{"id":5460,"date":"2023-04-12T10:08:48","date_gmt":"2023-04-12T13:08:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5460"},"modified":"2025-06-16T14:48:36","modified_gmt":"2025-06-16T17:48:36","slug":"a-construcao-da-soberania-alimentar-e-o-retorno-das-politicas-publicas-agrarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5460","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o da Soberania Alimentar e o retorno das pol\u00edticas p\u00fablicas agr\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p>Nos quatro \u00faltimos anos, chegamos a 33 milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras passando fome. Esses n\u00fameros revelam uma situa\u00e7\u00e3o mais grave do que a encontrada pelo presidente Lula em 2001. E apontam para a urg\u00eancia de estrutura\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que tenham na soberania alimentar seu centro. Um pa\u00eds que n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir alimentos saud\u00e1veis e acess\u00edveis \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue avan\u00e7ar para qualquer projeto de na\u00e7\u00e3o digna.<\/p>\n<p>A principal bandeira de a\u00e7\u00e3o de Lula sempre foi o combate \u00e0 fome. J\u00e1 em sua posse, o governo lan\u00e7ou a retomada do Programa Bolsa Fam\u00edlia e o retorno do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social. Em fevereiro, Lula reinaugurou o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar (Consea), fechado em 2019 por Bolsonaro. O Conselho \u00e9 um importante espa\u00e7o de participa\u00e7\u00e3o popular na constru\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada. Dentre suas atividades, destacam-se o controle de estoques de alimentos; programas de cisternas para agricultura familiar, com articula\u00e7\u00e3o entre campo e cidade; rotulagem de alimentos; monitoramento de a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas. Vale recordar que o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o faz parte dos direitos sociais previstos no art. 6 da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora sejam fundamentais as medidas emergenciais do combate \u00e0 fome e o estabelecimento de programas de renda b\u00e1sica, enquanto a soberania alimentar n\u00e3o for tratada como pauta estruturante da pol\u00edtica agr\u00e1ria brasileira, seguiremos recaindo em ciclos de retorno ao mapa da fome. A soberania alimentar envolve um olhar mais sist\u00eamico ao modelo de produ\u00e7\u00e3o no campo, que prioriza a produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar de base ecol\u00f3gica. No Brasil, os alimentos que s\u00e3o disponibilizados em nossa mesa prov\u00eam da agricultura familiar que, no entanto, recebe menos incentivos e ocupa menores propor\u00e7\u00f5es de terras. As monoculturas do agroneg\u00f3cio n\u00e3o produzem a diversidade de alimentos nutricionais de que precisamos.<\/p>\n<p>Nesse caminho, o governo Lula d\u00e1 passos lentos. Sufocado pelo or\u00e7amento apertado, tenta encontrar caminhos para a retomada de pol\u00edticas p\u00fablicas em apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o camponesa. Durante o Governo Bolsonaro, a reforma agr\u00e1ria foi paralisada, e sofreu duros golpes. Um deles foi a edi\u00e7\u00e3o da normativa que autoriza a titula\u00e7\u00e3o individual dos lotes aos assentados da reforma agr\u00e1ria. Antes, o assentado possu\u00eda o direito de uso, sendo as terras de propriedade do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (INCRA), o que implicava que o Estado mantinha sua responsabilidade com a fun\u00e7\u00e3o social da terra, tendo o dever de assegurar pol\u00edticas p\u00fablicas. Agora, estimula-se a mercantiliza\u00e7\u00e3o das terras, tornando poss\u00edvel que \u00e1reas destinadas \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria sejam incorporadas ao mercado e se destinem \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira ou ao agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Outro efeito \u00e9 a explos\u00e3o de acampados que esperam acesso \u00e0 terra. Segundo o Movimento Sem Terra (MST), s\u00e3o por volta de 100 mil pessoas que aguardam, em mais de 360 projetos de assentamentos congelados. Muito embora o or\u00e7amento de R$ 2,4 milh\u00f5es seja irris\u00f3rio para a compra de terras, outros mecanismos precisam ser explorados como a regulariza\u00e7\u00e3o e destina\u00e7\u00e3o das terras p\u00fablicas, o cumprimento real da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e o questionamento da produtividade da monocultura, seja na gera\u00e7\u00e3o de trabalho como de alimento. Todo esse desafio recair\u00e1 no presidente do INCRA, nomeado apenas em mar\u00e7o.<\/p>\n<p>No \u00faltimo m\u00eas, o governo anunciou a retomada do Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA). O PAA realiza a compra direta de alimentos da agricultura familiar, e em sua nova modalidade, incluir\u00e1 comunidades ind\u00edgenas e quilombolas. No an\u00fancio realizado no dia 23 de mar\u00e7o, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), Edegar Preto, comunicou: &#8220;Vamos comprar, a pre\u00e7o de mercado, os alimentos dos agricultores familiares de todo o Brasil e ajudar a coloc\u00e1-los na mesa dos brasileiros, garantindo renda a quem produz e uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade aos consumidores&#8221;. Outra prioridade no programa \u00e9 a compra de alimentos das mulheres: est\u00e1 prevista a cota de que ao menos 50% das compras sejam das produtoras. Tamb\u00e9m foi reinstalado o Comit\u00ea de Assessoramento do programa, assegurando a participa\u00e7\u00e3o popular na gest\u00e3o da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Outro passo importante foi o retorno da titula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quilombolas. Em mar\u00e7o, o governo assinou a titula\u00e7\u00e3o de tr\u00eas territ\u00f3rios: Brejo dos Crioulos (MG), com 630 fam\u00edlias; Serra da Guia (SE), com 198 fam\u00edlias; e Lagoa dos Campinhos (SE), com 108 fam\u00edlias. J\u00e1 tendo titulado tanto quanto o Governo Bolsonaro em quatro anos. A medida faz parte do Programa Aquilombar Brasil, lan\u00e7ado pelo Minist\u00e9rio da Igualdade Racial. O governo ainda comunicou a destina\u00e7\u00e3o de 513 milh\u00f5es de reais para demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios \u00a0ind\u00edgenas.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/138a2c90e5e3cdc0c318a5f80054de28.jpeg\" \/><br \/>\n<strong><em>Barra do Turvo\/SP: interc\u00e2mbio de comunidades quilombolas e mulheres da agroecologia \/ Vanessa Silva\/Amigas da Terra Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O acesso \u00e0 terra e ao territ\u00f3rio s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es primeiras para que ind\u00edgenas, quilombolas, agricultura familiar e camponesa possam produzir alimentos saud\u00e1veis para o Brasil, garantindo tamb\u00e9m preserva\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a ambiental. Mas as necessidades n\u00e3o se limitam a isso, \u00e9 preciso fortalecer as redes de troca e comercializa\u00e7\u00e3o de sementes, reconhecer os saberes e as pr\u00e1ticas diversas dos povos do Brasil, incluir grupos informais de produ\u00e7\u00e3o e cultura agroecol\u00f3gica ancestral que, ainda mais durante a pandemia, realizaram e encurtaram circuitos solid\u00e1rios entre campo e cidade no combate \u00e0 fome e \u00e0 viol\u00eancia. Com solu\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m respondem \u00e0 crise clim\u00e1tica, mas principalmente \u00e0 garantia de renda e autonomia para as mulheres, redes como a Rede de Agroecologia de Mulheres Agricultoras da Barra do Turvo (RAMA), em S\u00e3o Paulo, em articula\u00e7\u00e3o com movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, como a Marcha Mundial de Mulheres (MMM) e a Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos (CONAQ) e com grupos de consumos na cidade de S\u00e3o Paulo, as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira realizaram, em mar\u00e7o, um interc\u00e2mbio com coletivos de mulheres do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul, promovendo uma integra\u00e7\u00e3o por meio do di\u00e1logo campo e cidade, constru\u00eddo na pr\u00e1tica pela organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para L\u00facia Ortiz, das Amigas da Terra Brasil, &#8220;a pot\u00eancia dos saberes e fazeres das mulheres, solid\u00e1rias no cuidado umas com as outras e generosas no trabalho em mutir\u00e3o, fortalecem seus conhecimentos ancestrais e sua luta por direitos, fazendo chegar \u00e0 cidade n\u00e3o apenas alimentos saud\u00e1veis, mas tamb\u00e9m valores de dignidade e de organiza\u00e7\u00e3o popular&#8221;.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/13eada42c10e2a64e2fbea798542b3bb.jpeg\" \/><br \/>\n<strong><em>Frutos das trocas de sementes e saberes quilombolas sobre a sociobiodiversidade e o feminismo popular \/ Clarissa Silveira, S\u00edtio Lib\u00e9lula\/Grupo Sal da Terra, em Rolante (RS)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A soberania alimentar e as pol\u00edticas p\u00fablicas envolvem, ainda, os desafios e atravessamentos da biotecnologia. Recentemente, a Comiss\u00e3o T\u00e9cnica Nacional de Biosseguran\u00e7a (CTNBIO) liberou a produ\u00e7\u00e3o de trigo transg\u00eanico no pa\u00eds. O trigo liberado envolve a modifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em 62 genes de DNA, uma quantidade muito superior \u00e0 soja de 4-5 mil, sendo que uma das modifica\u00e7\u00f5es \u00e9 realizada para resistir ao agrot\u00f3xico glufosinato de am\u00f4nio, o qual pode causar danos ao sistema nervoso. Sem a devida seguran\u00e7a ambiental e \u00e0 sa\u00fade humana, o trigo transg\u00eanico poder\u00e1 chegar \u00e0 mesa dos brasileiros rapidamente. Na Europa, a esp\u00e9cie n\u00e3o foi autorizada diante da falta de comprova\u00e7\u00e3o. Segundo Naiara Bittencourt, coordenadora do Programa Igua\u00e7u na organiza\u00e7\u00e3o Terra de Direitos, &#8220;o processo de libera\u00e7\u00e3o da farinha e, agora, do cultivo de trigo transg\u00eanico no Brasil apresenta in\u00fameros v\u00edcios e ilegalidades que implicam a sua nulidade. Propagandeado como resistente \u00e0 seca, o trigo tamb\u00e9m \u00e9 modificado para resistir ao glufosinato de am\u00f4nio, agrot\u00f3xico mais perigoso que o glifosato e \u00e9 considerado potencial cancer\u00edgeno pela OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade]&#8221;.<\/p>\n<p>No m\u00eas do Abril Vermelho, recordamos os 27 anos do Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, no Par\u00e1; saudamos a mem\u00f3ria de todos os filhos e de todas as filhas desta na\u00e7\u00e3o que lutam pelo acesso \u00e0 terra e perman\u00eancia no territ\u00f3rio; que plantam e semeiam a comida de nossas mesas; esses trabalhadores e essas trabalhadoras que sonham que um dia haja um governo que governe para eles e elas. Esperamos ansiosos e ansiosas pelos dias de ousadia, quando a erradica\u00e7\u00e3o da fome, a reforma agr\u00e1ria, a biodiversidade, a igualdade racial, a dignidade dos povos deste pa\u00eds sejam o centro, e que no projeto pol\u00edtico de na\u00e7\u00e3o seja priorizada a soberania alimentar, porque \u00e9 por meio dela e com ela que ergueremos a soberania popular.