{"id":4704,"date":"2022-08-03T09:53:57","date_gmt":"2022-08-03T12:53:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=4704"},"modified":"2025-06-16T15:18:12","modified_gmt":"2025-06-16T18:18:12","slug":"as-vozes-da-floresta-se-insurgem-por-um-outro-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=4704","title":{"rendered":"As vozes da floresta se insurgem por um outro Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O \u201cesperan\u00e7ar da Amaz\u00f4nia\u201d foi o mote do 10\u00ba F\u00f3rum Pan-Amaz\u00f4nico (FOSPA) realizado em Bel\u00e9m (PA) na semana passada. Estiveram presentes por volta de 10 mil pessoas, sendo elas representantes quilombolas, ind\u00edgenas, ribeirinhos, movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil de v\u00e1rios pa\u00edses: Brasil, Peru, Equador, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia e Venezuela. A urg\u00eancia de repensar o modelo de desenvolvimento que vem se sobrepondo aos territ\u00f3rios e direitos dos povos na Amaz\u00f4nia, a partir das pr\u00f3prias gentes que habitam esses lugares, foi o que deu centralidade ao encontro. J\u00e1 na marcha de abertura esse grito de ousadia se fazia presente; em pleno cen\u00e1rio eleitoral conturbado, as bandeiras da mobiliza\u00e7\u00e3o eram marcadas por resist\u00eancia, afirma\u00e7\u00e3o de projeto popular e constru\u00e7\u00e3o de unidade.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia sempre foi tomada como uma zona de interesse nacional. Desde a Ditadura Militar brasileira, projetos de desenvolvimento s\u00e3o transplantados ao territ\u00f3rio sem qualquer di\u00e1logo ou participa\u00e7\u00e3o com os povos origin\u00e1rios, quilombolas, as comunidades locais e as popula\u00e7\u00f5es atingidas, como se esses espa\u00e7os fossem vazios e sem hist\u00f3ria. Afirma a carta final do <a href=\"https:\/\/mab.org.br\/2022\/07\/30\/carta-do-ii-encontro-dos-atingidos-e-atingidas-da-amazonia-enraizando-resistencias-em-defesa-da-vida-e-da-soberania\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">II Encontro dos Atingidos e das Atingidas da Amaz\u00f4nia<\/a>: \u201cHistoricamente, somos alvo de projetos pensados de cima, de fora e para fora, que nunca trouxeram verdadeiro desenvolvimento para a regi\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Da enorme riqueza extra\u00edda, tudo \u00e9 exportado \u2013 n\u00e3o fica nada para os povos amaz\u00f4nidas. Ainda assim, nunca na hist\u00f3ria da Amaz\u00f4nia se extraiu tanta riqueza, num ritmo t\u00e3o intenso quanto hoje. Estamos vivenciando um processo sem precedentes de destrui\u00e7\u00e3o da floresta, que converte seus povos em pobres. A regi\u00e3o Norte concentra o maior \u00edndice de fome do pa\u00eds, a cada quatro fam\u00edlias, uma passa fome\u201d.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o brutal da mercantiliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza na regi\u00e3o \u00e9 marcado pelo uso intenso de viol\u00eancia. Diversos estados da Amaz\u00f4nia brasileira amargam a lideran\u00e7a nos assassinatos e amea\u00e7as a defensores de direitos humanos, seus povos e meio ambiente, como o recente <a href=\"https:\/\/www.foei.org\/es\/solidaridad-internacionalista-a-los-defensores-bruno-araujo-pereira-dom-phillips-esaparecidos-en-vale-do-javari-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira no Vale do Javari<\/a> (AM). A impetuosidade com que o agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o, o garimpo ilegal e a &#8220;bio&#8221;economia se apropriam dos territ\u00f3rios e corpos amaz\u00f4nicos produz o desmoronamento dos modos de vida local, tornando essas terras cada vez mais integradas a uma economia globalizada e dependente da velocidade extrativa dos fluxos financeiros, descolada dos tempos da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Insurgindo-se a isso, os povos da floresta, das \u00e1guas, do campo e da cidade demonstraram, em Bel\u00e9m (PA), sua capacidade na constru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o popular para um outro projeto para a Amaz\u00f4nia, trazendo in\u00fameros exemplos de alternativas sist\u00eamicas para a crise social, ambiental e pol\u00edtica que os afetam. Dentre essas frentes, destacamos a resist\u00eancia ao Acordo Comercial entre a Uni\u00e3o Europeia e o Mercosul, a necessidade de responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais pelas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e as estrat\u00e9gias populares para barrar a financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, travestida outra vez em novo nome: bioeconomia.<\/p>\n<h1 class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Impactos dos acordos internacionais de livre com\u00e9rcio sobre a Amaz\u00f4nia e Am\u00e9rica Latina\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p>Num dos espa\u00e7os autogestionados, as <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/live\/?ref=watch_permalink&amp;v=732546151428555\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">organiza\u00e7\u00f5es discutiram a luta contra o Acordo de Livre Com\u00e9rcio UE-Mercosul<\/a>, cujas negocia\u00e7\u00f5es se arrastaram por cerca de 20 anos, <a href=\"https:\/\/capiremov.org\/experiencias\/aprendizados-da-luta-contra-a-alca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ap\u00f3s a derrota popular do projeto da ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas)<\/a>, sem transpar\u00eancia ou participa\u00e7\u00e3o popular, tendo sido o pacto finalizado justamente no primeiro ano do governo Bolsonaro. Segundo as entidades presentes, o acordo reproduz tanto a l\u00f3gica neocolonial quanto neoliberal, feito \u00e0 medida dos interesses das transnacionais da Uni\u00e3o Europeia, refor\u00e7ando um papel de exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios do Brasil e demais pa\u00edses do bloco na Am\u00e9rica Latina, em troca de mais liberaliza\u00e7\u00e3o para a entrada dessas empresas no Mercosul com produtos industrializados e nos setores de servi\u00e7os e compras p\u00fablicas. N\u00e3o preciso no acordo est\u00e1 a conta dos danos ambientais e sociais da expans\u00e3o desse com\u00e9rcio sobre os territ\u00f3rios, biomas e popula\u00e7\u00f5es, estando a Amaz\u00f4nia na mira de muitos projetos de minera\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio e infraestrutura de exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/65848c8c721d2920f31fbec7874c13a1.jpeg\" \/><br \/>\n<em>Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB) e Frente Brasileira contra os Acordos UE-Mercosul e EFTA-Mercosul presentes nos debates no Par\u00e1 \/ Carol Ferraz\/ ATBr<\/em><\/p>\n<p>Na lista dos produtos do Acordo a serem exportados do Brasil sem impostos est\u00e3o soja, carne bovina, min\u00e9rio de ferro e <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Ethanol-expansion-and-the-EU-Mercosur-trade-deal-PT-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">etanol para agrocombust\u00edveis e ind\u00fastria &#8220;bio&#8221;qu\u00edmica<\/a>. Nas importa\u00e7\u00f5es da Europa, <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2022\/04\/27\/amigos-da-terra-lanca-informe-lucrando-com-veneno-o-lobby-das-empresas-de-agrotoxico-da-uniao-europeia-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mais agrot\u00f3xicos proibidos nos pa\u00edses de origem<\/a> e mais <a href=\"https:\/\/www.anders-handeln.at\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Resumen_Un-frenazo-para-la-transformacio%CC%81n-sostenible-de-tra%CC%81fico-y-transporte-web-draft02-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">carros com motores \u00e0 combust\u00e3o<\/a> j\u00e1 produzidos no Brasil. Com o avan\u00e7o do acordo, os territ\u00f3rios amaz\u00f4nicos se constituem como \u201czonas de sacrif\u00edcio\u201d, <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/publi_JERN_ptbr_v3.