{"id":6194,"date":"2023-10-11T12:14:27","date_gmt":"2023-10-11T15:14:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6194"},"modified":"2025-06-12T13:44:16","modified_gmt":"2025-06-12T16:44:16","slug":"crises-sistemicas-e-o-estado-que-queremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6194","title":{"rendered":"Crises sist\u00eamicas e o Estado que queremos"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\">O respeito ao outro, ao meio ambiente e modos de produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gerem crises estruturais s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es para as crises<\/h2>\n<p>As tempestades, os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/07\/porto-alegre-podera-ter-uma-enchente-igual-a-de-1941-a-qualquer-momento-afirma-pesquisadora\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ciclones<\/a>, os desmoronamentos, as enchentes, as secas est\u00e3o por todos os lados no Brasil. As crises desencadeadas por esses eventos mostram o completo colapso das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como consequ\u00eancia delas as rela\u00e7\u00f5es sociais, e nossa intera\u00e7\u00e3o com a natureza, no sistema capitalista. O desequil\u00edbrio entre as chuvas e as secas \u00e9 resultado das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que como podemos ver no Brasil j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o eventuais, come\u00e7am a se tornar cont\u00ednuas.<\/p>\n<p>Em julho deste ano, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/08\/27\/feira-de-biodiversidade-e-economia-solidaria-de-maquine-rs-se-desafia-a-rebrotar-apos-ciclone-que-devastou-municipio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cidade de Maquin\u00e9<\/a>, dentre outras da regi\u00e3o no estado do Rio Grande do Sul, sofreu com as fortes chuvas, deixando popula\u00e7\u00f5es desabrigadas, isoladas, com problemas de acesso \u00e0 energia e alimentos. No m\u00eas passado, novamente o estado enfrentou a mesma problem\u00e1tica. A tempestade deixou, pelo menos, 51 mortos; causou enchentes, destrui\u00e7\u00e3o de casas e quebra de pontes. Os efeitos atingiram o estado de Santa Catarina. Segundo os meteorologistas, a intensidade desses eventos aumenta porque as \u00e1guas dos oceanos est\u00e3o mais quentes.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, o evento extremo oposto, as secas. As cidades amaz\u00f4nicas registram as maiores temperaturas. Oito estados enfrentam a mais severa seca dos \u00faltimos 40 anos. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/06\/saiba-como-ajudar-as-vitimas-da-seca-na-regiao-amazonica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">voluptuoso Rio Amazonas<\/a>\u00a0est\u00e1 baixando, em m\u00e9dia, 13 a 14 cent\u00edmetros por dia. Os estados decretaram emerg\u00eancia ambiental pela escassez da \u00e1gua. Os animais morrem. As popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas perdem o rio, seu meio de transporte, e ficam isoladas. Os fatores para tais altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o atribu\u00eddos ao\u00a0<em>El Ni\u00f1o<\/em>, mas tamb\u00e9m \u00e0s intensas modifica\u00e7\u00f5es no meio ambiente do bioma, sobretudo o desmatamento.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, v\u00e1rias cidades brasileiras sofreram os impactos dos desastres clim\u00e1ticos. Apesar disso, os estados n\u00e3o modificaram suas escolhas econ\u00f4micas. As op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas pelos subs\u00eddios ao agroneg\u00f3cio,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/30\/onda-de-calor-e-mudancas-climaticas-o-que-a-mineracao-tem-a-ver-com-isso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e0 minera\u00e7\u00e3o<\/a>, aos grandes empreendimentos e a pol\u00edticas desiguais de ordena\u00e7\u00e3o territorial afetam diretamente na produ\u00e7\u00e3o das cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, assim como nas sequelas deixadas por elas. As pol\u00edticas clim\u00e1ticas reduzem-se ao conservacionismo ambiental, da cria\u00e7\u00e3o de\u00a0 \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o, e \u00e0s metas de redu\u00e7\u00e3o de carbono, insuficientes para dar respostas \u00e0 crise socioambiental.