{"id":5441,"date":"2023-04-17T16:57:20","date_gmt":"2023-04-17T19:57:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5441"},"modified":"2025-06-12T14:03:18","modified_gmt":"2025-06-12T17:03:18","slug":"fluxos-cosmologicos-na-cidade-a-desinvisibilizacao-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5441","title":{"rendered":"Fluxos cosmol\u00f3gicos na cidade: a (des)invisibiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-weight: 400;\">Artigo\u00a0 de Carmem L\u00facia Thomas Guardiola\u00b9 e Roberta Deroma\u00b2 aborda as retomadas Mbya Guarani na Ponta do Arado (Porto Alegre-RS). No extremo sul da cidade de Porto Alegre, no bairro Bel\u00e9m Novo, um movimento cosmol\u00f3gico em busca de territorialidade acontece em terras de propriedade privada. Ind\u00edgenas da etnia Mbya Guarani retomam territ\u00f3rio na Ponta do Arado at\u00e9 ent\u00e3o destinado a constru\u00e7\u00e3o de um empreendimento imobili\u00e1rio. O movimento de Retomada de territorialidade perpassa a cidade e seus habitantes em rela\u00e7\u00f5es de conflitos e afetos, no qual interesses econ\u00f4micos e de bem viver v\u00e3o construindo hist\u00f3rias. Confira:\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<div class=\"hb hc hd he hf\">\n<p id=\"9ab7\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Porto Alegre tem seus bairros centrais repletos de concreto, pr\u00e9dios uns ao lado dos outros e muitos carros soltando fuma\u00e7a cinza percorrendo ruas asfaltadas de sentimentos expostos nos ritmos urbanos. Os bairros mais afastados do centro na zona sul mesclam o concreto ao verde em uma mistura de asfalto e de terra, de pessoas e de n\u00e3o humanos, de \u00e1reas urbanas e de \u00e1reas rurais.<\/p>\n<p id=\"5c7c\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Entre todas estas ambi\u00eancias \u2014 bairros, cores, ch\u00e3os, pessoas, ru\u00eddos \u2013, encontramos os Mbya. Estes ind\u00edgenas t\u00eam seu territ\u00f3rio de viv\u00eancias n\u00e3o demarcado por linhas fronteiri\u00e7as divis\u00f3rias, mas em uma vasta \u00e1rea ao sul da Am\u00e9rica do Sul. Eles caminham e vivenciam estes espa\u00e7os, mas \u00e9 nas matas ou pr\u00f3ximo a elas que se constituem como ind\u00edgenas Mbya.<\/p>\n<p id=\"876e\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">\u00c9 em busca destes territ\u00f3rios, perpassados por concreto, que os Mbya caminham rumo ao seu fortalecimento: tr\u00eas lideran\u00e7as se deslocaram por terra e por \u00e1gua at\u00e9 chegarem a ponta do Arado Velho. De barco seguiram e aportam no dia 15 de junho de 2018 na Ponta do Arado onde Alexandre, Tim\u00f3teo e Bas\u00edlio com suas fam\u00edlias encontraram todos os elementos de viv\u00eancia para potencializa\u00e7\u00e3o de seus corpos.<\/p>\n<p id=\"7a92\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Neste mesmo espa\u00e7o geogr\u00e1fico existe outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p id=\"b58d\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">A Ponta do Arado \u00e9 uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o de 223 hectares e faz parte de um todo de 426 hectares da Fazenda do Arado Velho que est\u00e1 localizada \u00e0s margens do Gua\u00edba no bairro Bel\u00e9m Novo, extremo sul da cidade de Porto alegre. Uma \u00e1rea territorial estranha aos moldes do ind\u00edgena por ser privada e com donos. Nessa hist\u00f3ria, os propriet\u00e1rios, representados pela Arado Empreendimentos Ltda., idealizam um projeto de urbaniza\u00e7\u00e3o que prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios de alto padr\u00e3o e centros comerciais.<\/p>\n<p id=\"7cb6\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Conflitos emergem diante de diferentes vis\u00f5es de mundo relacionadas \u00e0s quest\u00f5es ambientais, est\u00e9ticas e econ\u00f4micas. Sentimentos desabrocham, constroem e transformam a hist\u00f3ria do bairro atravessada pelas disputas sociais e pol\u00edticas em torno de uma terra singular que \u00e9 significada atrav\u00e9s da longa viv\u00eancia de seus moradores.