{"id":5129,"date":"2022-11-25T10:27:29","date_gmt":"2022-11-25T13:27:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=5129"},"modified":"2025-06-16T14:57:57","modified_gmt":"2025-06-16T17:57:57","slug":"cop-27-encerra-com-acordo-sobre-fundo-de-perdas-e-danos-mas-sem-uma-definicao-formal-para-reduzir-o-uso-de-combustivel-fossil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=5129","title":{"rendered":"COP 27 encerra com acordo sobre fundo de \u2018perdas e danos\u2019, mas sem uma defini\u00e7\u00e3o formal para reduzir o uso de combust\u00edvel f\u00f3ssil"},"content":{"rendered":"<h3><em>Apoio financeiro para pa\u00edses em desenvolvimento impactados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 considerado acordo hist\u00f3rico, mas cont\u00e9m cascas de banana.<\/em><\/h3>\n<p>As diverg\u00eancias entre pa\u00edses para completar o texto final das negocia\u00e7\u00f5es impediram que a 27\u00aa Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o do Clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Sharm El-Sheikh, no Egito, acabasse na sexta-feira (18), data prevista para o encerramento do encontro. A plen\u00e1ria final ficou para a manh\u00e3 de domingo, dia 20. A dificuldade para definir acordos tem feito com que as discuss\u00f5es sobre o regime clim\u00e1tico avancem para al\u00e9m dos dias programados para o evento, e j\u00e1 se tornou uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d das Confer\u00eancias. Em 2022, estiveram no centro dos debates agendas h\u00e1 muito reivindicadas pelos pa\u00edses do Sul global, os que menos contribu\u00edram historicamente para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e os que mais s\u00e3o afetados por elas: Financiamento, Adapta\u00e7\u00e3o, Perdas e Danos. A diverg\u00eancia est\u00e1 em quem paga a conta pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, isto \u00e9, os pa\u00edses ricos maiores causadores do problema, ou aqueles que j\u00e1 est\u00e3o sofrendo com os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O texto final da COP 27 foi divulgado com progresso sobre perdas e danos. Al\u00e9m de a pauta ter sido incorporada \u00e0 agenda do evento (uma luta at\u00e9 o \u00faltimo minuto), as na\u00e7\u00f5es com altas emiss\u00f5es concordaram com a cria\u00e7\u00e3o de um fundo de financiamento para perdas e danos. A decis\u00e3o, considerada hist\u00f3rica, foi recebida sob aplausos na sala de confer\u00eancias. No entanto, o evento foi encerrado sem informar qual ser\u00e1 o valor destinado ao fundo, nem as metodologias que ser\u00e3o usadas para captar recursos e operacionalizar o fundo, o que deve acontecer no pr\u00f3ximo ano, quando deve ser apresentada a regulamenta\u00e7\u00e3o do Fundo. O que, sim, j\u00e1 sabemos \u00e9 que o documento final prev\u00ea um papel especial para a iniciativa privada e para a filantropia clim\u00e1tica, em uma articula\u00e7\u00e3o com os bancos multilaterais de desenvolvimento e grandes investidores institucionais.<\/p>\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o oficial internacional para o desenvolvimento, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos cambaleante, torna-se definitivamente fora de moda. No horizonte, j\u00e1 n\u00e3o mais est\u00e3o os empr\u00e9stimos entre pa\u00edses a juros baix\u00edssimos, muito aqu\u00e9m dos praticados no mercado de capitais, ou mesmo a fundo perdido. Estamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o da macrofinan\u00e7a global, por meio da qual o desenvolvimento deve se tornar lucrativo para quem o financia. O esfor\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o de pa\u00edses vitimados por eventos clim\u00e1ticos extremos fica ref\u00e9m do sistema financeiro, uma vez que essa agenda hist\u00f3rica (e t\u00e3o demandada pelos pa\u00edses em desenvolvimento) vai sendo descaracterizada pela entrada de empresas seguradoras e dos grandes investidores cujo interesse est\u00e1 no lucro e n\u00e3o na vida das pessoas. Por isso, fica amb\u00edgua a designa\u00e7\u00e3o de quais pa\u00edses ir\u00e3o realizar repasses para este fundo, se far\u00e3o esses aportes ou se v\u00e3o transferir para a iniciativa privada essa responsabilidade, e qual o montante, sinalizando que a defini\u00e7\u00e3o pode ficar apenas para a COP 28, que ocorrer\u00e1 em Dubai, nos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p>Outro