{"id":6449,"date":"2023-12-22T15:41:35","date_gmt":"2023-12-22T18:41:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6449"},"modified":"2025-06-12T13:31:44","modified_gmt":"2025-06-12T16:31:44","slug":"as-mudancas-climaticas-os-crimes-corporativos-e-a-injustica-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6449","title":{"rendered":"As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os crimes corporativos e a injusti\u00e7a ambiental"},"content":{"rendered":"<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/16\/cop28-termina-com-movimentos-populares-impotentes-frente-a-industria-do-petroleo-empoderada\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">COP28 mant\u00e9m a hipocrisia<\/a>\u00a0dos espa\u00e7os multilaterais internacionais do clima. Enquanto Estados tentam redesenhar os Acordos de Paris, manipulando a contabilidade das redu\u00e7\u00f5es das emiss\u00f5es e a pol\u00eamica sobre o financiamento do clima, empresas transnacionais hegemonizam as discuss\u00f5es com as propostas de solu\u00e7\u00e3o &#8220;verde&#8221;. Tais propostas envolvem investimentos do capital financeiro no uso de hidrog\u00eanio verde, em gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica e solar e em eletrifica\u00e7\u00e3o de carros, todas respostas pensadas nos termos de uma economia extrativa com impactos desproporcionais no Sul Global, aprofundando desigualdades e injusti\u00e7as ambientais.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Brasil acumula muitas contradi\u00e7\u00f5es ao seguir mantendo sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas transnacionais. Na pr\u00f3pria COP 28, a tenda Brasil, organizada pelo governo, com o lema &#8220;Brasil unido em sua diversidade a caminho do futuro sustent\u00e1vel&#8221;, contava com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/12\/vale-jbs-e-braskem-conheca-os-viloes-do-clima-que-pregaram-sustentabilidade-na-cop28\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pain\u00e9is das empresas Vale S.A e Braskem<\/a>, duas mineradoras respons\u00e1veis pelos maiores crimes socioambientais do pa\u00eds. Al\u00e9m delas, o Pacto Global da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), \u00a0mecanismo promotor da responsabilidade social corporativa, teve seu espa\u00e7o na tenda. O que corpora\u00e7\u00f5es conhecidas nacionalmente pela viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos e ambientais dos povos, e o instrumento corporativo de &#8220;lavagem verde e social&#8221;\u00a0t\u00eam para construir e agregar \u00e0 nossa na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A Vale S.A, BHP Billiton Brasil Ltda. e Samarco Minera\u00e7\u00e3o S.A s\u00e3o respons\u00e1veis pelos rompimentos das barragens de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/06\/atingidos-de-brumadinho-prestam-solidariedade-aos-de-mariana-em-minas-gerais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fund\u00e3o, na cidade de Mariana, e C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, em Brumadinho<\/a>, ambas no estado de Minas Gerais &#8211; afora outras diversas barragens de rejeitos em risco de rompimento no pa\u00eds. Por anos, a empresa vinha sendo alertada pelos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o da necessidade de refor\u00e7o da seguran\u00e7a das minas. Inclusive, especialistas apontam para o risco do uso de determinadas tecnologias no manejo do rejeito. Nenhuma das pol\u00edticas corporativas conseguiu conter a destrui\u00e7\u00e3o. E vale ressaltar que, nesses oito anos do desastre de Fund\u00e3o, as v\u00edtimas seguem buscando indeniza\u00e7\u00e3o. O que os casos revelam \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de uma arquitetura da impunidade corporativa.<\/p>\n<p>No caso da Braskem, a hist\u00f3ria se repete. Desde os anos 80, a sociedade civil e pesquisadores da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) alertam para as consequ\u00eancias da expans\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de sal-gema em Macei\u00f3, em Alagoas.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/14\/nossa-vida-esta-um-lixo-familias-criticam-acordo-firmado-pela-braskem-em-maceio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Por d\u00e9cadas, a empresa extrai sal-gema, transformando o subsolo da cidade em v\u00e1rias crateras<\/a>. Moradores da regi\u00e3o atingidos denunciam rachaduras nas casas, cuja responsabilidade a empresa negava. Em 2018, quando ocorreu o terremoto na cidade, bairros vieram abaixo. A mineradora iniciou sua atividade instalando em um santu\u00e1rio ecol\u00f3gico estuarino; n\u00e3o havia d\u00favidas de que a destrui\u00e7\u00e3o ambiental come\u00e7ava ali.