{"id":5322,"date":"2023-02-28T17:35:19","date_gmt":"2023-02-28T20:35:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5322"},"modified":"2025-06-16T14:52:18","modified_gmt":"2025-06-16T17:52:18","slug":"estao-nos-matando-mas-ainda-assim-semeamos-a-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5322","title":{"rendered":"Est\u00e3o nos matando, mas ainda assim semeamos a esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>N\u00f3s, mulheres, somos 51,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, e mesmo assim n\u00e3o chegamos a ser metade das cadeiras do Congresso Nacional (17,7%) ou do Judici\u00e1rio (38,8%). Tampouco temos a representatividade devida nas Assembleias Estaduais, C\u00e2maras Municipais ou na dire\u00e7\u00e3o do Executivo. A \u00fanica mulher eleita Presidenta,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/01\/10\/tudo-comecou-em-2016-com-o-golpe-contra-dilma-rousseff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dilma Rousseff<\/a>, sofreu um golpe mis\u00f3gino em 2016. Ser\u00e1 imposs\u00edvel pensar em igualdade de g\u00eanero quando sequer somos capazes de construir uma equidade de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio se agrava quando olhamos os quatro \u00faltimos anos de Governo Bolsonaro. Quando as pol\u00edticas p\u00fablicas se destinaram a retificar pap\u00e9is hist\u00f3ricos de g\u00eanero que refor\u00e7am a divis\u00e3o sexual do trabalho. A mensagem pol\u00edtica transmitida pelo governo e representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas era sintetizada em express\u00f5es como: \u201c<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2016\/04\/28\/quanto-vale-a-imagem-bela-e-recatada-de-marcela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">bela, recatada e do lar<\/a>\u201d; \u201c<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/01\/22\/pt-aciona-mpf-contra-bolsonaro-e-damares-por-suspeita-de-genocidio-contra-povo-yanomami\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">meninas vestem rosa e meninos azul<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Neste universo conservador, agregava-se o fundamentalismo religioso propagado pelas posi\u00e7\u00f5es fascistas que confrontavam diretamente os direitos historicamente conquistados das mulheres, especialmente os\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/09\/29\/a-luta-por-direitos-reprodutivos-e-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sexuais e reprodutivos<\/a>.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas comprovam os retrocessos. Segundo o relat\u00f3rio de transi\u00e7\u00e3o, houve uma desidrata\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas \u00e0s mulheres; apenas no primeiro semestre de 2022, o pa\u00eds bateu recordes de feminic\u00eddio. Em 2021, 66 mil brasileiras foram v\u00edtimas de estupro e 230 mil sofreram agress\u00f5es f\u00edsicas por viol\u00eancia dom\u00e9stica. Se olharmos esses dados sob o recorte racial, ainda encontraremos que 67% das v\u00edtimas de feminic\u00eddio e 89% das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual s\u00e3o mulheres negras. A partir de 2016, a Secretaria de Pol\u00edticas P\u00fablicas para as Mulheres sofreu um corte de 90% de seu or\u00e7amento.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria atingiu de forma distinta as mulheres, refletindo a urg\u00eancia de um debate p\u00fablico sobre a economia de cuidados. Isso porque as mulheres ocuparam as linhas de frente de combate ao coronav\u00edrus sendo as enfermeiras dos hospitais, as cuidadoras dos doentes nas casas e as que sustentaram o isolamento dom\u00e9stico. As trabalhadoras dom\u00e9sticas foram as primeiras a serem infectadas pela pandemia e as mais impactadas pelos efeitos do covid-19.<\/p>\n<p>O retorno do pa\u00eds ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/09\/14\/mapa-da-fome-pesquisa-mostra-onde-estao-as-pessoas-em-inseguranca-alimentar-no-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mapa da fome<\/a>\u00a0afeta sobremaneira as mulheres: 1 em cada cinco lares chefiados por mulheres n\u00e3o tem o que comer no dia a dia. A sobrecarga de trabalho dom\u00e9stico, j\u00e1 excessiva, aumentou ainda mais no desmantelamento de pol\u00edticas sociais como escola e creches, agravando uma conjuntura marcada pelo desemprego generalizado. Nossas mulheres est\u00e3o cansadas, doentes.