{"id":6739,"date":"2024-05-14T16:46:59","date_gmt":"2024-05-14T19:46:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6739"},"modified":"2025-06-12T13:19:29","modified_gmt":"2025-06-12T16:19:29","slug":"6739","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6739","title":{"rendered":"Artigo no Jornal Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"title\"><strong>Desastre clim\u00e1tico no Rio Grande do Sul est\u00e1 na conta do capital<\/strong><\/h1>\n<div class=\"person\">\n<p>Com um governo estadual que promoveu uma s\u00e9rie de ajustes fiscais,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/04\/eduardo-leite-cortou-ou-alterou-quase-500-pontos-do-codigo-ambiental-do-rs-em-2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">autorizou o desmatamento de \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental<\/a>, desmantelou a lei estadual contra os agrot\u00f3xicos, privatizou servi\u00e7os p\u00fablicos e adotou pol\u00edticas de austeridade para sua gente, o Rio Grande do Sul est\u00e1 enfrentando uma crise clim\u00e1tica sem precedentes em sua hist\u00f3ria. Precisamos refletir sobre a totalidade do problema, e alimentar a mem\u00f3ria de que as chuvas e o alagamento das cidades s\u00e3o consequ\u00eancias de uma s\u00e9rie de causas que v\u00eam sendo denunciadas por movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es ambientais ga\u00fachas h\u00e1 meio s\u00e9culo.<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_1\">\n<p>Desta vez, quase a totalidade dos 497 munic\u00edpios do RS foram afetados pelas inunda\u00e7\u00f5es. Pelo menos um milh\u00e3o e meio de pessoas foram atingidas e o retorno das chuvas torrenciais no final de semana refor\u00e7ou ainda mais este quadro. Mas esses n\u00fameros n\u00e3o explicam porque os impactos ambientais n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos de forma igualit\u00e1ria. Mulheres, corpos negros, perif\u00e9ricos, popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es de rua, trabalhadores e trabalhadores desempregados, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de moradia prec\u00e1ria sofrem mais com os impactos das enchentes. S\u00e3o sempre os mais vulner\u00e1veis que sofrem mais, e os que s\u00e3o tamb\u00e9m os menos respons\u00e1veis pelo problema. Essa desigualdade estrutural do capitalismo, constru\u00edda sobre o patriarcado e o genoc\u00eddio colonial, assim como a luta de classes, \u00e9 considerada na perspectiva da Justi\u00e7a Ambiental, assim como no combate ao Racismo Ambiental.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1rem;\">O que a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha vive reflete a fal\u00eancia de um sistema econ\u00f4mico \u00a0que centra seus interesses na obten\u00e7\u00e3o de lucro por uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o. E toda a explora\u00e7\u00e3o dessas riquezas \u00e9 sustentada por uma intensa e desordenada extra\u00e7\u00e3o de bens e recursos naturais. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tal sistema destruiu exponencialmente, n\u00e3o acompanhando os ciclos de regenera\u00e7\u00e3o da terra e das \u00e1guas. Seguimos reproduzindo uma mentalidade de domina\u00e7\u00e3o da natureza, sem limites e n\u00e3o de harmonia com ela, como nos ensinam os povos origin\u00e1rios. As cenas que vemos na capital ga\u00facha, Porto Alegre, mostram que n\u00e3o h\u00e1 fronteiras para as \u00e1guas e, ao mesmo tempo, que j\u00e1 ultrapassamos os limites de sustenta\u00e7\u00e3o do planeta Terra para a sociedade capitalista.