<\/p>\n<p>Importante destacar que os setores corporativos do agroneg\u00f3cio, minera\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o civil, imobili\u00e1rio e de energia t\u00eam flexibilizado a legisla\u00e7\u00e3o. Temos tido eventos clim\u00e1ticos extremos resultantes das altera\u00e7\u00f5es do clima em fun\u00e7\u00e3o dos impactos gerados pelas corpora\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos s\u00e9culos. \u00a0A diferen\u00e7a entre os crimes de Brumadinho, Mariana, Macei\u00f3 e das enchentes na regi\u00e3o de Maquin\u00e9 e do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/11\/ha-muito-trabalho-a-ser-feito-nas-cidades-atingidas-pelas-enchentes-diz-dirigente-do-movimento-dos-atingidos-por-barragens\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vale do Taquari<\/a>, no Rio Grande do Sul; em Teres\u00f3polis, no Rio de Janeiro; em Santa Catarina e em Minas Gerais \u00e9 o tempo. Alguns\u00a0 demoram centenas de anos para recuperar, ainda que parcialmente, a qualidade de vida das pessoas e a integridade dos ecossistemas e outras dezenas; o certo \u00e9 a impunidade dessas empresas e a viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos, que est\u00e3o no plano de neg\u00f3cios. N\u00e3o \u00e9 acidente, \u00e9 parte do plano. Sabiam que aconteceria e que o lucro seria maior em n\u00e3o fazer nada do que investir em solu\u00e7\u00f5es reais. Assim, a impunidade segue do lado das corpora\u00e7\u00f5es e dos Estados capturados.<\/p>\n<p>Quanto ao tema da energia, no regresso da COP28, o governo brasileiro, via ANP (Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo), decidiu disponibilizar em leil\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/09\/leilao-do-fim-do-mundo-vai-vender-blocos-para-petroleo-e-gas-na-amazonia-instituto-arayara-alerta-para-riscos-ambientais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">603 blocos para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s<\/a>, em regi\u00f5es que incluem a afeta\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia brasileira. O leil\u00e3o de po\u00e7os ir\u00e1 permitir que mais empresas transnacionais venham ao pa\u00eds determinar os rumos de nosso desenvolvimento e reduzindo, tamb\u00e9m, a capacidade do Estado em construir, com participa\u00e7\u00e3o popular, uma pol\u00edtica necess\u00e1ria de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa para a classe trabalhadora, incluindo perspectivas da justi\u00e7a ambiental e do feminismo popular. Ao inv\u00e9s disso, mais destrui\u00e7\u00e3o e impactos anunciados, na contram\u00e3o de um movimento de redu\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que foi a t\u00f4nica desta COP depois de 28 confer\u00eancias realizadas desde 1992.<\/p>\n<p>Movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es feministas t\u00eam denunciado o avan\u00e7o dos aerogeradores para produ\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica no Nordeste e sua rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia de g\u00eanero. No polo da Borborema, na Para\u00edba, a instala\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/16\/mpf-e-mp-ba-pedem-anulacao-de-licenciamentos-de-complexo-eolico-em-canudos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">parques e\u00f3licos<\/a>\u00a0t\u00eam alterado toda a din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o camponesa. No litoral do Cear\u00e1, a instala\u00e7\u00e3o de e\u00f3licas em alto mar atrapalha a produ\u00e7\u00e3o pesqueira, afetando pescadores e ribeirinhos. Evidenciando a contradi\u00e7\u00e3o entre o uso de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e a sua aplica\u00e7\u00e3o concreta, que segue causando conflitos socioambientais.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de mencionar o papel do Congresso Nacional. O Senado Federal, como alavanca da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora no pa\u00eds, aprovou, ao final de novembro, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/28\/pl-do-veneno-e-aprovado-no-plenario-do-senado-com-apenas-um-voto-contrario\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PL 1459\/2022<\/a>, que flexibiliza, ainda mais, a libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds. Apesar dos in\u00fameros estudos cient\u00edficos, posicionamento de Conselhos e \u00f3rg\u00e3os de classe, como CONSEA (Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional) e CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos), que alertam para as perdas da biodiversidade e do risco de aumento das doen\u00e7as, como c\u00e2ncer, relacionadas ao uso intensivo de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds. O Congresso aprova, e a Presid\u00eancia tem dificuldade de veto.