<\/p>\n<p>Em realidade, as disparidades de g\u00eanero cresceram em todo o mundo com a pandemia, estima-se que para atingir a igualdade de g\u00eanero levar\u00edamos 135,6 anos. O Brasil ocupa a 93\u00aa posi\u00e7\u00e3o no mundo, de 153 pa\u00edses, sendo o pen\u00faltimo na lista latino-americana. O que nos torna um gigante de desigualdade.<\/p>\n<p>O Informe Global de G\u00eanero, do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, prop\u00f5e que para superar as lacunas s\u00e3o necess\u00e1rios investimentos no setor de assist\u00eancia social, constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para igualdade no mundo do trabalho e capacita\u00e7\u00e3o das mulheres. A ret\u00f3rica da organiza\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 bastante peculiar, j\u00e1 que se de um lado prop\u00f5e essas diretrizes, de outro promovem pol\u00edticas de austeridade e desregulamenta\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses para facilitar a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e a entrada e perman\u00eancia de empresas transnacionais.<\/p>\n<p>Como podemos observar, as pol\u00edticas p\u00fablicas para as mulheres se resumem a uma sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade capitalista e patriarcal, e para outra grande parcela delas, a morte. Assim est\u00e3o nos matando; eliminam nossos corpos, nossas mentes, nossa liberta\u00e7\u00e3o. No entanto, somos feitas da terra e da resist\u00eancia, e neste 8 de mar\u00e7o queremos semear nosso projeto pol\u00edtico alternativo: a economia feminista.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>A economia feminista nos liberta<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_5324\" aria-describedby=\"caption-attachment-5324\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-5324 size-full\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/a-economia-feminista-nos-liberta.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/a-economia-feminista-nos-liberta.jpeg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/a-economia-feminista-nos-liberta-300x225.jpeg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/a-economia-feminista-nos-liberta-768x576.jpeg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/a-economia-feminista-nos-liberta-500x375.jpeg 500w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5324\" class=\"wp-caption-text\">Mulheres s\u00e3o maioria nas iniciativas de solidariedade contra a fome que surgiram durante a pandemia, como as cozinhas solid\u00e1rias do MTST &#8211; AFP<\/figcaption><\/figure>\n<p>O sistema capitalista, desde sua origem, estruturou-se fazendo o uso do patriarcado como instrumento de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das mulheres, e rebaixando ainda mais sua posi\u00e7\u00e3o como grupo social. Assim, organizou uma divis\u00e3o sexual do trabalho, separando o trabalho produtivo, assalariado, do trabalho reprodutivo, este \u00faltimo legado \u00e0s mulheres. Todas as tarefas de cuidado que s\u00e3o necess\u00e1rias para a manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o designadas \u00e0s mulheres e n\u00e3o s\u00e3o remuneradas. Se assim o fosse, seria imposs\u00edvel sustentar os baixos sal\u00e1rios e o avan\u00e7o da mercantiliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que exigiria que a sociedade n\u00e3o estivesse orientada para o individualismo e, sim, para a coletividade.<\/p>\n<p>Ocorre que a crise de cuidado \u00e9 permanente em nossa sociedade; n\u00e3o \u00e0 toa, vivemos uma profunda crise do capital versus vida. A orienta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mundial para a produ\u00e7\u00e3o constante de lucro, concentrado numa cada vez menor parcela de indiv\u00edduos acionistas de grandes corpora\u00e7\u00f5es que controlam cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A crise ambiental instalada desde a separa\u00e7\u00e3o do homem da Natureza na modernidade tem produzido cada vez mais a nossa insustentabilidade como esp\u00e9cie humana neste planeta. \u201cA ruptura entre as nossas sociedades e a natureza n\u00e3o \u00e9 de responsabilidade de toda a popula\u00e7\u00e3o, pois foi projetada e \u00e9 perpetuada por esses sistemas de poder em n\u00edvel global\u201d, expressa Karin Nansen, ex-presidenta da Federa\u00e7\u00e3o de Amigas da Terra Internacional. Precisamos, urgentemente, superar nossa separa\u00e7\u00e3o com a Natureza, suas gentes e suas culturas, e incorporar valores de ecodepend\u00eancia.