{"id":4551,"date":"2022-07-21T22:08:49","date_gmt":"2022-07-22T01:08:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=4551"},"modified":"2025-06-16T15:18:54","modified_gmt":"2025-06-16T18:18:54","slug":"por-uma-economia-centrada-na-vida-agendas-feministas-para-o-debate-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=4551","title":{"rendered":"Por uma economia centrada na vida: agendas feministas para o debate eleitoral"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/f5e47fff083e8871720a818c61765fea.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>Mulheres participam do ato Fora Bolsonaro em Dezembro passado, em Porto Alegre (RS) &#8211; Isabelle Rieger\/ATBr<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A crise de cuidado \u00e9 um tema cadente em muitos pa\u00edses nos \u00faltimos\nanos. A realidade da Am\u00e9rica Latina, no entanto, revela ra\u00edzes mais\nprofundas e antigas da crise, que coincide com o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/12\/onda-progressista-na-america-latina-e-sintoma-do-fracasso-do-neoliberalismo-diz-celso-amorim\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">avan\u00e7o das pol\u00edticas neoliberais em toda a regi\u00e3o<\/a>.\n O envelhecimento populacional, o aumento do n\u00famero de fam\u00edlias que s\u00e3o\nmonoparentais, os desafios para inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de\ntrabalho formal e&nbsp;a efetiva\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de austeridade que reduzem\nos investimento p\u00fablicos em pol\u00edticas de cuidado&nbsp;t\u00eam sobrecarregado a\nvida das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma realidade invis\u00edvel, que \u00e9 acompanhada da completa incapacidade\nde reorganiza\u00e7\u00e3o social e estatal frente a essas mudan\u00e7as de cen\u00e1rio,\nque terminam por fortalecer a estrutura desigual que <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/04\/01\/no-distrito-federal-mulheres-dedicam-a-trabalhos-domesticos-quase-10-horas-a-mais-que-homens\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">torna as mulheres as \u00fanicas respons\u00e1veis pelas tarefas relacionadas aos cuidados<\/a>.\n Assim, se transfere tudo relativo ao cuidado, ou seja, \u00e0 sobreviv\u00eancia e\n renova\u00e7\u00e3o da vida dos trabalhadores e das trabalhadoras, para as\nmulheres. S\u00e3o elas que t\u00eam a tarefa de cuidar das crian\u00e7as, idosos,\nenfermos, preparar alimentos, organizar e limpar casas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em verdade, estamos falando de uma s\u00e9rie de trabalhos que n\u00e3o possuem  rela\u00e7\u00f5es contratuais, mas s\u00e3o essenciais para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital.  Cada vez mais, com o avan\u00e7o da retirada de direitos sociais, cortes  or\u00e7ament\u00e1rios como a PEC 95, a diminui\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo das  fam\u00edlias, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o cuidado se concentra  ainda mais nas mulheres. Assim, essa transfer\u00eancia, quase obrigat\u00f3ria,  da tarefa de cuidado para as mulheres tem servido como um amortecedor  dos efeitos mais destruidores da crise do bem estar das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres ingressaram no mercado de trabalho sem superar a\nconcentra\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico. Para tanto, algumas passaram a\ncontratar outras mulheres para realizar o trabalho, as quais precisam\ncontratar ainda outras mulheres ou contar com uma rede de solidariedade\npara exercer o direito ao trabalho, criando uma nova organiza\u00e7\u00e3o da\nreprodu\u00e7\u00e3o social que se divide entre mulheres que podem pagar pelo\ncuidado de outras mulheres, que n\u00e3o podem. \u00c9 importante destacar que\ndesde a escravid\u00e3o, grande parte do trabalho de cuidado \u00e9 realizado por\nmulheres negras, historicamente vinculadas aos trabalhos dom\u00e9sticos.