resultado importante das negocia\u00e7\u00f5es foi a entrega do arcabou\u00e7o geral para a implementa\u00e7\u00e3o dos mercados de carbono, estabelecidos no art. 6 do Acordo de Paris. O grupo negociador conseguiu entregar resultados para os tr\u00eas par\u00e1grafos cruciais desse item da agenda: o 6.2, que estabelece os par\u00e2metros para compensa\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses por meio de \u201cabordagens cooperativas\u201d; 6.4, que trata dos antigos projetos de desenvolvimento limpo ou sustent\u00e1vel; e o 6.8, que aborda mecanismos de n\u00e3o-mercado. No primeiro item, causa estranheza a possibilidade de que os pa\u00edses definam como sigilosas as informa\u00e7\u00f5es de compensa\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o, ferindo o princ\u00edpio de transpar\u00eancia e abrindo para possibilidades de dupla contagem; no segundo, permanece amb\u00edgua a rela\u00e7\u00e3o entre os mecanismos 6.2 e 6.4, tal qual institu\u00edda pela figura da \u201cautoriza\u00e7\u00e3o\u201d necess\u00e1ria, outorgada pela autoridade p\u00fablica, para o uso do cr\u00e9dito de carbono pelo mercado volunt\u00e1rio, favorecendo, assim, a maquiagem verde de governos e empresas; e, no terceiro item (6.8), a disputa entre a cria\u00e7\u00e3o de uma plataforma para facilitar a correspond\u00eancia entre demanda e oferta de meios de implementa\u00e7\u00e3o (ou seja, financiamento, capacita\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia de tecnologia) ou de uma abordagem hol\u00edstica para o instrumento de n\u00e3o-mercado foi decidida em favor da primeira.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que tudo isso acontece em um contexto em que os governos aceleram a aprova\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00f5es nacionais para os mercados de carbono, muitas vezes, sem escutar os sujeitos pol\u00edticos mais vulner\u00e1veis a esse tipo de falsa solu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. No Brasil, as florestas entraram para esse mercado, por meio do modelo de concess\u00f5es, o que significa a contrata\u00e7\u00e3o por parte do Estado brasileiro de empresas para realizar a gest\u00e3o florestal. Vale lembrar dos programas j\u00e1 em andamento, como o Adote um Parque e o programa de estrutura\u00e7\u00e3o de concess\u00f5es de parques via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social). J\u00e1 encontra-se em discuss\u00e3o no Congresso Nacional a aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei que visa \u201cdesburocratizar\u201d a concess\u00e3o florestal no pa\u00eds, com isso, acelerando a transfer\u00eancia de terras da Uni\u00e3o para a administra\u00e7\u00e3o privada, que poder\u00e1 explor\u00e1-la economicamente, em particular, por meio de projetos de captura de carbono e servi\u00e7os ambientais.<\/p>\n<p>Durante a COP 27, o Grupo Carta de Bel\u00e9m, em conjunto com outras redes e movimentos sociais, lan\u00e7ou um posicionamento contr\u00e1rio \u00e0 inclus\u00e3o de florestas nos mercados de carbono, por entendermos que esse modelo de comercializa\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos de polui\u00e7\u00e3o abre espa\u00e7o para graves viola\u00e7\u00f5es de direitos de povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e rurais, em uma conjuntura em que as inst\u00e2ncias de monitoramento e controle contra crimes ambientais foi desmontada pela gest\u00e3o Bolsonaro-Salles-Leite.<\/p>\n<p>Enquanto as florestas tropicais do mundo v\u00e3o consolidando a sua posi\u00e7\u00e3o como instrumentos da pol\u00edtica de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica global por meio da l\u00f3gica de compensa\u00e7\u00f5es e net-zero, a posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da comunidade internacional contra os combust\u00edveis f\u00f3sseis sofre retrocede a olhos vistos. A realiza\u00e7\u00e3o de uma COP no terceiro maior produtor de petr\u00f3leo da Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (Opep), \u00e9 s\u00edmbolo da conjuntura em que vivemos. O documento final peca pela falta de ambi\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o e por n\u00e3o abordar a causa do aquecimento global de maneira significativa: eliminar gradualmente a ind\u00fastria de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Com a press\u00e3o de China e \u00cdndia para que os pa\u00edses ricos assumissem um maior compromisso com financiamento para os pa\u00edses em desenvolvimento, em troca, manteve-se a decis\u00e3o fraca de Glasgow (COP 26).