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, observamos que as solu\u00e7\u00f5es para a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/23\/consequencias-da-crise-climatica-sao-mais-sentidas-nas-favelashttps:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/23\/consequencias-da-crise-climatica-sao-mais-sentidas-nas-favelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">crise clim\u00e1tica<\/a>\u00a0s\u00e3o pensadas pelos mesmos agentes causadores delas: as grandes corpora\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria ambiental nos revela como a intensifica\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e1 relacionada ao avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o capitalista, na promo\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento desigual. No qual, pa\u00edses do Norte Global sa\u00edram na frente na corrida imperialista, destruindo comunidades, territ\u00f3rios, escravizando popula\u00e7\u00f5es e colonizando a natureza, cujos efeitos profundos s\u00e3o sentidos pelas atuais gera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o os pa\u00edses do Norte Global e organismos multilaterais que promovem a atua\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais, facilitando seu processo de acumula\u00e7\u00e3o por depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Desse modo, qualquer solu\u00e7\u00e3o pensada nos termos atuais das rela\u00e7\u00f5es sociais internacionais, e de sua base, as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o capitalista, s\u00e3o mecanismos para seguir mantendo a ordem de destrui\u00e7\u00e3o socioambiental.<\/p>\n<p>Seguimos nos desencontrando, enquanto promovemos um discurso internacional avan\u00e7ado, e n\u00e3o sabemos transcender as pol\u00edticas internas desenvolvimentistas apoiadas pela burguesia nacional. Dessa forma, terminamos fazendo um grande pacto de mediocridade, concedendo continuamente nossa soberania \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 a agroecologia que esfria o planeta, produzindo sem veneno alimentos saud\u00e1veis<\/p><\/blockquote>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o de um Brasil novo, que seja o pa\u00eds do seu povo, n\u00e3o um pa\u00eds sustent\u00e1vel, mas um pa\u00eds ecol\u00f3gico e com justi\u00e7a ambiental, \u00e9 preciso aprender com as nossas pr\u00e1ticas cotidianas, povos do campo, \u00e1guas e florestas e, tamb\u00e9m, com as periferias das cidades, para manter a terra viva, suas culturas e \u00a0biomas, \u00a0onde est\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es para a crise clim\u00e1tica. \u00c9 a agroecologia que esfria o planeta, produzindo sem veneno alimentos saud\u00e1veis. S\u00e3o as Terras Ind\u00edgenas demarcadas, convivendo com outras rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o da vida no territ\u00f3rio, assim como as terras quilombolas, os territ\u00f3rios de povos e comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>A nossa hist\u00f3ria n\u00e3o permite aceitarmos que as corpora\u00e7\u00f5es sejam solu\u00e7\u00f5es, um mundo dirigido pelo crescente poder corporativo que s\u00f3 tem nos levado \u00e0s m\u00faltiplas \u00a0crises e aos desastres socioecol\u00f3gicos. Precisamos, com urg\u00eancia, responsabilizar as corpora\u00e7\u00f5es pelos seus crimes corporativos. S\u00e3o 37 anos de impunidade do empreendimento de sal-gema em Macei\u00f3; s\u00e3o s\u00e9culos de impunidade das mineradoras e das grandes planta\u00e7\u00f5es transnacionais no solo brasileiro. Em face disso, a responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas e a regula\u00e7\u00e3o estatal do setor \u00e9 fundamental. Por isso, a proposta do PL n.\u00ba 572\/2022 dever\u00e1 ser uma pauta priorit\u00e1ria dos povos para 2024.