{"id":4343,"date":"2022-05-21T17:15:35","date_gmt":"2022-05-21T20:15:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=4343"},"modified":"2025-06-16T15:23:04","modified_gmt":"2025-06-16T18:23:04","slug":"camara-protocola-projeto-que-preve-a-entrega-de-157-imoveis-a-iniciativa-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=4343","title":{"rendered":"C\u00e2mara protocola projeto que prev\u00ea a entrega de 157 im\u00f3veis \u00e0 iniciativa privada"},"content":{"rendered":"\n<p> O projeto cria o Programa de Gest\u00e3o do Patrim\u00f4nio Imobili\u00e1rio de Porto Alegre (PGPI), o qual regulamenta a compra e venda dos 157 im\u00f3veis, e foi aprovado nesta segunda-feira (16). Na lista de im\u00f3veis para desestatiza\u00e7\u00e3o, novo termo para a j\u00e1 conhecida privatiza\u00e7\u00e3o, est\u00e3o inclu\u00eddos terrenos onde n\u00e3o existem informa\u00e7\u00f5es precisas sobre utiliza\u00e7\u00e3o destes por fam\u00edlias pobres e negras, assim como suas finalidades.&nbsp; Est\u00e3o inclu\u00eddas tamb\u00e9m moradias para express\u00f5es societ\u00e1rias e culturais de matriz Negra e Popular, sedes municipais de secretarias, e pode ainda impactar diretamente&nbsp; tr\u00eas escolas de samba pr\u00f3ximas ao Est\u00e1dio Beira-Rio, na Avenida Padre Cacique, zona sul da Capital.<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/imagem-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4344\"\/><figcaption> Representantes de movimentos sociais, torcidas organizadas e quilombolas manifestaram-se contra o programa aprovado na C\u00e2mara de Vereadores de Porto Alegre que prev\u00ea a venda de 157 im\u00f3veis para o capital especulativo. Foto: Assessoria Vereadora Karen Santos\/Divulga\u00e7\u00e3o&nbsp;<br \/><br \/> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/camarapoa.rs.gov.br\/noticias\/camara-aprova-programa-de-alienacao-de-imoveis-publicos\">Projeto de Lei Complementar 002\/2022<\/a>, que autoriza a venda de 157 im\u00f3veis, entre eles, terrenos ocupados por fam\u00edlias e comunidades perif\u00e9ricas, foi aprovado na C\u00e2mara Municipal dos Vereadores de Porto Alegre. Chamado de \u201cLiquida Porto Alegre\u201d por vereadores da oposi\u00e7\u00e3o, o projeto possibilita que a Prefeitura de Porto Alegre repasse para a iniciativa privada as sedes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Smamus),&nbsp; ex-Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), no bairro Tr\u00eas Figueiras,da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi, ex-Smov), na Avenida Borges de Medeiros, hoje desocupada, e da extinta Secretaria Municipal de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio (Smic), na entrada do T\u00fanel da Concei\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foram colocados \u00e0 venda para o capital especulativo \u00e1reas de lazer, como quadras de t\u00eanis no bairro Moinhos de Vento e terrenos em frente ao Trecho II da Orla do Gua\u00edba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que tr\u00eas terrenos ocupados por escolas de samba &#8211; a Banda de Saldanha, a Praiana ou a Imperadores do Samba &#8211;&nbsp; tamb\u00e9m est\u00e3o na lista. Em entrevista ao jornal Zero Hora, o secret\u00e1rio municipal de Administra\u00e7\u00e3o e Patrim\u00f4nio, Andr\u00e9 Barbosa, afirmou que \u201cneste momento, n\u00e3o se cogita remov\u00ea-las\u201d. Contudo, a a\u00e7\u00e3o da prefeitura abre essa possibilidade futura, colocando novamente em risco os espa\u00e7os de cultura popular. Os im\u00f3veis ser\u00e3o vendidos em leil\u00e3o p\u00fablico com edital montado pelo Executivo e tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel manifestar o interesse na compra de qualquer im\u00f3vel com envio de of\u00edcio \u00e0 Secretaria Municipal de Administra\u00e7\u00e3o e Patrim\u00f4nio (SMAP). Isto \u00e9, o repasse de terrenos municipais \u00e9 direcionado a quem quer que possa pagar. Movimentos sociais denunciam que os terrenos est\u00e3o sendo vendidos abaixo de seu pre\u00e7o original.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, em um dos terrenos que ir\u00e1 a leil\u00e3o, observa-se a presen\u00e7a de tapumes da construtora Melnick Even, em imagem retirada do Google Maps com capta\u00e7\u00e3o de 2019. Vereadores de oposi\u00e7\u00e3o protocolaram pedido de informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 presen\u00e7a da construtora em um im\u00f3vel supostamente sem uso social, como previsto na elabora\u00e7\u00e3o do PLCE 002\/2022. N\u00e3o h\u00e1 pronunciamento da Prefeitura de Porto Alegre sobre o assunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"473\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-1024x473.