{"id":4476,"date":"2021-10-25T16:54:16","date_gmt":"2021-10-25T19:54:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=4476"},"modified":"2025-06-17T10:02:09","modified_gmt":"2025-06-17T13:02:09","slug":"como-o-brasil-dira-a-onu-que-vai-privatizar-a-preservacao-florestal-para-salvar-a-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=4476","title":{"rendered":"Como o Brasil dir\u00e1 \u00e0 ONU que vai privatizar a preserva\u00e7\u00e3o florestal para salvar a Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da 26\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as\nClim\u00e1ticas (COP 26) em Glasgow (Esc\u00f3cia), a posi\u00e7\u00e3o do governo\nbrasileiro tem sido favor\u00e1vel em colocar as <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/09\/16\/como-o-desmonte-de-orgaos-ambientais-tem-relacao-direta-com-o-fogo-nas-florestas\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">florestas no jogo<\/a> de compensa\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e passar o chap\u00e9u para obter cr\u00e9ditos florestais.<\/p>\n\n\n\n<p>A exemplo da chamada \u201cchantagem florestal\u201d feita pelo ent\u00e3o Ministro\ndo Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante a COP 25, em 2019, o governo\nchega a&nbsp;Glasgow para barganhar os termos da privatiza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio\nnacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora com Joaquim Leite como ministro, que segue a mesma cartilha de  Salles,\u00a0 o Brasil busca tra\u00e7ar caminhos para concretizar essas posi\u00e7\u00f5es,  ainda que nesse momento, as negocia\u00e7\u00f5es para a regulamenta\u00e7\u00e3o do artigo  6 do Acordo de Paris n\u00e3o deva avan\u00e7ar para quest\u00f5es setoriais, al\u00e9m do  regramento inicial dos mecanismos de mercado de carbono, fruto de<a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/manifesto-rumo-a-cop-26\/\"> muitas cr\u00edticas <\/a>por serem considerados falsas solu\u00e7\u00f5es \u00e0 crise clim\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Como, ent\u00e3o, esse ator que vem perdendo espa\u00e7o nas negocia\u00e7\u00f5es\ninternacionais pela falta de credibilidade do governo Bolsonaro tem se\nestruturado em \u00e2mbito dom\u00e9stico? De 2019 pra c\u00e1, o governo brasileiro\ntem avan\u00e7ado com o \u201cdesmonte\u201d e o \u201cremonte\u201d das pol\u00edticas ambientais\ntendo como foco as florestas, o que resulta no aprofundamento acelerado\ndos&nbsp; processos de privatiza\u00e7\u00e3o, e ainda revela a estrutura\u00e7\u00e3o de\nincentivos \u00e0 entrega das florestas para o mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cdesmonte\u201d da pol\u00edtica ambiental, no caso de Unidades de\nConserva\u00e7\u00e3o ocorrido a partir de 2019, por exemplo, se deu\nprincipalmente com a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos recursos or\u00e7ament\u00e1rios ao\nICMBio \u2013 Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cremonte\u201d desta pol\u00edtica se deu em alinhamento ao estabelecimento\nde mercados e mecanismos de compensa\u00e7\u00f5es com florestas (offsets\nflorestais), por meio da cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo de depend\u00eancia entre a\npol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o florestal e o financiamento internacional e\nprivado, como o Programa Adote um Parque e o Programa de Estrutura\u00e7\u00e3o de\n Concess\u00f5es de Parques Naturais via BNDES \u2013 Banco Nacional de\nDesenvolvimento, com a Pol\u00edtica de Desestatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que quando falamos em compensa\u00e7\u00f5es com  florestas e mercado de carbono, estamos nos referindo a um mecanismo que  permite a um pa\u00eds vender redu\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es de CO\u2082, al\u00e9m das  necess\u00e1rias para cumprir suas metas clim\u00e1ticas, para que outro pa\u00eds  possa contabilizar essas redu\u00e7\u00f5es em suas a\u00e7\u00f5es para cumprir a meta dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, na pr\u00e1tica \u00e9 um incentivo para que os Estados-na\u00e7\u00e3o\npoluidores n\u00e3o alterem seu regime de consumo de recursos e produ\u00e7\u00e3o,\nassim as empresas que ir\u00e3o receber