<\/p>\n<p>Um Brasil livre e soberano, construindo um projeto pol\u00edtico de liberta\u00e7\u00e3o para si e para os povos da Am\u00e9rica Latina e Caribe, \u00e9 a nossa urg\u00eancia. Chega de falsas solu\u00e7\u00f5es! Chega de impunidade corporativa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/21\/as-mudancas-climaticas-os-crimes-corporativos-e-a-injustica-ambiental\">Coluna originalmente publicada no Jornal Brasil de Fato, em 21 de dezembro de 2022, em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/12\/21\/as-mudancas-climaticas-os-crimes-corporativos-e-a-injustica-ambiental\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0COP28 mant\u00e9m a hipocrisia\u00a0dos espa\u00e7os multilaterais internacionais do clima. Enquanto Estados tentam redesenhar os Acordos de Paris, manipulando a contabilidade das redu\u00e7\u00f5es das emiss\u00f5es e a pol\u00eamica sobre o financiamento do clima, empresas transnacionais hegemonizam as discuss\u00f5es com as propostas de solu\u00e7\u00e3o &#8220;verde&#8221;. Tais propostas envolvem investimentos do capital financeiro no uso de hidrog\u00eanio verde, em gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica e solar e em eletrifica\u00e7\u00e3o de carros, todas respostas pensadas nos termos de uma economia extrativa com impactos desproporcionais no Sul Global, aprofundando desigualdades e injusti\u00e7as ambientais. Enquanto isso, o Brasil acumula muitas contradi\u00e7\u00f5es ao seguir mantendo sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas transnacionais. Na pr\u00f3pria COP 28, a tenda Brasil, organizada pelo governo, com o lema &#8220;Brasil unido em sua diversidade a caminho do futuro sustent\u00e1vel&#8221;, contava com\u00a0pain\u00e9is das empresas Vale S.A e Braskem, duas mineradoras respons\u00e1veis pelos maiores crimes socioambientais do pa\u00eds. Al\u00e9m delas, o Pacto Global da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), \u00a0mecanismo promotor da responsabilidade social corporativa, teve seu espa\u00e7o na tenda. O que corpora\u00e7\u00f5es conhecidas nacionalmente pela viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos e ambientais dos povos, e o instrumento corporativo de &#8220;lavagem verde e social&#8221;\u00a0t\u00eam para construir e agregar \u00e0 nossa na\u00e7\u00e3o? A Vale S.A, BHP Billiton Brasil Ltda. e Samarco Minera\u00e7\u00e3o S.A s\u00e3o respons\u00e1veis pelos rompimentos das barragens de\u00a0Fund\u00e3o, na cidade de Mariana, e C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, em Brumadinho, ambas no estado de Minas Gerais &#8211; afora outras diversas barragens de rejeitos em risco de rompimento no pa\u00eds. Por anos, a empresa vinha sendo alertada pelos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o da necessidade de refor\u00e7o da seguran\u00e7a das minas. Inclusive, especialistas apontam para o risco do uso de determinadas tecnologias no manejo do rejeito. Nenhuma das pol\u00edticas corporativas conseguiu conter a destrui\u00e7\u00e3o. E vale ressaltar que, nesses oito anos do desastre de Fund\u00e3o, as v\u00edtimas seguem buscando indeniza\u00e7\u00e3o. O que os casos revelam \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de uma arquitetura da impunidade corporativa. No caso da Braskem, a hist\u00f3ria se repete. Desde os anos 80, a sociedade civil e pesquisadores da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) alertam para as consequ\u00eancias da expans\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o de sal-gema em Macei\u00f3, em Alagoas.\u00a0Por d\u00e9cadas, a empresa extrai sal-gema, transformando o subsolo da cidade em v\u00e1rias crateras. Moradores da regi\u00e3o atingidos denunciam rachaduras nas casas, cuja responsabilidade a empresa negava. Em 2018, quando ocorreu o terremoto na cidade, bairros vieram abaixo. A mineradora iniciou sua atividade instalando em um santu\u00e1rio ecol\u00f3gico estuarino; n\u00e3o havia d\u00favidas de que a destrui\u00e7\u00e3o ambiental come\u00e7ava ali. Importante destacar que os setores corporativos do agroneg\u00f3cio, minera\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o civil, imobili\u00e1rio e de energia t\u00eam flexibilizado a legisla\u00e7\u00e3o. Temos tido eventos clim\u00e1ticos extremos resultantes das altera\u00e7\u00f5es do clima em fun\u00e7\u00e3o dos impactos gerados pelas corpora\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos s\u00e9culos. \u00a0A diferen\u00e7a entre os crimes de Brumadinho, Mariana, Macei\u00f3 e das enchentes na regi\u00e3o de Maquin\u00e9 e do\u00a0Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul; em Teres\u00f3polis, no Rio de Janeiro; em Santa Catarina e em Minas Gerais \u00e9 