{"id":5711,"date":"2023-07-06T18:22:35","date_gmt":"2023-07-06T21:22:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5711"},"modified":"2025-06-12T13:58:26","modified_gmt":"2025-06-12T16:58:26","slug":"emergencia-climatica-e-democracia-um-problema-estrutural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5711","title":{"rendered":"Emerg\u00eancia clim\u00e1tica e democracia: um problema estrutural"},"content":{"rendered":"<p>No m\u00eas passado, mais uma vez, fortes chuvas no estado do Rio Grande do Sul\u00a0<a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2023\/06\/19\/nota-de-solidariedade-as-comunidades-atingidas-pela-tragedia-climatica-no-rs\/\">deixaram um cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o ambiental, provocando a perda de vidas humanas, isolamento de fam\u00edlias e agravando a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social de muitos territ\u00f3rios.<\/a>\u00a0A passagem do ciclone, culminando com fortes chuvas, produziu um cen\u00e1rio de caos social, deixando<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=vSm7BsG1Tro\">\u00a050 fam\u00edlias desalojadas no munic\u00edpio de Maquin\u00e9<\/a>\u00a0(RS), 418 mil resid\u00eancias sem energia el\u00e9trica, estradas bloqueadas e 13 pessoas mortas. Os efeitos clim\u00e1ticos nos centros urbanos t\u00eam sido uma constante no pa\u00eds. Trag\u00e9dias s\u00e3o vistas em Petr\u00f3polis\/RJ, S\u00e3o Paulo\/SP, alguns anos atr\u00e1s em Santa Catarina. Todos esses casos se relacionam aos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 falta de planejamento urbano e territorial.<\/p>\n<p>Para os atingidos e atingidas de Maquin\u00e9, as trag\u00e9dias evocam a necessidade de um repensar das rela\u00e7\u00f5es entre sociedade e natureza. Segundo o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.change.org\/p\/maquin%C3%A9-pede-ajuda?recruiter=1000244298&amp;utm_source=share_petition&amp;utm_campaign=psf_combo_share_initial&amp;utm_medium=whatsapp&amp;utm_content=washarecopy_36638598_pt-BR%3A3&amp;recruited_by_id=5e0937e0-c81d-11e9-8c41-cf299efc212b\">abaixo-assinado da comunidade<\/a>: \u201cOs rastros da trag\u00e9dia est\u00e3o inscritos na paisagem, nos notici\u00e1rios, na mente e nos cora\u00e7\u00f5es de todos e todas. As perdas, os danos e as dores s\u00e3o muitas, e, n\u00f3s como habitantes dessas matas, guardi\u00f5es desse manancial de biodiversidade, precisamos refletir sobre o presente e o passado para planejarmos um futuro consciente e respons\u00e1vel, visando a reconstru\u00e7\u00e3o deste territ\u00f3rio sagrado, que junto com outros biomas, permite a vida na Terra.\u201d<\/p>\n<p>Os governos e gestores p\u00fablicos tendem a associar tais fatos como eventos extremos da natureza, sobre os quais precisamos desenvolver solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas capazes de \u201ccontrolar\u201d esta for\u00e7a. A comunidade de Maquin\u00e9 explica em seu abaixo-assinado que \u201cenchentes, ciclones, deslizamentos de terra e inunda\u00e7\u00f5es s\u00e3o considerados como cat\u00e1strofes naturais, mas mais do que isso, representam a for\u00e7a da Natureza em restabelecer seu curso, suas leis e impor a necessidade de respeito, fato que precisa ser interpretado e internalizado para a elabora\u00e7\u00e3o de planos de recupera\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 vis\u00e3o governamental, precisamos primeiro refletir sobre a reprodu\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o moderna que separa \u201chomem\u201d da natureza. Como nos ensina o professor Carlos Mar\u00e9s, dos di\u00e1logos do direito socioambiental, essa cis\u00e3o permite um processo de objetifica\u00e7\u00e3o da natureza no qual o homem passa a impor sobre ela um modelo de domina\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que, no capitalismo, toda a abund\u00e2ncia da natureza, a \u00e1gua, terra, chuvas, ar, vento, v\u00e1rios bens comuns podem ser mercantilizados, tornando-se \u201crecursos naturais\u201d.