<\/p>\n<p>O clima n\u00e3o \u00e9 um assunto apenas f\u00edsico, \u00e9 profundamente social, hist\u00f3rico e cultural. Enquanto as solu\u00e7\u00f5es \u00e0 crise clim\u00e1tica forem pensadas sem envolver mudan\u00e7as estruturais, notadamente a de sistema, seguiremos produzindo desencontros. A quest\u00e3o \u00e9 que as altas classes n\u00e3o enfrentam os males do clima da mesma forma. Sua condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica lhes permite viver em zonas privilegiadas ou ter recursos para atendimento emergencial. Por isso, \u00e9 no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/21\/g77-china-a-disputa-do-sul-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sul Global<\/a>, assim como na periferia, que as repercuss\u00f5es clim\u00e1ticas produzem maiores danos. Nessa hist\u00f3ria, comunidades e sujeitos, que pouco ou nada contribuem para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, s\u00e3o os que mais pagam sua conta.<\/p>\n<p>Os estados, al\u00e9m das op\u00e7\u00f5es equivocadas de pol\u00edtica econ\u00f4mica, n\u00e3o investem na estrutura\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o da Defesa Civil, da assist\u00eancia social emergencial e nem na provis\u00e3o de apoio adequado \u00e0s v\u00edtimas dos desastres naturais. Mesmo que os fatos estejam se repetindo ano a ano, m\u00eas a m\u00eas, governantes n\u00e3o conseguiram estruturar pol\u00edticas p\u00fablicas. Muitos dos recursos destinados \u00e0s calamidades n\u00e3o s\u00e3o adequadamente empregados no atendimento \u00e0s v\u00edtimas e na ado\u00e7\u00e3o de medidas de preven\u00e7\u00e3o de desastres.<\/p>\n<p>Isso porque o Estado assume uma percep\u00e7\u00e3o de que a vulnerabilidade social \u00e9 um problema do indiv\u00edduo. Assim, pessoas que vivem em casas prec\u00e1rias, em barrancos, morros, pr\u00f3ximas de rios, s\u00e3o respons\u00e1veis individualmente por desenvolver capacidades para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. Isso ocorre da mesma forma nas situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas. Os Estados n\u00e3o consideram que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de moradia, \u00e9 resultado do acesso desigual, dos problemas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, pr\u00f3prios da economia capitalista. O desfecho \u00e9 que as v\u00edtimas est\u00e3o completamente desamparadas pelo Estado.<\/p>\n<p>Contra essa l\u00f3gica, movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, em sua luta anticapitalista, exercem valores solid\u00e1rios de apoio \u00e0s v\u00edtimas, demonstrando uma pr\u00e1tica de ser distinta. No Vale do Taquari, a regi\u00e3o mais atingida com as enchentes de setembro no Rio Grande do Sul, criou-se a Campanha \u201cSementes da Solidariedade\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6195\" aria-describedby=\"caption-attachment-6195\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6195 size-large\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-300x200.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-768x512.jpg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-500x333.jpg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529-800x533.jpg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/levantedajuventuders_1695225429_3196105014032014496_21779671529.