{"id":6280,"date":"2023-11-08T09:21:39","date_gmt":"2023-11-08T12:21:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6280"},"modified":"2025-06-12T13:41:50","modified_gmt":"2025-06-12T16:41:50","slug":"para-onde-vamos-com-as-negociacoes-do-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6280","title":{"rendered":"Para onde vamos com as negocia\u00e7\u00f5es do clima?"},"content":{"rendered":"<p>Nas pr\u00f3ximas semanas, ser\u00e1 iniciada mais uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/08\/jovens-amazonidas-se-articulam-para-pautar-solucoes-climaticas-na-cop30\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Confer\u00eancia das Partes do Clima da ONU<\/a>\u00a0(COP 28), em Dubai. A confer\u00eancia ter\u00e1 como foco quatro eixos: a acelera\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/04\/transicao-energetica-sera-mais-lenta-que-o-necessario-no-brasil-ate-2050-dizem-especialistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/a>\u00a0para redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono at\u00e9 2030; avan\u00e7ar no fortalecimento da luta contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, cumprindo promessas antigas, dentre elas a concretiza\u00e7\u00e3o do fundo clim\u00e1tico; colocar a natureza, as pessoas, as vidas e os meios de subsist\u00eancia no centro da a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica; marcar-se como um espa\u00e7o de inclus\u00e3o. Como podemos observar, os desafios lan\u00e7ados n\u00e3o foram pequenos; e mais ainda, se pensarmos nas disputas ao redor dela.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/28\/projeto-de-lei-da-transicao-energetica-justa-e-apresentado-no-senado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/a>, a guerra da Ucr\u00e2nia acelerou a press\u00e3o para redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e0 medida que exp\u00f4s pa\u00edses europeus a um risco de fornecimento de g\u00e1s. Frente a isso, pa\u00edses desenvolvidos come\u00e7aram a acelerar investimentos para transi\u00e7\u00e3o de energia, com est\u00edmulos para produ\u00e7\u00e3o de e\u00f3licas e solares e o uso de ve\u00edculos el\u00e9tricos, dentre outras medidas. Ocorre que tais tecnologias, consideradas renov\u00e1veis, s\u00e3o respons\u00e1veis pelo aumento da demanda de metais como l\u00edtio, cobre e n\u00edquel, os quais pressionam pelo aprofundamento da destrui\u00e7\u00e3o do extrativismo mineral no Sul Global, dando continuidade ao colonialismo que ataca a justi\u00e7a ambiental.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, como vem sendo pensada, confere\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/11\/14\/com-criticas-a-cop27-manifesto-de-povos-da-amazonia-defende-desmercantilizacao-da-floresta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">protagonismo \u00e0s empresas<\/a>, especialmente transnacionais, mantendo a concentra\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o repartindo o controle e nem as tecnologias. Muitas empresas do setor petrol\u00edfero e mineral t\u00eam aderido ao discurso das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, adotando pol\u00edticas de &#8220;pintando a cara de verde&#8221;\u00a0(greenwashing). Um exemplo s\u00e3o a ades\u00e3o aos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/07\/17\/sem-atencao-ambiental-brasil-patina-no-mesmo-lugar-alerta-pesquisadora-da-unicamp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mecanismos de emiss\u00e3o zero<\/a>\u00a0(Net Zero), nos quais ao inv\u00e9s de reduzir a produ\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o de poluentes, as empresas compensam sua cadeia produtiva poluidora com cr\u00e9ditos de carbono sujos, violentos, contaminantes e que retiram direitos. N\u00e3o por acaso, as empresas Vale S.A e Braskem, infelizmente, estar\u00e3o no Espa\u00e7o Brasil da COP 28 falando sobre o tema.<\/p>\n<p>Na mesma esteira, na defesa da organiza\u00e7\u00e3o do mercado de carbono, os governadores dos estados brasileiros fundaram o Cons\u00f3rcio Brasil Verde na COP 26, o qual dever\u00e1 ter uma participa\u00e7\u00e3o mais destacada na pr\u00f3xima confer\u00eancia. \u00a0Esse Cons\u00f3rcio, que ter\u00e1 tamb\u00e9m pain\u00e9is no Espa\u00e7o Brasil, aponta a necessidade de construir um Mercado Brasileiro de Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es (MBRE) e um padr\u00e3o nacional de pagamento por servi\u00e7os ambientais (PSA). Os governadores est\u00e3o interessados, ainda, no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/06\/07\/projeto-preve-politicas-publicas-socioambientais-para-prevenir-enchentes-e-deslizamentos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano de A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica<\/a>\u00a0(PAC 2050) lan\u00e7ado pelo governo federal, com metas para alcan\u00e7ar a neutralidade das emiss\u00f5es at\u00e9 2050. O Plano descreve v\u00e1rias pol\u00edticas mitigat\u00f3rias para setores da economia como transporte, energia e agropecu\u00e1ria, criando oportunidades de neg\u00f3cios aos governos estaduais com a promo\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es sobre o clima.