{"id":6221,"date":"2023-10-17T18:07:33","date_gmt":"2023-10-17T21:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6221"},"modified":"2025-06-12T13:43:19","modified_gmt":"2025-06-12T16:43:19","slug":"tratado-vinculante-internacional-na-onu-e-pl-572-2022-no-brasil-a-luta-para-responsabilizar-empresas-transnacionais-por-seus-crimes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6221","title":{"rendered":"Tratado Vinculante internacional na ONU e PL 572\/2022 no Brasil: a luta para responsabilizar empresas transnacionais por seus crimes"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nNas \u00faltimas d\u00e9cadas, o neoliberalismo imp\u00f4s ao mundo uma profunda desregulamenta\u00e7\u00e3o, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">promovendo o desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas sociais gestadas pelo Estado para as popula\u00e7\u00f5es mais empobrecidas, e a amplia\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios das empresas transnacionais do centro do sistema capitalista, no Norte global, para todos os continentes. Comunidades, as popula\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses e trabalhadores tiveram direitos retirados e s\u00e3o constantemente desrespeitados; territ\u00f3rios e meio ambiente foram e ainda s\u00e3o explorados e, muitas vezes, destru\u00eddos. Tudo para que as grandes corpora\u00e7\u00f5es continuem lucrando muito.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Esse processo foi intenso em pa\u00edses da periferia do sistema capitalista, os do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Sul Global<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, onde est\u00e1 o Brasil, que sofre com a superexplora\u00e7\u00e3o e genoc\u00eddios em larga escala, enquanto os pa\u00edses centrais seguem enriquecendo. Para atender aos interesses das transnacionais, criou-se uma s\u00e9rie de mecanismos econ\u00f4micos, jur\u00eddicos e governamentais que protegem as opera\u00e7\u00f5es dos investidores. Entre eles est\u00e3o os acordos de livre com\u00e9rcio, tratados de prote\u00e7\u00e3o ao investimento e mecanismos de resolu\u00e7\u00e3o de lit\u00edgios entre investidores e Estados. Ao mesmo tempo, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o existem marcos normativos internacionais e nem no Brasil que responsabilizem as grandes corpora\u00e7\u00f5es pelos crimes e viola\u00e7\u00f5es que cometem. Essa engrenagem <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 o que chamamos de <\/span><a href=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cartilha-Digital_Chega-de-Impunidade-Corporativa-no-Brasil_Tratado-Vinculante.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">arquitetura da impunidade,<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> criada para<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> proteger os lucros das empresas transnacionais (ao custo da vida das pessoas e do meio ambiente saud\u00e1vel) e evitar que as corpora\u00e7\u00f5es sejam punidas em sua busca incessante por dinheiro e poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por isso se discute, desde os anos 1970, junto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a proposta de um <\/span><b>Tratado Vinculante de Direitos Humanos e Empresas<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> que responsabilize as empresas transnacionais, fa\u00e7a a repara\u00e7\u00e3o integral \u00e0s comunidades e povos atingidos e promova garantias para evitar que as corpora\u00e7\u00f5es repitam seus crimes. Mas somente em 2014, ap\u00f3s d\u00e9cadas de luta da sociedade civil articulada <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2022\/10\/28\/8a-sessao-de-negociacoes-do-tratado-vinculante-na-onu-tratado-azul-segue-sendo-defendido-pelas-organizacoes-e-comunidades-para-responsabilizar-as-transnacionais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Campanha Global para Desmantelar o Poder Corporativo, Reivindicar a Soberania dos Povos e P\u00f4r fim \u00e0 Impunidade<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, conseguimos que o Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas) criasse um Grupo de Trabalho Intergovernamental <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">de Composi\u00e7\u00e3o Aberta<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">OEIGWG<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">) para negociar e redigir um Tratado Vinculante internacional para responsabilizar, de fato, as empresas transnacionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 verdade que a ONU j\u00e1 tinha dado alguns passos nesse debate sobre Direitos Humanos e Empresas tr\u00eas anos antes, em 2011, quando adotou os Princ\u00edpios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, mas consideramos insuficientes. Essa diretiva \u00e9 baseada no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">voluntarismo empresarial.