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Um dos resultados de transpor os limites da rela\u00e7\u00e3o ser humano x natureza, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de toda uma esp\u00e9cie diferente de refugiados, os clim\u00e1ticos. Se muitas pessoas hoje no mundo s\u00e3o obrigadas a deixarem sua terra natal, por guerras, em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e s\u00e3o for\u00e7ados a migrar para outros pa\u00edses, n\u00e3o menos crescente \u00e9 o n\u00famero de pessoas que migram por secas, enchentes e furac\u00f5es. A Ag\u00eancia de Refugiados da ONU (ACNUR) aponta que 30,7 milh\u00f5es de pessoas foram deslocadas at\u00e9 2020 por desastres relacionados ao clima. O Banco Mundial estima que 17 milh\u00f5es de pessoas na Am\u00e9rica Latina ter\u00e3o que abandonar suas casas por quest\u00f5es ambientais. O Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos (IDMC) afirma que, em 2012, foram 708 mil brasileiros e brasileiras migrando em decorr\u00eancia de desastres naturais. Essa realidade tem, como \u00fanica causa, a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da natureza, portanto, uma causa decorrente de decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Contudo, o que torna a trag\u00e9dia clim\u00e1tica do RS algo t\u00e3o chocante e midi\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 a extens\u00e3o dos estragos e n\u00famero de atingidos. O chocante \u00e9 ver a for\u00e7a das \u00e1guas retomando seu curso e invadindo tamb\u00e9m resid\u00eancias, bairros e munic\u00edpios que, pela lei do capital financeiro, deveriam estar a salvo dos dissabores reservados apenas \u00e0s classes subalternas. A perplexidade do desastre \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o por parte da pequena, m\u00e9dia e grande burguesia de que, por mais esfor\u00e7o que se fa\u00e7a para ignorar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, ela n\u00e3o desaparecer\u00e1.<\/p>\n<p>Embora hoje o sofrimento esteja atingindo desproporcionalmente comunidades atravessadas por marcadores de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a, o desastre no RS anuncia um futuro devastador para a sociedade como um todo, com cidades inteiras perdidas e mais de\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/meio-ambiente\/ultimas-noticias\/redacao\/2024\/05\/09\/refugiados-climaticos.htm#:~:text=No%20Rio%20Grande%20do%20Sul%3A%20s%C3%A3o%20232.675%20refugiados%20clim%C3%A1ticos%2C%20segundo,poder%20p%C3%BAblico%2C%20e%20165.112%20desalojados\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">230 mil refugiados clim\u00e1ticos que j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e3o voltar para suas casas<\/a>. Isso nos exige identificar quem s\u00e3o os respons\u00e1veis, por que os neg\u00f3cios de sempre (ou o cen\u00e1rio \u201cbusiness as usual\u201d) n\u00e3o poder\u00e3o dar respostas justas, democr\u00e1ticas e solid\u00e1rias em grande escala como se requer. A lista \u00e9 longa e hist\u00f3rica, \u00e9 preciso cobrar a d\u00edvida clim\u00e1tica e mudar o sistema capitalista. Devemos come\u00e7ar pelos mais pr\u00f3ximos e diretamente envolvidos nestas crises, a urg\u00eancia tem classe, a classe trabalhadora e os povos.<\/p>\n<p>Eduardo Leite (PSDB), atual governador do estado do Rio Grande do Sul, ainda em 2019, destruiu a iniciativa do C\u00f3digo Ambiental Estadual, t\u00e9cnica e democraticamente gestada h\u00e1 nove anos por meio de debates, audi\u00eancias p\u00fablicas e aperfei\u00e7oamentos diversos. O texto original do C\u00f3digo, de 2000, contou com a contribui\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas pioneiras do estado e do Brasil, como a Agapan e a Amigas da Terra. As propostas mais relevantes para o enfrentamento da crise clim\u00e1tica foram completamente destru\u00eddas por iniciativa do governo dele, que alterou pelo menos 480 temas centrais.