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tendendo a intensificar processos destrutivos j\u00e1 em curso como as queimadas e desmatamento para expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola<\/a> e da minera\u00e7\u00e3o. Ademais, esses processos nunca atuam isoladamente, sempre necessitam de uma rede <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/fraport-_-ideograf.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">log\u00edstica de amplo porte para se sustentarem<\/a>. Em raz\u00e3o disso, propagam-se projetos de amplia\u00e7\u00e3o de portos, instala\u00e7\u00e3o de silos de armazenamento e intensifica\u00e7\u00e3o do fluxo de hidrovias. Os quais s\u00e3o efetivados sobre territ\u00f3rios ocupados por povos e comunidades tradicionais, pesqueiras e ribeirinhas, que ou s\u00e3o deslocados, ou veem suas formas de produzir a vida sendo paulatinamente extintas.<\/p>\n<p>Embora sejam difundidas not\u00edcias sobre as preocupa\u00e7\u00f5es com a crise clim\u00e1tica e as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos ao redor das negocia\u00e7\u00f5es do acordo, e ainda que haja um cap\u00edtulo sobre com\u00e9rcio e desenvolvimento sustent\u00e1vel, n\u00e3o h\u00e1 qualquer previs\u00e3o de mecanismo de solu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias, san\u00e7\u00f5es e multas, ou ainda previs\u00e3o de fundos que possam sustentar esses impactos. Al\u00e9m disso, fica claro o quanto <a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/pacto-verde-europeu-e-as-perspectivas-para-a-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">falta justi\u00e7a quando a suposta Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica prevista do Pacto Verde Europeu pode significar mais extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e \u00e1gua dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina<\/a> para subsidiar energias &#8220;limpas&#8221;, carros el\u00e9tricos ou hidrog\u00eanio &#8220;verde&#8221; para o velho continente.<\/p>\n<h1 class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>A luta pela responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais<\/strong><\/h1>\n<p>Os projetos que s\u00e3o implantados na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica refletem as disputas na geopol\u00edtica mundial pelo acesso \u00e0s mat\u00e9rias-primas baratas e controle de territ\u00f3rios, conduzidos pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es. Com isso, estamos afirmando que n\u00e3o somente o acesso ao recurso est\u00e1 em quest\u00e3o, mas tamb\u00e9m a capacidade de controlar a territorialidade e a capacidade e soberania dos estados em definir e aplicar pol\u00edticas p\u00fablicas, por isso a captura corporativa \u00e9 um mecanismo de a\u00e7\u00e3o bastante profundo. As empresas transnacionais n\u00e3o dominam apenas bens, elas controlam formas de ser e produzir, e cada vez mais precisam destruir os modos de produ\u00e7\u00e3o da vida diversos para criar a falsa ideia de que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas.<\/p>\n<p>Por isso, o enfrentamento ao poder das corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 uma luta estrutural na constru\u00e7\u00e3o de uma outra sociedade. Destruir o poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e social que essas empresas possuem permite abrir caminhos para que possamos continuar existindo em nossa diversidade, ao passo que constru\u00edmos janelas hist\u00f3ricas de projetos mais justos e igualit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nessa esteira se insere a campanha pela aprova\u00e7\u00e3o do PL n\u00ba.572\/2022, que se constitui como um marco para a responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas pelas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos. O projeto reflete os mais de 10 anos de constru\u00e7\u00e3o da Campanha Internacional pelo Desmantelamento do Poder