{"id":6029,"date":"2023-08-08T10:56:48","date_gmt":"2023-08-08T13:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=6029"},"modified":"2025-06-12T13:56:09","modified_gmt":"2025-06-12T16:56:09","slug":"reportagem-preservacao-da-floresta-amazonica-e-a-soja-que-tem-que-sair-nao-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=6029","title":{"rendered":"Reportagem > Preserva\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica: &#8220;\u00e9 a soja que tem que sair, n\u00e3o a escola!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong><br \/>\nChantal Rayes\/ Jornal La Lib\u00e9ration<\/strong><\/p>\n<p>Na C\u00fapula de Bel\u00e9m, que come\u00e7a nesta ter\u00e7a-feira no Brasil, os chefes de estado de oito pa\u00edses atravessados \u200b\u200bpela floresta gigante devem discutir sua preserva\u00e7\u00e3o. Entre os perigos, o cultivo industrial da soja. O Jornal \u201cLib\u00e9ration\u201d foi ao estado do Par\u00e1, ver de perto as popula\u00e7\u00f5es que sofrem com a destrui\u00e7\u00e3o das paisagens, a grilagem de terras e a polui\u00e7\u00e3o do solo e do ar.<\/p>\n<p class=\"article_link\">O castanheiro ainda est\u00e1 l\u00e1, a motosserra mal o poupou.\u00a0A \u00e1rvore s\u00edmbolo da Amaz\u00f4nia fica sozinha no meio de uma enorme planta\u00e7\u00e3o de soja nos arredores de Santar\u00e9m, cidade no noroeste do Par\u00e1.\u00a0Foz do maior rio do mundo, a regi\u00e3o tornou-se, com suas terras f\u00e9rteis e baratas, o novo eldorado dessa semente, da qual o Brasil \u00e9 o maior produtor mundial.\u00a0Em ambos os lados da BR-163, os campos se estendem at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a.\u00a0A estrada serpenteia aqui e ali entre finas faixas de vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEm toda a bacia amaz\u00f4nica, a maior floresta tropical do planeta est\u00e1 amea\u00e7ada pela agricultura, pecu\u00e1ria, ind\u00fastria extrativista\u201d, compara Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil. Um modelo baseado no desmatamento, latif\u00fandio e semi-escravid\u00e3o . Mas, pela primeira vez, oito pa\u00edses que compartilham a floresta est\u00e3o falando em proteg\u00ea-la. Abre nesta ter\u00e7a-feira, 8 de agosto, em Bel\u00e9m, capital do Par\u00e1, uma c\u00fapula reunindo seus presidentes sob a \u00e9gide do brasileiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.\u201cEsta C\u00fapula ser\u00e1 um sucesso se permitir delinear uma transi\u00e7\u00e3o para um novo modelo econ\u00f3mico capaz de conviver com a floresta, de superar a pobreza respeitando os direitos humanos\u201d, prossegue.<\/p>\n<h3 class=\"listItem__TitleLinkList-hi9yqh-0 jNSwls\"><strong>A Amaz\u00f4nia, a chave verde da diplomacia brasileira<\/strong><\/h3>\n<p>Para isso, seria preciso, segundo ele, rejeitar acordos de livre com\u00e9rcio\u00a0como o que a UE negocia com o Mercosul\u00a0, mercado comum que re\u00fane Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.\u00a0\u201cEsse acordo deve contribuir para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses sul-americanos\u00a0, explica Danicley Aguiar.\u00a0No entanto, sua vers\u00e3o atual prev\u00ea, ao contr\u00e1rio,\u00a0um aumento de nossas exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas para a UE\u00a0, o que implicaria uma expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola em detrimento de todos os ecossistemas, e n\u00e3o apenas da Amaz\u00f4nia.