<\/p>\n<div class=\"ads-googletag article_middle\"><\/div>\n<p>Fiel \u00e0 racionalidade corporativa e empresarial, Leite fez de tudo para que exig\u00eancias vitais fossem flexibilizadas a fim de facilitar o licenciamento ambiental aos megaempres\u00e1rios. E quando a \u00e1gua da emerg\u00eancia clim\u00e1tica &#8220;bateu na bunda&#8221;,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/essencial\/eduardo-leite-agradece-a-golpista-elon-musk-por-doar-antenas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agradeceu a solidariedade a Elon Musk<\/a>\u00a0e ao empresariado pela \u201cajuda humanit\u00e1ria S.A.\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em Porto Alegre, o prefeito Sebasti\u00e3o Melo (MDB), sucessor do tamb\u00e9m direitoso Nelson Marchezan Jr., que lhe deixou como legado a\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/camara-de-vereadores-de-porto-alegre-aprova-extincao-de-16-secretarias-da-prefeitura.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">extin\u00e7\u00e3o do Departamento Municipal de Esgotos Pluviais (DEP)<\/a>, passou pelas enchentes de 2023 e, agora em 2024, com 19 das 23 bombas dos sistemas de conten\u00e7\u00e3o de cheias desligadas, com despreparo, precariza\u00e7\u00e3o e falta d&#8217;\u00e1gua como marca da sua gest\u00e3o.<\/p>\n<p>Distante do caos, os fascistas pedem que n\u00e3o se politize o debate clim\u00e1tico, e Melo manda os ricos da capital irem para suas casas na praia. Os munic\u00edpios do litoral, n\u00e3o atingidos pelas cheias, decretam emerg\u00eancia e pedem aux\u00edlio ao governo federal para receber refugiados clim\u00e1ticos VIP, enquanto o governo estadual informa o n\u00famero do seu PIX.<\/p>\n<p>Estamos em ano de elei\u00e7\u00e3o municipal em todo o Brasil,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C64GG3JO_Jf\/?igsh=cWVndm53Zm1paHhu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">menos de 70 munic\u00edpios dos 445 atingidos pelo desastre clim\u00e1tico que se abate sobre o RS havia, at\u00e9 domingo (12\/05), solicitado aux\u00edlio emergencial do governo federal<\/a>, dispon\u00edvel para compra de \u00e1gua, combust\u00edvel, itens para cozinhas comunit\u00e1rias, equipagem de abrigos, entre outros. S\u00f3 podem ser por raz\u00f5es pol\u00edticas, pois as raz\u00f5es humanit\u00e1rias n\u00e3o os movem. Mesmo assim,\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2024\/05\/09\/quaest-68percent-acreditam-que-o-governo-do-rs-tem-muita-responsabilidade-na-tragedia-no-estado.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a m\u00eddia corporativa divulga pesquisa de percep\u00e7\u00e3o de responsabilidade e resposta dos governos federal, estadual e municipais sobre a trag\u00e9dia do RS<\/a>, apontando apoio aos prefeitos bolsonaristas que vendem as cidades ao empresariado.<\/p>\n<p>Desde a semana passada, o governo federal cedeu policiais da For\u00e7a Nacional e o Ex\u00e9rcito para ajudar nos resgates e na manuten\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a. Tamb\u00e9m criou uma for\u00e7a tarefa, com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios minist\u00e9rios e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, para restabelecer vias de acesso a cidades ilhadas e refazer estradas, retomar v\u00f4os comerciais utilizando a Base A\u00e9rea da cidade de Canoas e outros aeroportos do interior ga\u00facho, ajudar na limpeza e na reconstru\u00e7\u00e3o de munic\u00edpios, bem como abordar outros aspectos da crise, como a educa\u00e7\u00e3o, e, especialmente, a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na quinta-feira passada (9\/05), editou\u00a0<a href=\"https:\/\/ohoje.com\/noticia\/politica\/n\/1584601\/t\/governo-federal-publica-medida-provisoria-com-iniciativas-para-ajudar-o-rio-grande-do-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma medida provis\u00f3ria (MP 1216\/24)<\/a>\u00a0que prev\u00ea 12 iniciativas, entre elas a antecipa\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios sociais e para trabalhadores, desconto nos juros em programas de apoio e de financiamento a microempres\u00e1rios individuais (MEIs), pequenas e m\u00e9dias empresas, \u00e0 