{"id":4333,"date":"2022-05-19T14:38:04","date_gmt":"2022-05-19T17:38:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=4333"},"modified":"2025-06-16T15:23:19","modified_gmt":"2025-06-16T18:23:19","slug":"da-aldeia-para-o-mundo-pesquisadora-balatipone-umutina-e-a-primeira-indigena-doutora-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=4333","title":{"rendered":"Da aldeia para o mundo: pesquisadora Balatipon\u00e9 Umutina \u00e9 a primeira ind\u00edgena doutora do seu povo no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Eliane Monzilar conclui doutorado em antropologia e \u00e9 exemplo de garra e de luta pelo acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para&nbsp; os ind\u00edgenas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ixota Ixipana (boa tarde). \u201cMeus pais sempre me incentivaram a estudar.&nbsp; Vejo que isso foi uma inspira\u00e7\u00e3o. Sempre quis aprender o novo, em princ\u00edpio tenho receio, mas me encanta. Foi o novo que me levou a trilhar estes caminhos, e a oportunidade que meus pais n\u00e3o tiveram serviu de inspira\u00e7\u00e3o. Ver a realidade de outras mulheres, de lutar pela sua independ\u00eancia e principalmente por ser mulher e ind\u00edgena. Essas inspira\u00e7\u00f5es fizeram com que eu abdicasse de muitas coisas para eu seguir este processo da academia. N\u00e3o foi f\u00e1cil mas foi poss\u00edvel, apesar de todas as dificuldades psicol\u00f3gicas, log\u00edsticas e financeiras. Sa\u00ed da aldeia para estudar em um outro contexto, uma outra viv\u00eancia e voc\u00ea tem que se adaptar. Mas valeu muito a pena\u201d.&nbsp; Eliane Monzilar Umutina fala de sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica com amor, respeito e valoriza\u00e7\u00e3o. A doutora em antropologia&nbsp; \u00e9 parte do povo Balatipon\u00e9 Umutina e tem contato com o universo da pesquisa desde muito jovem.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/eliane-1-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4334\" width=\"374\" height=\"499\"\/><figcaption> Eliane Monzilar em sua aldeia, no Estado do Mato Grosso. Foto: Edna Monzilar<br \/><br \/> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ela conta que em sua aldeia natal, Umutina, costumeiramente, vinham acad\u00eamicos para&nbsp; pesquisar os anci\u00e3os, com o objetivo de compreender a hist\u00f3ria do seu povo. Eliane explica que isso lhe chamou muito a aten\u00e7\u00e3o desde a \u00e9poca de sua gradua\u00e7\u00e3o pois, historicamente, o povo Umutina vem de um processo de coloniza\u00e7\u00e3o muito brutal de viol\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica, de modo que quase chegara a ponto de ser exterminado, mas tamb\u00e9m de viol\u00eancia cultural e lingu\u00edstica. Isso a teria despertado para que ela, enquanto ind\u00edgena, pudesse realizar sua pesquisa, voltada para as narrativas da educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, pois sua tese \u00e9 uma etnografia do processo da educa\u00e7\u00e3o escolar e da escola do povo Balatipon\u00e9 Umutina, de como era antes com os n\u00e3o ind\u00edgenas e a partir&nbsp; do momento da conjuntura onde estes novos autores atuam e ficam \u00e0 frente desta nova escola. \u201cA gradua\u00e7\u00e3o me motivou para que eu pudesse conhecer minha pr\u00f3pria identidade e fortalecer os saberes do povo Balatipon\u00e9 Umutina. E a antropologia colabora nesse sentido na minha pesquisa. Por\u00e9m, quando entro me deparo com a quest\u00e3o do espa\u00e7o, do engessamento, do sistem\u00e1tico, da radicalidade. Eu imaginava que a antropologia era algo, mas me deparei com um pensamento euroc\u00eantrico. Tive que quebrar v\u00e1rias barreiras, com os professores, com os docentes, com os colegas mesmo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eliane trabalha na aldeia Umutina, localizada dentro do territ\u00f3rio in\u00edgena Umutina, no Estado do Mato