\u00a0Para L\u00facia Ortiz, da filial brasileira da Amigos da Terra, as salvaguardas europeias, como a proibi\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o de produtos resultantes do desmatamento praticado ap\u00f3s dezembro de 2020, n\u00e3o pode fazer nada sobre isso.\u00a0\u201cO que impediria a produ\u00e7\u00e3o de passar por tramas totalmente regulares?\u201d\u00a0pergunta a ativista. Sua associa\u00e7\u00e3o integra um coletivo criado no Brasil com o apoio de ONGs europeias para pressionar o governo a abandonar um acordo tachado de \u201cneocolonial\u201d\u00a0.<\/p>\n<blockquote>\n<h2 class=\"heading__StyledHeading-sc-5jxglz-0 jztCkt\"><em><strong>\u201cA boa vontade de Lula n\u00e3o ser\u00e1 suficiente\u201d<\/strong><\/em><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p>Durante tr\u00eas dias no in\u00edcio do ano,\u00a0<i>o Liberta\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0acompanhou estas trabalhadoras sociais em campanha em Santar\u00e9m e regi\u00e3o.\u00a0Aqui estamos no sindicato dos pequenos agricultores.\u00a0Maureen Santos, coordenadora da FASE\u00a0, uma organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o popular, explica sua abordagem.\u00a0<i>\u201cA transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica europeia corre o risco de ser \u00e0s nossas custas<\/i>\u00a0\u201d, adverte.\u00a0<i>A boa vontade de Lula n\u00e3o ser\u00e1 suficiente<\/i><i>\u00a0.\u00a0Temos que nos manter mobilizados.\u201d\u00a0<\/i>A associa\u00e7\u00e3o explica: a Europa vai demandar cada vez mais soja, cujo \u00f3leo \u00e9 considerado uma mat\u00e9ria-prima\u00a0<i>\u201crenov\u00e1vel\u201d<\/i>, e esta monocultura requer cada vez mais terra e pesticidas.\u00a0Subst\u00e2ncias das quais o Brasil, gigante agr\u00edcola, j\u00e1 \u00e9 o maior consumidor mundial.\u00a0<i>\u201cSantar\u00e9m est\u00e1 no olho do furac\u00e3o\u201d<\/i>\u00a0, acrescenta o educador popular Samis Vieira.<\/p>\n<p>A soja foi introduzida na regi\u00e3o no in\u00edcio dos anos 2000 para satisfazer a insaci\u00e1vel demanda chinesa.\u00a0Um morador conta como a paisagem mudou:\u00a0<i>\u201cAl\u00e9m das reservas naturais, a vegeta\u00e7\u00e3o foi totalmente arrasada\u201d.\u00a0<\/i>Em toda a Amaz\u00f4nia, a sementinha verde torna-se ent\u00e3o o vetor direto do desmatamento, a principal fonte das emiss\u00f5es brasileiras de CO2.\u00a0Pressionadas pelo Greenpeace, as multinacionais que negociam a mat\u00e9ria-prima, como a americana Cargill e a francesa Louis-Dreyfus, comprometem-se ent\u00e3o a n\u00e3o adquirir mais soja plantada em lotes desmatados ap\u00f3s a data de 22 de julho de 2008. Mas essa morat\u00f3ria tem limites Segundo Danicley Aguiar:<i>\u201cEmbora tenha ajudado a conter a destrui\u00e7\u00e3o da floresta, n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o desmatamento causado indiretamente pela soja.\u201d\u00a0<\/i>Essa cultura se instala de fato em pastagens, avan\u00e7ando cada vez mais para a pecu\u00e1ria florestal, que se tornou a principal causa do desmatamento.<\/p>\n<div class=\"display_block width_100 border border_solid border_top border_color_grey border border_bottom border_color_grey margin-md-bottom\">\n<blockquote>\n<h2 class=\"heading__StyledHeading-sc-5jxglz-0 jztCkt\"><strong>\u201cJ\u00e1 nem sabemos que pesticidas usam\u201d<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<p class=\"article_link\">Na BR-163, o munic\u00edpio de Moju\u00ed dos Campos, em plena serra\u00a0<i>santarena<\/i>\u00a0, est\u00e1 de ressaca.