{"id":6853,"date":"2024-06-25T21:16:56","date_gmt":"2024-06-26T00:16:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6853"},"modified":"2025-06-12T13:16:24","modified_gmt":"2025-06-12T16:16:24","slug":"artigo-jornal-brasil-de-fato-o-capitalismo-de-desastre-e-o-caos-climatico-no-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6853","title":{"rendered":"Artigo jornal Brasil de Fato: O capitalismo de desastre e o caos clim\u00e1tico no Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As \u00e1guas finalmente v\u00eam baixando no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/24\/temporais-e-granizo-atingem-interior-gaucho-e-rios-sobem-na-grande-porto-alegre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rio Grande do Sul\u00a0<\/a>e se aprofunda a mercantiliza\u00e7\u00e3o das formas de repara\u00e7\u00e3o. Desde os primeiros dias da trag\u00e9dia, os governos neoliberais do estado, incluindo prefeituras &#8211; sobretudo a de Porto Alegre &#8211; buscam capitalizar solu\u00e7\u00f5es inovadoras de corpora\u00e7\u00f5es por meio de projetos de reconstru\u00e7\u00e3o das cidades. \u00c9 o que pesquisadoras e pesquisadores\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/17\/ao-evidenciar-emergencia-climatica-tragedia-no-rs-pode-abalar-agenda-politica-da-direita-diz-naomi-klein\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apontam como \u201ccapitalismo dos desastres\u201d.<\/a><\/p>\n<p>Em 2005, o furac\u00e3o Katrina deixou a cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, 80% submersa. O governo local, \u00e0 \u00e9poca, decidiu privatizar a gest\u00e3o da trag\u00e9dia contratando a empresa Alvarez &amp; Marsal para a reconstru\u00e7\u00e3o da cidade. Os resultados foram completamente insatisfat\u00f3rios; as comunidades apontam para uma falta de di\u00e1logo com a empresa, aus\u00eancia da defesa dos direitos \u00e0 moradia, atrasos, superfaturamento, aus\u00eancia de transpar\u00eancia. Al\u00e9m de outras estrat\u00e9gias que envolveram a demiss\u00e3o em massa, a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, a sobreposi\u00e7\u00e3o do interesse privado e comercial sobre o interesse p\u00fablico.<\/p>\n<p>Apesar de tais informa\u00e7\u00f5es serem facilmente encontradas em buscas na internet, o prefeito de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/05\/24\/defesa-civil-de-porto-alegre-emite-alerta-para-risco-de-deslizamentos-nos-proximos-dias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Porto Alegre<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/23\/sebastiao-melo-responsabiliza-chuva-e-populacao-apos-enchente-atingir-novos-bairros-em-porto-alegre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sebasti\u00e3o Melo<\/a>, contratou a mesma empresa para liderar um plano de reconstru\u00e7\u00e3o da cidade. Na mesma esteira, segue o governador do Estado. No dia de 10 de junho, Eduardo Leite anunciou uma \u201cNova Agenda de Desenvolvimento Ga\u00facho\u201d, coordenada com apoio da consultoria internacional McKinsey. A empresa participa tamb\u00e9m da estrutura\u00e7\u00e3o da nova Ag\u00eancia de Desenvolvimento que consta no projeto. A consultora j\u00e1 atuou em v\u00e1rios pa\u00edses, sendo um espelho da promo\u00e7\u00e3o da ideologia neoliberal do crescimento econ\u00f4mico, permeado pela responsabilidade social corporativa.<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_2\"><\/div>\n<p>O que tais empresas de consultoria fazem, na pr\u00e1tica, \u00e9 operar como think tanks. Ou seja, s\u00e3o contratadas com dinheiro p\u00fablico para influenciar na elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, no planejamento estatal. Tem sido uma tend\u00eancia o desinvestimento de governos nas universidades p\u00fablicas e institutos de pesquisa, que contribuem para o monitoramento e planejamento de pesquisa, e a terceiriza\u00e7\u00e3o de tais atividades de elabora\u00e7\u00e3o para consultorias privadas. Dessa forma, parte daquilo que constitui os alicerces dos projetos pol\u00edticos de governabilidade democr\u00e1tica, como o planejamento urbano e o desenvolvimento de planos de a\u00e7\u00e3o de recupera\u00e7\u00e3o justa com participa\u00e7\u00e3o e controle social, est\u00e3o completamente entregues \u00e0s empresas e controlados por setores privados com interesses pr\u00f3prios, inclusive nos resultados pol\u00edticos das elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano que se avizinham<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_3\"><\/div>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Nenhuma