\nCabe ainda recordar que \u00e9 muito recente o reconhecimento da precariedade\n do trabalho dom\u00e9stico e a afirma\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas a essa\ncategoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem a economia do cuidado n\u00e3o paga, n\u00e3o h\u00e1 capitalismo,\nconstituindo-se, portanto, num eixo estruturante da manuten\u00e7\u00e3o da\ndomina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do trabalho no sistema. O aumento das horas de\ntrabalho, da informalidade, da redu\u00e7\u00e3o da renda das fam\u00edlias aumenta a\ndemanda de trabalho dom\u00e9stico. Todas as altera\u00e7\u00f5es desde a inser\u00e7\u00e3o das\nmulheres no mercado de trabalho n\u00e3o foram acompanhadas de uma revis\u00e3o\ndos pap\u00e9is sociais na sociedade patriarcal. Tantas pol\u00edticas de impacto\nna vida social, radicalizadas na pandemia, n\u00e3o foram acompanhadas do\naumento da vaga de creches, da adequada remunera\u00e7\u00e3o do trabalho\ndom\u00e9stico e do aumento da oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos de cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa crise se agrava quando tomamos em conta a realidade de\ndesterritorializa\u00e7\u00e3o e desenraizamento, que vem ocorrendo com o avan\u00e7o\ndo capital, da mercantiliza\u00e7\u00e3o sobre comunidades e territ\u00f3rios. A\ndestrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais e os impactos no meio ambiente\n afetam diretamente as redes de solidariedade, que s\u00e3o fundamentais para\n os cuidados. A quebra dos la\u00e7os comunit\u00e1rios afeta muito as mulheres do\n campo, das \u00e1guas e das florestas. Al\u00e9m do que a destrui\u00e7\u00e3o dessas\ncoletividades aprofunda a depend\u00eancia nesse sistema de cuidados\nhegem\u00f4nico, tornando a falta de exemplos concretos de alternativas um\nproblema para a constru\u00e7\u00e3o de outras utopias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 diante desse cen\u00e1rio desfavor\u00e1vel que somos obrigadas a pensar e construir alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Politiza\u00e7\u00e3o do cuidado e lutas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recentrar a economia para a vida, repensando o papel hist\u00f3rico\nrelegado \u00e0s mulheres de serem respons\u00e1veis por todo o cuidado, \u00e9 uma\nluta urgente e necess\u00e1ria. A pandemia exacerbou a necessidade de pensar a\n dimens\u00e3o dos cuidados em nossas vidas, quando observamos que a linha de\n frente da pandemia era composta por mulheres na sa\u00fade, as professoras\nsobrecarregadas com a realidade do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, m\u00e3es\nimpossibilitadas de trabalhar com crian\u00e7as em casa. Entender a\nnecessidade de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidados, desprivatiz\u00e1-los e\nfornecer condi\u00e7\u00f5es concretas de pol\u00edticas p\u00fablicas para as mulheres se\nlibertarem da sobrecarga \u00e9 o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Movimentos feministas urbanos t\u00eam enfatizado a economia feminista\ncomo uma alternativa a essa crise, recentrando a organiza\u00e7\u00e3o da\nsociedade n\u00e3o pela l\u00f3gica do lucro, mas para a do cuidado, da manuten\u00e7\u00e3o\n das condi\u00e7\u00f5es de vida. A Marcha Mundial das Mulheres tem investido no\ndesafio de <a href=\"http:\/\/www.sof.org.br\/politizar-o-cuidado-e-transformar-a-economia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;desmercantilizar&#8221; o cuidado<\/a>,\n apostando que este, fora da fam\u00edlia, seja acess\u00edvel a todos, n\u00e3o apenas\n aos que podem pagar por ele. Ao lado disso, a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho\ndom\u00e9stico e de cuidado deve estar atrelada \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de\nresponsabilidades e \u00e0 expans\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o das infraestruturas p\u00fablicas\npara o cuidado: a) aumento de creches e centros de educa\u00e7\u00e3o infantil; b)\n espa\u00e7os para cuidado dos idosos; c) forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho\nde cuidadores\/as em casa; d) garantias de direitos trabalhistas a\ndom\u00e9sticas e cuidadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso inserir na agenda da esquerda algo al\u00e9m do debate da\nprodu\u00e7\u00e3o, seu controle, e tamb\u00e9m pensar a din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o,\nrepensando o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados. N\u00e3o apenas reconhecer sua\n exist\u00eancia diante da invisibilidade que paira \u00e9 uma tarefa, mas tamb\u00e9m\nperceber como sua realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de forma injusta e desigual, isso\nporque as mulheres s\u00e3o as que arcam com a maior parte desse trabalho.