\u00a0<i>\u201cQuando os<\/i>\u00a0sojeiros\u00a0<i>chegaram, a gente acreditou no progresso<\/i>\u00a0\u201c, diz Sileuza Nascimento, presidente do sindicato dos trabalhadores rurais. \u201c<i>Isso n\u00e3o aconteceu. O campo est\u00e1 se esvaziando porque a agricultura industrial cria muito poucos empregos. Por outro lado, legou-nos a destrui\u00e7\u00e3o da paisagem, a circula\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos pesados \u200b\u200bde mercadorias e as doen\u00e7as, devido ao uso massivo de pesticidas\u201d.\u00a0<\/i>Com suas casas de madeira, Belterra, a cidade vizinha, parece sa\u00edda da Am\u00e9rica profunda.\u00a0E por um bom motivo.\u00a0A \u201cbela terra\u201d foi erguida na d\u00e9cada de 1930 por Henry Ford, a fim de garantir o fornecimento de borracha para o fabricante de autom\u00f3veis.\u00a0Foi a gloriosa era do l\u00e1tex, extra\u00eddo das seringueiras, que por um breve per\u00edodo fez a fortuna da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<article class=\"article-body-wrapper article_table article_blockquote font_secondary\" data-datawall-status=\"null\">\n<p class=\"article_link\">Na escola municipal \u00e9 hora do lanche.\u00a0As crian\u00e7as ocupam seus lugares no refeit\u00f3rio em um burburinho alegre.\u00a0Uma semana antes da nossa visita, e novamente tr\u00eas dias depois, cerca de 200 alunos tiveram que ser mandados para casa, passando muito mal, culpados pela pulveriza\u00e7\u00e3o intempestiva do que o agroneg\u00f3cio chama modestamente de \u201cprodutos fitossanit\u00e1rios\u00a0<i>\u201d<\/i>\u00a0.\u00a0As planta\u00e7\u00f5es est\u00e3o por perto.\u00a0<i>\u201cA soja avan\u00e7a com a inten\u00e7\u00e3o de expulsar a escola\u201d<\/i>\u00a0, acusa a professora e sindicalista Heloisa Rocha.\u00a0<i>Por\u00e9m, se a escola tiver que ser fechada, as pessoas v\u00e3o sair daqui, como nos munic\u00edpios vizinhos.\u00a0\u00c9 a soja que precisa ir, n\u00e3o a escola.\u201d\u00a0<\/i>Mas ela n\u00e3o tem ilus\u00f5es,\u00a0<i>\u201co agroneg\u00f3cio \u00e9 muito bem defendido pelos eleitos locais\u201d<\/i>.<\/p>\n<h3 class=\"heading__StyledHeading-sc-5jxglz-0 jztCkt\"><strong>Floresta rasgada<\/strong><\/h3>\n<p class=\"article_link\">Para al\u00e9m do crescimento das explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, este com\u00e9rcio induz outros inc\u00f4modos: as infraestruturas destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o da soja tamb\u00e9m t\u00eam um impacto particularmente nefasto. Retorno a Santar\u00e9m, no rio Tapaj\u00f3s, afluente do Amazonas. Aqui, a multinacional americana Cargill administra um gigantesco porto de exporta\u00e7\u00e3o de soja para Europa e China desde 2003. Gra\u00e7as a ele, as cargas n\u00e3o precisam mais atravessar o pa\u00eds para chegar aos portos do Sul e do Sudeste. <i>\u201cH\u00e1 uma reorienta\u00e7\u00e3o da infraestrutura de escoamento da soja na Amaz\u00f4nia, porque \u00e9 para c\u00e1 que a fronteira agr\u00edcola se deslocou<\/i>\u00a0\u201d, explica Tatiana Oliveira, pesquisadora do\u00a0Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Amaz\u00f4nia da universidade do Par\u00e1.<i>Portanto, \u00e9 mais econ\u00f4mico exportar da Amaz\u00f4nia, mesmo que essa infraestrutura destrua a floresta e os territ\u00f3rios dos \u00edndios.\u201d\u00a0<\/i>Outro projeto do agroneg\u00f3cio e defendido pelo ministro dos Transportes de Lula: uma\u00a0ferrovia de 900 quil\u00f4metros\u00a0que deve cruzar o Par\u00e1 com o risco de devastar cerca de 50 mil quil\u00f4metros quadrados de floresta.