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Thalita Pires<\/p>\n<p><em><strong>Divulgamos, abaixo, depoimento de Nilce Pontes, da CONAQ (Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos ) sobre a import\u00e2ncia de pol\u00edticas de compras p\u00fablicas, entre elas o PAA (Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos), para a agricultura camponesa e quilombola e os riscos que correm com o Acordo UE-Mercosul (Uni\u00e3o Europeia):<\/strong><\/em><\/p>\n<p><iframe title=\"Campanha #ParemOAcordoUEMercosul: Nilce Pontes (CONAQ)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EwpeZyeer4Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Coluna da ATBr publicada no jornal Brasil de Fato originalmente em<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/11\/a-construcao-da-soberania-alimentar-e-o-retorno-das-politicas-publicas-agrarias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/04\/11\/a-construcao-da-soberania-alimentar-e-o-retorno-das-politicas-publicas-agrarias<\/strong> <\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos quatro \u00faltimos anos, chegamos a 33 milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras passando fome. 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Dentre suas atividades, destacam-se o controle de estoques de alimentos; programas de cisternas para agricultura familiar, com articula\u00e7\u00e3o entre campo e cidade; rotulagem de alimentos; monitoramento de a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas. Vale recordar que o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o faz parte dos direitos sociais previstos no art. 6 da Constitui\u00e7\u00e3o. Embora sejam fundamentais as medidas emergenciais do combate \u00e0 fome e o estabelecimento de programas de renda b\u00e1sica, enquanto a soberania alimentar n\u00e3o for tratada como pauta estruturante da pol\u00edtica agr\u00e1ria brasileira, seguiremos recaindo em ciclos de retorno ao mapa da fome. A soberania alimentar envolve um olhar mais sist\u00eamico ao modelo de produ\u00e7\u00e3o no campo, que prioriza a produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar de base ecol\u00f3gica. No Brasil, os alimentos que s\u00e3o disponibilizados em nossa mesa prov\u00eam da agricultura familiar que, no entanto, recebe menos incentivos e ocupa menores propor\u00e7\u00f5es de terras. As monoculturas do agroneg\u00f3cio n\u00e3o produzem a diversidade de alimentos nutricionais de que precisamos. Nesse caminho, o governo Lula d\u00e1 passos lentos. Sufocado pelo or\u00e7amento apertado, tenta encontrar caminhos para a retomada de pol\u00edticas p\u00fablicas em apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o camponesa. Durante o Governo Bolsonaro, a reforma agr\u00e1ria foi paralisada, e sofreu duros golpes. Um deles foi a edi\u00e7\u00e3o da normativa que autoriza a titula\u00e7\u00e3o individual dos lotes aos assentados da reforma agr\u00e1ria. Antes, o assentado possu\u00eda o direito de uso, sendo as terras de propriedade do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (INCRA), o que implicava que o Estado mantinha sua responsabilidade com a fun\u00e7\u00e3o social da terra, tendo o dever de assegurar pol\u00edticas p\u00fablicas. Agora, estimula-se a mercantiliza\u00e7\u00e3o das terras, tornando poss\u00edvel que \u00e1reas destinadas \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria sejam incorporadas ao mercado e se destinem \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira ou ao agroneg\u00f3cio. Outro efeito \u00e9 a explos\u00e3o de acampados que esperam acesso \u00e0 terra. Segundo o Movimento Sem Terra (MST), s\u00e3o por volta de 100 mil pessoas que aguardam, em mais de 360 projetos de assentamentos congelados. Muito embora o or\u00e7amento de R$ 2,4 milh\u00f5es seja irris\u00f3rio para a compra de terras, outros mecanismos precisam ser explorados como a regulariza\u00e7\u00e3o e destina\u00e7\u00e3o das terras p\u00fablicas, o cumprimento real da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e o questionamento da produtividade da monocultura, seja na gera\u00e7\u00e3o de trabalho como de alimento. Todo esse desafio recair\u00e1 no presidente do INCRA, nomeado apenas em mar\u00e7o. No \u00faltimo m\u00eas, o governo anunciou a retomada do Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA). O PAA realiza a compra direta de alimentos da agricultura familiar, e em sua nova modalidade, incluir\u00e1 comunidades ind\u00edgenas e