{"id":5301,"date":"2023-01-31T09:08:48","date_gmt":"2023-01-31T12:08:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5301"},"modified":"2023-01-31T09:08:48","modified_gmt":"2023-01-31T12:08:48","slug":"que-horizontes-sao-postos-em-debate-para-a-regiao-apos-a-reuniao-da-celac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5301","title":{"rendered":"Que horizontes s\u00e3o postos em debate para a regi\u00e3o ap\u00f3s a reuni\u00e3o da Celac"},"content":{"rendered":"<p>A integra\u00e7\u00e3o latino-americana e caribenha \u00e9 um projeto antigo, de longa caminhada. Desde as lideran\u00e7as do haitiano Toussaint L&#8217;Ouverture no s\u00e9culo XVIII, do cubano Jos\u00e9 Mart\u00ed e do venezuelano Sim\u00f3n Bol\u00edvar no s\u00e9culo XIX, lutas emancipat\u00f3rias s\u00e3o travadas com o fim de construir soberania e autodetermina\u00e7\u00e3o para nossos povos. No nosso tempo, durante o final dos anos 90, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana liderada por Hugo Ch\u00e1vez, e ao longo dos anos 2000, a emerg\u00eancia de diversos governos progressistas no Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Equador, Bol\u00edvia, Honduras, Nicar\u00e1gua, El Salvador e a sempre hist\u00f3rica resist\u00eancia cubana, fizeram avan\u00e7ar importantes agendas neste campo.<\/p>\n<p>As lutas dos povos para derrotar a Alca (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas), projeto neoliberal formalmente abandonado em 2005 ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito popular continental, criaram press\u00e3o sobre os governos latino-americanos para avan\u00e7ar em outras iniciativas de di\u00e1logo e de rela\u00e7\u00f5es com seus vizinhos. Neste cen\u00e1rio, em 2006, \u00e9 fundada a Alba\u00a0(Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas), uma proposta de Venezuela, Bol\u00edvia e Cuba, que trouxe radicalidade ao cen\u00e1rio de coopera\u00e7\u00e3o latino-americana. N\u00e3o apenas uma alian\u00e7a econ\u00f4mica; \u00e9 que algo foi se definindo como um projeto para a Am\u00e9rica Latina a partir de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de resist\u00eancia. Obviamente, a iniciativa incomodou muito os pa\u00edses interessados em continuar mantendo sua hegemonia na regi\u00e3o, tal como foi, nos s\u00e9culos anteriores, com as elites coloniais ou com o imperialismo norteamericano na \u00e9poca das ditaduras na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/01\/30\/voces-fizeram-falta-caro-lula-primeiro-ministro-alemao-celebra-retorno-do-brasil-ao-mundo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">:: &#8216;Voc\u00eas fizeram falta, caro Lula&#8217;: primeiro-ministro alem\u00e3o celebra &#8216;retorno&#8217; do Brasil ao mundo\u00a0::<\/a><\/p>\n<p>Rompendo o cerco, neste novo mil\u00eanio, a mais importante iniciativa de integra\u00e7\u00e3o regional se deu com a cria\u00e7\u00e3o da Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos) em 2008. Composta por 33 pa\u00edses (exceto Estados Unidos\/EUA e Canad\u00e1), com uma organiza\u00e7\u00e3o interna flex\u00edvel, dedicou-se a refletir sobre os problemas candentes da regi\u00e3o para construir um di\u00e1logo pol\u00edtico entre os estados-membro a fim de promover a coopera\u00e7\u00e3o regional em diversas frentes, dentre elas energ\u00e9tica, sa\u00fade e desenvolvimento sustent\u00e1vel. O Brasil dos governos Lula e Dilma promoveu a Celac como parte de uma pol\u00edtica externa de est\u00edmulo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul e com foco na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento regional.