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6195\" class=\"wp-caption-text\">Cozinha Solid\u00e1ria no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul &#8211; Victor Frainer | Levante Popular da Juventude<\/figcaption><\/figure>\n<p>Composta pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Consea\/RS (Conselho de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional), MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), CPT (Comiss\u00e3o Pastoral da Terra), MAB (Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens), C\u00e1ritas, Sindicato de Trabalhadores Rurais e Instituto Cultural Padre Josimo, visitou a regi\u00e3o atingida levantando informa\u00e7\u00f5es sobre as perdas, fornecendo apoio emergencial, inclusive da entrega de sementes para plantarem lavouras perdidas. Tamb\u00e9m foi constru\u00edda uma cozinha solid\u00e1ria para apoiar na alimenta\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da milit\u00e2ncia do MAB, com o cen\u00e1rio de calamidade que se instaura aos rompimentos da barragem, contribuiu no apoio para as v\u00edtimas poderem se organizar em grupos, reivindicar indeniza\u00e7\u00f5es, articularem-se para acessar moradias. Experi\u00eancia apreendida na luta popular, que se constitui como um saber partilhado entre o povo. \u201cAl\u00e9m da entrega das quentinhas, n\u00f3s do MAB, fomos fazendo contato com pessoas, lideran\u00e7as e refer\u00eancias, e percebemos que tinham demandas de casas, acesso a informa\u00e7\u00f5es e direitos\u201d, comenta Alexania Rossato, do MAB\/RS. \u201cMais que levar comida, \u00e9 preciso levar organiza\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias&#8221;, \u201cde serem sujeitos do processo hist\u00f3rico\u201d, descreveu Alexania. Segundo a militante do MAB, a solidariedade \u201c\u00e9 parte do princ\u00edpio do movimento, na situa\u00e7\u00e3o delicada, grav\u00edssima, que as pessoas passaram\u201d.<\/p>\n<p>Na esteira do ac\u00famulo da experi\u00eancia hist\u00f3rica da luta popular, a Cozinha Solid\u00e1ria do MTST serviu de refer\u00eancia para a constru\u00e7\u00e3o da solidariedade no Vale do Taquari. Caio Belloli de Almeida, militante do MTST que esteve na regi\u00e3o, destacou ser \u201cmuito importante a participa\u00e7\u00e3o do MTST na Cozinha Solid\u00e1ria, nesta iniciativa, porque como movimento social que proveu a alimenta\u00e7\u00e3o para as pessoas assistidas, a Prefeitura apenas entregava, n\u00e3o ajudava a construir. Inclusive, em alguns momentos, a Prefeitura amea\u00e7ou interromper o processo, foi muito importante o MTST estar l\u00e1 para conseguir incidir na pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Lucas Gertz, do Levante Popular da Juventude, participou deste processo da cozinha. Para ele, os aprendizados da solidariedade da pandemia na produ\u00e7\u00e3o de alimentos ajudaram a construir a experi\u00eancia hist\u00f3rica para organizar as cozinhas emergenciais. Lucas caracteriza que vivemos \u201cum processo de aquecimento, de ebuli\u00e7\u00e3o global, o que torna muito mais importante e urgente as nossas organiza\u00e7\u00f5es e a sociedade se voltarem ao debate ambiental\u201d. Todo o processo vivenciado nas enchentes est\u00e1 relacionado \u00e0 forma como estabelecemos as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno da privatiza\u00e7\u00e3o e a falta de prioridade para a vida na Terra, destaca Lucas.