novidade<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_4\"><\/div>\n<p>Tais consultorias privadas modelam respostas p\u00fablicas de acordo com suas estrat\u00e9gias de ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Por estarem focadas majoritariamente em respostas macroecon\u00f4micas, prop\u00f5em projetos que transformam prefeituras, governos estaduais e a gest\u00e3o de desastres em verdadeiras empresas, deturpando a l\u00f3gica social do papel do Estado. Em outras palavras, a crise gerada por eventos clim\u00e1ticos extremos, como os vivenciados no RS, torna-se uma janela de oportunidade ao capitalismo para aprofundar a l\u00f3gica neoliberal, transformando a obriga\u00e7\u00e3o do Estado de assegurar os direitos humanos, ambientais, sociais, e at\u00e9 civis e pol\u00edticos, e eventualmente, convertendo o Estado num ap\u00eandice do poder corporativo, n\u00e3o mais um regulador.<\/p>\n<p>Na trag\u00e9dia anunciada\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/17\/bh-atingidos-da-bacia-do-rio-doce-fazem-ato-para-pedir-participacao-popular-em-negociacao-de-repactuacao-com-samarco-vale-e-bhp-billiton\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na bacia do Rio Doce em Minas Gerais<\/a>, em 2015, a Funda\u00e7\u00e3o Renova, formada com o capital das respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o &#8212; as empresas Vale S.A e BHP Billiton &#8212; cumpriu o papel de consultoria intermedi\u00e1ria. Em quase oito anos de atua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova, as casas das popula\u00e7\u00f5es atingidas, at\u00e9 hoje, n\u00e3o foram reconstru\u00eddas de maneira satisfat\u00f3ria, e os debates da repara\u00e7\u00e3o se estendem sem resolu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m dela, outras tantas consultorias privadas foram usadas pelo Poder Judici\u00e1rio para elaborar relat\u00f3rios e pareceres que nada compreendem sobre a realidade social das comunidades atingidas. Muito do custo de tais consultorias, se somados, s\u00e3o maiores do que o dinheiro efetivamente gasto pelas empresas com a repara\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Tanto no caso da Renova, na gest\u00e3o do desastre da minera\u00e7\u00e3o, como Alvarez &amp; Marsal em Nova Orleans, abundam literatura, artigos e not\u00edcias sobre a inefici\u00eancia da abordagem, o que nos leva a perguntar: \u00a0por que os governos do RS insistem em fazer tal escolha pol\u00edtica? A resposta \u00e9 a op\u00e7\u00e3o por aprofundar o sistema capitalista neoliberal e criar mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de lucro em meio \u00e0 dor e ao sofrimento do povo. \u00c9 uma inova\u00e7\u00e3o do capital se aproveitar da crise gerada pelas suas pr\u00f3prias consequ\u00eancias, como o caos clim\u00e1tico e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental, e ter a capacidade de construir novos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de lucro. Desse modo, o que a burguesia na dire\u00e7\u00e3o do RS quer \u00e9 manter e aumentar seus lucros, por isso investe em si mesma, e socorre o empresariado.<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_5\"><\/div>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Movimentos populares constroem solu\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias<\/p>\n<p>Em meio ao negacionismo do problema e da aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o, os movimentos sociais do campo e da cidade, mais uma vez na hist\u00f3ria, demonstram unidade e capacidade de propor solu\u00e7\u00f5es efetivamente populares para sair da crise com foco na solidariedade de classe: aos mais atingidos, o povo trabalhador, que \u00e9 o menos respons\u00e1vel pelo problema, mas sofre ainda mais com o racismo ambiental diante das pol\u00edticas empresariais e higienistas em curso no RS. Na primeira quinzena de junho, o MTST (Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Sem Teto) organizou a ocupa\u00e7\u00e3o Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares (economista, professora e intelectual com vasta contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ao desenvolvimento econ\u00f4mico capitalista, falecida recentemente), em um pr\u00e9dio p\u00fablico da Uni\u00e3o, desocupado, no centro de Porto Alegre. A proposta \u00e9 construir uma op\u00e7\u00e3o de moradia digna para cerca de 300 fam\u00edlias desabrigadas.