aqueles cr\u00e9ditos v\u00e3o poder seguir\npoluindo, como fazem hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O Programa Adote um Parque foi criado em 2021 como pol\u00edtica de\nincentivo a investimentos privados em Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o,\nespecialmente na Amaz\u00f4nia. Com doa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os, empresas\npoderiam beneficiar comunidades locais em troca da possibilidade de\nvisibilizar sua pol\u00edtica de sustentabilidade e de obter o uso direto do\nterrit\u00f3rio com interven\u00e7\u00e3o no manejo de recursos madeireiros e\nn\u00e3o-madeireiros na Unidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa de transfer\u00eancia de responsabilidade e captura de\nterrit\u00f3rios despertou interesse de empresas como Coca-Cola, MRV\nEngenharia, Heineken e Carrefour, que assinaram protocolos de inten\u00e7\u00f5es\ncom o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente para fazerem parte da gest\u00e3o de\nUnidades de Conserva\u00e7\u00e3o no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Programa de Estrutura\u00e7\u00e3o de Concess\u00f5es de Parques Naturais do\nBNDES, anterior ao Programa Adote um Parque, promove a privatiza\u00e7\u00e3o de\nParques por todo Brasil. O que seria apenas a concess\u00e3o de servi\u00e7os de\ngest\u00e3o de Unidades se revela um mecanismo de controle de territ\u00f3rios com\n consequ\u00eancias territoriais e de controle da sociobiodiversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes programas, est\u00e3o previstas mais de 200 Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o\n em todo o territ\u00f3rio nacional. O governo federal, que tem adotado\npr\u00e1ticas antidemocr\u00e1ticas, como a retirada da participa\u00e7\u00e3o da sociedade\ncivil de conselhos de gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, demonstra que os\natores envolvidos na pol\u00edtica de florestas ser\u00e3o apenas as corpora\u00e7\u00f5es.\nEnquanto isso, as popula\u00e7\u00f5es locais, principais afetadas por estas\ndecis\u00f5es, n\u00e3o foram sequer consultadas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/85473baa9a300409eedf4d521eb3eac4.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption> Popula\u00e7\u00f5es tradicionais s\u00e3o as  principais afetadas pelo \u201cremonte\u201d das  pol\u00edticas p\u00fablicas de entrega da  governan\u00e7a para a iniciativa privada,  no entanto as comunidades n\u00e3o  s\u00e3o consultadas \/ Foto: Carol  Ferraz\/Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o de florestas deixa ref\u00e9ns ou dependentes as\ncomunidades tradicionais em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento internacional e por\n empresas. Na COP, em que a pauta \u00e9 a meta da neutralidade de emiss\u00f5es\nde gases de efeito estufa, a polui\u00e7\u00e3o \u00e9 compensada com incentivos \u00e0\nprote\u00e7\u00e3o ambiental, mesmo que esses mecanismos n\u00e3o alcancem justi\u00e7a\nclim\u00e1tica para comunidades locais.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica por tr\u00e1s desses&nbsp;mecanismos de compensa\u00e7\u00f5es se repete nos programas Adote um Parque e concess\u00f5es de Parques Naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas falsas \u201cpol\u00edticas clim\u00e1ticas\u201d que atendem apenas aos interesses\n financeiros empresariais v\u00eam causando impactos avassaladores na\nexpropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, apropria\u00e7\u00e3o de recursos naturais, na\nviol\u00eancia real e simb\u00f3lica sobre popula\u00e7\u00f5es e seus modos de vida.\nEnquanto decis\u00f5es s\u00e3o tomadas por decreto, estas definem os rumos das\npol\u00edticas que afetam a vida das popula\u00e7\u00f5es que vivem em uma rela\u00e7\u00e3o\nintr\u00ednseca com a floresta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que avan\u00e7a o remonte das pol\u00edticas ambientais com\numa l\u00f3gica neoliberal de que tudo \u00e9 produto e, portanto, pass\u00edvel de\nlucro, essa vis\u00e3o tamb\u00e9m atende aos interesses de explora\u00e7\u00e3o da natureza\n pelo setor agropecu\u00e1rio, que vem avan\u00e7ando sobre territ\u00f3rios com as\npr\u00e1ticas j\u00e1 costumeiras de queimar para grilar \u00e1reas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 23 de agosto deste ano, o monitoramento do Instituto Nacional de\nPesquisas Espaciais (Inpe) registrou mais focos de inc\u00eandio do que o\ntotal registrado nos oito primeiros meses completos de 2020 na Amaz\u00f4nia,\n Cerrado, Caatinga, Mata Atl\u00e2ntica e Pantanal, com um aumento de 8,5%\nnos focos de queimadas em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas de agosto do ano passado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/5d691cecdf216540b68e99afdb1be432.