Grosso, e o munic\u00edpio pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Barra dos Bugres. A aldeia Umutina fica a cerca de 120&nbsp; quil\u00f4metros da capital Cuiab\u00e1. O territ\u00f3rio tem cerca de 28.120 hectares e abarca cerca de 14 aldeias, as quais foram se construindo no decorrer dos anos, e ainda hoje algumas est\u00e3o em processo de constru\u00e7\u00e3o. O povo Umutina tem cerca de 700 pessoas, sendo a maioria crian\u00e7as, jovens e adultos. A aldeia \u00e9 multi\u00e9tnica e subdividida pelos nove povos que ali residem. O povo origin\u00e1rio \u00e9 o Balatipon\u00e9 Umutina, Bakairi, Bororo, Parecis, Nambiquara, Terena, Manuke, Chiquitano e recentemente, Suru\u00ed. Entre os integrantes do espa\u00e7o, existem ind\u00edgenas casados com outras etnias e tamb\u00e9m com n\u00e3o ind\u00edgenas.&nbsp; A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo \u00e9: o cacique, que representa a comunidade, tem as lideran\u00e7as e as organiza\u00e7\u00f5es locais, que tem a associa\u00e7\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o do povo, a escola, a equipe da escola, a equipe da sa\u00fade e a comunidade. As pessoas vivem da seguinte forma: tem os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, que s\u00e3o da \u00e1rea da sa\u00fade e tem tamb\u00e9m os funcion\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o, divididos entre estado e munic\u00edpio. Tem ainda alguns funcion\u00e1rios da FUNAI (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio)&nbsp; e a maioria da popula\u00e7\u00e3o vive sobrevivendo com suas ro\u00e7as familiares, fazem seus neg\u00f3cios, o pescado e o artesanato tamb\u00e9m s\u00e3o formas de sobreviv\u00eancia.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A ind\u00edgena \u00e9 professora da rede estadual de educa\u00e7\u00e3o da secretaria SEDUC e est\u00e1, atualmente, na gest\u00e3o desde 2021 como diretora \u00e0 frente da Escola Jula Pare. Esta \u00e9 assistida pelo munic\u00edpio das s\u00e9ries iniciais, da alfabetiza\u00e7\u00e3o ao quinto ano, que s\u00e3o servidos pelo munic\u00edpio de Barra dos Bugres. Al\u00e9m desta, existe ainda uma segunda institui\u00e7\u00e3o, a escola do Estado, respons\u00e1vel por atender a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do sexto ao nono ano, o ensino m\u00e9dio e a modalidade EJA (Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos).&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/eliane-2-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4335\" width=\"524\" height=\"393\"\/><figcaption> Escola ind\u00edgena na qual Eliane atua at\u00e9 hoje, em prol da educa\u00e7\u00e3o para todos. Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), em Porto Alegre, recentemente, estudantes ind\u00edgenas conquistaram a CEI (Casa do Estudante Ind\u00edgena). J\u00e1 na UNB (Universidade de Bras\u00edlia), o espa\u00e7o para estudantes ind\u00edgenas, a &#8220;Maloca&#8221;, j\u00e1 se consolidava nos anos de 2012\/2013. \u201cEntre 2002 e 2005, come\u00e7am os primeiros ingressos de ind\u00edgenas na gradua\u00e7\u00e3o. Quando entrei no mestrado j\u00e1 era uma demanda da gradua\u00e7\u00e3o na UNB, lutando por um espa\u00e7o. Em 2012\/13, j\u00e1 estava consolidada a \u2018Maloca\u2019, espa\u00e7o pr\u00f3prio dos ind\u00edgenas. Ela tem toda uma estrutura de apoio de secretaria para este estudante, log\u00edstica, pedag\u00f3gica e social tamb\u00e9m. Apesar do desafio, que hoje ainda tem, esta foi uma conquista positiva\u201d, conta Eliane Monzilar. O cen\u00e1rio de luta tamb\u00e9m \u00e9 motivado pelo preconceito que permeia a vida do estudante ind\u00edgena. A doutora em antropologia destaca que, quando precisou escolher quem a iria orientar no seu TCC (trabalho de conclus\u00e3o de curso), uma professora queria a orientar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p> Contudo, devido \u00e0 recusa de Eliane, a professora chegou a lhe dizer que \u201cse meu trabalho n\u00e3o fosse com ela, n\u00e3o seria bom. Senti que o ego dela ficou ferido por n\u00e3o ter sido escolhida por uma ind\u00edgena.