agricultura familiar e ao agroneg\u00f3cio, R$ 200 milh\u00f5es para financiamento nos bancos p\u00fablicos de projetos de reconstru\u00e7\u00e3o da infraestrutura e para reequil\u00edbrio das empresas. Nessa 2\u00aa feira (13\/05), o Governo Lula anunciou a suspens\u00e3o do pagamento da d\u00edvida do Rio Grande do Sul com a Uni\u00e3o por 3 anos; a medida ir\u00e1 constar em projeto de lei complementar, que ainda ter\u00e1 de ser aprovado pelo Congresso Nacional antes de ser sancionado pelo presidente. Espera-se que mais medidas sejam tomadas. O governador Eduardo Leite estima que a reconstru\u00e7\u00e3o do estado custe R$ 19 bilh\u00f5es, mas h\u00e1 quem calcule que seja bem mais.<\/p>\n<p>Muitos daqueles que hoje choram diante do desastre ga\u00facho, s\u00e3o os mesmos que alimentam a racionalidade predat\u00f3ria que est\u00e1 na base do que est\u00e1 acontecendo no Rio Grande do Sul. O agroneg\u00f3cio e sua bancada, as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais que invadem e espoliam os pa\u00edses, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, a desregulamenta\u00e7\u00e3o ambiental e o negacionismo cient\u00edfico, tudo isso serve de ingrediente para o que est\u00e1 acontecendo. E n\u00e3o s\u00e3o as l\u00e1grimas de crocodilo que poder\u00e3o reverter esse cen\u00e1rio. N\u00e3o s\u00e3o as falsas solu\u00e7\u00f5es vendidas pelo capital que poder\u00e3o solucionar a crise que esses mesmos agentes est\u00e3o causando.<\/p>\n<p>Apesar disso tudo, quanto maior \u00e9 a dimens\u00e3o da cat\u00e1strofe, maior s\u00e3o as demonstra\u00e7\u00f5es de solidariedade vindas desde baixo. Elas abrem caminho para as verdadeiras solu\u00e7\u00f5es. Em situa\u00e7\u00f5es extremas fica vis\u00edvel a impot\u00eancia do Estado, capturado pelas corpora\u00e7\u00f5es, e a pot\u00eancia das comunidades, grupos e coletivos organizados em movimentos sociais populares. Essa for\u00e7a da solidariedade de classe \u00e9 vital e precisa ser reconhecida, potencializada e estimulada a se perpetuar para al\u00e9m de situa\u00e7\u00f5es pontuais de crise e construir poder popular capaz de mudar o sistema. A gesta\u00e7\u00e3o de um novo mundo come\u00e7a pela supera\u00e7\u00e3o dos motivos determinantes da emerg\u00eancia clim\u00e1tica e o reconhecimento de que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 dos de cima.<\/p>\n<p>Tudo que n\u00f3s tem \u00e9 n\u00f3s!<\/p>\n<ul>\n<li>Artigo publicado no jornal Brasil de Fato em 14\/05\/24. Dispon\u00edvel neste link: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/14\/desastre-climatico-no-rio-grande-do-sul-esta-na-conta-do-capital\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/05\/14\/desastre-climatico-no-rio-grande-do-sul-esta-na-conta-do-capital<\/strong><\/em><\/a><\/li>\n<li>Vers\u00e3o em espanhol: <a href=\"https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2024\/05\/17\/articulo-el-desastre-climatico-de-rio-grande-do-sul-corre-a-cuenta-del-capital\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2024\/05\/17\/articulo-el-desastre-climatico-de-rio-grande-do-sul-corre-a-cuenta-del-capital\/<\/strong><\/em><\/a><\/li>\n<li>Vers\u00e3o em ingl\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2024\/05\/17\/article-the-climate-disaster-in-rio-grande-do-sul-is-on-capitals-account\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>https:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2024\/05\/17\/article-the-climate-disaster-in-rio-grande-do-sul-is-on-capitals-account\/<\/strong><\/em><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desastre clim\u00e1tico no Rio Grande do Sul est\u00e1 na conta do capital Com um governo estadual que promoveu uma s\u00e9rie de ajustes fiscais,\u00a0autorizou o desmatamento de \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, desmantelou a lei estadual contra os agrot\u00f3xicos, privatizou