{"id":5512,"date":"2023-04-25T11:30:44","date_gmt":"2023-04-25T14:30:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5512"},"modified":"2025-06-12T14:02:55","modified_gmt":"2025-06-12T17:02:55","slug":"os-impactos-das-empresas-transnacionais-na-vida-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5512","title":{"rendered":"Os impactos das empresas transnacionais na vida das mulheres"},"content":{"rendered":"<p>As empresas transnacionais s\u00e3o o centro do capitalismo contempor\u00e2neo. Organizadas em amplas cadeias globais de valor, expropriam territ\u00f3rios extraindo mat\u00e9rias-primas, que s\u00e3o transferidas por corredores log\u00edsticos que cortam terras, pa\u00edses, oceanos. Favorecem a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata em todas as regi\u00f5es que estiverem dispostas a receber seus investimentos em troca da redu\u00e7\u00e3o de direitos humanos e trabalhistas. Assim, as corpora\u00e7\u00f5es det\u00eam um poder nunca antes visto, controlando economia, pol\u00edtica, cultura \u00a0e, por conseguinte, as formas de produ\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que os economistas liberais nos querem fazer crer, as corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez um grupo mais fechado. Esses donos do mundo decidiram parar de competir e se uniram para controlar setores estrat\u00e9gicos da economia, como a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e a sa\u00fade. Por detr\u00e1s desses investimentos est\u00e3o fundos de pens\u00e3o cujas pessoas jur\u00eddicas e f\u00edsicas ficam encobertas por um v\u00e9u jur\u00eddico de prote\u00e7\u00e3o, com uma riqueza pulverizada em diversos para\u00edsos fiscais ao longo da Terra. N\u00e3o h\u00e1 limites, apenas um \u00fanico objetivo:\u00a0seguir lucrando sempre mais.<\/p>\n<p>Contra esse poder nascem as lutas ao redor do dia 24 de abril, Dia Internacional de Solidariedade Feminista contra o Poder das Empresas Transnacionais. A data relembra as mais de mil v\u00edtimas do desabamento do pr\u00e9dio Rana Plaza, em Bangladesh, no ano de 2013. Mas tamb\u00e9m, as v\u00edtimas do Desastre de Bhopal, quando o vazamento de g\u00e1s da f\u00e1brica de pesticidas Union Carbide India Limited matou quase 4 mil pessoas na \u00cdndia. Ou ainda, as 272 pessoas mortas em Brumadinho e as 19 mortas em Mariana, nos rompimentos de barragens de minera\u00e7\u00e3o em Minas Gerais. As 150 pessoas resgatadas do trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o nas vin\u00edcolas do Rio Grande do Sul. Uma lista intermin\u00e1vel de graves viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos por essas empresas.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais deixa um rastro de viol\u00eancia nos corpos das mulheres, que queremos relembrar neste dia 24 de abril. Quando as empresas transnacionais chegam aos territ\u00f3rios com vulnerabilidade social, apresentam uma s\u00e9rie de discursos alegando que a obra ir\u00e1 promover o desenvolvimento local. V\u00e1rias narrativas corporativas s\u00e3o mobilizadas para conseguir a aceita\u00e7\u00e3o das comunidades. Em geral, na linha de frente da resist\u00eancia encontram-se as mulheres. E \u00e9 justamente sobre suas vidas que recaem a externaliza\u00e7\u00e3o dos danos sociais e ambientais das empresas.<\/p>\n<p>O patriarcado, como um sistema de domina\u00e7\u00e3o das mulheres, imp\u00f5e uma divis\u00e3o sexual do trabalho, que relega para as mulheres pap\u00e9is sociais de cuidado da casa, da fam\u00edlia, dos filhos, da sa\u00fade, da disponibilidade de alimentos, \u00e1gua, moradia. Quando todos esses direitos s\u00e3o amea\u00e7ados pelos interesses econ\u00f4micos das corpora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as mulheres que suportam a carga negativa. Tomemos como exemplo a situa\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica da presen\u00e7a da Fraport, empresa alem\u00e3, que recebeu a concess\u00e3o do Aeroporto Salgado Filho, na cidade de Porto Alegre (RS).