<\/p>\n<p>Frente aos desafios da crise m\u00faltipla da acumula\u00e7\u00e3o do capital, feministas de todo mundo t\u00eam constru\u00eddo a economia feminista e popular como projeto pol\u00edtico alternativo. A economia feminista \u00e9 uma aposta pol\u00edtica para transformar a sociedade, as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, e entre elas e a natureza. Reconhecer o trabalho de cuidado invisibilizado e propor sua reorganiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um primeiro passo. Determinar uma nova l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o mundial na qual a economia esteja centrada na vida, dando especial aten\u00e7\u00e3o aqueles que trabalham para sustent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Todas e todos, ao longo de nossas vidas, precisamos de cuidados; n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de vida sem rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade. \u00c9 por isso que precisamos subverter a l\u00f3gica da gan\u00e2ncia das empresas transnacionais que dirigem o mundo, e tomar consci\u00eancia da centralidade da vida humana e sua reprodu\u00e7\u00e3o. Ter esses sujeitos e sujeitas no centro do pensar nossa pol\u00edtica, como prop\u00f5e Karin: \u201cPrecisamos de respostas que coloquem no centro as classes populares, a classe trabalhadora, as mulheres, os povos ind\u00edgenas, as comunidades quilombolas, as comunidades camponesas e todas aquelas comunidades que sofrem diretamente os impactos desse sistema e desse modelo de acumula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A economia feminista n\u00e3o \u00e9 um projeto acabado, \u00e9 um projeto em permanente constru\u00e7\u00e3o no andamento dos processos de luta de classes, do qual convidamos a todos e todas para se engajarem. Construir a economia feminista \u00e9 resistir aos projetos de morte, e mesmo depois de tantas pilhagens, semearmos a esperan\u00e7a. Muitas mulheres ao redor do mundo est\u00e3o fazendo isso, construindo cotidianamente novas pr\u00e1ticas coletivas de cuidado, novas rela\u00e7\u00f5es sociais e com a Natureza.<\/p>\n<p>Assim, deixamos para este 8 de mar\u00e7o o repensar a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade em quatro eixos centrais de enfrentamento ao capitalismo, desde a economia feminista: 1) o reconhecimento e organiza\u00e7\u00e3o do cuidado; 2) a centralidade da vida; 3) interdepend\u00eancia; 4) ecodepend\u00eancia. Marchando com nossa bandeira, seguimos e nos atrevemos a viver a nossa vida com valor, for\u00e7a e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Abaixo, divulgamos dois v\u00eddeos sobre economia feminista produzidos em parceria pela Capire e pela Amigas da Terra Internacional. A locu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em espanhol e ingl\u00eas, mas tem legenda em portugu\u00eas.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Parte 1<\/strong><em><strong><br \/>\n<\/strong><\/em><\/p>\n<p><iframe title=\"(EN\/ES\/FR\/PT) Qu\u00e9 es la econom\u00eda feminista? 1\/2\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K02Lf0cLNtY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Parte 2<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"(EN\/ES\/FR\/PT) What is a Feminist Economy? 