<\/p>\n<div>\n<p>Para a COP 28, espera-se ainda que o Brasil se envolva nas discuss\u00f5es sobre a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Perdas e Danos, no seguimento ao Plano de Implementa\u00e7\u00e3o de Sharm El-Sheikh dos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/10\/26\/mundo-esta-distante-da-meta-do-acordo-de-paris-diz-onu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acordos de Paris<\/a>. Em 2022, j\u00e1 eleito, por\u00e9m sem tomar posse ainda, o presidente Lula destacou, na COP 27, seu compromisso com o combate ao desmatamento &#8211; principal causa de emiss\u00f5es no pa\u00eds &#8211; atrelado ao avan\u00e7o das pol\u00edticas de combate \u00e0 desigualdade. No discurso, o presidente evocou o papel dos povos ind\u00edgenas para a preserva\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Resta saber se ser\u00e1 mantida essa mesma linha de discuss\u00e3o, quando envolver quem ir\u00e1 acessar os recursos de tais fundos no Brasil. Vale destacar que o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima tem empenhado esfor\u00e7os para cria\u00e7\u00e3o do Fundo Clima.<\/p>\n<p>As\u00a0<a href=\"http:\/\/xn--em%20meio%20%20seca%20histrica%2C%20amazonas%20perde%20superfcie%20de%20gua%20maior%20do%20que%20manaus%20%28am%29-19i0pr9cht\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">secas na Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0e as\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2023\/10\/07\/porto-alegre-podera-ter-uma-enchente-igual-a-de-1941-a-qualquer-momento-diz-pesquisadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">enchentes no Sul<\/a>\u00a0do Brasil s\u00e3o desastres socioambientais exemplificadores das consequ\u00eancias imediatas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ao analisarmos suas consequ\u00eancias, observamos que os danos se distribuem de maneira desigual entre pessoas mais empobrecidas, mulheres, negras e comunidades rurais e perif\u00e9ricas. Em geral, os danos clim\u00e1ticos s\u00e3o mais graves em comunidades j\u00e1 vulnerabilizadas por contextos de desigualdades sociais e a n\u00e3o garantia dos direitos e investimentos de infraestrutura.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6281\" aria-describedby=\"caption-attachment-6281\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6281 size-full\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/as-secas-amazonia.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"531\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/as-secas-amazonia.jpeg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/as-secas-amazonia-300x199.jpeg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/as-secas-amazonia-768x510.jpeg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/as-secas-amazonia-500x332.jpeg 500w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6281\" class=\"wp-caption-text\">As secas na Amaz\u00f4nia e as enchentes no Sul do Brasil s\u00e3o desastres socioambientais que mostram as consequ\u00eancias imediatas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas &#8211; Alberto C\u00e9sar Ara\u00fajo\/Amaz\u00f4nia Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Frente a essas desigualdades, ao anunciar uma COP que pretende ser realmente inclusiva, precisa haver uma mudan\u00e7a de paradigma para que a centralidade da Natureza, das pessoas, da vida humana, das d\u00edvidas hist\u00f3ricas e repara\u00e7\u00f5es estejam no centro da economia, e n\u00e3o como um adere\u00e7o de mercado. Sabemos que os espa\u00e7os da COP t\u00eam sido cada vez mais hegemonizados pela vis\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e suas falsas solu\u00e7\u00f5es de mercado mais do mesmo e das mesmas que nos trouxeram at\u00e9 aqui com a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/09\/21\/economia-verde-e-falacia-miraculosa-para-tempos-de-destruicao-diz-larissa-packer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">economia verde do d\u00f3lar da Bolsa de Valores<\/a>\u00a0e do rentismo. Ao inv\u00e9s de conectarem a solu\u00e7\u00f5es dos povos com a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, o acesso e perman\u00eancia \u00e0 terra e territ\u00f3rio de povos e comunidades; como a\u00e7\u00e3o para a prote\u00e7\u00e3o dos bosques, das \u00e1guas e das florestas, com sua comprova\u00e7\u00e3o, ontem e hoje, com os territ\u00f3rios mais preservados, as pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o est\u00e3o reduzindo as m\u00e9tricas de carbono.