<\/p>\n<p>Em vez de mudar a linguagem adotada naquele momento para uma mais ambiciosa em rela\u00e7\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o para energias renov\u00e1veis, o altamente poluente carv\u00e3o seguiu ocupando a posi\u00e7\u00e3o de \u201cenergia de transi\u00e7\u00e3o\u201d para diminuir (n\u00e3o eliminar) o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis. A quest\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria e, como viemos afirmando, o problema n\u00e3o ser\u00e1 sanado enquanto seus causadores sentam \u00e0 mesa para negociar quanto tempo ainda tem para estender seus lucros com uma \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d nos pa\u00edses do Sul global. Mais uma vez o distanciamento entre as reivindica\u00e7\u00f5es da sociedade civil organizada e as negocia\u00e7\u00f5es torna a COP um espa\u00e7o de converg\u00eancia clim\u00e1tica herm\u00e9tica para pa\u00edses e empresas poluidoras.<\/p>\n<p>J\u00e1 batemos a marca de trinta anos de regime clim\u00e1tico e 27 COPs.\u00a0<strong>At\u00e9 hoje n\u00e3o houve um acordo formal para reduzir o uso de combust\u00edvel f\u00f3ssil no mundo<\/strong>. Enquanto isso, as emiss\u00f5es continuam a subir e a meta de limitar as temperaturas a 1,5\u00b0C segue distante.\u00a0 A verdade \u00e9 que o acordo final ficou aqu\u00e9m do que a emerg\u00eancia exige. A sociedade civil global ainda ter\u00e1 muito trabalho pela frente. Al\u00e9m de continuar pressionando pela elimina\u00e7\u00e3o do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis e a ado\u00e7\u00e3o de fontes renov\u00e1veis de energia, com aten\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios de uma transi\u00e7\u00e3o justa, ser\u00e1 necess\u00e1rio criar capacidades para disputar o novo vocabul\u00e1rio das finan\u00e7as verdes que entra com tudo na disputa pelo direcionamento do regime clim\u00e1tico global.<\/p>\n<h3><strong>Uma transi\u00e7\u00e3o justa precisa contar com a participa\u00e7\u00e3o de trabalhadores e trabalhadoras e comunidades atingidas<\/strong><\/h3>\n<p>Frente \u00e0s dificuldades de avan\u00e7ar com uma transi\u00e7\u00e3o de matriz energ\u00e9tica, para enfim eliminar o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, \u00e9 essencial que seja elaborada como se dar\u00e1 a transi\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho, de modo a garantir uma transi\u00e7\u00e3o justa para todos. O Acordo de Paris, de 2015, menciona o termo \u201ctransi\u00e7\u00e3o justa\u201d como um reconhecimento de que os governos precisam levar em considera\u00e7\u00e3o a for\u00e7a de trabalho durante o processo de transi\u00e7\u00e3o para uma economia verde.<\/p>\n<p>Entre outros pontos que merecem destaque no Plano de Implementa\u00e7\u00e3o de Sharm el-Sheikh, se encontra o reconhecimento da necessidade do di\u00e1logo social significativo e eficaz para uma transi\u00e7\u00e3o justa real atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o das partes impactadas no processo de transi\u00e7\u00e3o global, entre elas a for\u00e7a de trabalho. \u00c9 preciso levar em conta que por tr\u00e1s dos n\u00fameros, h\u00e1 pessoas, que hoje desenvolvem trabalhos que poder\u00e3o entrar em defasagem, mas que precisam ser incorporadas a este novo mundo do trabalho.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o justa tem sido a bandeira principal do movimento sindical nas negocia\u00e7\u00f5es. O texto final ter incorporado a garantia da prote\u00e7\u00e3o social para mitigar os impactos do processo \u00e9 um ganho importante para o mundo do trabalho, que j\u00e1 est\u00e1 sendo atingido pelas mudan\u00e7as. Um desafio que se aponta agora \u00e9 o de incorporar a transi\u00e7\u00e3o justa nos planos nacionais, de forma cada vez mais expl\u00edcita e com participa\u00e7\u00e3o de trabalhadores e trabalhadoras e comunidades atingidas.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/cop-27-encerra-com-acordo-sobre-fundo-de-perdas-e-danos-mas-sem-uma-definicao-formal-para-reduzir-o-uso-de-combustivel-fossil\/\">Artigo publicado originalmente no site do Grupo Carta de Bel\u00e9m, no dia 23 de novembro de 2022.