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Ao longo dos anos, foram se consolidando, nos pa\u00edses, marcos baseados nesses princ\u00edpios, como os Planos Nacionais de A\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">devida dilig\u00eancia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, processo em que as pr\u00f3prias empresas devem tomar medidas para evitar (e, caso ocorram, para mitigar) danos ambientais e \u00e0s comunidades em consequ\u00eancia de suas atividades econ\u00f4micas. O que n\u00e3o acontece, e quando ocorre, \u00e9 de forma injusta, sem reparar os preju\u00edzos das popula\u00e7\u00f5es e dos pa\u00edses atingidos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui no Brasil, vivenciamos situa\u00e7\u00f5es que comprovam que o voluntarismo empresarial n\u00e3o funciona. Em Novembro, completar\u00e1 8 anos do rompimento da barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o em Mariana, em Minas Gerais, e os atingidos brigam at\u00e9 hoje pela devida responsabiliza\u00e7\u00e3o das mineradoras e empresas envolvidas na atividade. Al\u00e9m disso, as mineradoras n\u00e3o revisaram suas medidas de preven\u00e7\u00e3o e de seguran\u00e7a, e a trag\u00e9dia de Mariana, em 2015, repetiu-se quatro anos depois com o rompimento da barragem de rejeitos na cidade de Brumadinho (MG), que teve impacto ainda maior. Os dois crimes envolvendo as empresas VALE, Samarco e BHP Billiton resultaram em quase 300 pessoas mortas e comunidades e meio ambiente destru\u00eddos. Outras situa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o marcadas pela impunidade, como o despejo for\u00e7ado de moradores para a amplia\u00e7\u00e3o do aeroporto em Porto Alegre (RS) pela empresa alem\u00e3 Fraport e os in\u00fameros casos de trabalho precarizado em todo o pa\u00eds praticado por empresas que, inclusive, <\/span><a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2023\/04\/integra-das-respostas-da-gptw-onu-aurora-e-salton-sobre-as-certificacoes-das-empresas-envolvidas-no-caso-de-trabalho-escravo-na-serra-gaucha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">integram o Pacto Global da ONU no Brasil. <\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Campanha Global e n\u00f3s, Amigas da Terra Brasil, apostamos no <\/span><b>Tratado Vinculante internacional <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">junto \u00e0 ONU para responsabilizar as empresas transnacionais por seus crimes socioambientais, garantindo as indeniza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e resguardando os direitos das comunidades atingidas em todo o mundo. Apenas um mecanismo s\u00e9rio e efetivo de cobran\u00e7a, que convoque as partes envolvidas a responder por seus atos, pode impedir que os direitos dos povos sejam desrespeitados, promovendo a vida. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A Campanha Global construiu uma proposta de texto para o Tratado Vinculante, o <\/span><a href=\"https:\/\/www.stopcorporateimpunity.org\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Elementos-chaves-Campanha-Global.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b><i>Tratado Azul<\/i><\/b><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que foi entregue ao GT Intergovernamental da ONU em 2017, o qual se contrap\u00f5e aos marcos voluntaristas por priorizar os direitos humanos acima de qualquer acordo de com\u00e9rcio ou de investimento (o que se chama de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">primazia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> no Direito Internacional). A proposta da sociedade civil aborda essa quest\u00e3o diretamente na economia, no que se refere \u00e0s cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias e empresas, e na Justi\u00e7a nos tribunais dos pa\u00edses, sugerindo at\u00e9 mesmo a institui\u00e7\u00e3o de um Tribunal Internacional de Corpora\u00e7\u00f5es Transnacionais e Direitos Humanos com a compet\u00eancia para receber, investigar, julgar e executar decis\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As organiza\u00e7\u00f5es da Campanha Global tamb\u00e9m buscam o apoio de parlamentares de seus pa\u00edses para o estabelecimento do Tratado Vinculativo junto \u00e0 ONU. At\u00e9 o momento, conseguiram <\/span><a href=\"https:\/\/bindingtreaty.