<\/p>\n<p>Para Fernando Campos, do MTST, a ocupa\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio representa a oportunidade de debater dois temas importantes para as cidades: a fun\u00e7\u00e3o social na cidade e a reciclagem. Segundo ele, \u201ca ocupa\u00e7\u00e3o traz uma solu\u00e7\u00e3o imediata de moradia digna \u00e0s fam\u00edlias desabrigadas, caracterizando-se por uma transforma\u00e7\u00e3o real e permanente do pr\u00e9dio h\u00e1 anos sem uso no \u00a0centro da cidade. Isso porque o pr\u00e9dio poder\u00e1, depois de sofrer as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, servir, aproveitando a estrutura f\u00edsica que j\u00e1 demandou recursos humanos e naturais (dimens\u00e3o da reciclagem), dando sobrevida aos materiais utilizados, e mant\u00e9m a paisagem e hist\u00f3ria do centro da cidade\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto a prefeitura de Porto Alegre\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/28\/tragedia-climatica-no-rs-em-tempos-de-capitalismo-de-catastrofe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">prop\u00f5e construir cidades de lona<\/a>, como abrigos tempor\u00e1rios para as fam\u00edlias atingidas, com apoio do setor industrial, o MTST constr\u00f3i um contraponto de moradia digna \u00e0s fam\u00edlias, ocupando o centro da cidade. Na mesma esteira, o MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) ocupou um pr\u00e9dio antigo da FEPAM (Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental) e foi violentamente retirado em a\u00e7\u00e3o da Brigada Militar (pol\u00edcia militar ga\u00facha), a pedido do governador Eduardo Leite. Em resumo, tratam-se de projetos pol\u00edticos completamente distintos em disputa pelo sentido do exerc\u00edcio do direito \u00e0 cidade na reconstru\u00e7\u00e3o de uma Porto Alegre.<\/p>\n<p>Ocupar aquilo que \u00e9 p\u00fablico para dar dignidade ao povo \u00e9 o que verdadeiramente trata a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira. Zelar pelo bem-estar de seu povo \u00e9 a principal tarefa de um governante. Muitos governos atuais n\u00e3o t\u00eam projeto pol\u00edtico de transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, de melhoria da qualidade de vida de seu povo. Insistem em apostar em velhas formas sob novas roupagens para dar continuidade \u00e0 domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Mas s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es unit\u00e1rias e solid\u00e1rias dos movimentos sociais organizados que apontam caminhos e propostas que, na a\u00e7\u00e3o e na luta de todo dia, v\u00e3o construindo poder popular para reconstruir uma nova sociedade.<\/p>\n<p><strong>Coluna publicada originalmente no site do jornal Brasil de Fato neste link:<\/strong> <em><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/24\/o-capitalismo-de-desastre-e-o-caos-climatico-no-rio-grande-do-sul\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/24\/o-capitalismo-de-desastre-e-o-caos-climatico-no-rio-grande-do-sul<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; As \u00e1guas finalmente v\u00eam baixando no\u00a0Rio Grande do Sul\u00a0e se aprofunda a mercantiliza\u00e7\u00e3o das formas de repara\u00e7\u00e3o. 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Al\u00e9m de outras estrat\u00e9gias que envolveram a demiss\u00e3o em massa, a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, a sobreposi\u00e7\u00e3o do interesse privado e comercial sobre o interesse p\u00fablico. Apesar de tais informa\u00e7\u00f5es serem facilmente encontradas em buscas na internet, o prefeito de\u00a0Porto Alegre,\u00a0Sebasti\u00e3o Melo, contratou a mesma empresa para liderar um plano de reconstru\u00e7\u00e3o da cidade. Na mesma esteira, segue o governador do Estado. No dia de 10 de junho, Eduardo Leite anunciou uma \u201cNova Agenda de Desenvolvimento Ga\u00facho\u201d, coordenada com apoio da consultoria internacional McKinsey. A empresa participa tamb\u00e9m da estrutura\u00e7\u00e3o da nova Ag\u00eancia de Desenvolvimento que consta no projeto. A consultora j\u00e1 atuou em v\u00e1rios pa\u00edses, sendo um espelho da promo\u00e7\u00e3o da ideologia neoliberal do crescimento econ\u00f4mico, permeado pela responsabilidade social corporativa. O que tais empresas de consultoria fazem, na pr\u00e1tica, \u00e9 operar como think tanks. Ou seja, s\u00e3o contratadas com dinheiro p\u00fablico para influenciar na elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, no planejamento estatal. Tem sido uma tend\u00eancia o desinvestimento de governos nas universidades p\u00fablicas e institutos