sem poder voltar a ter sua renda, entregues a um Estado que deveria garantir direitos e este Estado est\u00e1 em colapso total, pois \u00e9 um estado m\u00ednimo que n\u00e3o tem capacidade de incorporar essas situa\u00e7\u00f5es. E a\u00ed a gente v\u00ea uma l\u00f3gica voluntarista, onde parece que s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o da sociedade vai resolver os problemas. Ent\u00e3o a gente precisa, nesse momento, mostrar que essa l\u00f3gica do estado m\u00ednimo gera viola\u00e7\u00f5es diretas, crise ambiental, e para isso a gente precisa de um estado forte, que garanta direitos, que fa\u00e7a esse di\u00e1logo com a sociedade. Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma outra quest\u00e3o que a gente v\u00ea a cada momento, esse estado negacionista de extrema direita, em que n\u00e3o aceitam a participa\u00e7\u00e3o direta e n\u00e3o aceitam os Conselhos, que s\u00e3o enfraquecidos, que n\u00e3o agregam na<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6998,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,602,5,1835],"tags":[],"class_list":["post-6986","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica-climatica-e-energetica","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6986"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9423,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6986\/revisions\/9423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6998"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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