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">a ades\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> de 246 parlamentares; desses, 14 s\u00e3o brasileiros. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">No final de Outubro, entre os dias 23 a 27, estaremos participando da 9\u00aa Sess\u00e3o de Negocia\u00e7\u00f5es na sede da ONU em Genebra, pressionando para que o tratado avance realmente. <\/span><b><i>Acompanhe o site e as redes sociais da Amigas da Terra Brasil para mais informa\u00e7\u00f5es\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<h4>Um Tratado Vinculante internacional poderia at\u00e9 mesmo contribuir em responsabilizar as empresas transnacionais que financiam e acabam perpetuando a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos em territ\u00f3rio palestino, como explica Andressa Soares, do Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es):<\/h4>\n<p><iframe title=\"ANDRESSA SOARES (BDS) - Palestina: n\u00e3o haver\u00e1 paz na regi\u00e3o enquanto a opress\u00e3o continuar\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/spF7bhIlh9g?start=1&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<h4><b><br \/>\nPL 572\/2022 quer responsabilizar empresas nacionais e estrangeiras por direitos violados no Brasil\u00a0 <\/b><\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo em que pressionam pelo Tratado Vinculante em n\u00edvel internacional, as organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a Campanha Global articulam a cria\u00e7\u00e3o de leis nacionais para refor\u00e7ar o tratado junto \u00e0 ONU. No Brasil, foi protocolado, no ano passado, o Projeto de Lei 572\/2022, que cria a lei marco nacional sobre Direitos Humanos e Empresas e estabelece as diretrizes para a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre o assunto. O PL foi apresentado pelos deputados federais na \u00e9poca Helder Salom\u00e3o (PT\/ES), \u00c1urea Carolina (PSOL\/MG) e Fernanda Melchionna (PSOL\/RS), articulado com organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais, pesquisadores, universidades, assessores jur\u00eddicos populares, ambientalistas e comunidades atingidas, especialmente de Mariana e Brumadinho (MG).<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><iframe title=\"LET\u00cdCIA PARANHOS (ATBr) - Entrevista \u00e0 R\u00e1dio Mundo Real sobre Tratado Vinculante e PL 572\/22\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Pk0nxWE25Us?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, o PL 572\/22 tramita na C\u00e2mara dos Deputados. Se aprovado no Congresso Nacional, ser\u00e1 a primeira lei com este teor em todo o mundo. A lei marco avan\u00e7a para a responsabiliza\u00e7\u00e3o de empresas nacionais e estrangeiras com atua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds por viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, reconhecendo obriga\u00e7\u00f5es ao Estado e \u00e0s mesmas, e estabelecendo, ainda, medidas de preven\u00e7\u00e3o, monitoramento e repara\u00e7\u00e3o, bem como direitos \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atingidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A aprova\u00e7\u00e3o do PL <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">572\/22<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, um projeto constitu\u00eddo a partir dos atingidos pelas viola\u00e7\u00f5es de direitos, tamb\u00e9m questionaria a <\/span>arquitetura da impunidade e o poder corporativo das grandes empresas,<span style=\"font-weight: 400;\"> que precisam urgentemente ser desmantelados.