<\/p>\n<p>O segundo efeito desta apreens\u00e3o da realidade \u00e9 supor que a cren\u00e7a de uma tecniciza\u00e7\u00e3o ir\u00e1 resolver os problemas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; acreditamos que n\u00e3o foi por falta de t\u00e9cnica que chegamos at\u00e9 aqui, mas por decis\u00f5es tecnificadas, visando o lucro. Por isso, as solu\u00e7\u00f5es propostas investem em mecanismos da economia verde, dentre eles a metrifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o do carbono,<a href=\"https:\/\/www.foei.org\/publication\/briefing-notes-for-cop26-carbon-markets-article-6-and-net-zero\/\">\u00a0como as propostas de \u201cnetzero\u201d apresentadas na COP 26,<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Livro-caderno-de-debates-PSA-3-FASE-online-completo.pdf\">mais antigas como os cr\u00e9ditos de \u201cREDD\u201d<\/a>;\u00a0<a href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2014\/09\/18\/agricultura-climaticamente-inteligente-problemas-e-mitos\">a proposta do Banco Mundial da \u201cagricultura climaticamente inteligente<\/a>\u201d;\u00a0 as cidades climaticamente inteligentes. No entanto, tais proposi\u00e7\u00f5es ignoram as causas sociais e pol\u00edticas mais amplas da crise clim\u00e1tica, que envolvem as quest\u00f5es estruturais do modelo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Ao determinar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como um fen\u00f4meno recente se desconecta do efeito direto que o modelo de desenvolvimento adotado tem sobre a continuidade da vida no planeta Terra. Ainda que seja evidente uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica, \u00e9 preciso cuidar com o uso do termo \u00e0 medida que n\u00e3o esteja acompanhado de uma reflex\u00e3o hist\u00f3rico-estrutural do sistema capitalista.<\/p>\n<p>Com isso, queremos afirmar que o debate do clima envolve as reflex\u00f5es sobre o capitalismo, colonialismo, desenvolvimento, participa\u00e7\u00e3o e a governan\u00e7a global. Por isso, a constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que sejam respostas t\u00e9cnicas aos efeitos do clima, constituem-se apenas uma pequena parte do reconhecimento do problema que existe. Assim como as propostas hist\u00f3ricas dos povos, em muitos momentos desconsideradas e desqualificadas, sendo que hoje a solu\u00e7\u00e3o mais eficiente \u00e9 a exist\u00eancia dos povos nos territ\u00f3rios, esta realidade de resist\u00eancia foi o que garantiu a prote\u00e7\u00e3o ambiental territorial.<\/p>\n<p>Assim, a crise clim\u00e1tica \u00e9 uma consequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder. N\u00e3o \u00e0 toa seus efeitos se reproduzem igualmente de maneira desequilibrada. Enquanto pa\u00edses do Sul Global, especialmente regi\u00f5es marginalizadas, sofrem profundas transforma\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas em virtude dos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e das \u201csolu\u00e7\u00f5es da economia verde\u201d, pa\u00edses do Norte Global disp\u00f5em de recursos para assegurar qualidade de vida a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa distribui\u00e7\u00e3o desigual de poderes e consequ\u00eancias comp\u00f5e o cen\u00e1rio de uma injusti\u00e7a socioambiental, que se aprofunda com o impacto da a\u00e7\u00e3o do Estado e de empresas em uma constante e hist\u00f3rica a\u00e7\u00e3o de \u201cpassar a boiada\u201d no agro literalmente, mas tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o civil e na minera\u00e7\u00e3o, com grandes obras de infraestrutura que, em sua busca insana de extra\u00e7\u00e3o de capital do ambiente natural, descumpre, altera e flexibiliza a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, priorizando o interesse corporativo em detrimento do ambiente natural equilibrado e sadio.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5713\" aria-describedby=\"caption-attachment-5713\" style=\"width: 525px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5713 size-large\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-1024x683.jpeg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-300x200.jpeg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-768x512.jpeg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-500x333.jpeg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas-800x533.jpeg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/familis-desabrigadas.