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2020, com um discurso absolutamente senso comum sobre a Venezuela, Nicar\u00e1gua e Cuba, o ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, anunciou a sa\u00edda do Brasil da Celac. O ministro, assim como todo o Governo Bolsonaro, assumiu um lugar subalterno para o pa\u00eds na inser\u00e7\u00e3o internacional, aceitando e reproduzindo a l\u00f3gica imperialista norte-americana e, ao mesmo tempo, entreguista aos interesses neocoloniais comerciais da Uni\u00e3o Europeia, com o an\u00fancio do fim das negocia\u00e7\u00f5es do Acordo de Associa\u00e7\u00e3o entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia (UE), trancadas e mantidas longe do escrut\u00ednio p\u00fablico h\u00e1 mais de vinte anos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/01\/29\/qual-e-a-pequena-ilha-do-caribe-amiga-de-cuba-e-venezuela-que-ira-presidir-a-celac\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">:: Qual \u00e9 a pequena ilha do Caribe, amiga de Cuba e Venezuela, que ir\u00e1 presidir a Celac?\u00a0::<\/a><\/p>\n<p>A trag\u00e9dia n\u00e3o foi s\u00f3 diplom\u00e1tica. Ao longo do Governo Bolsonaro, todos os projetos de integra\u00e7\u00e3o regional foram sucateados. Propostas progressistas, como a Unila (Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana), foram desarticuladas diante do corte de verbas. O Programa Mais M\u00e9dicos, que recebia os m\u00e9dicos cubanos no Brasil e ampliava as rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias entre os dois pa\u00edses, foi encerrado, afetando o acesso \u00e0 sa\u00fade de zonas remotas do Brasil. O acordo de coopera\u00e7\u00e3o que permitia que a popula\u00e7\u00e3o de Roraima acessasse energia el\u00e9trica por meio do fornecimento pela Venezuela, tendo em vista que o estado n\u00e3o est\u00e1 interligado \u00e0 rede nacional, foi rompido, levando a apag\u00f5es que precarizaram a vida da popula\u00e7\u00e3o e, logo, a que o Estado brasileiro gastasse mais dinheiro e emitisse mais gases de efeitos estufa pela produ\u00e7\u00e3o de energia por meio da queima de \u00f3leo diesel.<\/p>\n<p>Determinando uma nova pol\u00edtica de rela\u00e7\u00e3o para com os nossos vizinhos, o atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Mauro Vieira, anunciou j\u00e1 em 5 de janeiro o retorno do Brasil \u00e0 Celac, comunicando a ruptura com a pol\u00edtica externa anterior e informando da busca por uma maior parceria com os pa\u00edses da regi\u00e3o. Nesse ritmo de inaugura\u00e7\u00e3o das viagens diplom\u00e1ticas internacionais, Lula chegou a Buenos Aires no dia 23 de janeiro, firmando tr\u00eas novos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/notas-a-imprensa\/atos-assinados-por-ocasiao-da-viagem-do-senhor-presidente-da-republica-a-republica-argentina-buenos-aires-23-de-janeiro-de-2023\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">acordos de parceria<\/a>\u00a0comercial com a Argentina. Na oportunidade, os presidentes Alberto Fern\u00e1ndez (Argentina) e Lula (Brasil) anunciaram a discuss\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de uma moeda comum para a regi\u00e3o. J\u00e1 na abertura da VII C\u00fapula de Chefes de Estado e de Governo da Celac, o retorno do Brasil foi motivo de calorosos aplausos, sinalizando que o pa\u00eds volta a caminhar ao lado de seus vizinhos. Foi assim tamb\u00e9m nas ruas lotadas de Montevideo, para onde o presidente Lula se dirigiu logo ap\u00f3s, para uma conversa com o presidente uruguaio Lacalle Pou, focada na import\u00e2ncia de fortalecer o Mercosul e sua agenda econ\u00f4mica antes que se firmem acordos comerciais bilaterais a partir do unilateralismo ou assimetrias, as quais\u00a0 n\u00e3o resultam em benef\u00edcio dos pa\u00edses do bloco. Nas palavras do presidente argentino Alberto Fern\u00e1ndez: \u201cAgora temos uma Celac completa\u201d.