<\/p>\n<p>De forma semelhante, o MST montou uma cozinha solid\u00e1ria no munic\u00edpio de Encantado, tamb\u00e9m no Vale do Taquari, fornecendo marmitas di\u00e1rias aos desabrigados. A cozinha, organizada com apoio do Levante Popular da Juventude, distribuiu marmitas produzidas com produtos da reforma agr\u00e1ria, org\u00e2nicos, vindos de cooperativas do movimento. Marildo Mulinari, militante do MST, conta que a cozinha foi instalada logo no dia seguinte \u00e0 trag\u00e9dia. A viv\u00eancia tem sido rica com a comunidade: \u201cO pessoal vem nos agradecer, dizer que se n\u00e3o fosse n\u00f3s, n\u00e3o teriam o que comer porque foi a casa, foi tudo embora, as pessoas n\u00e3o tinham mais as coisas\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Marildo, mais de 500 militantes estiveram envolvidos em toda a produ\u00e7\u00e3o das marmitas, uma for\u00e7a tarefa mobilizada para o apoio \u00e0s pessoas afetadas. Salete Carollo, uma das militantes do MST que foi \u00e0 regi\u00e3o em solidariedade, nos descreveu que foi uma experi\u00eancia muito forte \u201cpara a gente que vem da agricultura, e principalmente, olhando para essa dimens\u00e3o. \u00c9 de como o ser humano se move, \u00e9 pelo amor, pela terra, pela ternura; e se move com o cora\u00e7\u00e3o para ajudar aqueles que mais precisam\u201d. A fala de Salete \u00e9 tocante do esp\u00edrito, dos valores da milit\u00e2ncia que movem a ajuda humanit\u00e1ria, que s\u00e3o o valor da vida em sua integralidade. A comida que os assentados produzem, da terra que conquistaram, foi o que alimentou os atingidos. As mesmas m\u00e3os que trabalharam na produ\u00e7\u00e3o do alimento trabalharam para o transformar em comida, para servir ao outro. \u00c9 essa l\u00f3gica de orienta\u00e7\u00e3o do trabalho vivo, a da produ\u00e7\u00e3o de mais vida, a que o mundo deveria estar orientado.<\/p>\n<p>Cedenir de Oliveira, coordenador do MST, tamb\u00e9m esteve na Cozinha Solid\u00e1ria de Encantado e nos contou que todos que participaram da solidariedade ficaram impactados com a trag\u00e9dia. \u201cN\u00f3s do MST entendemos que poder\u00edamos contribuir na confec\u00e7\u00e3o de alimentos, com o aprendizado ao longo de nossos 40 anos de exist\u00eancia, de produzir alimentos em condi\u00e7\u00f5es adversas, nas estradas, nas marchas, ent\u00e3o n\u00f3s j\u00e1 adquirimos uma expertise\u201d. Cedenir ressalta que o MST recebeu muita solidariedade at\u00e9 se consolidar nos assentamentos, produzir, ter cooperativas. Hoje, conquistou sua dignidade e encontra-se em condi\u00e7\u00f5es de retribuir. Nas palavras do militante do MST, a solidariedade \u00e9 um \u201cvalor importante para desenvolver n\u00e3o s\u00f3 na trag\u00e9dia, mas no dia a dia, para romper a cultura do \u00f3dio e ignor\u00e2ncia para construir uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>A solidariedade militante aos efeitos tr\u00e1gicos das enchentes semeia os valores da sociedade que estamos construindo, centrada na vida humana e na natureza como maiores riquezas do universo. O respeito ao outro, a reciprocidade, o cuidado como pol\u00edtica, a constru\u00e7\u00e3o de outras rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente, o fim do modo de produ\u00e7\u00e3o que d\u00e1 origem estrutural a essas crises s\u00e3o os caminhos para uma real transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, e o horizonte de solu\u00e7\u00e3o da nossa crise.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/11\/crises-sistemicas-e-o-estado-que-queremos\"><strong>Coluna originalmente publicada no Jornal Brasil de Fato, em 11 de outubro de 2023, na p\u00e1gina: <\/strong>www.brasildefato.com.br\/2023\/10\/11\/crises-sistemicas-e-o-estado-que-queremos\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O respeito ao outro, ao meio ambiente e modos de produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o gerem crises estruturais s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es para as crises As tempestades, os\u00a0ciclones, os desmoronamentos, as enchentes, as secas est\u00e3o por todos os lados no Brasil. As crises desencadeadas por esses eventos mostram o completo colapso das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como consequ\u00eancia delas as rela\u00e7\u00f5es sociais, e nossa intera\u00e7\u00e3o com a natureza, no sistema capitalista. O desequil\u00edbrio entre as chuvas e as secas \u00e9 resultado