<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>A Fraport e a destrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida da Vila Nazar\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>No ano de 1960 se formou a Vila Nazar\u00e9, nas margens do que hoje \u00e9 o aeroporto de Porto Alegre. Criada por camponeses e camponesas que foram sendo expulsos do campo e migraram para a capital em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Ao longo dos anos na ocupa\u00e7\u00e3o, a comunidade se organizou na Associa\u00e7\u00e3o de Moradores, conquistando sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, acesso \u00e0 \u00e1gua e luz, e desenvolveram formas de sustenta\u00e7\u00e3o por meio da reciclagem de materiais.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2017, a prefeitura concedeu a administra\u00e7\u00e3o do aeroporto para a empresa alem\u00e3 Fraport, que iniciou uma opera\u00e7\u00e3o de amplia\u00e7\u00e3o da estrutura para atendimento de cargas. Nesse momento, come\u00e7ou o pesadelo da comunidade. Primeiro, a empresa negou a exist\u00eancia das fam\u00edlias na \u00e1rea, alegando que a ocupa\u00e7\u00e3o era ilegal. Uma t\u00e9cnica bastante comum entre as corpora\u00e7\u00f5es, negar a exist\u00eancia dos sujeitos e das viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias que viviam na Vila Nazar\u00e9 come\u00e7aram a sofrer um agressivo processo de remo\u00e7\u00e3o e de constrangimento por meio de diferentes estrat\u00e9gias de opress\u00e3o aos modos de vida existentes na comunidade. Ao passo que as fam\u00edlias eram removidas, tamb\u00e9m eram tiradas suas casas, apagando d\u00e9cadas de hist\u00f3rias. As m\u00e3es que iam permanecendo na comunidade, conviviam com riscos \u00e0 seguran\u00e7a das crian\u00e7as, inclusive uma delas chegou a ter a guarda de sua filha questionada pelo Conselho Tutelar diante da precariedade da regi\u00e3o de moradia.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio das obras, a empresa construiu um muro ao redor do aeroporto. Este muro impediu o acesso das crian\u00e7as da Vila Dique \u00e0 escola. Sem o muro, o caminho at\u00e9 a escola levava 15 minutos, mas com ele, passou a levar\u00a0mais de uma hora, demandando at\u00e9 transporte p\u00fablico, o qual muitas fam\u00edlias n\u00e3o poderiam arcar. Algumas m\u00e3es tentaram quebrar o muro, para fornecer acesso das crian\u00e7as \u00e0 escola, mas foram criminalizadas.<\/p>\n<p>A empresa contratou uma consultoria para conduzir o processo de remo\u00e7\u00e3o, que foi pouco a pouco sufocando a comunidade e impedindo as condi\u00e7\u00f5es de vida. As mulheres enfrentaram, al\u00e9m do problema de acesso \u00e0 escola, o isolamento das casas e a falta de atendimento \u00e0 sa\u00fade &#8211; pois a Unidade de Sa\u00fade da regi\u00e3o foi fechada. Sendo obrigadas a irem para \u00e1rea de reassentamento, as quais n\u00e3o estavam preparadas com equipamentos para atender as demandas das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Foram alocadas em dois condom\u00ednios &#8211; Nosso Senhor do Bonfim, no bairro Sarandi, e Irm\u00e3os Maristas, localizado na Rubem Berta, empreendimentos que pertenciam \u00e0 prefeitura, sendo obras do programa federal &#8220;Minha Casa, Minha Vida&#8221;. Ocorre que, na divis\u00e3o, separaram-se familiares e amigos, quebrando os la\u00e7os comunit\u00e1rios existentes na Vila Nazar\u00e9. Para as mulheres, os la\u00e7os comunit\u00e1rios comp\u00f5em uma rede de solidariedade e apoio para a socializa\u00e7\u00e3o do cuidado com as crian\u00e7as, idosos e emerg\u00eancias de sa\u00fade. Em comunidade, as mulheres se apoiam para dividir tarefas de cuidado. Isaura Martins, militante do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Sem Teto (MTST) removida da Vila Nazar\u00e9, revela a crueldade da a\u00e7\u00e3o: &#8220;botaram cada um num canto&#8221;.<\/p>\n<p>Isaura conta ainda que o condom\u00ednio Irm\u00e3os Maristas, onde vive, difere muito da proposta que a empresa apresentou na \u00fanica reuni\u00e3o que realizou com a comunidade. &#8220;A vida \u00e9 ruim [no condom\u00ednio] porque fizeram um monte de proposta para n\u00f3s, a gente est\u00e1 dentro de um galinheiro, n\u00e3o tem nem espa\u00e7o para gente ficar com crian\u00e7a, para quem tinha casa grande, agora tem um penico, \u00e9 ruim&#8221;. Conta ainda: &#8220;(&#8230;) tive que dar metade dos meus bichos, n\u00e3o pode plantar nada, ter horta, mudou muito, (&#8230;) fizeram v\u00e1rias promessas n\u00e3o cumpridas: col\u00e9gio, posto, creche&#8221;.