<\/p>\n<p class=\"article_link\">L\u00facia Ortiz, da filial brasileira da Amigos da Terra, diz estar preocupada com os grandes projetos defendidos pelo governo para reanimar a economia, mas n\u00e3o s\u00f3.\u00a0<i>\u201c\u00c9 igualmente preocupante a tentativa de mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza por parte dos pa\u00edses ricos que, ao inv\u00e9s de reduzir suas emiss\u00f5es de CO2, buscam compens\u00e1-las nos pa\u00edses menos desenvolvidos por meio de mecanismos como o cr\u00e9dito de carbono. \u00bb\u00a0<\/i>E para concluir:\u00a0<i>\u201cVamos para Bel\u00e9m com muita apreens\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p><strong>Chantal Rayes \u00e9 uma jornalista que viajou ao estado do Par\u00e1 a convite da Frente contra o Acordo UE-Mercosul no in\u00edcio de 2023<\/strong><\/p>\n<p><strong>* <a href=\"https:\/\/www.liberation.fr\/international\/preservation-de-la-foret-amazonienne-cest-le-soja-qui-doit-partir-pas-lecole-20230807_RYA3OTX2OBCGVFP6N34RWVRUVI\/?redirected=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mat\u00e9ria originalmente publicada no Jornal franc\u00eas Lib\u00e9ration<\/a><br \/>\n** Mat\u00e9ria traduzida em portugu\u00eas retirada do site da <a href=\"https:\/\/fase.org.br\/pt\/noticias\/liberation-hoje-preservacao-da-floresta-amazonica-e-a-soja-que-tem-que-ir-nao-a-escola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ONG Fase<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/article>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chantal Rayes\/ Jornal La Lib\u00e9ration Na C\u00fapula de Bel\u00e9m, que come\u00e7a nesta ter\u00e7a-feira no Brasil, os chefes de estado de oito pa\u00edses atravessados \u200b\u200bpela floresta gigante devem discutir sua preserva\u00e7\u00e3o. Entre os perigos, o cultivo industrial da soja. O Jornal \u201cLib\u00e9ration\u201d foi ao estado do Par\u00e1, ver de perto as popula\u00e7\u00f5es que sofrem com a destrui\u00e7\u00e3o das paisagens, a grilagem de terras e a polui\u00e7\u00e3o do solo e do ar. O castanheiro ainda est\u00e1 l\u00e1, a motosserra mal o poupou.\u00a0A \u00e1rvore s\u00edmbolo da Amaz\u00f4nia fica sozinha no meio de uma enorme planta\u00e7\u00e3o de soja nos arredores de Santar\u00e9m, cidade no noroeste do Par\u00e1.\u00a0Foz do maior rio do mundo, a regi\u00e3o tornou-se, com suas terras f\u00e9rteis e baratas, o novo eldorado dessa semente, da qual o Brasil \u00e9 o maior produtor mundial.\u00a0Em ambos os lados da BR-163, os campos se estendem at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a.\u00a0A estrada serpenteia aqui e ali entre finas faixas de vegeta\u00e7\u00e3o. \u201cEm toda a bacia amaz\u00f4nica, a maior floresta tropical do planeta est\u00e1 amea\u00e7ada pela agricultura, pecu\u00e1ria, ind\u00fastria extrativista\u201d, compara Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil. Um modelo baseado no desmatamento, latif\u00fandio e semi-escravid\u00e3o . Mas, pela primeira vez, oito pa\u00edses que compartilham a floresta est\u00e3o falando em proteg\u00ea-la. Abre nesta ter\u00e7a-feira, 8 de agosto, em Bel\u00e9m, capital do Par\u00e1, uma c\u00fapula reunindo seus presidentes sob a \u00e9gide do brasileiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.\u201cEsta C\u00fapula ser\u00e1 um sucesso se permitir delinear uma transi\u00e7\u00e3o para um novo modelo econ\u00f3mico capaz de conviver com a floresta, de superar a pobreza respeitando os direitos humanos\u201d, prossegue. A Amaz\u00f4nia, a chave verde da diplomacia brasileira Para isso, seria preciso, segundo ele, rejeitar acordos de livre com\u00e9rcio\u00a0como o que a UE negocia com o Mercosul\u00a0, mercado comum que re\u00fane Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.