Corporativo e pela Soberania dos Povos, nos quais se diagnosticou a constitui\u00e7\u00e3o de uma arquitetura da impunidade que beneficia os neg\u00f3cios das corpora\u00e7\u00f5es em detrimento dos direitos dos povos. Assim, constituir uma lei que possa assegurar esses direitos \u00e9 uma forma de diminuir a assimetria de poderes e constituir instrumentos concretos de responsabiliza\u00e7\u00e3o. Como diria Jo\u00e3o Dutra, militante do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens): \u201cUma loucura a gente ter que fazer uma lei para dizer que o Estado e as empresas precisam seguir a lei\u201d. E ainda completou: \u201cA necessidade da lei mostra que as empresas fazem as pr\u00f3prias leis\u201d. Avan\u00e7ar no marco \u00e9 um primeiro passo para asfixiar o poder corporativo em sua tentativa de destruir os territ\u00f3rios e a democracia.<\/p>\n<h1 class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Um programa para sair da \u201cbio\u201deconomia<\/strong><\/h1>\n<p>Diante das crises econ\u00f4mica, alimentar, sanit\u00e1ria e ambiental, tem-se acirrado as disputas ao redor da constitui\u00e7\u00e3o de novos projetos econ\u00f4micos. Frente a isso, alguns atores pol\u00edticos t\u00eam difundido sa\u00eddas para a crise na promo\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o verde da economia. Em tal contexto, o Brasil \u00e9 colocado como um l\u00edder em potencial em virtude da concentra\u00e7\u00e3o de florestas, \u00e1gua e biodiversidade em sua extens\u00e3o, por isso tem sido alvo de propostas experimentais de bioeconomia e financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza em distintos setores. Destaca-se que muitas das <a href=\"https:\/\/www.moneytimes.com.br\/agronegocio-domina-o-primeiro-lote-de-projetos-de-credito-de-carbono-do-bndes-de-r-87-milhoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">iniciativas de bioeconomia s\u00e3o financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES)<\/a>, transferindo dinheiro p\u00fablico para empresas privadas que atuam na especula\u00e7\u00e3o com cr\u00e9ditos de carbono ou mesmo para o agroneg\u00f3cio, com impacto direto sobre a soberania popular em territ\u00f3rios da Amaz\u00f4nia. No entanto, <a href=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/golpe-verde.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">as consequ\u00eancias da implementa\u00e7\u00e3o desses projetos, assim como de pol\u00edticas estaduais j\u00e1 com mais de uma d\u00e9cada de implementa\u00e7\u00e3o, como a Lei n\u00ba 2.308\/2010 do Acre, ainda s\u00e3o pouco debatidas<\/a>.<\/p>\n<p>Essas iniciativas est\u00e3o cada vez mais fortalecidas com as propostas de transi\u00e7\u00e3o verde elaborados no Norte Global, como o \u201cPacto Verde\u201d europeu ou o \u201cGreen Deal\u201d dos Estados Unidos (EUA), que determinam ao Brasil um papel, al\u00e9m de laborat\u00f3rio, de fornecedor de mat\u00e9rias-primas, como minerais. Novamente, as empresas transnacionais s\u00e3o colocadas como chave para a concretiza\u00e7\u00e3o desse processo. Desse modo, as propostas de solu\u00e7\u00e3o das crises refor\u00e7am redes de produ\u00e7\u00e3o global, endossam a l\u00f3gica financeira, distanciando-se de uma <a href=\"https:\/\/www.redes.org.uy\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BRA_Resumen-Ejecutivo-Investigacion-Brasil_port.