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4345\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-1024x473.jpeg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-300x139.jpeg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-768x355.jpeg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-500x231.jpeg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30-800x370.jpeg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-18.56.30.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption> Um dos terrenos \u00e0 venda est\u00e1 tapado por tapumes com o logo da construtora Melnick Even. Foto: Google Maps\/Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/><br \/><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os quilombolas foram&nbsp; atingidos de forma direta e indireta pelo Projeto de Lei aprovado de autoriza\u00e7\u00e3o de venda dos Im\u00f3veis. &#8220;O programa \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de guerra \u00e0 popula\u00e7\u00e3o afro-ind\u00edgena da cidade e foi feito com uma tramita\u00e7\u00e3o legal duvidosa e aprovado de forma rel\u00e2mpago\u201d, declara Onir Ara\u00fajo, da Frente Quilombola do Rio Grande do Sul. Assim, a vota\u00e7\u00e3o abre um precedente legal para outras desapropria\u00e7\u00f5es, ou seja, ela \u00e9 um marco, caracterizada como o primeiro leil\u00e3o praticamente completo de terrenos de uma Capital. \u201cSeria como uma reedi\u00e7\u00e3o de uma Lei de Terras Municipal nos moldes daquela editada no Brasil Imp\u00e9rio em 1850, ou seja, entregando as terras \u2018P\u00fablicas\u2019 para quem tem dinheiro e para os amigos do Imperador &#8220;, afirma o representante da Frente Quilombola RS.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outros empreendimentos envolvendo a venda de terrenos habitados por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas em Porto Alegre, <a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?s=ponta+do+arado&amp;Iln_oNZmUftVuhS=BwV6KsDb9Y%40.PZv&amp;hEIXfzN=C1Gy%5Dbl&amp;-LuemQqhGgnFbZO=1GNTePWfCVB3LAr&amp;pWHojzdaGQSUDs=_XCeZAw%5DuIOijL&amp;Iln_oNZmUftVuhS=BwV6KsDb9Y%40.PZv&amp;hEIXfzN=C1Gy%5Dbl&amp;-LuemQqhGgnFbZO=1GNTePWfCVB3LAr&amp;pWHojzdaGQSUDs=_XCeZAw%5DuIOijL\">como \u00e9 o caso da Ponta do Arado<\/a>, tamb\u00e9m se v\u00ea o processo de n\u00e3o consulta \u00e0s comunidades, refor\u00e7ando um modelo colonizador, em desrespeito \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), sobre Povos Ind\u00edgenas e Tradicionais em Estados Independentes. No entanto, s\u00f3 se havia aprovado a venda de um territ\u00f3rio por vez. Agora, com o leiloamento de 157 im\u00f3veis, as previs\u00f5es, de acordo com Onir, s\u00e3o que, cada vez mais, a cidade perten\u00e7a \u00e0 iniciativa privada e prive seus cidad\u00e3os de habitarem-na.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O processo de retirar o direito \u00e0 cidade das popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas \u00e9 chamado de gentrifica\u00e7\u00e3o e j\u00e1 ocorre em Porto Alegre<\/strong><br \/><\/p>\n\n\n\n<p>A gentrifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo que revitaliza para as classes mais altas uma regi\u00e3o antes em estado de pobreza, expulsando os moradores das classes mais baixas da regi\u00e3o. Em \u00e1reas centrais, \u00e9 comum que se perceba o processo de retirada do acesso \u00e0 cidade das popula\u00e7\u00f5es mais pobres para formar condom\u00ednios, hospitais, aeroportos, \u00e1reas de lazer para a classe m\u00e9dia e alta. Os antigos moradores da regi\u00e3o, por conta do aumento do custo de vida, como o pre\u00e7o do aluguel, n\u00e3o conseguem mais acessar o local no qual moravam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Porto Alegre, por exemplo, existiam 22 hectares pr\u00f3ximos ao Parque Farroupilha (Reden\u00e7\u00e3o), denominados \u201cregi\u00e3o da Ilhota\u201d, ocupados por pessoas de classe baixa. No final dos anos 1970, em um plano de reformar a cidade, os habitantes foram expulsos de suas casas por ordem da Prefeitura e for\u00e7ados a se mudar para o bairro Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre. O bairro hoje \u00e9 um dos mais populosos da cidade e sofre com problemas estruturais, como a precariedade de transporte.