\u00a0\u201cEsse acordo deve contribuir para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses sul-americanos\u00a0, explica Danicley Aguiar.\u00a0No entanto, sua vers\u00e3o atual prev\u00ea, ao contr\u00e1rio,\u00a0um aumento de nossas exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas para a UE\u00a0, o que implicaria uma expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola em detrimento de todos os ecossistemas, e n\u00e3o apenas da Amaz\u00f4nia.\u00a0Para L\u00facia Ortiz, da filial brasileira da Amigos da Terra, as salvaguardas europeias, como a proibi\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o de produtos resultantes do desmatamento praticado ap\u00f3s dezembro de 2020, n\u00e3o pode fazer nada sobre isso.\u00a0\u201cO que impediria a produ\u00e7\u00e3o de passar por tramas totalmente regulares?\u201d\u00a0pergunta a ativista. Sua associa\u00e7\u00e3o integra um coletivo criado no Brasil com o apoio de ONGs europeias para pressionar o governo a abandonar um acordo tachado de \u201cneocolonial\u201d\u00a0. \u201cA boa vontade de Lula n\u00e3o ser\u00e1 suficiente\u201d Durante tr\u00eas dias no in\u00edcio do ano,\u00a0o Liberta\u00e7\u00e3o\u00a0acompanhou estas trabalhadoras sociais em campanha em Santar\u00e9m e regi\u00e3o.\u00a0Aqui estamos no sindicato dos pequenos agricultores.\u00a0Maureen Santos, coordenadora da FASE\u00a0, uma organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o popular, explica sua abordagem.\u00a0\u201cA transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica europeia corre o risco de ser \u00e0s nossas custas\u00a0\u201d, adverte.\u00a0A boa vontade de Lula n\u00e3o ser\u00e1 suficiente\u00a0.\u00a0Temos que nos manter mobilizados.\u201d\u00a0A associa\u00e7\u00e3o explica: a Europa vai demandar cada vez mais soja, cujo \u00f3leo \u00e9 considerado uma mat\u00e9ria-prima\u00a0\u201crenov\u00e1vel\u201d, e esta monocultura requer cada vez mais terra e pesticidas.\u00a0Subst\u00e2ncias das quais o Brasil, gigante agr\u00edcola, j\u00e1 \u00e9 o maior consumidor mundial.\u00a0\u201cSantar\u00e9m est\u00e1 no olho do furac\u00e3o\u201d\u00a0, acrescenta o educador popular Samis Vieira. A soja foi introduzida na regi\u00e3o no in\u00edcio dos anos 2000 para satisfazer a insaci\u00e1vel demanda chinesa.\u00a0Um morador conta como a paisagem mudou:\u00a0\u201cAl\u00e9m das reservas naturais, a vegeta\u00e7\u00e3o foi totalmente arrasada\u201d.\u00a0Em toda a Amaz\u00f4nia, a sementinha verde torna-se ent\u00e3o o vetor direto do desmatamento, a principal fonte das emiss\u00f5es brasileiras de CO2.\u00a0Pressionadas pelo Greenpeace, as multinacionais que negociam a mat\u00e9ria-prima, como a americana Cargill e a francesa Louis-Dreyfus, comprometem-se ent\u00e3o a n\u00e3o adquirir mais soja plantada em lotes desmatados ap\u00f3s a data de 22 de julho de 2008. Mas essa morat\u00f3ria tem limites Segundo Danicley Aguiar:\u201cEmbora tenha ajudado a conter a destrui\u00e7\u00e3o da floresta, n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o desmatamento causado indiretamente pela soja.\u201d\u00a0Essa cultura se instala de fato em pastagens, avan\u00e7ando cada vez mais para a pecu\u00e1ria florestal, que se tornou a principal causa do desmatamento. \u201cJ\u00e1 nem sabemos que pesticidas usam\u201d Na BR-163, o munic\u00edpio de Moju\u00ed dos Campos, em plena serra\u00a0santarena\u00a0, est\u00e1 de ressaca.