<\/p>\n<p>Quando a Celac foi criada, o Brasil liderava uma pol\u00edtica externa inovadora, tendo um importante protagonismo na constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul. Neste momento do retorno n\u00e3o encontra o mesmo cen\u00e1rio pol\u00edtico, apesar da presen\u00e7a de outros governos de esquerda, e ainda enfrenta um duro cen\u00e1rio interno com amea\u00e7as da extrema direita que, n\u00e3o se pode negar, tem sido cada vez mais comuns na desestabiliza\u00e7\u00e3o das democracias de outros pa\u00edses da regi\u00e3o. Em sua maioria, os pa\u00edses est\u00e3o aterrados em profundas crises sociais, como o avan\u00e7o da fome, o aumento das desigualdades sociais, da injusti\u00e7a racial e de g\u00eanero e a falta de desenvolvimento da ind\u00fastria, todos impactos das d\u00e9cada anteriores de pol\u00edticas neoliberais, agravadas com a pandemia dos \u00faltimos anos. Ao passo que h\u00e1, tamb\u00e9m, uma press\u00e3o social com o crescimento da ultradireita e de todo o tipo de viol\u00eancia e militarismo, acompanhada da difama\u00e7\u00e3o, a partir de teses antipol\u00edticas e da\u00a0<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/lawfare-e-a-desintegracao-latino-americana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">arma h\u00edbrida<\/a>\u00a0do\u00a0<em>lawfare<\/em>\u00a0contra governantes progressistas, como no caso de Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bol\u00edvia), Rafael Correa (Equador) e do pr\u00f3prio Lula, que n\u00e3o p\u00f4de concorrer na elei\u00e7\u00e3o anterior vencida por Bolsonaro no Brasil.<\/p>\n<p>A press\u00e3o de avan\u00e7ar em caminhos soberanos ficou destacada nas primeiras linhas da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mre\/pt-br\/canais_atendimento\/imprensa\/notas-a-imprensa\/VII-Cupula-da-Comunidade-dos-Estados-Latino-Americanos-e-Caribenhos%20-CELAC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Declara\u00e7\u00e3o Final<\/a>\u00a0da VII C\u00fapula da Celac\u00a0em Buenos Aires e, na sequ\u00eancia,\u00a0 a defesa da democracia, da paz, da integra\u00e7\u00e3o, da seguran\u00e7a alimentar e da sustentabilidade ambiental. Os l\u00edderes reunidos precisaram desenvolver uma leitura atual da crise do sistema capitalista na regi\u00e3o, construir um balan\u00e7o da conjuntura latinoamericana e dos processos de desestabiliza\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios e atualizar os desafios da integra\u00e7\u00e3o. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro qual a centralidade que foi dada ao combate ao fascismo e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sa\u00eddas \u00e0s pol\u00edticas imperialistas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os governos defenderam ainda a retomada do F\u00f3rum Celac com a China e Uni\u00e3o Europeia, tarefa que envolve um importante papel ao Brasil. A disputa de novos acordos comerciais com a China esquenta o clima da guerra h\u00edbrida e da disputa multipolar em curso. Ao mesmo tempo, a Europa, em uma profunda crise com a Guerra na Ucr\u00e2nia, especialmente pela depend\u00eancia energ\u00e9tica, precisa acessar mat\u00e9rias-primas privilegiadas para sua transi\u00e7\u00e3o e assegurar a cont\u00ednua transfer\u00eancia de lucros extraordin\u00e1rios para suas empresas transnacionais. Os pa\u00edses do Norte Global, o FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional), as grandes corpora\u00e7\u00f5es e as elites est\u00e3o longe de aceitar avan\u00e7os progressistas na regi\u00e3o. A ultra-direita j\u00e1 se organiza, como se p\u00f4de notar nos epis\u00f3dios de 8 de janeiro no Brasil, no golpe parlamentar no Peru, na onda golpista na Bol\u00edvia e na derrota da constituinte no Chile.<\/p>\n<p>A agenda financeira comum, defendida pelo Brasil, envolve pensar numa maior integra\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas dos pa\u00edses. Foram apontados, na Declara\u00e7\u00e3o Final, a constru\u00e7\u00e3o de um plano de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e produtiva p\u00f3s-pandemia e a retomada de investimentos no desenvolvimento de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o para superar a depend\u00eancia externa. E outros setores tiveram destaque, como a quest\u00e3o ambiental, na qual se pronunciou pela promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a clim\u00e1tica, com reconhecimento das responsabilidades diferenciadas entre os pa\u00edses e a reafirma\u00e7\u00e3o do papel dos pa\u00edses do Norte em compensar os preju\u00edzos desiguais nos pa\u00edses do Sul.