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><b><i>A presidenta da Amigas da Terra Brasil, Let\u00edcia Paranhos, participou de um <\/i><\/b><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=svQ6s9NNSIo\"><b><i>semin\u00e1rio virtual <\/i><\/b><\/a><b><i>promovido pelo Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) sobre o PL. E em breve estar\u00e1 nas negocia\u00e7\u00f5es da ONU, em Genebra, sobre o Tratado Vinculante. Confira sua manifesta\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio no v\u00eddeo abaixo e saiba mais sobre a import\u00e2ncia do projeto de lei e de um Tratado Vinculante para garantir direitos para os povos e regras para as empresas:\u00a0<\/i><\/b><\/p>\n<p><iframe title=\"Let\u00edcia Paranhos no Semin\u00e1rio PL 527\/2022 | Um debate sobre o avan\u00e7o em Direitos Humanos e Empresas\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/U43b53BG76g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Amigas da Terra Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o neoliberalismo imp\u00f4s ao mundo uma profunda desregulamenta\u00e7\u00e3o, promovendo o desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas sociais gestadas pelo Estado para as popula\u00e7\u00f5es mais empobrecidas, e a amplia\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios das empresas transnacionais do centro do sistema capitalista, no Norte global, para todos os continentes. Comunidades, as popula\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses e trabalhadores tiveram direitos retirados e s\u00e3o constantemente desrespeitados; territ\u00f3rios e meio ambiente foram e ainda s\u00e3o explorados e, muitas vezes, destru\u00eddos. Tudo para que as grandes corpora\u00e7\u00f5es continuem lucrando muito. Esse processo foi intenso em pa\u00edses da periferia do sistema capitalista, os do Sul Global, onde est\u00e1 o Brasil, que sofre com a superexplora\u00e7\u00e3o e genoc\u00eddios em larga escala, enquanto os pa\u00edses centrais seguem enriquecendo. Para atender aos interesses das transnacionais, criou-se uma s\u00e9rie de mecanismos econ\u00f4micos, jur\u00eddicos e governamentais que protegem as opera\u00e7\u00f5es dos investidores. Entre eles est\u00e3o os acordos de livre com\u00e9rcio, tratados de prote\u00e7\u00e3o ao investimento e mecanismos de resolu\u00e7\u00e3o de lit\u00edgios entre investidores e Estados. Ao mesmo tempo, n\u00e3o existem marcos normativos internacionais e nem no Brasil que responsabilizem as grandes corpora\u00e7\u00f5es pelos crimes e viola\u00e7\u00f5es que cometem. Essa engrenagem \u00e9 o que chamamos de arquitetura da impunidade, criada para proteger os lucros das empresas transnacionais (ao custo da vida das pessoas e do meio ambiente saud\u00e1vel) e evitar que as corpora\u00e7\u00f5es sejam punidas em sua busca incessante por dinheiro e poder. Por isso se discute, desde os anos 1970, junto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), a proposta de um Tratado Vinculante de Direitos Humanos e Empresas que responsabilize as empresas transnacionais, fa\u00e7a a repara\u00e7\u00e3o integral \u00e0s comunidades e povos atingidos e promova garantias para evitar que as corpora\u00e7\u00f5es repitam seus crimes. Mas somente em 2014, ap\u00f3s d\u00e9cadas de luta da sociedade civil articulada na Campanha Global para Desmantelar o Poder Corporativo, Reivindicar a Soberania dos Povos e P\u00f4r fim \u00e0 Impunidade, conseguimos que o Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas) criasse um Grupo de Trabalho Intergovernamental de Composi\u00e7\u00e3o Aberta (OEIGWG) para negociar e redigir um Tratado Vinculante internacional para responsabilizar, de fato, as empresas transnacionais. \u00c9 verdade que a ONU j\u00e1 tinha dado alguns passos nesse debate sobre Direitos Humanos e Empresas tr\u00eas anos antes, em 2011, quando adotou os Princ\u00edpios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, mas consideramos insuficientes. Essa diretiva \u00e9 baseada no voluntarismo empresarial. Ao longo dos anos, foram se consolidando, nos pa\u00edses, marcos baseados nesses princ\u00edpios, como os Planos Nacionais de A\u00e7\u00e3o e, mais recentemente, a devida dilig\u00eancia, processo em que as pr\u00f3prias empresas devem tomar medidas para evitar (e, caso ocorram, para mitigar) danos ambientais e \u00e0s comunidades em consequ\u00eancia de suas atividades econ\u00f4micas. O que n\u00e3o acontece, e quando ocorre, \u00e9 de forma injusta, sem reparar os preju\u00edzos das popula\u00e7\u00f5es e dos pa\u00edses atingidos. Aqui no Brasil, vivenciamos situa\u00e7\u00f5es que comprovam que o voluntarismo empresarial n\u00e3o funciona. Em Novembro, completar\u00e1 8 anos do rompimento da barragem de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o