<\/p>\n<p>As mulheres na comunidade tiveram que lutar pelo acesso \u00e0 escola e permanecem em luta para melhorar suas condi\u00e7\u00f5es porque, como conta Isaura, ainda n\u00e3o s\u00e3o iguais \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que tinham na Vila Nazar\u00e9. Inclusive, na Institui\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Infantil mais pr\u00f3xima n\u00e3o tem vagas suficientes para a demanda da comunidade, levando muitas m\u00e3es a terem que buscar col\u00e9gios mais distantes, desafiando o or\u00e7amento da fam\u00edlia com os custos adicionais de transporte p\u00fablico. Na unidade de sa\u00fade refer\u00eancia para o atendimento da comunidade, o acesso tamb\u00e9m \u00e9 prec\u00e1rio, responsabilizando as mulheres pelo cuidado dos familiares.<\/p>\n<p>Com o processo de remo\u00e7\u00e3o e reassentamento, a comunidade enfrenta dificuldades em manter a renda com a reciclagem porque os condom\u00ednios, al\u00e9m de n\u00e3o ofertarem a estrutura necess\u00e1ria para garantir a manuten\u00e7\u00e3o do trabalho, est\u00e3o distantes da cidade, numa regi\u00e3o com longo hist\u00f3rico de trabalhadores catadores de material reciclado. Isaura relata, que no antigo local de resid\u00eancia, &#8220;antes cada um sa\u00eda catar material at\u00e9 a p\u00e9&#8221;, justamente pela proximidade da comunidade com as \u00e1reas centrais da capital. Por\u00e9m, hoje, mais isolados, a renda com a pr\u00e1tica tornou-se escassa. Muitas pessoas, principalmente as mulheres, n\u00e3o conseguiram se colocar novamente no mercado de trabalho porque a dist\u00e2ncia do condom\u00ednio e a precariedade dos equipamentos sociais e pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o infantil e mobilidade urbana dificultam o deslocamento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e risco social. Sabemos que as mulheres, sobretudo pretas e perif\u00e9ricas, comp\u00f5em os setores de trabalho informal, e por isso n\u00e3o acessam os direitos constitutivos da CLT, entre eles o vale-transporte, assim como os demais que permitiriam o acesso ao trabalho.<\/p>\n<p>A vida das mulheres atingidas pela Fraport assemelha-se \u00e0s viola\u00e7\u00f5es sofridas pelas mulheres atingidas pelo rompimento de barragens, hidrel\u00e9tricas, agroneg\u00f3cio, \u00e0 medida que a chegada das empresas, o exerc\u00edcio de sua atividade econ\u00f4mica, conflita com as formas de produ\u00e7\u00e3o da vida nos territ\u00f3rios. Em geral se observa que h\u00e1 uma sobrecarga do trabalho da economia de cuidado (acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade), al\u00e9m do n\u00e3o reconhecimento dos impactos no trabalho das mulheres, aprofundando a invisibilidade e a vulnerabilidade.<\/p>\n<p><strong>O nosso rem\u00e9dio \u00e9 a economia feminista popular<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 outras formas de alcan\u00e7ar o fim da impunidade das corpora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seja por meio da luta contra o poder corporativo. As mulheres, no mundo, t\u00eam se organizado e constru\u00eddo a economia feminista popular como uma ferramenta alternativa \u00e0 crise sist\u00eamica. \u00c9 por meio desta proposta que as mulheres t\u00eam constru\u00eddo la\u00e7os de solidariedade e apoiado outras mulheres a sa\u00edrem de sua condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Podemos citar as cozinhas comunit\u00e1rias presentes nos condom\u00ednios como estrat\u00e9gia de resist\u00eancia popular ao enfrentamento da fome e inseguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Com organiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, cujos la\u00e7os de solidariedade mostram-se como alternativa aos impactos provenientes do processo de remo\u00e7\u00e3o e reassentamento, \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar a pot\u00eancia presente nos territ\u00f3rios. Para al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o gratuita de alimentos, os espa\u00e7os das cozinhas se tornam refer\u00eancia na aten\u00e7\u00e3o, acolhida e cuidado, sobretudo para as mulheres e suas fam\u00edlias. Uma vez que compartilham suas hist\u00f3rias de vida, demandas e alternativas de melhor resistir entre si. S\u00e3o espa\u00e7os onde se gestam sonhos e esperan\u00e7as, trocas e afetos. Locais onde s\u00e3o poss\u00edveis a constru\u00e7\u00e3o de processos sociais emancipat\u00f3rios e de an\u00e1lise cr\u00edtica da pr\u00f3pria realidade enquanto componente fundamental para o fortalecimento da luta das mulheres.