<\/p>\n<p id=\"0e9b\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Ap\u00f3s den\u00fancias e press\u00f5es do movimento socioambiental composto por estudantes, ambientalistas e moradores do bairro Bel\u00e9m Novo, o projeto de urbaniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 suspenso por quest\u00f5es legais no momento desta publica\u00e7\u00e3o. Tais conflitos com os empreendedores se intensificaram frente a uma nova presen\u00e7a antes invisibilizada: a presen\u00e7a ind\u00edgena Mbya Guarani.<\/p>\n<p id=\"f96a\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Enquanto os idealizadores do empreendimento imobili\u00e1rio demandam na justi\u00e7a a concretiza\u00e7\u00e3o de seus planos, criam conflitos ideol\u00f3gicos e morais entre os moradores e causam indisposi\u00e7\u00f5es e constrangimentos para os Mbya que permanecem fortes e determinados em estado de Retomada das terras e do seu modo de ser.<\/p>\n<p id=\"7f72\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Neste estado de Retomada, os ind\u00edgenas recebem apoio de um movimento em alguns momentos de tens\u00e3o. Os Mbya foram expulsos das matas da Ponta do Arado e encurralados nas areias da praia sem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, impedidos de transitar nas matas da regi\u00e3o para buscarem materiais \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de casas e de plantar suas sementes milenares passadas de Guarani \u00e0 Guarani. Quando s\u00e3o constrangidos pelos n\u00e3o-ind\u00edgenas, o movimento lhes oferece alimentos, filtros de \u00e1gua, roupas, materiais para erguerem seus abrigos, um barco para se locomoverem e visitarem seus familiares ou mesmo receb\u00ea-los em visita. Recebem tamb\u00e9m o apoio afetivo do\u00a0<em class=\"ik\">Juru\u00e1<\/em>\u00a0(n\u00e3o-ind\u00edgenas) ao irem em busca de redes de apoio em eventos na cidade.<\/p>\n<p id=\"95e9\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">A cidade perpassa o mundo Mbya. N\u00e3o mais somente os campos, os rios, os lagos, os arroios e os outros ind\u00edgenas, como tamb\u00e9m os espa\u00e7os urbanos.<\/p>\n<p id=\"d627\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Em meio a acusa\u00e7\u00f5es \u2014 como de destruidores do meio ambiente \u2013, as fam\u00edlias Guarani na Ponta do Arado est\u00e3o em um espa\u00e7o \u00ednfimo ao lado de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos com vest\u00edgios de seus ancestrais. Estes, que eram canoeiros, circulavam pelo Gua\u00edba e pela Lagoa dos Patos de ponta em ponta, e a ponta do Arado Velho era somente mais um espa\u00e7o de vida sem propriedades privadas. Hoje o local se configura enquanto perif\u00e9rico tanto a respeito de sua localiza\u00e7\u00e3o quanto de sua inser\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os de di\u00e1logo sobre a cidade de Porto Alegre. Seu pr\u00f3prio status de zona rural se encontra fragilizado, tornando-se alvo de altera\u00e7\u00f5es e projetos de leis que denotam parcialidade ao se empenharem em propiciar a constru\u00e7\u00e3o do empreendimento e ao desconsiderar a malha de conflitos e quest\u00f5es emergentes.<\/p>\n<p id=\"3bc9\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">A regi\u00e3o segue acompanhada do risco de estar fadada a um \u00fanico modo de se conceber a cidade sob o discurso de progresso e de crescimento. Modo este que desconhece presen\u00e7as ind\u00edgenas no territ\u00f3rio urbano e que refor\u00e7a estere\u00f3tipos em torno da pessoa ind\u00edgena ao negar este espa\u00e7o a elas.<\/p>\n<p id=\"1255\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">O estado de Retomada de terras dentro da sua compreens\u00e3o enquanto resili\u00eancia pode ser entendido como um modo de se retomar uma cosmovis\u00e3o aniquilada e ressignificar lugares, questionando acerca das fun\u00e7\u00f5es dos espa\u00e7os urbanos e o quanto correspondem \u00e0s necessidades daqueles que, de v\u00e1rios modos, fazem parte deles. Terra e ancestralidade se somam em forma de Retomada, indaga\u00e7\u00f5es e perspectivas.