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 525px) 100vw, 525px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5713\" class=\"wp-caption-text\">Fam\u00edlias desabrigadas ficaram alojadas no Gin\u00e1sio Municipal de S\u00e3o Leopoldo, cidade da regi\u00e3o do Vale do Rio do Sinos, no RS. Cr\u00e9dito: Gustavo Mansur\/Secom<\/figcaption><\/figure>\n<p>Inclusive, o tema de uma \u201cjusti\u00e7a reparadora\u201d \u00e9 muito forte entre os povos afetados pelo clima. Pa\u00edses como Bol\u00edvia, e mais recentemente, Brasil, v\u00eam afirmando a presen\u00e7a de uma \u201cd\u00edvida clim\u00e1tica\u201d dos pa\u00edses desenvolvidos para com os subdesenvolvidos. Indo mais al\u00e9m nas quest\u00f5es estruturais, a presen\u00e7a do subdesenvolvimento \u00e9 um produto direto da divis\u00e3o internacional do trabalho, da presen\u00e7a intr\u00ednseca ao capitalismo mundial de um interc\u00e2mbio desigual entre os pa\u00edses, que cria a depend\u00eancia. Reverter a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, reconhecer o processo de silenciamento do colonialismo \u00e9 tarefa fundamental para pensar a constru\u00e7\u00e3o de alternativas \u00e0 crise ecol\u00f3gica que vivemos.<\/p>\n<p>A l\u00edder ind\u00edgena hondurenha e lutadora ambientalista Berta C\u00e1ceres, quando recebeu o pr\u00eamio Goldman do Meio Ambiente, denunciava que as iniciativas para o clima estavam pensadas \u201cfora do tempo\u201d. Claramente, Berta se referia a uma injusti\u00e7a hist\u00f3rica e social que vivem os povos da Am\u00e9rica Latina e Caribe, da \u00c1frica, do Sul Global, sobre os efeitos catastr\u00f3ficos que o colonialismo e o capitalismo imp\u00f5em. De tal forma que pensar as quest\u00f5es do clima n\u00e3o significa apenas uma an\u00e1lise de seus efeitos f\u00edsicos, mas conectar ao racismo, \u00e0s desigualdades de g\u00eanero e classe que fazem com que territ\u00f3rios e corpos sejam mais afetados. Retomar a hist\u00f3ria de nega\u00e7\u00e3o dos povos do Sul Global \u00e9 parte fundante das discuss\u00f5es sobre o clima, ou seja n\u00e3o \u00e9 somente o clima que deve ser visto, mas as causas dessas altera\u00e7\u00f5es e a d\u00edvida hist\u00f3rica aos povos que esta l\u00f3gica produziu no campo das viola\u00e7\u00f5es dos direitos dos povos, as m\u00e9tricas de carbono como est\u00e3o colocados n\u00e3o respondem \u00e0 diversidade da natureza e, menos ainda, na repara\u00e7\u00e3o dessas viola\u00e7\u00f5es, este debate tem que estar no centro das solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desse modo, devemos nos questionar sobre os espa\u00e7os internacionais promotores das solu\u00e7\u00f5es e a responsabilidade que determinados pa\u00edses t\u00eam na estrutura\u00e7\u00e3o da crise. As metas volunt\u00e1rias de redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es n\u00e3o envolvem qualquer pol\u00edtica de questionamento da destrui\u00e7\u00e3o socioambiental das empresas transnacionais, pelo contr\u00e1rio, afirmam seu protagonismo. S\u00e3o os mesmos pa\u00edses causadores dos problemas estruturais que envolvem o clima, que est\u00e3o hegemonizando a constru\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es. Certamente, n\u00e3o ser\u00e3o eles a questionar os seus privil\u00e9gios. De igual modo, lhes interessa manter as quest\u00f5es hist\u00f3rico-estruturais que lhe permitem seu dom\u00ednio. Como o presidente Lula falou em Paris, \u201cque os pa\u00edses que fizeram a revolu\u00e7\u00e3o industrial s\u00e3o os respons\u00e1veis pela polui\u00e7\u00e3o do planeta, e que eles t\u00eam uma d\u00edvida hist\u00f3rica com a Terra\u201d.