2\/2\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dOzqEv_oLg0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/02\/28\/estao-nos-matando-mas-ainda-assim-semeamos-a-esperanca\"><strong>Coluna publicada originalmente no Jornal Brasil de Fato, no link: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/02\/28\/estao-nos-matando-mas-ainda-assim-semeamos-a-esperanca\u00a0<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s, mulheres, somos 51,8% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, e mesmo assim n\u00e3o chegamos a ser metade das cadeiras do Congresso Nacional (17,7%) ou do Judici\u00e1rio (38,8%). Tampouco temos a representatividade devida nas Assembleias Estaduais, C\u00e2maras Municipais ou na dire\u00e7\u00e3o do Executivo. A \u00fanica mulher eleita Presidenta,\u00a0Dilma Rousseff, sofreu um golpe mis\u00f3gino em 2016. Ser\u00e1 imposs\u00edvel pensar em igualdade de g\u00eanero quando sequer somos capazes de construir uma equidade de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O cen\u00e1rio se agrava quando olhamos os quatro \u00faltimos anos de Governo Bolsonaro. Quando as pol\u00edticas p\u00fablicas se destinaram a retificar pap\u00e9is hist\u00f3ricos de g\u00eanero que refor\u00e7am a divis\u00e3o sexual do trabalho. A mensagem pol\u00edtica transmitida pelo governo e representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas era sintetizada em express\u00f5es como: \u201cbela, recatada e do lar\u201d; \u201cmeninas vestem rosa e meninos azul\u201d. Neste universo conservador, agregava-se o fundamentalismo religioso propagado pelas posi\u00e7\u00f5es fascistas que confrontavam diretamente os direitos historicamente conquistados das mulheres, especialmente os\u00a0sexuais e reprodutivos. As estat\u00edsticas comprovam os retrocessos. Segundo o relat\u00f3rio de transi\u00e7\u00e3o, houve uma desidrata\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas \u00e0s mulheres; apenas no primeiro semestre de 2022, o pa\u00eds bateu recordes de feminic\u00eddio. Em 2021, 66 mil brasileiras foram v\u00edtimas de estupro e 230 mil sofreram agress\u00f5es f\u00edsicas por viol\u00eancia dom\u00e9stica. Se olharmos esses dados sob o recorte racial, ainda encontraremos que 67% das v\u00edtimas de feminic\u00eddio e 89% das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual s\u00e3o mulheres negras. A partir de 2016, a Secretaria de Pol\u00edticas P\u00fablicas para as Mulheres sofreu um corte de 90% de seu or\u00e7amento. A crise sanit\u00e1ria atingiu de forma distinta as mulheres, refletindo a urg\u00eancia de um debate p\u00fablico sobre a economia de cuidados. Isso porque as mulheres ocuparam as linhas de frente de combate ao coronav\u00edrus sendo as enfermeiras dos hospitais, as cuidadoras dos doentes nas casas e as que sustentaram o isolamento dom\u00e9stico. As trabalhadoras dom\u00e9sticas foram as primeiras a serem infectadas pela pandemia e as mais impactadas pelos efeitos do covid-19. O retorno do pa\u00eds ao\u00a0mapa da fome\u00a0afeta sobremaneira as mulheres: 1 em cada cinco lares chefiados por mulheres n\u00e3o tem o que comer no dia a dia. A sobrecarga de trabalho dom\u00e9stico, j\u00e1 excessiva, aumentou ainda mais no desmantelamento de pol\u00edticas sociais como escola e creches, agravando uma conjuntura marcada pelo desemprego generalizado. Nossas mulheres est\u00e3o cansadas, doentes. Em realidade, as disparidades de g\u00eanero cresceram em todo o mundo com a pandemia, estima-se que para atingir a igualdade de g\u00eanero levar\u00edamos 135,6 anos. O Brasil ocupa a 93\u00aa posi\u00e7\u00e3o no mundo, de 153 pa\u00edses, sendo o pen\u00faltimo na lista latino-americana. O que nos torna um gigante de desigualdade. O Informe Global de G\u00eanero, do F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, prop\u00f5e que para superar as lacunas s\u00e3o necess\u00e1rios investimentos no setor de assist\u00eancia social, constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para igualdade no mundo do trabalho e capacita\u00e7\u00e3o das mulheres. A ret\u00f3rica da organiza\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 bastante peculiar, j\u00e1 que se de um lado prop\u00f5e essas diretrizes, de outro promovem pol\u00edticas de austeridade e desregulamenta\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses para facilitar a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e a entrada e perman\u00eancia de empresas transnacionais. Como podemos observar, as pol\u00edticas p\u00fablicas para as mulheres se resumem a uma sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade capitalista e patriarcal, e para outra grande parcela delas, a morte. Assim est\u00e3o nos matando; eliminam nossos corpos, nossas mentes, nossa liberta\u00e7\u00e3o. No entanto, somos feitas da terra e da resist\u00eancia, e neste 8 