<\/p>\n<p>Os movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil defendem este profundo repensar dos espa\u00e7os multilaterais do clima. N\u00e3o podemos seguir construindo respostas para as\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/07\/29\/crise-climatica-a-tragedia-anunciada-pelo-relogio-do-clima\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/a>\u00a0que n\u00e3o enfrentam a raiz do problema, ou seja, a forma, profundamente desigual, de como produzimos, geramos, circulamos e comercializamos na sociedade capitalista. Igualmente, \u00e9 preciso reconhecer que a crise clim\u00e1tica n\u00e3o reflete apenas os aspectos f\u00edsicos do planeta; esta \u00e9 uma abordagem limitada e limitadora. Na verdade, a crise clim\u00e1tica se entrela\u00e7a a formas hist\u00f3ricas de viol\u00eancia de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e \u00e0 colonialidade. H\u00e1 uma d\u00edvida hist\u00f3rica da degrada\u00e7\u00e3o ambiental em diversos pa\u00edses que n\u00e3o pode ser reduzida a pol\u00edticas mitigadoras e, nem mesmo, \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o financeira por meio de Fundo.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a come\u00e7a com o olhar da totalidade das causas e consequ\u00eancias das\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/11\/crises-climaticas-sistemicas-e-o-estado-que-queremos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/a>. Repensar o papel que determinados atores ir\u00e3o ter nas negocia\u00e7\u00f5es do futuro da humanidade. E nesse sentido, as empresas transnacionais ocupam muito mais o lugar de r\u00e9u do que de protagonista das solu\u00e7\u00f5es. Movimentos populares, mulheres e representantes da sociedade civil est\u00e3o cada vez mais ausentes dos centros decis\u00f3rios sobre a governan\u00e7a clim\u00e1tica. As negocia\u00e7\u00f5es seguem regidas pelo crivo do Norte Global para o Sul Global. Reconhecemos que, nos \u00faltimos anos, as COPs do Clima est\u00e3o se tornando espa\u00e7os improdutivos, nos quais n\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7os concretos na redu\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o da Terra, justamente pela forma como s\u00e3o organizadas.<\/p>\n<p>E o Brasil? At\u00e9 agora, o governo federal segue a cartilha da economia verde. V\u00e1rios minist\u00e9rios t\u00eam trabalhado para a regula\u00e7\u00e3o do mercado de carbono, especialmente de REDD (Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es por Desmatamento e Degrada\u00e7\u00e3o), sem realizar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/12\/23\/em-marajo-comunidades-questionam-venda-de-creditos-de-carbono-sobre-seu-territorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estudos dos impactos aos modos de vida de comunidades<\/a>. Outras iniciativas, como a bioeconomia, caminham a galope na constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Em contrapartida, esfor\u00e7os para titula\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios quilombolas, demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e contra a efetiva\u00e7\u00e3o da tese do marco temporal, avan\u00e7o das pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o da agroecologia, andam lentamente.<\/p>\n<p>Enquanto a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/02\/28\/moradores-de-periferias-morrem-15-vezes-mais-por-eventos-climaticos-extremos-diz-ipcc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">justi\u00e7a clim\u00e1tica<\/a>, como a\u00e7\u00e3o para enfrentamento das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas com centralidade na promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas, justa, inclusiva, com respeito aos direitos humanos e socioambientais, n\u00e3o for o foco das negocia\u00e7\u00f5es do clima, n\u00e3o haver\u00e1 reparo para o planeta. Enquanto aqueles que destroem o clima forem os donos de sua governan\u00e7a, seguiremos construindo acordos que nos levar\u00e3o ao fracasso.