\nPor isso, <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/ATI-MMM-REMTE-Port-PAGES_.pdf\">precisamos pensar urgentemente em uma forma de reorganiza\u00e7\u00e3o e de redistribui\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e de cuidados<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres dos campos, das florestas e das \u00e1guas tamb\u00e9m t\u00eam, por  meio de uma ecologia feminista, integrado os debates de cuidado com os  movimentos socioambientais, construindo alternativas desde a resist\u00eancia  e (re) exist\u00eancia de saberes de cuidado que existem, entre outras  formas de organiza\u00e7\u00e3o social ainda presentes entre n\u00f3s, como as das  comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e povos  ind\u00edgenas. As pr\u00e1ticas de socializa\u00e7\u00e3o do cuidado das crian\u00e7as, exercida  por homens e mulheres, nas cirandas dos movimentos populares, e as  novas distribui\u00e7\u00f5es da tarefa de preparo de alimentos s\u00e3o alguns  exemplos de alternativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Let\u00edcia Paranhos, da Amigos da Terra Brasil, afirma que &#8220;o movimento\nfeminista tem nos ensinado que a economia feminista \u00e9 mais do que um\nconceito, \u00e9 uma ferramenta de luta. Aprendemos, por meio de discuss\u00f5es\nsobre a sustentabilidade da vida, a no\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia, em que\nnecessitamos de cuidados ao longo de toda a vida. Tamb\u00e9m compartilhamos\nmuito sobre a ecodepend\u00eancia; para a sustentabilidade da vida, a\nnatureza \u00e9 a base de tudo, recha\u00e7ando a falsa ideia de separa\u00e7\u00e3o entre\nseres humanos e a natureza. Somos natureza. Esses entendimentos\nquestionam e confrontam o atual modelo de (re) produ\u00e7\u00e3o e cuidado. \u00c9\nurgente pensar pol\u00edticas p\u00fablicas com base no respeito dos tempos,\ntempos estes que devem <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/18\/semana-de-4-dias-3-3-mil-trabalhadores-testam-a-proposta-que-protege-saude-e-meio-ambiente\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">repensar as jornadas de trabalho<\/a> e combater a mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso valorizar os avan\u00e7os em nossa regi\u00e3o, conquistados pelas\nmulheres na Argentina, Chile e Uruguai, com as lutas pelo reconhecimento\n dos trabalhos de cuidado n\u00e3o pagos nos c\u00e1lculos previdenci\u00e1rios. Ou,\nainda, destacar as discuss\u00f5es na Argentina para se firmar uma pol\u00edtica\nde cuidados no pa\u00eds, a exemplo da criada no Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cuidado no Brasil e a necessidade de supera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na contram\u00e3o da discuss\u00e3o mundial e dos avan\u00e7os regionais, o atual\ngoverno brasileiro, sobretudo por meio do Minist\u00e9rio da Mulher, da\nFam\u00edlia e dos Direitos Humanos, tem contribu\u00eddo para a brutalidade da\nagenda neoliberal do cuidado. Isso porque defende o papel da fam\u00edlia em\nassegurar o cuidado ao inv\u00e9s de investir em pol\u00edticas p\u00fablicas para sua\nsupera\u00e7\u00e3o. Acreditar que a fam\u00edlia vai absorver o impacto das pol\u00edticas\nde austeridade \u00e9 mercantilizar e privatizar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O fechamento da Secretaria de Pol\u00edticas P\u00fablicas para as Mulheres,  ainda no Governo Temer, representou o desmantelamento de toda uma  estrutura que vinha avan\u00e7ando em repensar a organiza\u00e7\u00e3o do cuidado no  Brasil. A <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/06\/12\/as-nuances-do-golpe-a-violencia-contra-a-mulher-multiplicada\" target=\"_blank\">pol\u00edtica de acolhida na Casa da Mulher Brasileira<\/a>  e a produ\u00e7\u00e3o de dados sobre a reorganiza\u00e7\u00e3o familiar estavam entre as  atividades paralisadas. Ao passo que o investimento na fam\u00edlia nuclear  brasileira, em valores conservadores, durante o Governo Bolsonaro, tem  feito explodir a viol\u00eancia contra as pautas pol\u00edticas de mulheres,  construindo um cen\u00e1rio no qual sequer h\u00e1 espa\u00e7o para o debate.