<\/p>\n<p>Pelo fim da impunidade aos impactos das a\u00e7\u00f5es produzidas pelas transnacionais! Por uma economia feminista e popular!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/24\/os-impactos-das-empresas-transnacionais-na-vida-das-mulheres\"><em>Coluna originalmente publicada no Jornal Brasil de Fato, no link: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/24\/os-impactos-das-empresas-transnacionais-na-vida-das-mulheres\u00a0<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As empresas transnacionais s\u00e3o o centro do capitalismo contempor\u00e2neo. Organizadas em amplas cadeias globais de valor, expropriam territ\u00f3rios extraindo mat\u00e9rias-primas, que s\u00e3o transferidas por corredores log\u00edsticos que cortam terras, pa\u00edses, oceanos. Favorecem a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata em todas as regi\u00f5es que estiverem dispostas a receber seus investimentos em troca da redu\u00e7\u00e3o de direitos humanos e trabalhistas. Assim, as corpora\u00e7\u00f5es det\u00eam um poder nunca antes visto, controlando economia, pol\u00edtica, cultura \u00a0e, por conseguinte, as formas de produ\u00e7\u00e3o da vida. Ao contr\u00e1rio do que os economistas liberais nos querem fazer crer, as corpora\u00e7\u00f5es s\u00e3o cada vez um grupo mais fechado. Esses donos do mundo decidiram parar de competir e se uniram para controlar setores estrat\u00e9gicos da economia, como a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e a sa\u00fade. Por detr\u00e1s desses investimentos est\u00e3o fundos de pens\u00e3o cujas pessoas jur\u00eddicas e f\u00edsicas ficam encobertas por um v\u00e9u jur\u00eddico de prote\u00e7\u00e3o, com uma riqueza pulverizada em diversos para\u00edsos fiscais ao longo da Terra. N\u00e3o h\u00e1 limites, apenas um \u00fanico objetivo:\u00a0seguir lucrando sempre mais. Contra esse poder nascem as lutas ao redor do dia 24 de abril, Dia Internacional de Solidariedade Feminista contra o Poder das Empresas Transnacionais. A data relembra as mais de mil v\u00edtimas do desabamento do pr\u00e9dio Rana Plaza, em Bangladesh, no ano de 2013. Mas tamb\u00e9m, as v\u00edtimas do Desastre de Bhopal, quando o vazamento de g\u00e1s da f\u00e1brica de pesticidas Union Carbide India Limited matou quase 4 mil pessoas na \u00cdndia. Ou ainda, as 272 pessoas mortas em Brumadinho e as 19 mortas em Mariana, nos rompimentos de barragens de minera\u00e7\u00e3o em Minas Gerais. As 150 pessoas resgatadas do trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o nas vin\u00edcolas do Rio Grande do Sul. Uma lista intermin\u00e1vel de graves viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos por essas empresas. A atua\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais deixa um rastro de viol\u00eancia nos corpos das mulheres, que queremos relembrar neste dia 24 de abril. Quando as empresas transnacionais chegam aos territ\u00f3rios com vulnerabilidade social, apresentam uma s\u00e9rie de discursos alegando que a obra ir\u00e1 promover o desenvolvimento local. V\u00e1rias narrativas corporativas s\u00e3o mobilizadas para conseguir a aceita\u00e7\u00e3o das comunidades. Em geral, na linha de frente da resist\u00eancia encontram-se as mulheres. E \u00e9 justamente sobre suas vidas que recaem a externaliza\u00e7\u00e3o dos danos sociais e ambientais das empresas. O patriarcado, como um sistema de domina\u00e7\u00e3o das mulheres, imp\u00f5e uma divis\u00e3o sexual do trabalho, que relega para as mulheres pap\u00e9is sociais de cuidado da casa, da fam\u00edlia, dos filhos, da sa\u00fade, da disponibilidade de alimentos, \u00e1gua, moradia. Quando todos esses direitos s\u00e3o amea\u00e7ados pelos interesses econ\u00f4micos das corpora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as mulheres que suportam a carga negativa. Tomemos como exemplo a situa\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica da presen\u00e7a da Fraport, empresa alem\u00e3, que recebeu a concess\u00e3o do Aeroporto Salgado Filho, na cidade de Porto Alegre (RS). A Fraport e a destrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida da Vila Nazar\u00e9 No ano de 1960 se formou a Vila Nazar\u00e9, nas margens do que hoje \u00e9 o aeroporto de Porto Alegre. Criada por camponeses e camponesas