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa, feminista e popular<\/a> j\u00e1 sendo constru\u00edda em alian\u00e7a com movimento sociais no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Ressaltando a urg\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o de um programa de pa\u00eds que represente uma real transforma\u00e7\u00e3o das estruturas e possa dar respostas satisfat\u00f3rias \u00e0 crise ambiental e social, o Grupo Carta de Bel\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/af-folheto-carta-de-belem-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apresentou 10 propostas para a reconstru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica socioambiental brasileira<\/a> no contexto das elei\u00e7\u00f5es, dentre elas: garantia dos modos de vida; garantia da terra e do territ\u00f3rio; reafirma\u00e7\u00e3o do meio ambiente como bem comum e garantia da participa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nas rodas de di\u00e1logo no FOSPA sobre o tema evidenciam-se que as solu\u00e7\u00f5es para a crise ecol\u00f3gica possuem respostas muito mais simples e acess\u00edveis, como a valoriza\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais e o repensar do modelo de desenvolvimento, tirando das m\u00e3os dos bancos, das corpora\u00e7\u00f5es e de pa\u00edses do Norte Global a defini\u00e7\u00e3o do que s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es para a crise clim\u00e1tica. Os representantes das comunidades presentes mostraram como suas formas hist\u00f3ricas de organiza\u00e7\u00e3o social e de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o t\u00eam assegurado condi\u00e7\u00f5es de vida mais dignas e sustent\u00e1veis ao longo de s\u00e9culos de processos emancipat\u00f3rios de resist\u00eancia.<\/p>\n<h1 class=\"ckeditor-subtitle\"><strong>Por um projeto de pa\u00eds feito por n\u00f3s a partir de nossos lugares\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p>Contra a tend\u00eancia hegem\u00f4nica de projetar cen\u00e1rios para a Amaz\u00f4nia a partir de escrit\u00f3rios corporativos de Washington (EUA) \u00e0 Bruxelas (B\u00e9lgica), ou mesmo pela capital Bras\u00edlia, os povos reunidos no FOSPA demonstraram a sua for\u00e7a ao afirmar que a Amaz\u00f4nia dever\u00e1 ser pensada com os p\u00e9s, e pelos p\u00e9s, cora\u00e7\u00f5es, mentes e mem\u00f3rias que nela habitam. Evidenciaram que essa terra \u00e9 povoada, provedora de alimentos, de dignidade, resist\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o e luta, j\u00e1 que eles s\u00e3o a Amaz\u00f4nia que vive e resiste!<\/p>\n<p>Tal como disseram os atingidos e as atingidas por barragem: \u201cAcreditamos que os 20 milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras que vivem aqui devem ser protagonistas da constru\u00e7\u00e3o do projeto que queremos para a Amaz\u00f4nia, com outra economia, outro desenvolvimento, que respeite seus povos e priorize a vida. Mas n\u00e3o atuamos na regi\u00e3o de forma isolada e sim nos somamos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds. Nada esperamos da classe dominante: a burguesia, pelo seu car\u00e1ter dependente, j\u00e1 se mostrou incapaz de pensar em um projeto soberano e pr\u00f3spero. Portanto, ele tem que ser constru\u00eddo pelos trabalhadores e trabalhadoras, pelos explorados e exploradas. Somos todos atingidos por esse sistema e devemos, juntos, combat\u00ea-lo e construir o novo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Coluna da ATBr publicada no jornal Brasil de Fato em 2\/08\/2022 neste link:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/02\/as-vozes-da-floresta-se-insurgem-por-um-outro-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/02\/as-vozes-da-floresta-se-insurgem-por-um-outro-brasil<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u201cesperan\u00e7ar da Amaz\u00f4nia\u201d foi o mote do 10\u00ba F\u00f3rum Pan-Amaz\u00f4nico (FOSPA) realizado em Bel\u00e9m (PA) na semana passada. Estiveram presentes por volta de 10 mil pessoas, sendo elas representantes quilombolas, ind\u00edgenas, ribeirinhos, movimentos populares e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil de v\u00e1rios pa\u00edses: Brasil, Peru, Equador, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia e Venezuela. A urg\u00eancia de repensar o modelo de desenvolvimento que vem se sobrepondo aos territ\u00f3rios e direitos dos povos na Amaz\u00f4nia, a partir das pr\u00f3prias gentes que habitam esses lugares, foi o que deu centralidade