<\/p>\n<p id=\"9720\" class=\"pw-post-body-paragraph ii ij hi il b im in io ip iq ir is it ji iv iw ix jj iz ja jb jk jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">Esta distinta forma de interrogar, interpretar e sentir o mundo nos traz respostas para a quest\u00e3o: como em tanto tempo de suas exist\u00eancias, constrangidos a se contentar com cada vez menos matas, suas crian\u00e7as ainda brincam nas areias das praias da cidade?<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-5441 gallery-columns-3 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?attachment_id=5480'><img decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1-150x150.png?wsr\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1-150x150.png 150w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/1-100x100.png 100w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?attachment_id=5482'><img decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/2-150x150.png?wsr\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/2-150x150.png 150w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/2-100x100.png 100w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?attachment_id=5483'><img decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/3-150x150.png?wsr\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/3-150x150.png 150w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/3-100x100.png 100w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<\/div>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p id=\"f883\" class=\"ii ij ik il b im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\"><a class=\"ae jh\" href=\"https:\/\/medium.com\/fotocronografias\/fluxos-cosmol%C3%B3gicos-na-cidade-a-des-invisibiliza%C3%A7%C3%A3o-ind%C3%ADgena-d72c9a95dfff#_ftnref1\" rel=\"noopener ugc nofollow\">[1]<\/a>\u00a0Graduanda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora associada ao N\u00facleo de Antropologia das Sociedades Ind\u00edgenas e Tradicionais (NIT\/PPGAS\/UFRGS), guardiolars2@gmail.com,\u00a0<a class=\"ae jh\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4343383842143051\" target=\"_blank\" rel=\"noopener ugc nofollow\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/4343383842143051<\/a><\/p>\n<p id=\"26fc\" class=\"ii ij ik il b im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\"><a class=\"ae jh\" href=\"https:\/\/medium.com\/fotocronografias\/fluxos-cosmol%C3%B3gicos-na-cidade-a-des-invisibiliza%C3%A7%C3%A3o-ind%C3%ADgena-d72c9a95dfff#_ftnref2\" rel=\"noopener ugc nofollow\">[2]<\/a>\u00a0Graduanda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integra o N\u00facleo de Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Sa\u00fade (NUPACS\/PPGAS\/UFRGS), deromaroberta@gmail.com,\u00a0<a class=\"ae jh\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3096737094617446\" target=\"_blank\" rel=\"noopener ugc nofollow\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/3096737094617446<\/a><\/p>\n<p id=\"fef2\" class=\"kt ku hi bd kv kw kx ky kz la lb lc ld ji le lf lg jj lh li lj jk lk ll lm ln bi\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<blockquote class=\"if ig ih\">\n<p id=\"dea4\" class=\"ii ij ik il b im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">LADEIRA, Maria In\u00eas. O caminhar sob a luz: o territ\u00f3rio Mbya \u00e0 beira do oceano. S\u00e3o Paulo: UNESP, 1992.<\/p>\n<p id=\"b3ce\" class=\"ii ij ik il b im in io ip iq ir is it iu iv iw ix iy iz ja jb jc jd je jf jg hb bi\" data-selectable-paragraph=\"\">PISSOLATO, Elizabeth de Paula. A dura\u00e7\u00e3o da pessoa: mobilidade, parentesco e xamanismo mbya (guarani). S\u00e3o Paulo: UNESP\/ISA, Rio de Janeiro: NUTI, 2007.