\u00a0\u00a0<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apoio financeiro para pa\u00edses em desenvolvimento impactados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 considerado acordo hist\u00f3rico, mas cont\u00e9m cascas de banana. As diverg\u00eancias entre pa\u00edses para completar o texto final das negocia\u00e7\u00f5es impediram que a 27\u00aa Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o do Clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Sharm El-Sheikh, no Egito, acabasse na sexta-feira (18), data prevista para o encerramento do encontro. A plen\u00e1ria final ficou para a manh\u00e3 de domingo, dia 20. A dificuldade para definir acordos tem feito com que as discuss\u00f5es sobre o regime clim\u00e1tico avancem para al\u00e9m dos dias programados para o evento, e j\u00e1 se tornou uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d das Confer\u00eancias. Em 2022, estiveram no centro dos debates agendas h\u00e1 muito reivindicadas pelos pa\u00edses do Sul global, os que menos contribu\u00edram historicamente para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e os que mais s\u00e3o afetados por elas: Financiamento, Adapta\u00e7\u00e3o, Perdas e Danos. A diverg\u00eancia est\u00e1 em quem paga a conta pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, isto \u00e9, os pa\u00edses ricos maiores causadores do problema, ou aqueles que j\u00e1 est\u00e3o sofrendo com os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O texto final da COP 27 foi divulgado com progresso sobre perdas e danos. Al\u00e9m de a pauta ter sido incorporada \u00e0 agenda do evento (uma luta at\u00e9 o \u00faltimo minuto), as na\u00e7\u00f5es com altas emiss\u00f5es concordaram com a cria\u00e7\u00e3o de um fundo de financiamento para perdas e danos. A decis\u00e3o, considerada hist\u00f3rica, foi recebida sob aplausos na sala de confer\u00eancias. No entanto, o evento foi encerrado sem informar qual ser\u00e1 o valor destinado ao fundo, nem as metodologias que ser\u00e3o usadas para captar recursos e operacionalizar o fundo, o que deve acontecer no pr\u00f3ximo ano, quando deve ser apresentada a regulamenta\u00e7\u00e3o do Fundo. O que, sim, j\u00e1 sabemos \u00e9 que o documento final prev\u00ea um papel especial para a iniciativa privada e para a filantropia clim\u00e1tica, em uma articula\u00e7\u00e3o com os bancos multilaterais de desenvolvimento e grandes investidores institucionais. A coopera\u00e7\u00e3o oficial internacional para o desenvolvimento, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos cambaleante, torna-se definitivamente fora de moda. No horizonte, j\u00e1 n\u00e3o mais est\u00e3o os empr\u00e9stimos entre pa\u00edses a juros baix\u00edssimos, muito aqu\u00e9m dos praticados no mercado de capitais, ou mesmo a fundo perdido. Estamos diante de uma transforma\u00e7\u00e3o da macrofinan\u00e7a global, por meio da qual o desenvolvimento deve se tornar lucrativo para quem o financia. O esfor\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o de pa\u00edses vitimados por eventos clim\u00e1ticos extremos fica ref\u00e9m do sistema financeiro, uma vez que essa agenda hist\u00f3rica (e t\u00e3o demandada pelos pa\u00edses em desenvolvimento) vai sendo descaracterizada pela entrada de empresas seguradoras e dos grandes investidores cujo interesse est\u00e1 no lucro e n\u00e3o na vida das pessoas. Por isso, fica amb\u00edgua a designa\u00e7\u00e3o de quais pa\u00edses ir\u00e3o realizar repasses para este fundo, se far\u00e3o esses aportes ou se v\u00e3o transferir para a iniciativa privada essa responsabilidade, e qual o montante, sinalizando que a defini\u00e7\u00e3o pode ficar apenas para a COP 28, que ocorrer\u00e1 em Dubai, nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Outro resultado importante das negocia\u00e7\u00f5es foi a entrega do arcabou\u00e7o geral para a implementa\u00e7\u00e3o dos mercados de carbono, estabelecidos no art. 6 do Acordo de Paris. O grupo negociador conseguiu entregar resultados para os tr\u00eas par\u00e1grafos cruciais desse item da agenda: o 6.2, que estabelece os par\u00e2metros para compensa\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses por meio de \u201cabordagens cooperativas\u201d; 6.4, que trata dos antigos projetos de desenvolvimento limpo ou sustent\u00e1vel; e o 6.8, que aborda mecanismos de n\u00e3o-mercado. No primeiro