de pesquisa, que contribuem para o monitoramento e planejamento de pesquisa, e a terceiriza\u00e7\u00e3o de tais atividades de elabora\u00e7\u00e3o para consultorias privadas. Dessa forma, parte daquilo que constitui os alicerces dos projetos pol\u00edticos de governabilidade democr\u00e1tica, como o planejamento urbano e o desenvolvimento de planos de a\u00e7\u00e3o de recupera\u00e7\u00e3o justa com participa\u00e7\u00e3o e controle social, est\u00e3o completamente entregues \u00e0s empresas e controlados por setores privados com interesses pr\u00f3prios, inclusive nos resultados pol\u00edticos das elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano que se avizinham Nenhuma novidade Tais consultorias privadas modelam respostas p\u00fablicas de acordo com suas estrat\u00e9gias de ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Por estarem focadas majoritariamente em respostas macroecon\u00f4micas, prop\u00f5em projetos que transformam prefeituras, governos estaduais e a gest\u00e3o de desastres em verdadeiras empresas, deturpando a l\u00f3gica social do papel do Estado. Em outras palavras, a crise gerada por eventos clim\u00e1ticos extremos, como os vivenciados no RS, torna-se uma janela de oportunidade ao capitalismo para aprofundar a l\u00f3gica neoliberal, transformando a obriga\u00e7\u00e3o do Estado de assegurar os direitos humanos, ambientais, sociais, e at\u00e9 civis e pol\u00edticos, e eventualmente, convertendo o Estado num ap\u00eandice do poder corporativo, n\u00e3o mais um regulador. Na trag\u00e9dia anunciada\u00a0na bacia do Rio Doce em Minas Gerais, em 2015, a Funda\u00e7\u00e3o Renova, formada com o capital das respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o &#8212; as empresas Vale S.A e BHP Billiton &#8212; cumpriu o papel de consultoria intermedi\u00e1ria. Em quase oito anos de atua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova, as casas das popula\u00e7\u00f5es atingidas, at\u00e9 hoje, n\u00e3o foram reconstru\u00eddas de maneira satisfat\u00f3ria, e os debates da repara\u00e7\u00e3o se estendem sem resolu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m dela, outras tantas consultorias privadas foram usadas pelo Poder Judici\u00e1rio para elaborar relat\u00f3rios e pareceres que nada compreendem sobre a realidade social das comunidades atingidas. Muito do custo de tais consultorias, se somados, s\u00e3o maiores do que o dinheiro efetivamente gasto pelas empresas com a repara\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas. Tanto no caso da Renova, na gest\u00e3o do desastre da minera\u00e7\u00e3o, como Alvarez &amp; Marsal em Nova Orleans, abundam literatura, artigos e not\u00edcias sobre a inefici\u00eancia da abordagem, o que nos leva a perguntar: \u00a0por que os governos do RS insistem em fazer tal escolha pol\u00edtica? A resposta \u00e9 a op\u00e7\u00e3o por aprofundar o sistema capitalista neoliberal e criar mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de lucro em meio \u00e0 dor e ao sofrimento do povo. \u00c9 uma inova\u00e7\u00e3o do capital se aproveitar da crise gerada pelas suas pr\u00f3prias consequ\u00eancias, como o caos clim\u00e1tico e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental, e ter a capacidade de construir novos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de lucro. Desse modo, o que a burguesia na dire\u00e7\u00e3o do RS quer \u00e9 manter e aumentar seus lucros, por isso investe em si mesma, e socorre o empresariado. 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A proposta \u00e9 construir uma op\u00e7\u00e3o de moradia digna para cerca de 300 fam\u00edlias desabrigadas. Para Fernando Campos, do MTST, a ocupa\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio representa a oportunidade de debater dois temas importantes para as cidades: a fun\u00e7\u00e3o social na cidade e a reciclagem. Segundo ele, \u201ca ocupa\u00e7\u00e3o traz uma solu\u00e7\u00e3o imediata de moradia digna \u00e0s fam\u00edlias desabrigadas, caracterizando-se por uma transforma\u00e7\u00e3o real e permanente do pr\u00e9dio h\u00e1 anos sem uso no \u00a0centro da cidade. Isso porque o pr\u00e9dio poder\u00e1, depois de sofrer as adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, servir, aproveitando a estrutura f\u00edsica que j\u00e1 demandou recursos humanos e naturais (dimens\u00e3o da reciclagem), dando sobrevida aos materiais utilizados, e mant\u00e9m a paisagem e hist\u00f3ria do centro da cidade\u201d. 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