<\/p>\n<p>Importante perceber essa forma de agir das corpora\u00e7\u00f5es, que querem ser volunt\u00e1rias e n\u00e3o cumprem regras criadas para a garantia das leis, constitui\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios da coletividade. Assim, lutamos para garantir regras para as empresas e direitos para os povos, como a campanha por um tratado vinculante sobre empresas transnacionais e direitos humanos, instrumento internacional vinculante que responsabiliza diretamente as empresas transnacionais pelas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos decorrentes de suas atividades, como no PL 572\/2022 que cria um marco nacional sobre direitos humanos e empresas e estabelece diretrizes para a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre o assunto.<\/p>\n<p>Retornando aos impactos das enchentes nas cidades brasileiras, os governantes locais, estaduais e federais n\u00e3o s\u00e3o menos respons\u00e1veis pela reprodu\u00e7\u00e3o deste sistema desigual. Os ventos, a chuva, s\u00e3o quest\u00f5es clim\u00e1ticas; agora, a altera\u00e7\u00e3o dos leitos dos rios n\u00e3o, o assoreamento dos rios, n\u00e3o; o aterro em banhados e \u00e1reas de v\u00e1rzeas, desmatamento, res\u00edduos s\u00f3lidos sem a implementa\u00e7\u00e3o das leis, barramentos nos rios, falta de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, moradia, obras de infraestruturas que alteram os caminhos das \u00e1guas e as cotas nos territ\u00f3rios, colocando essas comunidades de forma cada vez mais expostas a essas situa\u00e7\u00f5es de alagamento e deslizamentos, expondo fam\u00edlias e os mais vulner\u00e1veis a riscos previs\u00edveis. As elites brasileiras seguem apostando na constru\u00e7\u00e3o de respostas vindas \u201cde fora\u201d, que promovem um desencontro entre nosso passado, presente e futuro. N\u00e3o h\u00e1, por parte de muitos governantes, um compromisso com a constru\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas em nosso pa\u00eds. A maioria do Congresso Nacional \u00e9 bastante representativa da completa ignor\u00e2ncia da destrui\u00e7\u00e3o do planeta, e n\u00e3o tem consci\u00eancia para al\u00e9m da l\u00f3gica do lucro.<\/p>\n<p>Repensar o problema dos danos causados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, da repara\u00e7\u00e3o das comunidades, fam\u00edlias e territ\u00f3rios envolve, portanto, um profundo questionamento sobre o modelo de desenvolvimento, a organiza\u00e7\u00e3o do sistema produtivo e um giro \u00e9tico pol\u00edtico de rela\u00e7\u00f5es sociais e com a natureza. \u00c9 necess\u00e1rio construir outras respostas governamentais para al\u00e9m da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os emergenciais, pensar a constru\u00e7\u00e3o de alternativas fora dos espa\u00e7os hegem\u00f4nicos, desde as lutas e resist\u00eancias populares locais, da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica popular. \u00c9 fundamental que nos casos, sobretudo de emerg\u00eancias clim\u00e1ticas, a reconstru\u00e7\u00e3o dos modos de vida seja feita mediante a escuta das comunidades locais e com processos de verdadeira participa\u00e7\u00e3o popular, oportunizando-se da troca de saberes locais.<\/p>\n<p>Edificar um projeto pol\u00edtico de sociedade, territ\u00f3rios, cidades, que garanta essas profundas transforma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ser\u00e3o reais e verdadeiras se n\u00e3o forem constru\u00eddas com a participa\u00e7\u00e3o efetiva de cada territ\u00f3rio, com seus povos e seus conhecimentos e cultura.<\/p>\n<p>Esta \u00e9tica-pol\u00edtica renovada do reconhecimento de que o problema do clima \u00e9 um problema civilizat\u00f3rio \u00e9 de um tempo presente. Ou nos organizamos e mobilizamos para uma mudan\u00e7a da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desta agenda, ou estaremos ref\u00e9ns de um futuro incerto. Um futuro que poder\u00e1 n\u00e3o existir quando destruirmos as condi\u00e7\u00f5es de vida concreta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/07\/05\/emergencia-climatica-e-democracia-um-problema-estrutural\">Texto originalmente publicado no Jornal Brasil de Fato, em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/07\/05\/emergencia-climatica-e-democracia-um-problema-estrutural\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas passado, mais uma vez, fortes chuvas no estado do Rio Grande do Sul\u00a0deixaram um cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o ambiental, provocando a perda de vidas humanas, isolamento de fam\u00edlias e agravando a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social de muitos territ\u00f3rios.