que foram sendo expulsos do campo e migraram para a capital em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Ao longo dos anos na ocupa\u00e7\u00e3o, a comunidade se organizou na Associa\u00e7\u00e3o de Moradores, conquistando sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, acesso \u00e0 \u00e1gua e luz, e desenvolveram formas de sustenta\u00e7\u00e3o por meio da reciclagem de materiais. Em mar\u00e7o de 2017, a prefeitura concedeu a administra\u00e7\u00e3o do aeroporto para a empresa alem\u00e3 Fraport, que iniciou uma opera\u00e7\u00e3o de amplia\u00e7\u00e3o da estrutura para atendimento de cargas. Nesse momento, come\u00e7ou o pesadelo da comunidade. Primeiro, a empresa negou a exist\u00eancia das fam\u00edlias na \u00e1rea, alegando que a ocupa\u00e7\u00e3o era ilegal. Uma t\u00e9cnica bastante comum entre as corpora\u00e7\u00f5es, negar a exist\u00eancia dos sujeitos e das viola\u00e7\u00f5es. As fam\u00edlias que viviam na Vila Nazar\u00e9 come\u00e7aram a sofrer um agressivo processo de remo\u00e7\u00e3o e de constrangimento por meio de diferentes estrat\u00e9gias de opress\u00e3o aos modos de vida existentes na comunidade. Ao passo que as fam\u00edlias eram removidas, tamb\u00e9m eram tiradas suas casas, apagando d\u00e9cadas de hist\u00f3rias. As m\u00e3es que iam permanecendo na comunidade, conviviam com riscos \u00e0 seguran\u00e7a das crian\u00e7as, inclusive uma delas chegou a ter a guarda de sua filha questionada pelo Conselho Tutelar diante da precariedade da regi\u00e3o de moradia. Logo no in\u00edcio das obras, a empresa construiu um muro ao redor do aeroporto. Este muro impediu o acesso das crian\u00e7as da Vila Dique \u00e0 escola. Sem o muro, o caminho at\u00e9 a escola levava 15 minutos, mas com ele, passou a levar\u00a0mais de uma hora, demandando at\u00e9 transporte p\u00fablico, o qual muitas fam\u00edlias n\u00e3o poderiam arcar. Algumas m\u00e3es tentaram quebrar o muro, para fornecer acesso das crian\u00e7as \u00e0 escola, mas foram criminalizadas. A empresa contratou uma consultoria para conduzir o processo de remo\u00e7\u00e3o, que foi pouco a pouco sufocando a comunidade e impedindo as condi\u00e7\u00f5es de vida. As mulheres enfrentaram, al\u00e9m do problema de acesso \u00e0 escola, o isolamento das casas e a falta de atendimento \u00e0 sa\u00fade &#8211; pois a Unidade de Sa\u00fade da regi\u00e3o foi fechada. Sendo obrigadas a irem para \u00e1rea de reassentamento, as quais n\u00e3o estavam preparadas com equipamentos para atender as demandas das fam\u00edlias. Foram alocadas em dois condom\u00ednios &#8211; Nosso Senhor do Bonfim, no bairro Sarandi, e Irm\u00e3os Maristas, localizado na Rubem Berta, empreendimentos que pertenciam \u00e0 prefeitura, sendo obras do programa federal &#8220;Minha Casa, Minha Vida&#8221;. Ocorre que, na divis\u00e3o, separaram-se familiares e amigos, quebrando os la\u00e7os comunit\u00e1rios existentes na Vila Nazar\u00e9. Para as mulheres, os la\u00e7os comunit\u00e1rios comp\u00f5em uma rede de solidariedade e apoio para a socializa\u00e7\u00e3o do cuidado com as crian\u00e7as, idosos e emerg\u00eancias de sa\u00fade. Em comunidade, as mulheres se apoiam para dividir tarefas de cuidado. Isaura Martins, militante do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Sem Teto (MTST) removida da Vila Nazar\u00e9, revela a crueldade da a\u00e7\u00e3o: &#8220;botaram cada um num canto&#8221;. Isaura conta ainda que o condom\u00ednio Irm\u00e3os Maristas, onde vive, difere muito da proposta que a empresa apresentou na \u00fanica reuni\u00e3o que realizou com a comunidade. &#8220;A vida \u00e9 ruim [no condom\u00ednio] porque fizeram um monte de<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":8419,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,1832,7],"tags":[],"class_list":["post-5512","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-economia-popular-e-feminista","category-justica-economica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5512"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5512\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8421,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5512\/revisions\/8421"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/8419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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