quilombolas. No an\u00fancio realizado no dia 23 de mar\u00e7o, o presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), Edegar Preto, comunicou: &#8220;Vamos comprar, a pre\u00e7o de mercado, os alimentos dos agricultores familiares de todo o Brasil e ajudar a coloc\u00e1-los na mesa dos brasileiros, garantindo renda a quem produz e uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade aos consumidores&#8221;. Outra prioridade no programa \u00e9 a compra de alimentos das mulheres: est\u00e1 prevista a cota de que ao menos 50% das compras sejam das produtoras. Tamb\u00e9m foi reinstalado o Comit\u00ea de Assessoramento do programa, assegurando a participa\u00e7\u00e3o popular na gest\u00e3o da pol\u00edtica. Outro passo importante foi o retorno da titula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quilombolas. Em mar\u00e7o, o governo assinou a titula\u00e7\u00e3o de tr\u00eas territ\u00f3rios: Brejo dos Crioulos (MG), com 630 fam\u00edlias; Serra da Guia (SE), com 198 fam\u00edlias; e Lagoa dos Campinhos (SE), com 108 fam\u00edlias. J\u00e1 tendo titulado tanto quanto o Governo Bolsonaro em quatro anos. A medida faz parte do Programa Aquilombar Brasil, lan\u00e7ado pelo Minist\u00e9rio da Igualdade Racial. O governo ainda comunicou a destina\u00e7\u00e3o de 513 milh\u00f5es de reais para demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios \u00a0ind\u00edgenas. Barra do Turvo\/SP: interc\u00e2mbio de comunidades quilombolas e mulheres da agroecologia \/ Vanessa Silva\/Amigas da Terra Brasil O acesso \u00e0 terra e ao territ\u00f3rio s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es primeiras para que ind\u00edgenas, quilombolas, agricultura familiar e camponesa possam produzir alimentos saud\u00e1veis para o Brasil, garantindo tamb\u00e9m preserva\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a ambiental. Mas as necessidades n\u00e3o se limitam a isso, \u00e9 preciso fortalecer as redes de troca e comercializa\u00e7\u00e3o de sementes, reconhecer os saberes e as pr\u00e1ticas diversas dos povos do Brasil, incluir grupos informais de produ\u00e7\u00e3o e cultura agroecol\u00f3gica ancestral que, ainda mais durante a pandemia, realizaram e encurtaram circuitos solid\u00e1rios entre campo e cidade no combate \u00e0 fome e \u00e0 viol\u00eancia. Com solu\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m respondem \u00e0 crise clim\u00e1tica, mas principalmente \u00e0 garantia de renda e autonomia para as mulheres, redes como a Rede de Agroecologia de Mulheres Agricultoras da Barra do Turvo (RAMA), em S\u00e3o Paulo, em articula\u00e7\u00e3o com movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, como a Marcha Mundial de Mulheres (MMM) e a Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos (CONAQ) e com grupos de consumos na cidade de S\u00e3o Paulo, as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira realizaram, em mar\u00e7o, um interc\u00e2mbio com coletivos de mulheres do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul, promovendo uma integra\u00e7\u00e3o por meio do di\u00e1logo campo e cidade, constru\u00eddo na pr\u00e1tica pela organiza\u00e7\u00e3o. Para L\u00facia Ortiz, das Amigas da Terra Brasil, &#8220;a pot\u00eancia dos saberes e fazeres das mulheres, solid\u00e1rias no cuidado umas com as outras e generosas no trabalho em mutir\u00e3o, fortalecem seus conhecimentos ancestrais e sua luta por direitos, fazendo chegar \u00e0 cidade n\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,5,1835],"tags":[],"class_list":["post-5460","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5460","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5460"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5460\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9550,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5460\/revisions\/9550"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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