<\/p>\n<p>Uma batata quente na \u00f3rbita dos di\u00e1logos sobre integra\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o Acordo UE-Mercosul. O Brasil j\u00e1 anunciou a necessidade de revisitar cap\u00edtulos do acordo e prop\u00f5e um maior debate nacional e regional sobre ele. Resta saber se, para tanto, o governo ir\u00e1 assegurar a participa\u00e7\u00e3o social, visto que muitas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam apontado\u00a0<a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2022\/11\/09\/posicionamento-da-frente-brasileira-contra-acordo-mercosul-ue-e-apresentado-no-parlamento-europeu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cr\u00edticas ao seu formato<\/a>\u00a0e conte\u00fado. O qu\u00e3o profunda ser\u00e1 a revis\u00e3o do governo nos interessa porque supostas cl\u00e1usulas adicionais ao acordo, em elabora\u00e7\u00e3o pela Comiss\u00e3o Europeia, sem tradu\u00e7\u00e3o ou transpar\u00eancia, podem afetar ainda mais o desenvolvimento da ind\u00fastria nacional, enquanto n\u00e3o devem alterar o car\u00e1ter neocolonial central do acordo: de intensificar o avan\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o de commodities nos territ\u00f3rios e a entrada de empresas europeias nos setores de servi\u00e7os e compras p\u00fablicas, \u00e0 medida que garantem barreiras protecionistas para os pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de unidade latino-americana est\u00e1 bastante abalado. Internamente, muitos pa\u00edses sofrem a press\u00e3o de tentativas de golpe e o questionamento de governos democraticamente eleitos, como o Chile, Peru e a Venezuela. Externamente, alguns pa\u00edses, como Uruguai, furando o bloco do Mercosul, ou o Equador, fragilizam a centralidade regional ao dialogarem bilateralmente com outros pa\u00edses na \u00e1rea de &#8220;livre&#8221; com\u00e9rcio e na prote\u00e7\u00e3o de investimentos estrangeiros. Ser\u00e1 um grande esfor\u00e7o para avan\u00e7ar na integra\u00e7\u00e3o regional, que recair\u00e1 sob o novo presidente da Celac depois da Argentina, o caribenho Ralph Gonsalves, de San Vicente y Granadinas.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m na esteira das resist\u00eancias, os movimentos populares devem manter a press\u00e3o sobre seus governos, seguindo em marcha com as iniciativas como a Alba Movimentos, a\u00a0<a href=\"https:\/\/seguimosenlucha.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornada Continental pela Democracia<\/a>\u00a0e contra o Neoliberalismo e a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/01\/24\/com-lula-sem-duvidas-renasce-a-esperanca-diz-evo-morales-na-celac-social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Celac\u00a0social<\/a>, inaugurada neste ano na Argentina, conclamando a uma revis\u00e3o profunda dos modelos produtivos neoliberais na Am\u00e9rica Latina e no Caribe e promovendo a integra\u00e7\u00e3o e a solidariedade entre os povos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A integra\u00e7\u00e3o latino-americana e caribenha \u00e9 um projeto antigo, de longa caminhada. Desde as lideran\u00e7as do haitiano Toussaint L&#8217;Ouverture no s\u00e9culo XVIII, do cubano Jos\u00e9 Mart\u00ed e do venezuelano Sim\u00f3n Bol\u00edvar no s\u00e9culo XIX, lutas emancipat\u00f3rias s\u00e3o travadas com o fim de construir soberania e autodetermina\u00e7\u00e3o para nossos povos. No nosso tempo, durante o final dos anos 90, a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana liderada por Hugo Ch\u00e1vez, e ao longo dos anos 2000, a emerg\u00eancia de diversos governos progressistas no Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Equador, Bol\u00edvia, Honduras, Nicar\u00e1gua, El Salvador e a sempre hist\u00f3rica resist\u00eancia cubana, fizeram avan\u00e7ar importantes agendas neste campo. As lutas dos povos para derrotar a Alca (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas), projeto neoliberal formalmente abandonado em 2005 ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito popular continental, criaram press\u00e3o sobre os governos latino-americanos para avan\u00e7ar em outras iniciativas de di\u00e1logo e de rela\u00e7\u00f5es com seus vizinhos. Neste cen\u00e1rio, em 2006, \u00e9 fundada a Alba\u00a0(Alternativa Bolivariana para as Am\u00e9ricas), uma proposta de Venezuela, Bol\u00edvia e Cuba, que trouxe radicalidade ao cen\u00e1rio de coopera\u00e7\u00e3o latino-americana. N\u00e3o apenas uma alian\u00e7a econ\u00f4mica; \u00e9 que algo foi se definindo como um projeto para a Am\u00e9rica Latina a partir de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de resist\u00eancia. Obviamente, a iniciativa incomodou muito os pa\u00edses interessados em continuar mantendo sua hegemonia na regi\u00e3o, tal como foi, nos s\u00e9culos anteriores, com as elites coloniais ou com o imperialismo norteamericano na \u00e9poca das ditaduras na regi\u00e3o. :: &#8216;Voc\u00eas fizeram falta, caro Lula&#8217;: primeiro-ministro alem\u00e3o celebra &#8216;retorno&#8217; do Brasil ao mundo\u00a0:: Rompendo o cerco, neste novo mil\u00eanio, a mais importante iniciativa de integra\u00e7\u00e3o regional se deu com a cria\u00e7\u00e3o da Celac (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos) em 2008. Composta por 33 pa\u00edses (exceto Estados Unidos\/EUA e Canad\u00e1), com uma organiza\u00e7\u00e3o interna flex\u00edvel, dedicou-se a refletir sobre os problemas candentes da regi\u00e3o para construir um di\u00e1logo pol\u00edtico entre os estados-membro a fim de promover a coopera\u00e7\u00e3o regional em diversas frentes, dentre elas energ\u00e9tica, sa\u00fade e desenvolvimento sustent\u00e1vel. O Brasil dos governos Lula e Dilma promoveu a Celac como parte de uma pol\u00edtica externa de est\u00edmulo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul e com foco na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento regional. J\u00e1 em 2020, com um discurso absolutamente senso comum sobre a Venezuela, Nicar\u00e1gua e Cuba, o ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, anunciou a sa\u00edda do Brasil da Celac. O ministro, assim como todo o Governo Bolsonaro, assumiu um lugar subalterno para o pa\u00eds na inser\u00e7\u00e3o internacional, aceitando e reproduzindo a l\u00f3gica imperialista norte-americana e, ao mesmo tempo, entreguista aos interesses neocoloniais comerciais da Uni\u00e3o Europeia, com o an\u00fancio do fim das negocia\u00e7\u00f5es do Acordo de Associa\u00e7\u00e3o entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia (UE), trancadas e mantidas longe do escrut\u00ednio p\u00fablico h\u00e1 mais de vinte anos. :: Qual \u00e9 a pequena ilha do Caribe, amiga de Cuba e Venezuela, que ir\u00e1 presidir a Celac?\u00a0:: A trag\u00e9dia n\u00e3o foi s\u00f3 diplom\u00e1tica. Ao longo do Governo Bolsonaro, todos os projetos de integra\u00e7\u00e3o regional foram sucateados. Propostas progressistas, como a Unila (Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana), foram desarticuladas diante do corte de verbas. O Programa Mais M\u00e9dicos, que recebia os m\u00e9dicos cubanos no Brasil e ampliava as rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias entre os dois pa\u00edses, foi encerrado, afetando o acesso \u00e0 sa\u00fade de zonas remotas do Brasil. O acordo de coopera\u00e7\u00e3o que permitia que a popula\u00e7\u00e3o de Roraima acessasse energia el\u00e9trica por meio do fornecimento pela Venezuela, tendo em vista que o estado n\u00e3o est\u00e1 interligado \u00e0 rede nacional, foi rompido, levando