\u00a0\u201cQuando os\u00a0sojeiros\u00a0chegaram, a gente acreditou no progresso\u00a0\u201c, diz Sileuza Nascimento, presidente do sindicato dos trabalhadores rurais. \u201cIsso n\u00e3o aconteceu. O campo est\u00e1 se esvaziando porque a agricultura industrial cria muito poucos empregos. Por outro lado, legou-nos a destrui\u00e7\u00e3o da paisagem, a circula\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos pesados \u200b\u200bde mercadorias e as doen\u00e7as, devido ao uso massivo de pesticidas\u201d.\u00a0Com suas casas de madeira, Belterra, a cidade vizinha, parece sa\u00edda da Am\u00e9rica profunda.\u00a0E por um bom motivo.\u00a0A \u201cbela terra\u201d foi erguida na d\u00e9cada de 1930 por Henry Ford, a fim de garantir o fornecimento de borracha para o fabricante de autom\u00f3veis.\u00a0Foi a gloriosa era do l\u00e1tex, extra\u00eddo das seringueiras, que por um breve per\u00edodo fez a fortuna da Amaz\u00f4nia. Na escola municipal \u00e9 hora do lanche.\u00a0As crian\u00e7as ocupam seus lugares no refeit\u00f3rio em um burburinho alegre.\u00a0Uma semana antes da nossa visita, e novamente tr\u00eas dias depois, cerca de 200 alunos tiveram que ser mandados para casa, passando muito mal, culpados pela pulveriza\u00e7\u00e3o intempestiva do que o agroneg\u00f3cio chama modestamente de \u201cprodutos fitossanit\u00e1rios\u00a0\u201d\u00a0.\u00a0As planta\u00e7\u00f5es est\u00e3o por perto.\u00a0\u201cA soja avan\u00e7a com a inten\u00e7\u00e3o de expulsar a escola\u201d\u00a0, acusa a professora e sindicalista Heloisa Rocha.\u00a0Por\u00e9m, se a escola tiver que ser fechada, as pessoas v\u00e3o sair daqui, como nos munic\u00edpios vizinhos.\u00a0\u00c9 a soja que precisa ir, n\u00e3o a escola.\u201d\u00a0Mas ela n\u00e3o tem ilus\u00f5es,\u00a0\u201co agroneg\u00f3cio \u00e9 muito bem defendido pelos eleitos locais\u201d. Floresta rasgada Para al\u00e9m do crescimento das explora\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, este com\u00e9rcio induz outros inc\u00f4modos: as infraestruturas destinadas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o da soja tamb\u00e9m t\u00eam um impacto particularmente nefasto. Retorno a Santar\u00e9m, no rio Tapaj\u00f3s, afluente do Amazonas. Aqui, a multinacional americana Cargill administra um gigantesco porto de exporta\u00e7\u00e3o de soja para Europa e China desde 2003. Gra\u00e7as a ele, as cargas n\u00e3o precisam mais atravessar o pa\u00eds para chegar aos portos do Sul e do Sudeste. \u201cH\u00e1 uma reorienta\u00e7\u00e3o da infraestrutura de escoamento da soja na Amaz\u00f4nia, porque \u00e9 para c\u00e1 que a fronteira<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6031,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,1835],"tags":[],"class_list":["post-6029","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6029","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6029"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6029\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9518,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6029\/revisions\/9518"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6029"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6029"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6029"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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