\u201d <\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Por esses e outros motivos, a jornada de Monzilar \u00e9 considerada motivo de celebra\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um marco importante, n\u00e3o s\u00f3 na minha hist\u00f3ria pessoal, mas uma conquista coletiva. Por passar por v\u00e1rios momentos de encantos e desencantos, mas aprendi, tive resist\u00eancia. Por tr\u00e1s de Eliane n\u00e3o estava s\u00f3 Eliane, estava um povo, uma ancestralidade; meus av\u00f3s maternos e paternos, e isso me fortaleceu. Esta minha experi\u00eancia foi a primeira e pode ser uma abertura para que outras experi\u00eancias, principalmente de mulheres, n\u00e3o s\u00f3 ind\u00edgenas, mas mulheres que t\u00eam limita\u00e7\u00f5es de acessar espa\u00e7os como a universidade.\u201d Formada na \u00e1rea de Ci\u00eancias Sociais, Monzilar foi da primeira turma do <strong>Projeto Terceiro Grau Ind\u00edgena<\/strong>, iniciativa pioneira a n\u00edvel local, nacional e at\u00e9 internacional, respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o de 200 professores ind\u00edgenas. O projeto foi uma demanda das lideran\u00e7as da \u00e9poca, principalmente dos caciques do movimento ind\u00edgena, com destaque para aqueles enraizados no Mato Grosso, onde foi executado esse projeto durante cinco anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Formada em 2005, Eliane participou tamb\u00e9m da primeira e \u00fanica turma contemplada com um concurso diferenciado para professores ind\u00edgenas. \u201cEu fiz a especializa\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena, e em 2012 eu finalizei e tive a oportunidade de fazer o projeto, fiz o meu mestrado profissional em Desenvolvimento Sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m fui a primeira ind\u00edgena do povo Balatipon\u00e9 Umutina a ganhar o t\u00edtulo de mestra. Eu o fiz no Departamento de Turismo e de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Universidade de Bras\u00edlia. Tamb\u00e9m foi um momento importante por ter sido uma das primeiras vezes em que o departamento se lan\u00e7ou em um mestrado profissional onde estavam presentes ind\u00edgenas e indigenistas.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Monzilar finalizou o mestrado em 2012 e, em 2015, apareceu a oportunidade de fazer doutorado. Esta etapa era um sonho da jovem Umutina, mas ela nunca imaginara que um dia o alcan\u00e7aria. Ela se superou e, em 2019, defendeu sua tese, o que foi muito importante durante todo esse processo de luta, de busca e de fortalecimento pessoal para a acad\u00eamica. \u201cO doutorado me proporcionou tamb\u00e9m a estar em v\u00e1rios contextos culturais linguisticamente, pois tive a oportunidade de fazer um doutorado \u2018sandu\u00edche\u2019. Fiquei 12 meses em um projeto de interc\u00e2mbio cultural de di\u00e1logo de saberes entre Brasil e Suriname. Tive a experi\u00eancia de conviver com os ind\u00edgenas do Suriname, n\u00e3o somente conhecendo, mas fazendo essa conviv\u00eancia bem pr\u00f3xima e tamb\u00e9m apresentando a cultura ind\u00edgena do Brasil, especialmente a do povo Balatipon\u00e9 Umutina, da qual eu perten\u00e7o.\u201d Ela participou tamb\u00e9m de&nbsp; um projeto de interc\u00e2mbio com os ind\u00edgenas da Col\u00f4mbia. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p> \u201cFoi uma experi\u00eancia muito significativa de poder interagir em contextos, culturas e l\u00ednguas diferentes. Tanto Suriname quanto Brasil e Col\u00f4mbia foram experi\u00eancias muito marcantes na minha vida, tanto&nbsp; acad\u00eamica quanto&nbsp; profissional.