a apag\u00f5es que precarizaram a vida da popula\u00e7\u00e3o e, logo, a que o Estado brasileiro gastasse mais dinheiro e emitisse mais gases de efeitos estufa pela produ\u00e7\u00e3o de energia por meio da queima de \u00f3leo diesel. Determinando uma nova pol\u00edtica de rela\u00e7\u00e3o para com os nossos vizinhos, o atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Mauro Vieira, anunciou j\u00e1 em 5 de janeiro o retorno do Brasil \u00e0 Celac, comunicando a ruptura com a pol\u00edtica externa anterior e informando da busca por uma maior parceria com os pa\u00edses da regi\u00e3o. Nesse ritmo de inaugura\u00e7\u00e3o das viagens diplom\u00e1ticas internacionais, Lula chegou a Buenos Aires no dia 23 de janeiro, firmando tr\u00eas novos\u00a0acordos de parceria\u00a0comercial com a Argentina. Na oportunidade, os presidentes Alberto Fern\u00e1ndez (Argentina) e Lula (Brasil) anunciaram a discuss\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de uma moeda comum para a regi\u00e3o. J\u00e1 na abertura da VII C\u00fapula de Chefes de Estado e de Governo da Celac, o retorno do Brasil foi motivo de calorosos aplausos, sinalizando que o pa\u00eds volta a caminhar ao lado de seus vizinhos. Foi assim tamb\u00e9m nas ruas lotadas de Montevideo, para onde o presidente Lula se dirigiu logo ap\u00f3s, para uma conversa com o presidente uruguaio Lacalle Pou, focada na import\u00e2ncia de fortalecer o Mercosul e sua agenda econ\u00f4mica antes que se firmem acordos comerciais bilaterais a partir do unilateralismo ou assimetrias, as quais\u00a0 n\u00e3o resultam em benef\u00edcio dos pa\u00edses do bloco. Nas palavras do presidente argentino Alberto Fern\u00e1ndez: \u201cAgora temos uma Celac completa\u201d. Quando a Celac foi criada, o Brasil liderava uma pol\u00edtica externa inovadora, tendo um importante protagonismo na constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul. Neste momento do retorno n\u00e3o encontra o mesmo cen\u00e1rio pol\u00edtico, apesar da presen\u00e7a de outros governos de esquerda, e ainda enfrenta um duro cen\u00e1rio interno com amea\u00e7as da extrema direita que, n\u00e3o se pode negar, tem sido cada vez mais comuns na desestabiliza\u00e7\u00e3o das democracias de outros pa\u00edses da regi\u00e3o. Em sua maioria, os pa\u00edses est\u00e3o aterrados em profundas crises sociais, como o avan\u00e7o da fome, o aumento das desigualdades sociais, da injusti\u00e7a racial e de g\u00eanero e a falta de desenvolvimento da ind\u00fastria, todos impactos das d\u00e9cada anteriores de pol\u00edticas neoliberais, agravadas com a pandemia dos \u00faltimos anos. Ao passo que h\u00e1, tamb\u00e9m, uma press\u00e3o social com o crescimento da ultradireita e de todo o tipo de viol\u00eancia e militarismo, acompanhada da difama\u00e7\u00e3o, a partir de teses antipol\u00edticas e da\u00a0arma h\u00edbrida\u00a0do\u00a0lawfare\u00a0contra governantes progressistas, como no caso de Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bol\u00edvia), Rafael Correa (Equador) e do pr\u00f3prio Lula, que n\u00e3o p\u00f4de concorrer na elei\u00e7\u00e3o anterior vencida por<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5303,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603],"tags":[426,942,946,947,945,949,948,943,74,944,28,754],"class_list":["post-5301","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","tag-brasil-de-fato","tag-celac","tag-combate-ao-neoliberalismo","tag-cooperacao-latio-americana","tag-derrota-da-alca","tag-desenvolvimento-sustentavel","tag-energia","tag-integracao-latino-americana","tag-lula","tag-lutas-emancipatorias","tag-neoliberalismo","tag-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5301","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5301"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5301\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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