ao encontro. J\u00e1 na marcha de abertura esse grito de ousadia se fazia presente; em pleno cen\u00e1rio eleitoral conturbado, as bandeiras da mobiliza\u00e7\u00e3o eram marcadas por resist\u00eancia, afirma\u00e7\u00e3o de projeto popular e constru\u00e7\u00e3o de unidade. A Amaz\u00f4nia sempre foi tomada como uma zona de interesse nacional. Desde a Ditadura Militar brasileira, projetos de desenvolvimento s\u00e3o transplantados ao territ\u00f3rio sem qualquer di\u00e1logo ou participa\u00e7\u00e3o com os povos origin\u00e1rios, quilombolas, as comunidades locais e as popula\u00e7\u00f5es atingidas, como se esses espa\u00e7os fossem vazios e sem hist\u00f3ria. Afirma a carta final do II Encontro dos Atingidos e das Atingidas da Amaz\u00f4nia: \u201cHistoricamente, somos alvo de projetos pensados de cima, de fora e para fora, que nunca trouxeram verdadeiro desenvolvimento para a regi\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Da enorme riqueza extra\u00edda, tudo \u00e9 exportado \u2013 n\u00e3o fica nada para os povos amaz\u00f4nidas. Ainda assim, nunca na hist\u00f3ria da Amaz\u00f4nia se extraiu tanta riqueza, num ritmo t\u00e3o intenso quanto hoje. Estamos vivenciando um processo sem precedentes de destrui\u00e7\u00e3o da floresta, que converte seus povos em pobres. A regi\u00e3o Norte concentra o maior \u00edndice de fome do pa\u00eds, a cada quatro fam\u00edlias, uma passa fome\u201d. O avan\u00e7o brutal da mercantiliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza na regi\u00e3o \u00e9 marcado pelo uso intenso de viol\u00eancia. Diversos estados da Amaz\u00f4nia brasileira amargam a lideran\u00e7a nos assassinatos e amea\u00e7as a defensores de direitos humanos, seus povos e meio ambiente, como o recente assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira no Vale do Javari (AM). A impetuosidade com que o agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o, o garimpo ilegal e a &#8220;bio&#8221;economia se apropriam dos territ\u00f3rios e corpos amaz\u00f4nicos produz o desmoronamento dos modos de vida local, tornando essas terras cada vez mais integradas a uma economia globalizada e dependente da velocidade extrativa dos fluxos financeiros, descolada dos tempos da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Insurgindo-se a isso, os povos da floresta, das \u00e1guas, do campo e da cidade demonstraram, em Bel\u00e9m (PA), sua capacidade na constru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o popular para um outro projeto para a Amaz\u00f4nia, trazendo in\u00fameros exemplos de alternativas sist\u00eamicas para a crise social, ambiental e pol\u00edtica que os afetam. Dentre essas frentes, destacamos a resist\u00eancia ao Acordo Comercial entre a Uni\u00e3o Europeia e o Mercosul, a necessidade de responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais pelas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e as estrat\u00e9gias populares para barrar a financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, travestida outra vez em novo nome: bioeconomia. Impactos dos acordos internacionais de livre com\u00e9rcio sobre a Amaz\u00f4nia e Am\u00e9rica Latina\u00a0 Num dos espa\u00e7os autogestionados, as organiza\u00e7\u00f5es discutiram a luta contra o Acordo de Livre Com\u00e9rcio UE-Mercosul, cujas negocia\u00e7\u00f5es se arrastaram por cerca de 20 anos, ap\u00f3s a derrota popular do projeto da ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas), sem transpar\u00eancia ou participa\u00e7\u00e3o popular, tendo sido o pacto finalizado justamente no primeiro ano do governo Bolsonaro. Segundo as entidades presentes, o acordo reproduz tanto a l\u00f3gica neocolonial quanto neoliberal, feito \u00e0 medida dos interesses das transnacionais da Uni\u00e3o Europeia, refor\u00e7ando um papel de exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios do Brasil e demais pa\u00edses do bloco na Am\u00e9rica Latina, em troca de mais