servi\u00e7os p\u00fablicos e adotou pol\u00edticas de austeridade para sua gente, o Rio Grande do Sul est\u00e1 enfrentando uma crise clim\u00e1tica sem precedentes em sua hist\u00f3ria. Precisamos refletir sobre a totalidade do problema, e alimentar a mem\u00f3ria de que as chuvas e o alagamento das cidades s\u00e3o consequ\u00eancias de uma s\u00e9rie de causas que v\u00eam sendo denunciadas por movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es ambientais ga\u00fachas h\u00e1 meio s\u00e9culo. Desta vez, quase a totalidade dos 497 munic\u00edpios do RS foram afetados pelas inunda\u00e7\u00f5es. Pelo menos um milh\u00e3o e meio de pessoas foram atingidas e o retorno das chuvas torrenciais no final de semana refor\u00e7ou ainda mais este quadro. Mas esses n\u00fameros n\u00e3o explicam porque os impactos ambientais n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos de forma igualit\u00e1ria. Mulheres, corpos negros, perif\u00e9ricos, popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es de rua, trabalhadores e trabalhadores desempregados, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de moradia prec\u00e1ria sofrem mais com os impactos das enchentes. S\u00e3o sempre os mais vulner\u00e1veis que sofrem mais, e os que s\u00e3o tamb\u00e9m os menos respons\u00e1veis pelo problema. Essa desigualdade estrutural do capitalismo, constru\u00edda sobre o patriarcado e o genoc\u00eddio colonial, assim como a luta de classes, \u00e9 considerada na perspectiva da Justi\u00e7a Ambiental, assim como no combate ao Racismo Ambiental. O que a popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha vive reflete a fal\u00eancia de um sistema econ\u00f4mico \u00a0que centra seus interesses na obten\u00e7\u00e3o de lucro por uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o. E toda a explora\u00e7\u00e3o dessas riquezas \u00e9 sustentada por uma intensa e desordenada extra\u00e7\u00e3o de bens e recursos naturais. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tal sistema destruiu exponencialmente, n\u00e3o acompanhando os ciclos de regenera\u00e7\u00e3o da terra e das \u00e1guas. Seguimos reproduzindo uma mentalidade de domina\u00e7\u00e3o da natureza, sem limites e n\u00e3o de harmonia com ela, como nos ensinam os povos origin\u00e1rios. As cenas que vemos na capital ga\u00facha, Porto Alegre, mostram que n\u00e3o h\u00e1 fronteiras para as \u00e1guas e, ao mesmo tempo, que j\u00e1 ultrapassamos os limites de sustenta\u00e7\u00e3o do planeta Terra para a sociedade capitalista. Um dos resultados de transpor os limites da rela\u00e7\u00e3o ser humano x natureza, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de toda uma esp\u00e9cie diferente de refugiados, os clim\u00e1ticos. Se muitas pessoas hoje no mundo s\u00e3o obrigadas a deixarem sua terra natal, por guerras, em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e s\u00e3o for\u00e7ados a migrar para outros pa\u00edses, n\u00e3o menos crescente \u00e9 o n\u00famero de pessoas que migram por secas, enchentes e furac\u00f5es. A Ag\u00eancia de Refugiados da ONU (ACNUR) aponta que 30,7 milh\u00f5es de pessoas foram deslocadas at\u00e9 2020 por desastres relacionados ao clima. O Banco Mundial estima que 17 milh\u00f5es de pessoas na Am\u00e9rica Latina ter\u00e3o que abandonar suas casas por quest\u00f5es ambientais. O Centro de Monitoramento de Deslocamentos Internos (IDMC) afirma que, em 2012, foram 708 mil brasileiros e brasileiras migrando em decorr\u00eancia de desastres naturais. Essa realidade tem, como \u00fanica causa, a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da natureza, portanto, uma causa decorrente de decis\u00e3o pol\u00edtica. Contudo, o que torna a trag\u00e9dia clim\u00e1tica do RS algo t\u00e3o chocante e midi\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 a extens\u00e3o dos estragos e n\u00famero de atingidos. O