\u201d <\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Eliane tem como sonho para o futuro: trabalhar com ind\u00edgenas na forma\u00e7\u00e3o de professores. \u201cAcho que s\u00e3o caminhos que est\u00e3o se abrindo para, posteriormente,&nbsp; consolidar-se. Hoje fa\u00e7o parte, fui convidada no ano passado para ser professora na faculdade ind\u00edgena intercultural.\u201d A etnografia foi um sonho realizado em sua vida pois, como destaca, seu povo e os ind\u00edgenas, no geral, sempre foram pesquisados, e hoje se abriu ent\u00e3o a oportunidade de eles mesmos se pesquisarem e tamb\u00e9m de o fazer com os n\u00e3o ind\u00edgenas. \u201cQuem sabe no p\u00f3s doc eu possa fazer isso!&#8221;.<br \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eliane Monzilar conclui doutorado em antropologia e \u00e9 exemplo de garra e de luta pelo acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para&nbsp; os ind\u00edgenas Ixota Ixipana (boa tarde). \u201cMeus pais sempre me incentivaram a estudar.&nbsp; Vejo que isso foi uma inspira\u00e7\u00e3o. Sempre quis aprender o novo, em princ\u00edpio tenho receio, mas me encanta. Foi o novo que me levou a trilhar estes caminhos, e a oportunidade que meus pais n\u00e3o tiveram serviu de inspira\u00e7\u00e3o. Ver a realidade de outras mulheres, de lutar pela sua independ\u00eancia e principalmente por ser mulher e ind\u00edgena. Essas inspira\u00e7\u00f5es fizeram com que eu abdicasse de muitas coisas para eu seguir este processo da academia. N\u00e3o foi f\u00e1cil mas foi poss\u00edvel, apesar de todas as dificuldades psicol\u00f3gicas, log\u00edsticas e financeiras. Sa\u00ed da aldeia para estudar em um outro contexto, uma outra viv\u00eancia e voc\u00ea tem que se adaptar. Mas valeu muito a pena\u201d.&nbsp; Eliane Monzilar Umutina fala de sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica com amor, respeito e valoriza\u00e7\u00e3o. A doutora em antropologia&nbsp; \u00e9 parte do povo Balatipon\u00e9 Umutina e tem contato com o universo da pesquisa desde muito jovem.&nbsp; Ela conta que em sua aldeia natal, Umutina, costumeiramente, vinham acad\u00eamicos para&nbsp; pesquisar os anci\u00e3os, com o objetivo de compreender a hist\u00f3ria do seu povo. Eliane explica que isso lhe chamou muito a aten\u00e7\u00e3o desde a \u00e9poca de sua gradua\u00e7\u00e3o pois, historicamente, o povo Umutina vem de um processo de coloniza\u00e7\u00e3o muito brutal de viol\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsica, de modo que quase chegara a ponto de ser exterminado, mas tamb\u00e9m de viol\u00eancia cultural e lingu\u00edstica. Isso a teria despertado para que ela, enquanto ind\u00edgena, pudesse realizar sua pesquisa, voltada para as narrativas da educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, pois sua tese \u00e9 uma etnografia do processo da educa\u00e7\u00e3o escolar e da escola do povo Balatipon\u00e9 Umutina, de como era antes com os n\u00e3o ind\u00edgenas e a partir&nbsp; do momento da conjuntura onde estes novos autores atuam e ficam \u00e0 frente desta nova escola. \u201cA gradua\u00e7\u00e3o me motivou para que eu pudesse conhecer minha pr\u00f3pria identidade e fortalecer os saberes do povo Balatipon\u00e9 Umutina. E a antropologia colabora nesse sentido na minha pesquisa. Por\u00e9m, quando entro me deparo com a quest\u00e3o do espa\u00e7o, do engessamento, do sistem\u00e1tico, da radicalidade. Eu imaginava que a antropologia era algo, mas me deparei com um pensamento euroc\u00eantrico. Tive que quebrar v\u00e1rias barreiras, com os professores, com os docentes, com os colegas mesmo.