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption> <br \/> Comunidades da regi\u00e3o do Tapaj\u00f3s  se manifestam contra a cria\u00e7\u00e3o de  portos para escoar a produ\u00e7\u00e3o de  commodities que afetariam diretamente  seus modos de vida e alimenta\u00e7\u00e3o  com a pesca \/ Foto: Carol Ferraz\/Amigos  da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era complexa, agora se torna dram\u00e1tica com a\u00e7\u00f5es\npor todo o pa\u00eds de expans\u00e3o do complexo agroindustrial brasileiro,\nincluindo as infraestruturas log\u00edsticas de trens, linh\u00f5es e mecanismos\nde escoamento de produ\u00e7\u00e3o que colocam na linha de frente os corpos e os\nterrit\u00f3rios de povos ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas,\n povos e comunidades tradicionais, camponeses e agricultores familiares,\n de todos os biomas do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento que atravessamos, a COP 26 representa uma mesa de\nnegocia\u00e7\u00e3o para encaminhar a\u00e7\u00f5es paliativas, que mant\u00eam a l\u00f3gica\ndesenvolvimentista e de lucro a todo custo em jogo. Na pr\u00e1tica, \u00e9 a\nconsolida\u00e7\u00e3o do regime de governan\u00e7a clim\u00e1tica internacional e, por\nisso, \u00e9 importante a defesa de um projeto pol\u00edtico para os biomas\nbrasileiros, em especial a Amaz\u00f4nia, constru\u00eddo para e com os povos\nlocais, respeitando os seus modos de viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s de entregar a governan\u00e7a das florestas para a iniciativa\nprivada, solu\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes hoje s\u00e3o mais efetivas para redu\u00e7\u00e3o das\nemiss\u00f5es dos gases de efeito estufa sem desrespeitar os direitos de\ncentenas de povos e comunidades tradicionais espalhadas por todo o pa\u00eds;\n essa solu\u00e7\u00e3o reside na demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e quilombolas e\nna defesa das terras coletivas e dos direitos territoriais.<\/p>\n\n\n\n<p>O protagonismo dos povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais,\nagricultores familiares e camponeses\/as e suas pr\u00e1ticas de\nfortalecimento de iniciativas agroecol\u00f3gicas contribuem para a\nconserva\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade, encurtamento dos circuitos de\ncomercializa\u00e7\u00e3o e a soberania alimentar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Texto elaborado por Pedro Martins, advogado, e Carol Ferraz,  jornalista, integrantes do Grupo Carta de Bel\u00e9m, com contribui\u00e7\u00f5es de  demais membros do Grupo Carta de Bel\u00e9m. A Amigos da Terra Brasil integra  a articula\u00e7\u00e3o Grupo Carta de Bel\u00e9m.<\/em><br \/><br \/><strong>* Artigo publicado no jornal Brasil de Fato em 25\/10\/2021 neste link:<\/strong> <em><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/25\/como-o-brasil-dira-a-onu-que-vai-privatizar-a-preservacao-florestal-para-salvar-a-amazonia\" target=\"_blank\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/10\/25\/como-o-brasil-dira-a-onu-que-vai-privatizar-a-preservacao-florestal-para-salvar-a-amazonia<\/a><\/em><br \/>Cr\u00e9dito da foto de destaque: <em>M\u00eddia Ninja <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras da 26\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (COP 26) em Glasgow (Esc\u00f3cia), a posi\u00e7\u00e3o do governo brasileiro tem sido favor\u00e1vel em colocar as florestas no jogo de compensa\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e passar o chap\u00e9u para obter cr\u00e9ditos florestais. A exemplo da chamada \u201cchantagem florestal\u201d feita pelo ent\u00e3o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante a COP 25, em 