chocante \u00e9 ver a for\u00e7a das \u00e1guas retomando seu curso e invadindo tamb\u00e9m resid\u00eancias, bairros e munic\u00edpios que, pela lei do capital financeiro, deveriam estar a salvo dos dissabores reservados apenas \u00e0s classes subalternas. A perplexidade do desastre \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o por parte da pequena, m\u00e9dia e grande burguesia de que, por mais esfor\u00e7o que se fa\u00e7a para ignorar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, ela n\u00e3o desaparecer\u00e1. Embora hoje o sofrimento esteja atingindo desproporcionalmente comunidades atravessadas por marcadores de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a, o desastre no RS anuncia um futuro devastador para a sociedade como um todo, com cidades inteiras perdidas e mais de\u00a0230 mil refugiados clim\u00e1ticos que j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e3o voltar para suas casas. Isso nos exige identificar quem s\u00e3o os respons\u00e1veis, por que os neg\u00f3cios de sempre (ou o cen\u00e1rio \u201cbusiness as usual\u201d) n\u00e3o poder\u00e3o dar respostas justas, democr\u00e1ticas e solid\u00e1rias em grande escala como se requer. A lista \u00e9 longa e hist\u00f3rica, \u00e9 preciso cobrar a d\u00edvida clim\u00e1tica e mudar o sistema capitalista. Devemos come\u00e7ar pelos mais pr\u00f3ximos e diretamente envolvidos nestas crises, a urg\u00eancia tem classe, a classe trabalhadora e os povos. Eduardo Leite (PSDB), atual governador do estado do Rio Grande do Sul, ainda em 2019, destruiu a iniciativa do C\u00f3digo Ambiental Estadual, t\u00e9cnica e democraticamente gestada h\u00e1 nove anos por meio de debates, audi\u00eancias p\u00fablicas e aperfei\u00e7oamentos diversos. O texto original do C\u00f3digo, de 2000, contou com a contribui\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas pioneiras do estado e do Brasil, como a Agapan e a Amigas da Terra. As propostas mais relevantes para o enfrentamento da crise clim\u00e1tica foram completamente destru\u00eddas por iniciativa do governo dele, que alterou pelo menos 480 temas centrais. Fiel \u00e0 racionalidade corporativa e empresarial, Leite fez de tudo para que exig\u00eancias vitais fossem flexibilizadas a fim de facilitar o licenciamento ambiental aos megaempres\u00e1rios. E quando a \u00e1gua da emerg\u00eancia clim\u00e1tica &#8220;bateu na bunda&#8221;,\u00a0agradeceu a solidariedade a Elon Musk\u00a0e ao empresariado pela \u201cajuda humanit\u00e1ria S.A.\u201d. J\u00e1 em Porto Alegre, o prefeito Sebasti\u00e3o Melo (MDB), sucessor do tamb\u00e9m direitoso Nelson Marchezan Jr., que lhe deixou como legado a\u00a0extin\u00e7\u00e3o do Departamento Municipal de Esgotos Pluviais (DEP), passou pelas enchentes de 2023 e, agora em 2024, com 19 das 23 bombas dos sistemas de conten\u00e7\u00e3o de cheias desligadas, com despreparo, precariza\u00e7\u00e3o e falta d&#8217;\u00e1gua como marca da sua gest\u00e3o. Distante do caos, os fascistas pedem que n\u00e3o se politize o debate clim\u00e1tico, e Melo manda os ricos da capital irem para suas casas na praia. Os munic\u00edpios do litoral, n\u00e3o atingidos pelas cheias, decretam emerg\u00eancia e pedem aux\u00edlio ao governo federal para receber refugiados clim\u00e1ticos VIP, enquanto o governo estadual informa o n\u00famero do seu PIX. Estamos em ano de elei\u00e7\u00e3o municipal em todo o Brasil,\u00a0menos de 70 munic\u00edpios dos 445 atingidos pelo desastre clim\u00e1tico que se abate sobre<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603],"tags":[],"class_list":["post-6739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6739"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9442,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6739\/revisions\/9442"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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