<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/07\/para-onde-vamos-com-as-negociacoes-do-clima\">Texto originalmente publicado no Jornal Brasil de Fato, em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/07\/para-onde-vamos-com-as-negociacoes-do-clima\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas pr\u00f3ximas semanas, ser\u00e1 iniciada mais uma\u00a0Confer\u00eancia das Partes do Clima da ONU\u00a0(COP 28), em Dubai. A confer\u00eancia ter\u00e1 como foco quatro eixos: a acelera\u00e7\u00e3o da\u00a0transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u00a0para redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de carbono at\u00e9 2030; avan\u00e7ar no fortalecimento da luta contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, cumprindo promessas antigas, dentre elas a concretiza\u00e7\u00e3o do fundo clim\u00e1tico; colocar a natureza, as pessoas, as vidas e os meios de subsist\u00eancia no centro da a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica; marcar-se como um espa\u00e7o de inclus\u00e3o. Como podemos observar, os desafios lan\u00e7ados n\u00e3o foram pequenos; e mais ainda, se pensarmos nas disputas ao redor dela. Quanto \u00e0\u00a0transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a guerra da Ucr\u00e2nia acelerou a press\u00e3o para redu\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e0 medida que exp\u00f4s pa\u00edses europeus a um risco de fornecimento de g\u00e1s. Frente a isso, pa\u00edses desenvolvidos come\u00e7aram a acelerar investimentos para transi\u00e7\u00e3o de energia, com est\u00edmulos para produ\u00e7\u00e3o de e\u00f3licas e solares e o uso de ve\u00edculos el\u00e9tricos, dentre outras medidas. Ocorre que tais tecnologias, consideradas renov\u00e1veis, s\u00e3o respons\u00e1veis pelo aumento da demanda de metais como l\u00edtio, cobre e n\u00edquel, os quais pressionam pelo aprofundamento da destrui\u00e7\u00e3o do extrativismo mineral no Sul Global, dando continuidade ao colonialismo que ataca a justi\u00e7a ambiental. Al\u00e9m disso, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, como vem sendo pensada, confere\u00a0protagonismo \u00e0s empresas, especialmente transnacionais, mantendo a concentra\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o repartindo o controle e nem as tecnologias. Muitas empresas do setor petrol\u00edfero e mineral t\u00eam aderido ao discurso das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, adotando pol\u00edticas de &#8220;pintando a cara de verde&#8221;\u00a0(greenwashing). Um exemplo s\u00e3o a ades\u00e3o aos\u00a0mecanismos de emiss\u00e3o zero\u00a0(Net Zero), nos quais ao inv\u00e9s de reduzir a produ\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o de poluentes, as empresas compensam sua cadeia produtiva poluidora com cr\u00e9ditos de carbono sujos, violentos, contaminantes e que retiram direitos. N\u00e3o por acaso, as empresas Vale S.A e Braskem, infelizmente, estar\u00e3o no Espa\u00e7o Brasil da COP 28 falando sobre o tema. Na mesma esteira, na defesa da organiza\u00e7\u00e3o do mercado de carbono, os governadores dos estados brasileiros fundaram o Cons\u00f3rcio Brasil Verde na COP 26, o qual dever\u00e1 ter uma participa\u00e7\u00e3o mais destacada na pr\u00f3xima confer\u00eancia. \u00a0Esse Cons\u00f3rcio, que ter\u00e1 tamb\u00e9m pain\u00e9is no Espa\u00e7o Brasil, aponta a necessidade de construir um Mercado Brasileiro de Redu\u00e7\u00e3o de Emiss\u00f5es (MBRE) e um padr\u00e3o nacional de pagamento por servi\u00e7os ambientais (PSA). Os governadores est\u00e3o interessados, ainda, no\u00a0Plano de A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica\u00a0(PAC 2050) lan\u00e7ado pelo governo federal, com metas para alcan\u00e7ar a neutralidade das emiss\u00f5es at\u00e9 2050. O Plano descreve v\u00e1rias pol\u00edticas mitigat\u00f3rias para setores da economia como transporte, energia e agropecu\u00e1ria, criando oportunidades de neg\u00f3cios aos governos estaduais com a promo\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es sobre o clima. Para a COP 28, espera-se ainda que o Brasil se envolva nas discuss\u00f5es sobre a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Perdas e Danos, no seguimento ao Plano de Implementa\u00e7\u00e3o de Sharm El-Sheikh dos\u00a0Acordos de Paris. Em 2022, j\u00e1 eleito, por\u00e9m sem tomar posse ainda, o presidente Lula destacou, na COP 27, seu compromisso com o combate ao desmatamento &#8211; principal causa de emiss\u00f5es no pa\u00eds &#8211; atrelado ao avan\u00e7o das pol\u00edticas de combate \u00e0 desigualdade. No discurso, o presidente