das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que como podemos ver no Brasil j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o eventuais, come\u00e7am a se tornar cont\u00ednuas. Em julho deste ano, a\u00a0cidade de Maquin\u00e9, dentre outras da regi\u00e3o no estado do Rio Grande do Sul, sofreu com as fortes chuvas, deixando popula\u00e7\u00f5es desabrigadas, isoladas, com problemas de acesso \u00e0 energia e alimentos. No m\u00eas passado, novamente o estado enfrentou a mesma problem\u00e1tica. A tempestade deixou, pelo menos, 51 mortos; causou enchentes, destrui\u00e7\u00e3o de casas e quebra de pontes. Os efeitos atingiram o estado de Santa Catarina. Segundo os meteorologistas, a intensidade desses eventos aumenta porque as \u00e1guas dos oceanos est\u00e3o mais quentes. Na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds, o evento extremo oposto, as secas. As cidades amaz\u00f4nicas registram as maiores temperaturas. Oito estados enfrentam a mais severa seca dos \u00faltimos 40 anos. O\u00a0voluptuoso Rio Amazonas\u00a0est\u00e1 baixando, em m\u00e9dia, 13 a 14 cent\u00edmetros por dia. Os estados decretaram emerg\u00eancia ambiental pela escassez da \u00e1gua. Os animais morrem. As popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas perdem o rio, seu meio de transporte, e ficam isoladas. Os fatores para tais altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o atribu\u00eddos ao\u00a0El Ni\u00f1o, mas tamb\u00e9m \u00e0s intensas modifica\u00e7\u00f5es no meio ambiente do bioma, sobretudo o desmatamento. Nos \u00faltimos anos, v\u00e1rias cidades brasileiras sofreram os impactos dos desastres clim\u00e1ticos. Apesar disso, os estados n\u00e3o modificaram suas escolhas econ\u00f4micas. As op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas pelos subs\u00eddios ao agroneg\u00f3cio,\u00a0\u00e0 minera\u00e7\u00e3o, aos grandes empreendimentos e a pol\u00edticas desiguais de ordena\u00e7\u00e3o territorial afetam diretamente na produ\u00e7\u00e3o das cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, assim como nas sequelas deixadas por elas. As pol\u00edticas clim\u00e1ticas reduzem-se ao conservacionismo ambiental, da cria\u00e7\u00e3o de\u00a0 \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o, e \u00e0s metas de redu\u00e7\u00e3o de carbono, insuficientes para dar respostas \u00e0 crise socioambiental. O clima n\u00e3o \u00e9 um assunto apenas f\u00edsico, \u00e9 profundamente social, hist\u00f3rico e cultural. Enquanto as solu\u00e7\u00f5es \u00e0 crise clim\u00e1tica forem pensadas sem envolver mudan\u00e7as estruturais, notadamente a de sistema, seguiremos produzindo desencontros. A quest\u00e3o \u00e9 que as altas classes n\u00e3o enfrentam os males do clima da mesma forma. Sua condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica lhes permite viver em zonas privilegiadas ou ter recursos para atendimento emergencial. Por isso, \u00e9 no\u00a0Sul Global, assim como na periferia, que as repercuss\u00f5es clim\u00e1ticas produzem maiores danos. Nessa hist\u00f3ria, comunidades e sujeitos, que pouco ou nada contribuem para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, s\u00e3o os que mais pagam sua conta. Os estados, al\u00e9m das op\u00e7\u00f5es equivocadas de pol\u00edtica econ\u00f4mica, n\u00e3o investem na estrutura\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o da Defesa Civil, da assist\u00eancia social emergencial e nem na provis\u00e3o de apoio adequado \u00e0s v\u00edtimas dos desastres naturais. Mesmo que os fatos estejam se repetindo ano a ano, m\u00eas a m\u00eas, governantes n\u00e3o conseguiram estruturar pol\u00edticas p\u00fablicas. Muitos dos recursos destinados \u00e0s calamidades n\u00e3o s\u00e3o adequadamente empregados no atendimento \u00e0s v\u00edtimas e na ado\u00e7\u00e3o de medidas de preven\u00e7\u00e3o de desastres. Isso porque o