em Mariana, em Minas Gerais, e os atingidos brigam at\u00e9 hoje pela devida responsabiliza\u00e7\u00e3o das mineradoras e empresas envolvidas na atividade. Al\u00e9m disso, as mineradoras n\u00e3o revisaram suas medidas de preven\u00e7\u00e3o e de seguran\u00e7a, e a trag\u00e9dia de Mariana, em 2015, repetiu-se quatro anos depois com o rompimento da barragem de rejeitos na cidade de Brumadinho (MG), que teve impacto ainda maior. Os dois crimes envolvendo as empresas VALE, Samarco e BHP Billiton resultaram em quase 300 pessoas mortas e comunidades e meio ambiente destru\u00eddos. Outras situa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o marcadas pela impunidade, como o despejo for\u00e7ado de moradores para a amplia\u00e7\u00e3o do aeroporto em Porto Alegre (RS) pela empresa alem\u00e3 Fraport e os in\u00fameros casos de trabalho precarizado em todo o pa\u00eds praticado por empresas que, inclusive, integram o Pacto Global da ONU no Brasil. A Campanha Global e n\u00f3s, Amigas da Terra Brasil, apostamos no Tratado Vinculante internacional junto \u00e0 ONU para responsabilizar as empresas transnacionais por seus crimes socioambientais, garantindo as indeniza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e resguardando os direitos das comunidades atingidas em todo o mundo. Apenas um mecanismo s\u00e9rio e efetivo de cobran\u00e7a, que convoque as partes envolvidas a responder por seus atos, pode impedir que os direitos dos povos sejam desrespeitados, promovendo a vida. A Campanha Global construiu uma proposta de texto para o Tratado Vinculante, o Tratado Azul, que foi entregue ao GT Intergovernamental da ONU em 2017, o qual se contrap\u00f5e aos marcos voluntaristas por priorizar os direitos humanos acima de qualquer acordo de com\u00e9rcio ou de investimento (o que se chama de primazia no Direito Internacional). A proposta da sociedade civil aborda essa quest\u00e3o diretamente na economia, no que se refere \u00e0s cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias e empresas, e na Justi\u00e7a nos tribunais dos pa\u00edses, sugerindo at\u00e9 mesmo a institui\u00e7\u00e3o de um Tribunal Internacional de Corpora\u00e7\u00f5es Transnacionais e Direitos Humanos com a compet\u00eancia para receber, investigar, julgar e executar decis\u00f5es. As organiza\u00e7\u00f5es da Campanha Global tamb\u00e9m buscam o apoio de parlamentares de seus pa\u00edses para o estabelecimento do Tratado Vinculativo junto \u00e0 ONU. At\u00e9 o momento, conseguiram a ades\u00e3o de 246 parlamentares; desses, 14 s\u00e3o brasileiros. No final de Outubro, entre os dias 23 a 27, estaremos participando da 9\u00aa Sess\u00e3o de Negocia\u00e7\u00f5es na sede da ONU em Genebra, pressionando para que o tratado avance realmente. Acompanhe o site e as redes sociais da Amigas da Terra Brasil para mais informa\u00e7\u00f5es\u00a0 Um Tratado Vinculante internacional poderia at\u00e9 mesmo contribuir em responsabilizar as empresas transnacionais que financiam e acabam perpetuando a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos em territ\u00f3rio palestino, como explica Andressa Soares, do Movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es): PL 572\/2022 quer responsabilizar empresas nacionais e estrangeiras por direitos violados no Brasil\u00a0 Ao mesmo tempo em que pressionam pelo Tratado Vinculante em n\u00edvel internacional, as organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a Campanha Global articulam a cria\u00e7\u00e3o de leis nacionais para refor\u00e7ar o tratado junto \u00e0 ONU. No Brasil, foi protocolado, no ano passado, o Projeto de Lei 572\/2022, que cria a lei marco nacional sobre Direitos Humanos e Empresas e estabelece as diretrizes para a promo\u00e7\u00e3o de<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6240,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,1834],"tags":[],"class_list":["post-6221","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica-economica","category-pl572-22"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6221"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6221\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9490,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6221\/revisions\/9490"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6240"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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