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>Artur Klassmann, professor de Geografia, caracteriza a gentrifica\u00e7\u00e3o como um processo que mudou de caracter\u00edstica ao longo dos anos. Ao longo da hist\u00f3ria, explica Klassmann, a gentrifica\u00e7\u00e3o contribuiu muito para a expans\u00e3o horizontal das cidades, periferiza\u00e7\u00e3o urbana e cria\u00e7\u00e3o de novas comunidades perif\u00e9ricas, pela tutela do governo no processo, como no caso da Ilhota, em que os moradores foram realocados pelo poder p\u00fablico.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, agora s\u00e3o observadas essas remo\u00e7\u00f5es em aspectos difusos, em que, por exemplo, parte da comunidade \u00e9 colocada em uma \u00e1rea e outra parte em local diferente. Como o caso da Nazar\u00e9 onde os moradores foram para dois condom\u00ednios, ou pior como o caso da obra da copa onde os removidos pela prefeitura foram pulverizados na cidade com o mecanismo do aluguel social, que gasta em aluguel e n\u00e3o produz moradia al\u00e9m da desorganiza\u00e7\u00e3o dos moradores. Isso acarreta na perda dos la\u00e7os comunit\u00e1rios que antes existiam e tinham seus meios de composi\u00e7\u00e3o coletiva.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Prefeitura cria planos mirabolantes para revitalizar partes da cidade enquanto retira direito de participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os nas decis\u00f5es municipais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da precariedade de habita\u00e7\u00e3o de seus habitantes, a prefeitura de Porto Alegre insiste em lan\u00e7ar em suas redes sociais planos como o da revitaliza\u00e7\u00e3o do Arroio Dil\u00favio, que n\u00e3o especifica o que ser\u00e1 constru\u00eddo e quando, apenas de que, no futuro, a cidade ter\u00e1 pr\u00e9dios semelhantes ao de filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos anos 2000. Tamb\u00e9m percebe-se o alinhamento da prefeitura com setores de construtoras e ind\u00fastrias, que s\u00e3o citadas no projeto. \u201c\u00c9 muito f\u00e1cil vender uma ideia de cidade para daqui a 30 anos. Na pr\u00e1tica, um ou outro projeto de interesses espec\u00edficos ser\u00e3o constru\u00eddos agora e mais nada no futuro. Qual cidade queremos para agora?\u201d, questiona Rafael Passos, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil em programa na RDC TV.<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" width=\"461\" height=\"557\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-19.21.49.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4346\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-19.21.49.jpeg 461w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-19.21.49-248x300.jpeg 248w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/WhatsApp-Image-2022-05-17-at-19.21.49-414x500.jpeg 414w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><figcaption> Conta oficial da Prefeitura de Porto Alegre emite pronunciamento em redes sociais sobre a implementa\u00e7\u00e3o da revitaliza\u00e7\u00e3o do Arroio Dil\u00favio. Foto: Twitter\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos habitantes de Porto Alegre em processos envolvendo sua cidade j\u00e1 \u00e9 parca. Ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento Participativo e a delibera\u00e7\u00e3o de um Conselho Deliberativo em substitui\u00e7\u00e3o a este, permitindo apenas a emiss\u00e3o de opini\u00e3o dos cidad\u00e3os. Isto \u00e9, tornando os cidad\u00e3os cada vez menos sujeitos atuantes do processo de tomada de decis\u00f5es e tornando a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica um balc\u00e3o de neg\u00f3cios para o lobby empresarial. \u201cEstes im\u00f3veis est\u00e3o sendo vendidos no Projeto de Lei Complementar aprovado pela C\u00e2mara por pre\u00e7os abaixo do mercado e excluindo a popula\u00e7\u00e3o do processo de participa\u00e7\u00e3o nas cidades\u201d, argumenta Fernando Campos Costa, da coordena\u00e7\u00e3o da Amigos da Terra Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A venda de territ\u00f3rios j\u00e1 \u00e9 pr\u00e1tica comum em outros n\u00edveis da autarquia do Governo Brasileiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Amigos da Terra Brasil denunciou e<a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2022\/01\/31\/brasil-a-venda\/\">m uma s\u00e9rie de reportagens<\/a>, um conjunto de projetos de entrega para a Iniciativa Privada em setores estrat\u00e9gicos do pa\u00eds, entre eles bens comuns que pertencem a toda a popula\u00e7\u00e3o e a na\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos habitantes atuais, ou de quem quer que queira usufruir em benef\u00edcio pr\u00f3prio. A s\u00e9rie apresenta o projeto neoliberal de entrega dos bens p\u00fablicos da na\u00e7\u00e3o a empresas e empreendimentos nos diversos n\u00edveis Federal, Estaduais e Municipais, como ocorre em Porto Alegre.