2019, o governo chega a&nbsp;Glasgow para barganhar os termos da privatiza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio nacional. Agora com Joaquim Leite como ministro, que segue a mesma cartilha de Salles,\u00a0 o Brasil busca tra\u00e7ar caminhos para concretizar essas posi\u00e7\u00f5es, ainda que nesse momento, as negocia\u00e7\u00f5es para a regulamenta\u00e7\u00e3o do artigo 6 do Acordo de Paris n\u00e3o deva avan\u00e7ar para quest\u00f5es setoriais, al\u00e9m do regramento inicial dos mecanismos de mercado de carbono, fruto de muitas cr\u00edticas por serem considerados falsas solu\u00e7\u00f5es \u00e0 crise clim\u00e1tica.\u00a0 Como, ent\u00e3o, esse ator que vem perdendo espa\u00e7o nas negocia\u00e7\u00f5es internacionais pela falta de credibilidade do governo Bolsonaro tem se estruturado em \u00e2mbito dom\u00e9stico? De 2019 pra c\u00e1, o governo brasileiro tem avan\u00e7ado com o \u201cdesmonte\u201d e o \u201cremonte\u201d das pol\u00edticas ambientais tendo como foco as florestas, o que resulta no aprofundamento acelerado dos&nbsp; processos de privatiza\u00e7\u00e3o, e ainda revela a estrutura\u00e7\u00e3o de incentivos \u00e0 entrega das florestas para o mercado. O \u201cdesmonte\u201d da pol\u00edtica ambiental, no caso de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o ocorrido a partir de 2019, por exemplo, se deu principalmente com a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos recursos or\u00e7ament\u00e1rios ao ICMBio \u2013 Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade. O \u201cremonte\u201d desta pol\u00edtica se deu em alinhamento ao estabelecimento de mercados e mecanismos de compensa\u00e7\u00f5es com florestas (offsets florestais), por meio da cria\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo de depend\u00eancia entre a pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o florestal e o financiamento internacional e privado, como o Programa Adote um Parque e o Programa de Estrutura\u00e7\u00e3o de Concess\u00f5es de Parques Naturais via BNDES \u2013 Banco Nacional de Desenvolvimento, com a Pol\u00edtica de Desestatiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante destacar que quando falamos em compensa\u00e7\u00f5es com florestas e mercado de carbono, estamos nos referindo a um mecanismo que permite a um pa\u00eds vender redu\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es de CO\u2082, al\u00e9m das necess\u00e1rias para cumprir suas metas clim\u00e1ticas, para que outro pa\u00eds possa contabilizar essas redu\u00e7\u00f5es em suas a\u00e7\u00f5es para cumprir a meta dele. Ou seja, na pr\u00e1tica \u00e9 um incentivo para que os Estados-na\u00e7\u00e3o poluidores n\u00e3o alterem seu regime de consumo de recursos e produ\u00e7\u00e3o, assim as empresas que ir\u00e3o receber aqueles cr\u00e9ditos v\u00e3o poder seguir poluindo, como fazem hoje. O Programa Adote um Parque foi criado em 2021 como pol\u00edtica de incentivo a investimentos privados em Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, especialmente na Amaz\u00f4nia. Com doa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os, empresas poderiam beneficiar comunidades locais em troca da possibilidade de visibilizar sua pol\u00edtica de sustentabilidade e de obter o uso direto do territ\u00f3rio com interven\u00e7\u00e3o no manejo de recursos madeireiros e n\u00e3o-madeireiros na Unidade. A iniciativa de transfer\u00eancia de responsabilidade e captura de territ\u00f3rios despertou interesse de empresas como Coca-Cola, MRV Engenharia, Heineken e Carrefour, que assinaram protocolos de inten\u00e7\u00f5es com o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente para fazerem parte da gest\u00e3o de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o no Brasil.