Estado assume uma percep\u00e7\u00e3o de que a vulnerabilidade social \u00e9 um problema do indiv\u00edduo. Assim, pessoas que vivem em casas prec\u00e1rias, em barrancos, morros, pr\u00f3ximas de rios, s\u00e3o respons\u00e1veis individualmente por desenvolver capacidades para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. Isso ocorre da mesma forma nas situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas. Os Estados n\u00e3o consideram que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, de moradia, \u00e9 resultado do acesso desigual, dos problemas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, pr\u00f3prios da economia capitalista. O desfecho \u00e9 que as v\u00edtimas est\u00e3o completamente desamparadas pelo Estado. Contra essa l\u00f3gica, movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, em sua luta anticapitalista, exercem valores solid\u00e1rios de apoio \u00e0s v\u00edtimas, demonstrando uma pr\u00e1tica de ser distinta. No Vale do Taquari, a regi\u00e3o mais atingida com as enchentes de setembro no Rio Grande do Sul, criou-se a Campanha \u201cSementes da Solidariedade\u201d. Composta pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Consea\/RS (Conselho de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional), MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), CPT (Comiss\u00e3o Pastoral da Terra), MAB (Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens), C\u00e1ritas, Sindicato de Trabalhadores Rurais e Instituto Cultural Padre Josimo, visitou a regi\u00e3o atingida levantando informa\u00e7\u00f5es sobre as perdas, fornecendo apoio emergencial, inclusive da entrega de sementes para plantarem lavouras perdidas. Tamb\u00e9m foi constru\u00edda uma cozinha solid\u00e1ria para apoiar na alimenta\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias. A experi\u00eancia da milit\u00e2ncia do MAB, com o cen\u00e1rio de calamidade que se instaura aos rompimentos da barragem, contribuiu no apoio para as v\u00edtimas poderem se organizar em grupos, reivindicar indeniza\u00e7\u00f5es, articularem-se para acessar moradias. Experi\u00eancia apreendida na luta popular, que se constitui como um saber partilhado entre o povo. \u201cAl\u00e9m da entrega das quentinhas, n\u00f3s do MAB, fomos fazendo contato com pessoas, lideran\u00e7as e refer\u00eancias, e percebemos que tinham demandas de casas, acesso a informa\u00e7\u00f5es e direitos\u201d, comenta Alexania Rossato, do MAB\/RS. \u201cMais que levar comida, \u00e9 preciso levar organiza\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias&#8221;, \u201cde serem sujeitos do processo hist\u00f3rico\u201d, descreveu Alexania. Segundo a militante do MAB, a solidariedade \u201c\u00e9 parte do princ\u00edpio do movimento, na situa\u00e7\u00e3o delicada, grav\u00edssima, que as pessoas passaram\u201d. Na esteira do ac\u00famulo da experi\u00eancia hist\u00f3rica da luta popular, a Cozinha Solid\u00e1ria do MTST serviu de refer\u00eancia para a constru\u00e7\u00e3o da solidariedade no Vale do Taquari. Caio Belloli de Almeida, militante do MTST que esteve na regi\u00e3o, destacou ser \u201cmuito importante a participa\u00e7\u00e3o do MTST na Cozinha Solid\u00e1ria, nesta iniciativa, porque como movimento social que proveu a alimenta\u00e7\u00e3o para as pessoas assistidas, a Prefeitura apenas entregava, n\u00e3o ajudava a construir. Inclusive, em alguns momentos, a Prefeitura amea\u00e7ou interromper o processo, foi muito importante o MTST estar l\u00e1 para conseguir incidir na pol\u00edtica\u201d. Lucas Gertz, do Levante Popular da Juventude, participou deste processo da cozinha. Para ele, os aprendizados da solidariedade da pandemia na produ\u00e7\u00e3o de alimentos ajudaram a construir a experi\u00eancia hist\u00f3rica para organizar as cozinhas emergenciais. 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