&nbsp;<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto cria o Programa de Gest\u00e3o do Patrim\u00f4nio Imobili\u00e1rio de Porto Alegre (PGPI), o qual regulamenta a compra e venda dos 157 im\u00f3veis, e foi aprovado nesta segunda-feira (16). Na lista de im\u00f3veis para desestatiza\u00e7\u00e3o, novo termo para a j\u00e1 conhecida privatiza\u00e7\u00e3o, est\u00e3o inclu\u00eddos terrenos onde n\u00e3o existem informa\u00e7\u00f5es precisas sobre utiliza\u00e7\u00e3o destes por fam\u00edlias pobres e negras, assim como suas finalidades.&nbsp; Est\u00e3o inclu\u00eddas tamb\u00e9m moradias para express\u00f5es societ\u00e1rias e culturais de matriz Negra e Popular, sedes municipais de secretarias, e pode ainda impactar diretamente&nbsp; tr\u00eas escolas de samba pr\u00f3ximas ao Est\u00e1dio Beira-Rio, na Avenida Padre Cacique, zona sul da Capital. O Projeto de Lei Complementar 002\/2022, que autoriza a venda de 157 im\u00f3veis, entre eles, terrenos ocupados por fam\u00edlias e comunidades perif\u00e9ricas, foi aprovado na C\u00e2mara Municipal dos Vereadores de Porto Alegre. Chamado de \u201cLiquida Porto Alegre\u201d por vereadores da oposi\u00e7\u00e3o, o projeto possibilita que a Prefeitura de Porto Alegre repasse para a iniciativa privada as sedes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Smamus),&nbsp; ex-Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), no bairro Tr\u00eas Figueiras,da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi, ex-Smov), na Avenida Borges de Medeiros, hoje desocupada, e da extinta Secretaria Municipal de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio (Smic), na entrada do T\u00fanel da Concei\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foram colocados \u00e0 venda para o capital especulativo \u00e1reas de lazer, como quadras de t\u00eanis no bairro Moinhos de Vento e terrenos em frente ao Trecho II da Orla do Gua\u00edba.&nbsp; \u00c9 importante destacar que tr\u00eas terrenos ocupados por escolas de samba &#8211; a Banda de Saldanha, a Praiana ou a Imperadores do Samba &#8211;&nbsp; tamb\u00e9m est\u00e3o na lista. Em entrevista ao jornal Zero Hora, o secret\u00e1rio municipal de Administra\u00e7\u00e3o e Patrim\u00f4nio, Andr\u00e9 Barbosa, afirmou que \u201cneste momento, n\u00e3o se cogita remov\u00ea-las\u201d. Contudo, a a\u00e7\u00e3o da prefeitura abre essa possibilidade futura, colocando novamente em risco os espa\u00e7os de cultura popular. Os im\u00f3veis ser\u00e3o vendidos em leil\u00e3o p\u00fablico com edital montado pelo Executivo e tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel manifestar o interesse na compra de qualquer im\u00f3vel com envio de of\u00edcio \u00e0 Secretaria Municipal de Administra\u00e7\u00e3o e Patrim\u00f4nio (SMAP). Isto \u00e9, o repasse de terrenos municipais \u00e9 direcionado a quem quer que possa pagar. Movimentos sociais denunciam que os terrenos est\u00e3o sendo vendidos abaixo de seu pre\u00e7o original. Ainda, em um dos terrenos que ir\u00e1 a leil\u00e3o, observa-se a presen\u00e7a de tapumes da construtora Melnick Even, em imagem retirada do Google Maps com capta\u00e7\u00e3o de 2019. Vereadores de oposi\u00e7\u00e3o protocolaram pedido de informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 presen\u00e7a da construtora em um im\u00f3vel supostamente sem uso social, como previsto na elabora\u00e7\u00e3o do PLCE 002\/2022. N\u00e3o h\u00e1 pronunciamento da Prefeitura de Porto Alegre sobre o assunto.