&nbsp; O Programa de Estrutura\u00e7\u00e3o de Concess\u00f5es de Parques Naturais do BNDES, anterior ao Programa Adote um Parque, promove a privatiza\u00e7\u00e3o de Parques por todo Brasil. O que seria apenas a concess\u00e3o de servi\u00e7os de gest\u00e3o de Unidades se revela um mecanismo de controle de territ\u00f3rios com consequ\u00eancias territoriais e de controle da sociobiodiversidade. Nestes programas, est\u00e3o previstas mais de 200 Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o em todo o territ\u00f3rio nacional. O governo federal, que tem adotado pr\u00e1ticas antidemocr\u00e1ticas, como a retirada da participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil de conselhos de gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, demonstra que os atores envolvidos na pol\u00edtica de florestas ser\u00e3o apenas as corpora\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, as popula\u00e7\u00f5es locais, principais afetadas por estas decis\u00f5es, n\u00e3o foram sequer consultadas. A privatiza\u00e7\u00e3o de florestas deixa ref\u00e9ns ou dependentes as comunidades tradicionais em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento internacional e por empresas. Na COP, em que a pauta \u00e9 a meta da neutralidade de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, a polui\u00e7\u00e3o \u00e9 compensada com incentivos \u00e0 prote\u00e7\u00e3o ambiental, mesmo que esses mecanismos n\u00e3o alcancem justi\u00e7a clim\u00e1tica para comunidades locais. A l\u00f3gica por tr\u00e1s desses&nbsp;mecanismos de compensa\u00e7\u00f5es se repete nos programas Adote um Parque e concess\u00f5es de Parques Naturais. Estas falsas \u201cpol\u00edticas clim\u00e1ticas\u201d que atendem apenas aos interesses financeiros empresariais v\u00eam causando impactos avassaladores na expropria\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, apropria\u00e7\u00e3o de recursos naturais, na viol\u00eancia real e simb\u00f3lica sobre popula\u00e7\u00f5es e seus modos de vida. Enquanto decis\u00f5es s\u00e3o tomadas por decreto, estas definem os rumos das pol\u00edticas que afetam a vida das popula\u00e7\u00f5es que vivem em uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a floresta.&nbsp; Ao mesmo tempo em que avan\u00e7a o remonte das pol\u00edticas ambientais com uma l\u00f3gica neoliberal de que tudo \u00e9 produto e, portanto, pass\u00edvel de lucro, essa vis\u00e3o tamb\u00e9m atende aos interesses de explora\u00e7\u00e3o da natureza pelo setor agropecu\u00e1rio, que vem avan\u00e7ando sobre territ\u00f3rios com as pr\u00e1ticas j\u00e1 costumeiras de queimar para grilar \u00e1reas p\u00fablicas. At\u00e9 23 de agosto deste ano, o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou mais focos de inc\u00eandio do que o total registrado nos oito primeiros meses completos de 2020 na Amaz\u00f4nia, Cerrado, Caatinga, Mata Atl\u00e2ntica e Pantanal, com um aumento de 8,5% nos focos de queimadas em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo m\u00eas de agosto do ano passado. A situa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era complexa, agora se torna dram\u00e1tica com a\u00e7\u00f5es por todo o pa\u00eds de expans\u00e3o do complexo agroindustrial brasileiro, incluindo as infraestruturas log\u00edsticas de trens, linh\u00f5es e mecanismos de escoamento de produ\u00e7\u00e3o que colocam na linha de frente os corpos e os territ\u00f3rios de povos ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, povos e comunidades tradicionais, camponeses e agricultores familiares, de todos os biomas do Brasil. No momento que atravessamos, a COP 26 representa uma mesa de negocia\u00e7\u00e3o para encaminhar a\u00e7\u00f5es paliativas, que mant\u00eam a l\u00f3gica desenvolvimentista e de lucro a todo custo em jogo. Na pr\u00e1tica, \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o do regime de governan\u00e7a clim\u00e1tica internacional e, por<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4477,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1831,603,8,7,1835],"tags":[],"class_list":["post-4476","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acordos-comerciais","category-artigos-brasil-de-fato","category-florestas-e-biodiversidade","category-justica-economica","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4476","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4476"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4476\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9711,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4476\/revisions\/9711"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4477"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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