<\/p>\n\n\n\n<p>O cuidado \u00e9 uma responsabilidade coletiva, social, que deve ser\u00a0  compartilhada entre homens e mulheres, com um papel bastante ativo do  Estado. \u00c9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar para uma participa\u00e7\u00e3o ainda maior das  mulheres no mercado de trabalho formal com igualdade salarial, na  redistribui\u00e7\u00e3o das tarefas de cuidado na sociedade, no avan\u00e7o da  prote\u00e7\u00e3o social para cuidadoras e empregadas dom\u00e9sticas. E na garantia  dos direitos das mulheres \u00e0 autonomia sobre seus corpos, assim como ao  aborto com cuidados m\u00e9dicos legais, estes s\u00e3o alguns dos passos para se  avan\u00e7ar numa economia centrada na sustentabilidade da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Queremos e precisamos de mudan\u00e7as reais e radicais na nossa  sociedade, estamos em momento eleitoral e os partidos do campo  progressista precisam incorporar perspectivas que coloquem a  sustentabilidade da vida no centro da economia e da pol\u00edtica&#8221;, defende Let\u00edcia Paranhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Coluna publicada no jornal Brasil de Fato em 18\/07\/2022 neste link:<\/strong> <strong><em><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/18\/por-uma-economia-centrada-na-vida-agendas-feministas-para-o-debate-eleitoral\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/18\/por-uma-economia-centrada-na-vida-agendas-feministas-para-o-debate-eleitoral (abre numa nova aba)\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/07\/18\/por-uma-economia-centrada-na-vida-agendas-feministas-para-o-debate-eleitoral<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise de cuidado \u00e9 um tema cadente em muitos pa\u00edses nos \u00faltimos anos. A realidade da Am\u00e9rica Latina, no entanto, revela ra\u00edzes mais profundas e antigas da crise, que coincide com o avan\u00e7o das pol\u00edticas neoliberais em toda a regi\u00e3o. O envelhecimento populacional, o aumento do n\u00famero de fam\u00edlias que s\u00e3o monoparentais, os desafios para inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho formal e&nbsp;a efetiva\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de austeridade que reduzem os investimento p\u00fablicos em pol\u00edticas de cuidado&nbsp;t\u00eam sobrecarregado a vida das mulheres. Uma realidade invis\u00edvel, que \u00e9 acompanhada da completa incapacidade de reorganiza\u00e7\u00e3o social e estatal frente a essas mudan\u00e7as de cen\u00e1rio, que terminam por fortalecer a estrutura desigual que torna as mulheres as \u00fanicas respons\u00e1veis pelas tarefas relacionadas aos cuidados. Assim, se transfere tudo relativo ao cuidado, ou seja, \u00e0 sobreviv\u00eancia e renova\u00e7\u00e3o da vida dos trabalhadores e das trabalhadoras, para as mulheres. S\u00e3o elas que t\u00eam a tarefa de cuidar das crian\u00e7as, idosos, enfermos, preparar alimentos, organizar e limpar casas. Em verdade, estamos falando de uma s\u00e9rie de trabalhos que n\u00e3o possuem rela\u00e7\u00f5es contratuais, mas s\u00e3o essenciais para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Cada vez mais, com o avan\u00e7o da retirada de direitos sociais, cortes or\u00e7ament\u00e1rios como a PEC 95, a diminui\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo das fam\u00edlias, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o cuidado se concentra ainda mais nas mulheres. Assim, essa transfer\u00eancia, quase obrigat\u00f3ria, da tarefa de cuidado para as mulheres tem servido como um amortecedor dos efeitos mais destruidores da crise do bem estar das pessoas. As mulheres ingressaram no mercado de trabalho sem superar a concentra\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico. Para tanto, algumas passaram a contratar outras mulheres para realizar o trabalho, as quais precisam contratar ainda outras mulheres ou contar com uma rede de solidariedade para exercer o direito ao trabalho, criando uma nova organiza\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o social que se divide entre mulheres que podem pagar pelo cuidado de outras mulheres, que n\u00e3o podem. \u00c9 importante destacar que desde a escravid\u00e3o, grande parte do trabalho de cuidado \u00e9 realizado por mulheres negras, historicamente vinculadas aos trabalhos dom\u00e9sticos. Cabe ainda recordar que \u00e9 muito recente o reconhecimento da precariedade do trabalho dom\u00e9stico e a afirma\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas a essa categoria. 