&nbsp; Os quilombolas foram&nbsp; atingidos de forma direta e indireta pelo Projeto de Lei aprovado de autoriza\u00e7\u00e3o de venda dos Im\u00f3veis. &#8220;O programa \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de guerra \u00e0 popula\u00e7\u00e3o afro-ind\u00edgena da cidade e foi feito com uma tramita\u00e7\u00e3o legal duvidosa e aprovado de forma rel\u00e2mpago\u201d, declara Onir Ara\u00fajo, da Frente Quilombola do Rio Grande do Sul. Assim, a vota\u00e7\u00e3o abre um precedente legal para outras desapropria\u00e7\u00f5es, ou seja, ela \u00e9 um marco, caracterizada como o primeiro leil\u00e3o praticamente completo de terrenos de uma Capital. \u201cSeria como uma reedi\u00e7\u00e3o de uma Lei de Terras Municipal nos moldes daquela editada no Brasil Imp\u00e9rio em 1850, ou seja, entregando as terras \u2018P\u00fablicas\u2019 para quem tem dinheiro e para os amigos do Imperador &#8220;, afirma o representante da Frente Quilombola RS. Em outros empreendimentos envolvendo a venda de terrenos habitados por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas em Porto Alegre, como \u00e9 o caso da Ponta do Arado, tamb\u00e9m se v\u00ea o processo de n\u00e3o consulta \u00e0s comunidades, refor\u00e7ando um modelo colonizador, em desrespeito \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), sobre Povos Ind\u00edgenas e Tradicionais em Estados Independentes. No entanto, s\u00f3 se havia aprovado a venda de um territ\u00f3rio por vez. Agora, com o leiloamento de 157 im\u00f3veis, as previs\u00f5es, de acordo com Onir, s\u00e3o que, cada vez mais, a cidade perten\u00e7a \u00e0 iniciativa privada e prive seus cidad\u00e3os de habitarem-na.&nbsp; O processo de retirar o direito \u00e0 cidade das popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas \u00e9 chamado de gentrifica\u00e7\u00e3o e j\u00e1 ocorre em Porto Alegre A gentrifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo que revitaliza para as classes mais altas uma regi\u00e3o antes em estado de pobreza, expulsando os moradores das classes mais baixas da regi\u00e3o. Em \u00e1reas centrais, \u00e9 comum que se perceba o processo de retirada do acesso \u00e0 cidade das popula\u00e7\u00f5es mais pobres para formar condom\u00ednios, hospitais, aeroportos, \u00e1reas de lazer para a classe m\u00e9dia e alta. Os antigos moradores da regi\u00e3o, por conta do aumento do custo de vida, como o pre\u00e7o do aluguel, n\u00e3o conseguem mais acessar o local no qual moravam.&nbsp; Em Porto Alegre, por exemplo, existiam 22 hectares pr\u00f3ximos ao Parque Farroupilha (Reden\u00e7\u00e3o), denominados \u201cregi\u00e3o da Ilhota\u201d, ocupados por pessoas de classe baixa. No final dos anos 1970, em um plano de reformar a cidade, os habitantes foram expulsos de suas casas por ordem da Prefeitura e for\u00e7ados a se mudar para o bairro Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre. O bairro hoje \u00e9 um dos mais populosos da cidade e sofre com problemas estruturais, como a precariedade de transporte.&nbsp; Artur Klassmann, professor de Geografia, caracteriza a gentrifica\u00e7\u00e3o como um processo que mudou de caracter\u00edstica ao longo dos anos. Ao longo da hist\u00f3ria, explica Klassmann, a gentrifica\u00e7\u00e3o contribuiu muito para a expans\u00e3o horizontal das cidades, periferiza\u00e7\u00e3o urbana e cria\u00e7\u00e3o de novas comunidades perif\u00e9ricas, pela tutela do governo no processo, como no caso da Ilhota, em que os moradores foram realocados pelo poder p\u00fablico.&nbsp; No entanto, agora s\u00e3o observadas essas remo\u00e7\u00f5es em aspectos difusos, em que, por exemplo, parte da comunidade \u00e9 colocada em uma \u00e1rea e outra parte em local diferente. Como o caso da Nazar\u00e9 onde os moradores foram para dois condom\u00ednios, ou pior como o caso da obra da copa onde os removidos pela prefeitura foram pulverizados na cidade com o mecanismo do aluguel social, que gasta em aluguel e n\u00e3o produz moradia al\u00e9m da desorganiza\u00e7\u00e3o dos<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4344,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1839,602],"tags":[],"class_list":["post-4343","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especulacao-imobiliaria","category-justica-ambiental-nas-cidades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4343"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4343\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9647,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4343\/revisions\/9647"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4344"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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