\u00a0A passagem do ciclone, culminando com fortes chuvas, produziu um cen\u00e1rio de caos social, deixando\u00a050 fam\u00edlias desalojadas no munic\u00edpio de Maquin\u00e9\u00a0(RS), 418 mil resid\u00eancias sem energia el\u00e9trica, estradas bloqueadas e 13 pessoas mortas. Os efeitos clim\u00e1ticos nos centros urbanos t\u00eam sido uma constante no pa\u00eds. Trag\u00e9dias s\u00e3o vistas em Petr\u00f3polis\/RJ, S\u00e3o Paulo\/SP, alguns anos atr\u00e1s em Santa Catarina. Todos esses casos se relacionam aos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 falta de planejamento urbano e territorial. Para os atingidos e atingidas de Maquin\u00e9, as trag\u00e9dias evocam a necessidade de um repensar das rela\u00e7\u00f5es entre sociedade e natureza. Segundo o\u00a0abaixo-assinado da comunidade: \u201cOs rastros da trag\u00e9dia est\u00e3o inscritos na paisagem, nos notici\u00e1rios, na mente e nos cora\u00e7\u00f5es de todos e todas. 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A comunidade de Maquin\u00e9 explica em seu abaixo-assinado que \u201cenchentes, ciclones, deslizamentos de terra e inunda\u00e7\u00f5es s\u00e3o considerados como cat\u00e1strofes naturais, mas mais do que isso, representam a for\u00e7a da Natureza em restabelecer seu curso, suas leis e impor a necessidade de respeito, fato que precisa ser interpretado e internalizado para a elabora\u00e7\u00e3o de planos de recupera\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o\u201d. Quanto \u00e0 vis\u00e3o governamental, precisamos primeiro refletir sobre a reprodu\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o moderna que separa \u201chomem\u201d da natureza. Como nos ensina o professor Carlos Mar\u00e9s, dos di\u00e1logos do direito socioambiental, essa cis\u00e3o permite um processo de objetifica\u00e7\u00e3o da natureza no qual o homem passa a impor sobre ela um modelo de domina\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que, no capitalismo, toda a abund\u00e2ncia da natureza, a \u00e1gua, terra, chuvas, ar, vento, v\u00e1rios bens comuns podem ser mercantilizados, tornando-se \u201crecursos naturais\u201d. O segundo efeito desta apreens\u00e3o da realidade \u00e9 supor que a cren\u00e7a de uma tecniciza\u00e7\u00e3o ir\u00e1 resolver os problemas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; acreditamos que n\u00e3o foi por falta de t\u00e9cnica que chegamos at\u00e9 aqui, mas por decis\u00f5es tecnificadas, visando o lucro. Por isso, as solu\u00e7\u00f5es propostas investem em mecanismos da economia verde, dentre eles a metrifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o do carbono,\u00a0como as propostas de \u201cnetzero\u201d apresentadas na COP 26,\u00a0e\u00a0mais antigas como os cr\u00e9ditos de \u201cREDD\u201d;\u00a0a proposta do Banco Mundial da \u201cagricultura climaticamente inteligente\u201d;\u00a0 as cidades climaticamente inteligentes. No entanto, tais proposi\u00e7\u00f5es ignoram as causas sociais e pol\u00edticas mais amplas da crise clim\u00e1tica, que envolvem as quest\u00f5es estruturais do modelo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Ao determinar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como um fen\u00f4meno recente se desconecta do efeito direto que o modelo de desenvolvimento adotado tem sobre a continuidade da vida no planeta Terra. Ainda que seja evidente uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica, \u00e9 preciso cuidar com o uso do termo \u00e0 medida que n\u00e3o esteja acompanhado de uma reflex\u00e3o hist\u00f3rico-estrutural do sistema capitalista. Com isso, queremos afirmar que o debate do clima envolve as reflex\u00f5es sobre o