liberaliza\u00e7\u00e3o para a entrada dessas empresas no Mercosul com produtos industrializados e nos setores de servi\u00e7os e compras p\u00fablicas. N\u00e3o preciso no acordo est\u00e1 a conta dos danos ambientais e sociais da expans\u00e3o desse com\u00e9rcio sobre os territ\u00f3rios, biomas e popula\u00e7\u00f5es, estando a Amaz\u00f4nia na mira de muitos projetos de minera\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio e infraestrutura de exporta\u00e7\u00e3o. Grupo Carta de Bel\u00e9m (GCB) e Frente Brasileira contra os Acordos UE-Mercosul e EFTA-Mercosul presentes nos debates no Par\u00e1 \/ Carol Ferraz\/ ATBr Na lista dos produtos do Acordo a serem exportados do Brasil sem impostos est\u00e3o soja, carne bovina, min\u00e9rio de ferro e etanol para agrocombust\u00edveis e ind\u00fastria &#8220;bio&#8221;qu\u00edmica. Nas importa\u00e7\u00f5es da Europa, mais agrot\u00f3xicos proibidos nos pa\u00edses de origem e mais carros com motores \u00e0 combust\u00e3o j\u00e1 produzidos no Brasil. Com o avan\u00e7o do acordo, os territ\u00f3rios amaz\u00f4nicos se constituem como \u201czonas de sacrif\u00edcio\u201d, tendendo a intensificar processos destrutivos j\u00e1 em curso como as queimadas e desmatamento para expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola e da minera\u00e7\u00e3o. Ademais, esses processos nunca atuam isoladamente, sempre necessitam de uma rede log\u00edstica de amplo porte para se sustentarem. Em raz\u00e3o disso, propagam-se projetos de amplia\u00e7\u00e3o de portos, instala\u00e7\u00e3o de silos de armazenamento e intensifica\u00e7\u00e3o do fluxo de hidrovias. Os quais s\u00e3o efetivados sobre territ\u00f3rios ocupados por povos e comunidades tradicionais, pesqueiras e ribeirinhas, que ou s\u00e3o deslocados, ou veem suas formas de produzir a vida sendo paulatinamente extintas. Embora sejam difundidas not\u00edcias sobre as preocupa\u00e7\u00f5es com a crise clim\u00e1tica e as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos ao redor das negocia\u00e7\u00f5es do acordo, e ainda que haja um cap\u00edtulo sobre com\u00e9rcio e desenvolvimento sustent\u00e1vel, n\u00e3o h\u00e1 qualquer previs\u00e3o de mecanismo de solu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias, san\u00e7\u00f5es e multas, ou ainda previs\u00e3o de fundos que possam sustentar esses impactos. Al\u00e9m disso, fica claro o quanto falta justi\u00e7a quando a suposta Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica prevista do Pacto Verde Europeu pode significar mais extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e \u00e1gua dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina para subsidiar energias &#8220;limpas&#8221;, carros el\u00e9tricos ou hidrog\u00eanio &#8220;verde&#8221; para o velho continente. A luta pela responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas transnacionais Os projetos que s\u00e3o implantados na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica refletem as disputas na geopol\u00edtica mundial pelo acesso \u00e0s mat\u00e9rias-primas baratas e controle de territ\u00f3rios, conduzidos pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es. Com isso, estamos afirmando que n\u00e3o somente o acesso ao recurso est\u00e1 em quest\u00e3o, mas tamb\u00e9m a capacidade de controlar a territorialidade e a capacidade e soberania dos estados em definir e aplicar pol\u00edticas p\u00fablicas, por isso a captura corporativa \u00e9 um mecanismo<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,8,1835],"tags":[],"class_list":["post-4704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-florestas-e-biodiversidade","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4704"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9621,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4704\/revisions\/9621"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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