item, causa estranheza a possibilidade de que os pa\u00edses definam como sigilosas as informa\u00e7\u00f5es de compensa\u00e7\u00e3o de polui\u00e7\u00e3o, ferindo o princ\u00edpio de transpar\u00eancia e abrindo para possibilidades de dupla contagem; no segundo, permanece amb\u00edgua a rela\u00e7\u00e3o entre os mecanismos 6.2 e 6.4, tal qual institu\u00edda pela figura da \u201cautoriza\u00e7\u00e3o\u201d necess\u00e1ria, outorgada pela autoridade p\u00fablica, para o uso do cr\u00e9dito de carbono pelo mercado volunt\u00e1rio, favorecendo, assim, a maquiagem verde de governos e empresas; e, no terceiro item (6.8), a disputa entre a cria\u00e7\u00e3o de uma plataforma para facilitar a correspond\u00eancia entre demanda e oferta de meios de implementa\u00e7\u00e3o (ou seja, financiamento, capacita\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia de tecnologia) ou de uma abordagem hol\u00edstica para o instrumento de n\u00e3o-mercado foi decidida em favor da primeira. \u00c9 importante ressaltar que tudo isso acontece em um contexto em que os governos aceleram a aprova\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00f5es nacionais para os mercados de carbono, muitas vezes, sem escutar os sujeitos pol\u00edticos mais vulner\u00e1veis a esse tipo de falsa solu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. No Brasil, as florestas entraram para esse mercado, por meio do modelo de concess\u00f5es, o que significa a contrata\u00e7\u00e3o por parte do Estado brasileiro de empresas para realizar a gest\u00e3o florestal. Vale lembrar dos programas j\u00e1 em andamento, como o Adote um Parque e o programa de estrutura\u00e7\u00e3o de concess\u00f5es de parques via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social). J\u00e1 encontra-se em discuss\u00e3o no Congresso Nacional a aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei que visa \u201cdesburocratizar\u201d a concess\u00e3o florestal no pa\u00eds, com isso, acelerando a transfer\u00eancia de terras da Uni\u00e3o para a administra\u00e7\u00e3o privada, que poder\u00e1 explor\u00e1-la economicamente, em particular, por meio de projetos de captura de carbono e servi\u00e7os ambientais. Durante a COP 27, o Grupo Carta de Bel\u00e9m, em conjunto com outras redes e movimentos sociais, lan\u00e7ou um posicionamento contr\u00e1rio \u00e0 inclus\u00e3o de florestas nos mercados de carbono, por entendermos que esse modelo de comercializa\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos de polui\u00e7\u00e3o abre espa\u00e7o para graves viola\u00e7\u00f5es de direitos de povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e rurais, em uma conjuntura em que as inst\u00e2ncias de monitoramento e controle contra crimes ambientais foi desmontada pela gest\u00e3o Bolsonaro-Salles-Leite. Enquanto as florestas tropicais do mundo v\u00e3o consolidando a sua posi\u00e7\u00e3o como instrumentos da pol\u00edtica de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica global por meio da l\u00f3gica de compensa\u00e7\u00f5es e net-zero, a posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da comunidade internacional contra os combust\u00edveis f\u00f3sseis sofre retrocede a olhos vistos. A realiza\u00e7\u00e3o de uma COP no terceiro maior produtor de petr\u00f3leo da Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Exportadores de Petr\u00f3leo (Opep), \u00e9 s\u00edmbolo da conjuntura em que vivemos. O documento final peca pela falta de ambi\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o e por n\u00e3o abordar a causa do aquecimento<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":5130,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,1839,1833,602,7,1835],"tags":[],"class_list":["post-5129","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica-climatica-e-energetica","category-especulacao-imobiliaria","category-integracao-regional-dos-povos","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-justica-economica","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5129","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5129"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9584,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions\/9584"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5130"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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