de mar\u00e7o queremos semear nosso projeto pol\u00edtico alternativo: a economia feminista. A economia feminista nos liberta O sistema capitalista, desde sua origem, estruturou-se fazendo o uso do patriarcado como instrumento de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o das mulheres, e rebaixando ainda mais sua posi\u00e7\u00e3o como grupo social. Assim, organizou uma divis\u00e3o sexual do trabalho, separando o trabalho produtivo, assalariado, do trabalho reprodutivo, este \u00faltimo legado \u00e0s mulheres. Todas as tarefas de cuidado que s\u00e3o necess\u00e1rias para a manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida est\u00e3o designadas \u00e0s mulheres e n\u00e3o s\u00e3o remuneradas. Se assim o fosse, seria imposs\u00edvel sustentar os baixos sal\u00e1rios e o avan\u00e7o da mercantiliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que exigiria que a sociedade n\u00e3o estivesse orientada para o individualismo e, sim, para a coletividade. Ocorre que a crise de cuidado \u00e9 permanente em nossa sociedade; n\u00e3o \u00e0 toa, vivemos uma profunda crise do capital versus vida. A orienta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o mundial para a produ\u00e7\u00e3o constante de lucro, concentrado numa cada vez menor parcela de indiv\u00edduos acionistas de grandes corpora\u00e7\u00f5es que controlam cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 insustent\u00e1vel. A crise ambiental instalada desde a separa\u00e7\u00e3o do homem da Natureza na modernidade tem produzido cada vez mais a nossa insustentabilidade como esp\u00e9cie humana neste planeta. \u201cA ruptura entre as nossas sociedades e a natureza n\u00e3o \u00e9 de responsabilidade de toda a popula\u00e7\u00e3o, pois foi projetada e \u00e9 perpetuada por esses sistemas de poder em n\u00edvel global\u201d, expressa Karin Nansen, ex-presidenta da Federa\u00e7\u00e3o de Amigas da Terra Internacional. Precisamos, urgentemente, superar nossa separa\u00e7\u00e3o com a Natureza, suas gentes e suas culturas, e incorporar valores de ecodepend\u00eancia. Frente aos desafios da crise m\u00faltipla da acumula\u00e7\u00e3o do capital, feministas de todo mundo t\u00eam constru\u00eddo a economia feminista e popular como projeto pol\u00edtico alternativo. A economia feminista \u00e9 uma aposta pol\u00edtica para transformar a sociedade, as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, e entre elas e a natureza. Reconhecer o trabalho de cuidado invisibilizado e propor sua reorganiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um primeiro passo. Determinar uma nova l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o mundial na qual a economia esteja centrada na vida, dando especial aten\u00e7\u00e3o aqueles que trabalham para sustent\u00e1-la. Todas e todos, ao longo de nossas vidas, precisamos de cuidados; n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de vida sem rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade. \u00c9 por isso que precisamos subverter a l\u00f3gica da gan\u00e2ncia das empresas transnacionais que dirigem o mundo, e tomar consci\u00eancia da centralidade da vida humana e sua reprodu\u00e7\u00e3o. Ter esses sujeitos e sujeitas no centro do pensar nossa pol\u00edtica, como prop\u00f5e Karin: \u201cPrecisamos de respostas que coloquem no centro as classes populares, a classe trabalhadora, as mulheres, os povos ind\u00edgenas, as comunidades quilombolas, as comunidades camponesas e todas aquelas comunidades que sofrem diretamente os impactos desse sistema e desse modelo de<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5326,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,1847,492,1844],"tags":[],"class_list":["post-5322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-combate-a-violencia-de-genero-e-lgbtquia","category-justica-de-genero-e-desmantelamento-do-patriarcado","category-sustentibilidade-da-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5322"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9565,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5322\/revisions\/9565"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5326"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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