evocou o papel dos povos ind\u00edgenas para a preserva\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Resta saber se ser\u00e1 mantida essa mesma linha de discuss\u00e3o, quando envolver quem ir\u00e1 acessar os recursos de tais fundos no Brasil. Vale destacar que o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima tem empenhado esfor\u00e7os para cria\u00e7\u00e3o do Fundo Clima. As\u00a0secas na Amaz\u00f4nia\u00a0e as\u00a0enchentes no Sul\u00a0do Brasil s\u00e3o desastres socioambientais exemplificadores das consequ\u00eancias imediatas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ao analisarmos suas consequ\u00eancias, observamos que os danos se distribuem de maneira desigual entre pessoas mais empobrecidas, mulheres, negras e comunidades rurais e perif\u00e9ricas. Em geral, os danos clim\u00e1ticos s\u00e3o mais graves em comunidades j\u00e1 vulnerabilizadas por contextos de desigualdades sociais e a n\u00e3o garantia dos direitos e investimentos de infraestrutura. Frente a essas desigualdades, ao anunciar uma COP que pretende ser realmente inclusiva, precisa haver uma mudan\u00e7a de paradigma para que a centralidade da Natureza, das pessoas, da vida humana, das d\u00edvidas hist\u00f3ricas e repara\u00e7\u00f5es estejam no centro da economia, e n\u00e3o como um adere\u00e7o de mercado. Sabemos que os espa\u00e7os da COP t\u00eam sido cada vez mais hegemonizados pela vis\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e suas falsas solu\u00e7\u00f5es de mercado mais do mesmo e das mesmas que nos trouxeram at\u00e9 aqui com a\u00a0economia verde do d\u00f3lar da Bolsa de Valores\u00a0e do rentismo. Ao inv\u00e9s de conectarem a solu\u00e7\u00f5es dos povos com a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, o acesso e perman\u00eancia \u00e0 terra e territ\u00f3rio de povos e comunidades; como a\u00e7\u00e3o para a prote\u00e7\u00e3o dos bosques, das \u00e1guas e das florestas, com sua comprova\u00e7\u00e3o, ontem e hoje, com os territ\u00f3rios mais preservados, as pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o est\u00e3o reduzindo as m\u00e9tricas de carbono. Os movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil defendem este profundo repensar dos espa\u00e7os multilaterais do clima. N\u00e3o podemos seguir construindo respostas para as\u00a0altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas\u00a0que n\u00e3o enfrentam a raiz do problema, ou seja, a forma, profundamente desigual, de como produzimos, geramos, circulamos e comercializamos na sociedade capitalista. Igualmente, \u00e9 preciso reconhecer que a crise clim\u00e1tica n\u00e3o reflete apenas os aspectos f\u00edsicos do planeta; esta \u00e9 uma abordagem limitada e limitadora. Na verdade, a crise clim\u00e1tica se entrela\u00e7a a formas hist\u00f3ricas de viol\u00eancia de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e \u00e0 colonialidade. H\u00e1 uma d\u00edvida hist\u00f3rica da degrada\u00e7\u00e3o ambiental em diversos pa\u00edses que n\u00e3o pode ser reduzida a pol\u00edticas mitigadoras e, nem mesmo, \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o financeira por meio de Fundo. A mudan\u00e7a come\u00e7a com o olhar da totalidade das causas e consequ\u00eancias das\u00a0altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Repensar o papel que determinados atores ir\u00e3o ter nas negocia\u00e7\u00f5es do futuro da humanidade. E nesse sentido, as empresas transnacionais ocupam muito mais o lugar de r\u00e9u do que de protagonista das solu\u00e7\u00f5es. Movimentos populares, mulheres e representantes da sociedade civil est\u00e3o cada vez mais ausentes dos centros decis\u00f3rios sobre a governan\u00e7a clim\u00e1tica. As negocia\u00e7\u00f5es seguem regidas pelo crivo do Norte Global para o Sul Global. Reconhecemos que, nos \u00faltimos anos, as COPs do Clima est\u00e3o se tornando espa\u00e7os improdutivos, nos quais n\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7os concretos<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6282,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,6,1835],"tags":[],"class_list":["post-6280","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-justica-climatica-e-energetica","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6280"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6280\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9483,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6280\/revisions\/9483"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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