capitalismo, colonialismo, desenvolvimento, participa\u00e7\u00e3o e a governan\u00e7a global. Por isso, a constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que sejam respostas t\u00e9cnicas aos efeitos do clima, constituem-se apenas uma pequena parte do reconhecimento do problema que existe. Assim como as propostas hist\u00f3ricas dos povos, em muitos momentos desconsideradas e desqualificadas, sendo que hoje a solu\u00e7\u00e3o mais eficiente \u00e9 a exist\u00eancia dos povos nos territ\u00f3rios, esta realidade de resist\u00eancia foi o que garantiu a prote\u00e7\u00e3o ambiental territorial. Assim, a crise clim\u00e1tica \u00e9 uma consequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder. N\u00e3o \u00e0 toa seus efeitos se reproduzem igualmente de maneira desequilibrada. Enquanto pa\u00edses do Sul Global, especialmente regi\u00f5es marginalizadas, sofrem profundas transforma\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas em virtude dos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e das \u201csolu\u00e7\u00f5es da economia verde\u201d, pa\u00edses do Norte Global disp\u00f5em de recursos para assegurar qualidade de vida a sua popula\u00e7\u00e3o. Essa distribui\u00e7\u00e3o desigual de poderes e consequ\u00eancias comp\u00f5e o cen\u00e1rio de uma injusti\u00e7a socioambiental, que se aprofunda com o impacto da a\u00e7\u00e3o do Estado e de empresas em uma constante e hist\u00f3rica a\u00e7\u00e3o de \u201cpassar a boiada\u201d no agro literalmente, mas tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o civil e na minera\u00e7\u00e3o, com grandes obras de infraestrutura que, em sua busca insana de extra\u00e7\u00e3o de capital do ambiente natural, descumpre, altera e flexibiliza a legisla\u00e7\u00e3o ambiental, priorizando o interesse corporativo em detrimento do ambiente natural equilibrado e sadio. Inclusive, o tema de uma \u201cjusti\u00e7a reparadora\u201d \u00e9 muito forte entre os povos afetados pelo clima. Pa\u00edses como Bol\u00edvia, e mais recentemente, Brasil, v\u00eam afirmando a presen\u00e7a de uma \u201cd\u00edvida clim\u00e1tica\u201d dos pa\u00edses desenvolvidos para com os subdesenvolvidos. Indo mais al\u00e9m nas quest\u00f5es estruturais, a presen\u00e7a do subdesenvolvimento \u00e9 um produto direto da divis\u00e3o internacional do trabalho, da presen\u00e7a intr\u00ednseca ao capitalismo mundial de um interc\u00e2mbio desigual entre os pa\u00edses, que cria a depend\u00eancia. Reverter a situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, reconhecer o processo de silenciamento do colonialismo \u00e9 tarefa fundamental para pensar a constru\u00e7\u00e3o de alternativas \u00e0 crise ecol\u00f3gica que vivemos. A l\u00edder ind\u00edgena hondurenha e lutadora ambientalista Berta C\u00e1ceres, quando recebeu o pr\u00eamio Goldman do Meio Ambiente, denunciava que as iniciativas para o clima estavam pensadas \u201cfora do tempo\u201d. Claramente, Berta se referia a uma injusti\u00e7a hist\u00f3rica e social que vivem os povos da Am\u00e9rica Latina e Caribe, da \u00c1frica, do Sul Global, sobre os efeitos catastr\u00f3ficos que o colonialismo e o capitalismo imp\u00f5em. De tal forma que pensar as quest\u00f5es do clima n\u00e3o significa apenas uma an\u00e1lise de seus efeitos f\u00edsicos, mas conectar ao racismo, \u00e0s desigualdades de g\u00eanero e classe que fazem com que territ\u00f3rios e corpos sejam mais afetados. Retomar a hist\u00f3ria de nega\u00e7\u00e3o dos povos do Sul Global \u00e9 parte fundante das discuss\u00f5es sobre o clima, ou seja n\u00e3o \u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5721,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,6,1835],"tags":[],"class_list":["post-5711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-justica-climatica-e-energetica","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5711"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9527,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5711\/revisions\/9527"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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