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/medium.com\/fotocronografias\/fluxos-cosmol%C3%B3gicos-na-cidade-a-des-invisibiliza%C3%A7%C3%A3o-ind%C3%ADgena-d72c9a95dfff\">O artigo foi publico originalmente aqui, confira<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo\u00a0 de Carmem L\u00facia Thomas Guardiola\u00b9 e Roberta Deroma\u00b2 aborda as retomadas Mbya Guarani na Ponta do Arado (Porto Alegre-RS). No extremo sul da cidade de Porto Alegre, no bairro Bel\u00e9m Novo, um movimento cosmol\u00f3gico em busca de territorialidade acontece em terras de propriedade privada. Ind\u00edgenas da etnia Mbya Guarani retomam territ\u00f3rio na Ponta do Arado at\u00e9 ent\u00e3o destinado a constru\u00e7\u00e3o de um empreendimento imobili\u00e1rio. O movimento de Retomada de territorialidade perpassa a cidade e seus habitantes em rela\u00e7\u00f5es de conflitos e afetos, no qual interesses econ\u00f4micos e de bem viver v\u00e3o construindo hist\u00f3rias. Confira:\u00a0 Porto Alegre tem seus bairros centrais repletos de concreto, pr\u00e9dios uns ao lado dos outros e muitos carros soltando fuma\u00e7a cinza percorrendo ruas asfaltadas de sentimentos expostos nos ritmos urbanos. Os bairros mais afastados do centro na zona sul mesclam o concreto ao verde em uma mistura de asfalto e de terra, de pessoas e de n\u00e3o humanos, de \u00e1reas urbanas e de \u00e1reas rurais. Entre todas estas ambi\u00eancias \u2014 bairros, cores, ch\u00e3os, pessoas, ru\u00eddos \u2013, encontramos os Mbya. Estes ind\u00edgenas t\u00eam seu territ\u00f3rio de viv\u00eancias n\u00e3o demarcado por linhas fronteiri\u00e7as divis\u00f3rias, mas em uma vasta \u00e1rea ao sul da Am\u00e9rica do Sul. Eles caminham e vivenciam estes espa\u00e7os, mas \u00e9 nas matas ou pr\u00f3ximo a elas que se constituem como ind\u00edgenas Mbya. \u00c9 em busca destes territ\u00f3rios, perpassados por concreto, que os Mbya caminham rumo ao seu fortalecimento: tr\u00eas lideran\u00e7as se deslocaram por terra e por \u00e1gua at\u00e9 chegarem a ponta do Arado Velho. De barco seguiram e aportam no dia 15 de junho de 2018 na Ponta do Arado onde Alexandre, Tim\u00f3teo e Bas\u00edlio com suas fam\u00edlias encontraram todos os elementos de viv\u00eancia para potencializa\u00e7\u00e3o de seus corpos. Neste mesmo espa\u00e7o geogr\u00e1fico existe outra hist\u00f3ria. A Ponta do Arado \u00e9 uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o de 223 hectares e faz parte de um todo de 426 hectares da Fazenda do Arado Velho que est\u00e1 localizada \u00e0s margens do Gua\u00edba no bairro Bel\u00e9m Novo, extremo sul da cidade de Porto alegre. Uma \u00e1rea territorial estranha aos moldes do ind\u00edgena por ser privada e com donos. Nessa hist\u00f3ria, os propriet\u00e1rios, representados pela Arado Empreendimentos Ltda., idealizam um projeto de urbaniza\u00e7\u00e3o que prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios de alto padr\u00e3o e centros comerciais. Conflitos emergem diante de diferentes vis\u00f5es de mundo relacionadas \u00e0s quest\u00f5es ambientais, est\u00e9ticas e econ\u00f4micas. Sentimentos desabrocham, constroem e transformam a hist\u00f3ria do bairro atravessada pelas disputas sociais e pol\u00edticas em torno de uma terra singular que \u00e9 significada atrav\u00e9s da longa viv\u00eancia de seus moradores. Ap\u00f3s den\u00fancias e press\u00f5es do movimento socioambiental composto por estudantes, ambientalistas e moradores do bairro Bel\u00e9m Novo, o projeto de urbaniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 suspenso por quest\u00f5es legais no momento desta publica\u00e7\u00e3o. Tais conflitos com os empreendedores se intensificaram frente a uma nova presen\u00e7a antes invisibilizada: a presen\u00e7a ind\u00edgena Mbya Guarani. Enquanto os idealizadores do empreendimento imobili\u00e1rio demandam na justi\u00e7a a concretiza\u00e7\u00e3o de seus planos, criam conflitos ideol\u00f3gicos e morais entre os moradores e causam indisposi\u00e7\u00f5es e constrangimentos para os Mbya que permanecem fortes e determinados em estado de Retomada das terras e do seu modo de ser. Neste estado de Retomada, os ind\u00edgenas recebem apoio de um movimento em alguns momentos de tens\u00e3o. Os Mbya foram expulsos das matas da Ponta do Arado e encurralados nas areias da praia sem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, impedidos de transitar nas matas da regi\u00e3o para buscarem materiais \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de casas e de plantar suas sementes milenares passadas de Guarani \u00e0 Guarani. Quando s\u00e3o constrangidos pelos n\u00e3o-ind\u00edgenas, o movimento lhes oferece alimentos, filtros de \u00e1gua, roupas, materiais para erguerem seus abrigos, um barco para se locomoverem e visitarem seus familiares ou mesmo receb\u00ea-los em visita. Recebem tamb\u00e9m o apoio afetivo do\u00a0Juru\u00e1\u00a0(n\u00e3o-ind\u00edgenas) ao irem em busca de redes de apoio em eventos na cidade. A cidade perpassa o mundo Mbya. N\u00e3o mais somente os campos, os rios, os lagos, os arroios e os outros ind\u00edgenas, como tamb\u00e9m os espa\u00e7os urbanos. Em meio a acusa\u00e7\u00f5es \u2014 como de destruidores do meio ambiente \u2013, as fam\u00edlias Guarani na Ponta do Arado est\u00e3o em um espa\u00e7o \u00ednfimo ao lado de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos com vest\u00edgios de seus ancestrais. Estes, que eram canoeiros, circulavam pelo Gua\u00edba e pela Lagoa dos Patos de ponta em ponta, e a ponta do Arado Velho era somente mais um espa\u00e7o de vida sem propriedades privadas. Hoje o local se configura enquanto perif\u00e9rico tanto a respeito de sua localiza\u00e7\u00e3o quanto de sua inser\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os de di\u00e1logo sobre a cidade de Porto Alegre. Seu pr\u00f3prio status de zona rural se encontra fragilizado, tornando-se alvo de altera\u00e7\u00f5es e projetos de leis que denotam parcialidade ao se empenharem em propiciar a constru\u00e7\u00e3o do empreendimento e ao desconsiderar a malha de conflitos e quest\u00f5es emergentes. A regi\u00e3o segue acompanhada do risco de estar fadada a um \u00fanico modo de se conceber a cidade sob o discurso de progresso e de crescimento. Modo este que desconhece presen\u00e7as ind\u00edgenas no territ\u00f3rio urbano e que refor\u00e7a estere\u00f3tipos em torno da pessoa ind\u00edgena ao negar este espa\u00e7o a elas. O estado de Retomada de terras dentro da sua compreens\u00e3o enquanto resili\u00eancia pode ser entendido como um modo de se retomar uma cosmovis\u00e3o aniquilada e ressignificar lugares, questionando acerca das fun\u00e7\u00f5es dos espa\u00e7os urbanos e o quanto correspondem \u00e0s necessidades daqueles que, de v\u00e1rios modos, fazem parte deles. Terra e ancestralidade se somam em forma de Retomada, indaga\u00e7\u00f5es e perspectivas. Esta distinta forma de interrogar, interpretar e sentir o mundo nos traz respostas para a quest\u00e3o: como em tanto tempo de suas exist\u00eancias, constrangidos a se contentar com cada vez menos matas, suas crian\u00e7as ainda brincam nas areias das praias da cidade? &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212; [1]\u00a0Graduanda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora associada ao N\u00facleo de Antropologia das Sociedades Ind\u00edgenas e Tradicionais (NIT\/PPGAS\/UFRGS), guardiolars2@gmail.com,\u00a0http:\/\/lattes.cnpq.br\/4343383842143051 [2]\u00a0Graduanda em Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integra o N\u00facleo de Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Sa\u00fade (NUPACS\/PPGAS\/UFRGS), deromaroberta@gmail.com,\u00a0http:\/\/lattes.cnpq.br\/3096737094617446 Refer\u00eancias: LADEIRA, Maria In\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5480,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[600,498,602,1837],"tags":[],"class_list":["post-5441","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antirracismo","category-defensoras-e-defensores-dos-territorios","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-retomadas-e-direito-a-cidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5441","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5441"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5441\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9545,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5441\/revisions\/9545"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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