\u201d Eliane trabalha na aldeia Umutina, localizada dentro do territ\u00f3rio in\u00edgena Umutina, no Estado do Mato Grosso, e o munic\u00edpio pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Barra dos Bugres. A aldeia Umutina fica a cerca de 120&nbsp; quil\u00f4metros da capital Cuiab\u00e1. O territ\u00f3rio tem cerca de 28.120 hectares e abarca cerca de 14 aldeias, as quais foram se construindo no decorrer dos anos, e ainda hoje algumas est\u00e3o em processo de constru\u00e7\u00e3o. O povo Umutina tem cerca de 700 pessoas, sendo a maioria crian\u00e7as, jovens e adultos. A aldeia \u00e9 multi\u00e9tnica e subdividida pelos nove povos que ali residem. O povo origin\u00e1rio \u00e9 o Balatipon\u00e9 Umutina, Bakairi, Bororo, Parecis, Nambiquara, Terena, Manuke, Chiquitano e recentemente, Suru\u00ed. Entre os integrantes do espa\u00e7o, existem ind\u00edgenas casados com outras etnias e tamb\u00e9m com n\u00e3o ind\u00edgenas.&nbsp; A organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo \u00e9: o cacique, que representa a comunidade, tem as lideran\u00e7as e as organiza\u00e7\u00f5es locais, que tem a associa\u00e7\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o do povo, a escola, a equipe da escola, a equipe da sa\u00fade e a comunidade. As pessoas vivem da seguinte forma: tem os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, que s\u00e3o da \u00e1rea da sa\u00fade e tem tamb\u00e9m os funcion\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o, divididos entre estado e munic\u00edpio. Tem ainda alguns funcion\u00e1rios da FUNAI (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio)&nbsp; e a maioria da popula\u00e7\u00e3o vive sobrevivendo com suas ro\u00e7as familiares, fazem seus neg\u00f3cios, o pescado e o artesanato tamb\u00e9m s\u00e3o formas de sobreviv\u00eancia.&nbsp; A ind\u00edgena \u00e9 professora da rede estadual de educa\u00e7\u00e3o da secretaria SEDUC e est\u00e1, atualmente, na gest\u00e3o desde 2021 como diretora \u00e0 frente da Escola Jula Pare. Esta \u00e9 assistida pelo munic\u00edpio das s\u00e9ries iniciais, da alfabetiza\u00e7\u00e3o ao quinto ano, que s\u00e3o servidos pelo munic\u00edpio de Barra dos Bugres. 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Ela tem toda uma estrutura de apoio de secretaria para este estudante, log\u00edstica, pedag\u00f3gica e social tamb\u00e9m. Apesar do desafio, que hoje ainda tem, esta foi uma conquista positiva\u201d, conta Eliane Monzilar. O cen\u00e1rio de luta tamb\u00e9m \u00e9 motivado pelo preconceito que permeia a vida do estudante ind\u00edgena. A doutora em antropologia destaca que, quando precisou escolher quem a iria orientar no seu TCC (trabalho de conclus\u00e3o de curso), uma professora queria a orientar. Contudo, devido \u00e0 recusa de Eliane, a professora chegou a lhe dizer que \u201cse meu trabalho n\u00e3o fosse com ela, n\u00e3o seria bom. Senti que o ego dela ficou ferido por n\u00e3o ter sido escolhida por uma ind\u00edgena.\u201d Por esses e outros motivos, a jornada de Monzilar \u00e9 considerada motivo de celebra\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um marco importante, n\u00e3o s\u00f3 na minha hist\u00f3ria pessoal, mas uma conquista coletiva. Por passar por v\u00e1rios momentos de encantos e desencantos, mas aprendi, tive resist\u00eancia. Por tr\u00e1s de Eliane n\u00e3o estava s\u00f3 Eliane, estava um povo, uma ancestralidade; meus av\u00f3s maternos e paternos, e isso me fortaleceu. Esta minha experi\u00eancia foi a primeira e pode ser uma abertura para que outras experi\u00eancias, principalmente de mulheres, n\u00e3o s\u00f3 ind\u00edgenas, mas mulheres que t\u00eam limita\u00e7\u00f5es de acessar espa\u00e7os como a universidade.\u201d Formada na \u00e1rea de<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":4339,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[600,602,5,1835],"tags":[],"class_list":["post-4333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antirracismo","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4333"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9648,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4333\/revisions\/9648"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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