o tempo. Alguns\u00a0 demoram centenas de anos para recuperar, ainda que parcialmente, a qualidade de vida das pessoas e a integridade dos ecossistemas e outras dezenas; o certo \u00e9 a impunidade dessas empresas e a viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos povos, que est\u00e3o no plano de neg\u00f3cios. N\u00e3o \u00e9 acidente, \u00e9 parte do plano. Sabiam que aconteceria e que o lucro seria maior em n\u00e3o fazer nada do que investir em solu\u00e7\u00f5es reais. Assim, a impunidade segue do lado das corpora\u00e7\u00f5es e dos Estados capturados. Quanto ao tema da energia, no regresso da COP28, o governo brasileiro, via ANP (Ag\u00eancia Nacional do Petr\u00f3leo), decidiu disponibilizar em leil\u00e3o\u00a0603 blocos para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, em regi\u00f5es que incluem a afeta\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia brasileira. O leil\u00e3o de po\u00e7os ir\u00e1 permitir que mais empresas transnacionais venham ao pa\u00eds determinar os rumos de nosso desenvolvimento e reduzindo, tamb\u00e9m, a capacidade do Estado em construir, com participa\u00e7\u00e3o popular, uma pol\u00edtica necess\u00e1ria de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa para a classe trabalhadora, incluindo perspectivas da justi\u00e7a ambiental e do feminismo popular. Ao inv\u00e9s disso, mais destrui\u00e7\u00e3o e impactos anunciados, na contram\u00e3o de um movimento de redu\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, que foi a t\u00f4nica desta COP depois de 28 confer\u00eancias realizadas desde 1992. Movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es feministas t\u00eam denunciado o avan\u00e7o dos aerogeradores para produ\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica no Nordeste e sua rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia de g\u00eanero. No polo da Borborema, na Para\u00edba, a instala\u00e7\u00e3o de\u00a0parques e\u00f3licos\u00a0t\u00eam alterado toda a din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o camponesa. No litoral do Cear\u00e1, a instala\u00e7\u00e3o de e\u00f3licas em alto mar atrapalha a produ\u00e7\u00e3o pesqueira, afetando pescadores e ribeirinhos. Evidenciando a contradi\u00e7\u00e3o entre o uso de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e a sua aplica\u00e7\u00e3o concreta, que segue causando conflitos socioambientais. N\u00e3o podemos deixar de mencionar o papel do Congresso Nacional. O Senado Federal, como alavanca da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora no pa\u00eds, aprovou, ao final de novembro, o\u00a0PL 1459\/2022, que flexibiliza, ainda mais, a libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds. Apesar dos in\u00fameros estudos cient\u00edficos, posicionamento de Conselhos e \u00f3rg\u00e3os de classe, como CONSEA (Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional) e CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos), que alertam para as perdas da biodiversidade e do risco de aumento das doen\u00e7as, como c\u00e2ncer, relacionadas ao uso intensivo de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds. O Congresso aprova, e a Presid\u00eancia tem dificuldade de veto. Nesse cen\u00e1rio, observamos que as solu\u00e7\u00f5es para a\u00a0crise clim\u00e1tica\u00a0s\u00e3o pensadas pelos mesmos agentes causadores delas: as grandes corpora\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria ambiental nos revela como a intensifica\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e1 relacionada ao avan\u00e7o da industrializa\u00e7\u00e3o capitalista, na promo\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento desigual. No qual, pa\u00edses do Norte Global sa\u00edram na frente na corrida imperialista, destruindo comunidades, territ\u00f3rios, escravizando popula\u00e7\u00f5es e colonizando a natureza, cujos efeitos profundos s\u00e3o sentidos pelas atuais gera\u00e7\u00f5es. S\u00e3o os pa\u00edses do Norte Global e organismos multilaterais que promovem a atua\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais, facilitando seu processo de acumula\u00e7\u00e3o por depend\u00eancia. Desse modo, qualquer solu\u00e7\u00e3o pensada nos termos atuais das rela\u00e7\u00f5es sociais internacionais, e de sua base, as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o capitalista, s\u00e3o mecanismos para seguir mantendo a ordem de destrui\u00e7\u00e3o socioambiental. 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