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Essa crise se agrava quando tomamos em conta a realidade de desterritorializa\u00e7\u00e3o e desenraizamento, que vem ocorrendo com o avan\u00e7o do capital, da mercantiliza\u00e7\u00e3o sobre comunidades e territ\u00f3rios. A destrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais e os impactos no meio ambiente afetam diretamente as redes de solidariedade, que s\u00e3o fundamentais para os cuidados. A quebra dos la\u00e7os comunit\u00e1rios afeta muito as mulheres do campo, das \u00e1guas e das florestas. Al\u00e9m do que a destrui\u00e7\u00e3o dessas coletividades aprofunda a depend\u00eancia nesse sistema de cuidados hegem\u00f4nico, tornando a falta de exemplos concretos de alternativas um problema para a constru\u00e7\u00e3o de outras utopias. \u00c9 diante desse cen\u00e1rio desfavor\u00e1vel que somos obrigadas a pensar e construir alternativas. Politiza\u00e7\u00e3o do cuidado e lutas Recentrar a economia para a vida, repensando o papel hist\u00f3rico relegado \u00e0s mulheres de serem respons\u00e1veis por todo o cuidado, \u00e9 uma luta urgente e necess\u00e1ria. A pandemia exacerbou a necessidade de pensar a dimens\u00e3o dos cuidados em nossas vidas, quando observamos que a linha de frente da pandemia era composta por mulheres na sa\u00fade, as professoras sobrecarregadas com a realidade do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, m\u00e3es impossibilitadas de trabalhar com crian\u00e7as em casa. Entender a necessidade de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidados, desprivatiz\u00e1-los e fornecer condi\u00e7\u00f5es concretas de pol\u00edticas p\u00fablicas para as mulheres se libertarem da sobrecarga \u00e9 o caminho. Movimentos feministas urbanos t\u00eam enfatizado a economia feminista como uma alternativa a essa crise, recentrando a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o pela l\u00f3gica do lucro, mas para a do cuidado, da manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida. A Marcha Mundial das Mulheres tem investido no desafio de &#8220;desmercantilizar&#8221; o cuidado, apostando que este, fora da fam\u00edlia, seja acess\u00edvel a todos, n\u00e3o apenas aos que podem pagar por ele. Ao lado disso, a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e de cuidado deve estar atrelada \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de responsabilidades e \u00e0 expans\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o das infraestruturas p\u00fablicas para o cuidado: a) aumento de creches e centros de educa\u00e7\u00e3o infantil; b) espa\u00e7os para cuidado dos idosos; c) forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidadores\/as em casa; d) garantias de direitos trabalhistas a dom\u00e9sticas e cuidadoras. \u00c9 preciso inserir na agenda da esquerda algo al\u00e9m do debate da produ\u00e7\u00e3o, seu controle, e tamb\u00e9m pensar a din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o, repensando o trabalho dom\u00e9stico e de cuidados. N\u00e3o apenas reconhecer sua exist\u00eancia diante da invisibilidade que paira \u00e9 uma tarefa, mas tamb\u00e9m perceber como sua realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de forma injusta e desigual, isso porque as mulheres s\u00e3o as que arcam com a maior parte desse trabalho. Por isso, precisamos pensar urgentemente em uma forma de reorganiza\u00e7\u00e3o e de redistribui\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e de cuidados. As mulheres dos campos, das florestas e das \u00e1guas tamb\u00e9m t\u00eam, por meio de uma ecologia feminista, integrado os debates de cuidado com os movimentos socioambientais, construindo alternativas desde a resist\u00eancia e (re) exist\u00eancia de saberes de cuidado que existem, entre outras formas de organiza\u00e7\u00e3o social ainda presentes entre n\u00f3s, como as das comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e povos ind\u00edgenas. As pr\u00e1ticas de socializa\u00e7\u00e3o do cuidado das crian\u00e7as, exercida por homens e mulheres, nas cirandas dos movimentos populares, e as novas distribui\u00e7\u00f5es da tarefa de preparo de alimentos s\u00e3o alguns exemplos de<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4552,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603,1832,492,7,1844],"tags":[],"class_list":["post-4551","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","category-economia-popular-e-feminista","category-justica-de-genero-e-desmantelamento-do-patriarcado","category-justica-economica","category-sustentibilidade-da-vida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4551"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9624,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4551\/revisions\/9624"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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