{"id":404,"date":"2018-01-24T15:45:16","date_gmt":"2018-01-24T17:45:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=404"},"modified":"2025-06-17T16:13:36","modified_gmt":"2025-06-17T19:13:36","slug":"por-uma-democracia-real-com-justica-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=404","title":{"rendered":"Por uma democracia real, com justi\u00e7a ambiental"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, o que significa dizer \u201c\u00e9 pela democracia\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 por Lula, o candidato, \u00e9 pela democracia. \u00c9 pelo seu direito de cidad\u00e3o, assim como pelo direito de todas e todos de decidir os rumos do pa\u00eds, sem a interfer\u00eancia do judici\u00e1rio na pol\u00edtica, menos ainda de um judici\u00e1rio elitizado, seletivo e desmoralizado. Foi isso o que dissemos na rua e o que tem sido dito pelo grosso dos movimentos que nessa semana tomam as ruas de Porto Alegre e do Brasil em vig\u00edlia ao julgamento do ex-presidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira parte da resposta \u00e9 mais simples: nos posicionamos radicalmente contr\u00e1rios ao governo que tomou o poder de golpe em 2016, sem legitima\u00e7\u00e3o das urnas e sem respaldo popular, a fim de acelerar o projeto neoliberal de venda dos bens naturais brasileiros e de ataque violento a direitos sociais e conquistas hist\u00f3ricas do povo, como as leis trabalhistas e de previd\u00eancia social, al\u00e9m do ataque a pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a mulheres, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e \u00e0 comunidade LGBTTTI. O golpe \u00e9 mis\u00f3gino, racista e homof\u00f3bico, e contra isso nos erguemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos que o julgamento de hoje, 24 de janeiro, encena\u00e7\u00e3o teatral que tem como cena final uma condena\u00e7\u00e3o j\u00e1 definida desde muitos PowerPoints atr\u00e1s, \u00e9 o prolongamento do golpe que instaurou este projeto neoliberal fascista que, incapaz de vencer uma elei\u00e7\u00e3o, toma todas medidas violentas e ileg\u00edtimas para se manter no poder e seguir um projeto que n\u00e3o se sustenta por via democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebam, por\u00e9m, o uso da palavra &#8220;acelerar&#8221; quando falamos no projeto de governo posto em pr\u00e1tica por golpistas. Poder\u00edamos ter usado da mesma forma &#8220;acentuar&#8221; ou &#8220;agravar&#8221; ou &#8220;radicalizar&#8221; e todos os termos serviriam, mais ou menos, para tensionar o fato de que este projeto n\u00e3o \u00e9 completamente novo. Lembremos de nomes como Henrique Meirelles e Joaquim Levy, homens do mercado financeiro respons\u00e1veis pelos rumos da economia nacional tamb\u00e9m nos governos PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De maneira mais grave, o desenvolvimentismo da era Lula-Dilma foi tr\u00e1gico para as comunidades tradicionais, fazendo avan\u00e7ar sobre as aldeias ind\u00edgenas a minera\u00e7\u00e3o, o agroneg\u00f3cio e os projetos megaloman\u00edacos de hidrel\u00e9tricas que mudam os cursos de rios e destroem a fauna e flora local, impedindo modos de vida seculares e expulsando as pessoas da sua terra. A demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas foi menor com Dilma do que havia sido com Lula, e com este foi menor do que havia sido com o tucano FHC. Em um Congresso dominado por ruralistas, as institui\u00e7\u00f5es desta democracia serviram para esvaziar \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o e legitimar o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio. (Veja no link a seguir um interessante comparativo das demarca\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos sete governos: <a href=\"https:\/\/l.facebook.com\/l.php?u=https%3A%2F%2Fpib.socioambiental.org%2Fpt%2Fc%2F0%2F1%2F2%2Fdemarcacoes-nos-ultimos-governos&amp;h=ATPbukOBC3KNNFUedk_En7UEXUmT6ejPjHxVhBUO9vKWL9ksSncOerIW1FpAO8Jixe9mv3toNn3VIKqXgejxUI4BwTex7jE65VucebSGQ9U7818zXt92B9Z5C1O_Ysa-QUnPxQQouR6Gm2onNrFB2EElQLlSbQ0NsKMjYZyr2qfmDU2N5xmOfLq4rFxqpWEGH3MuIqqwe5xi3P_5aT_CucJ7L2xMO-h1GaTRCDnknZoM8gMeHrUQYtChx4at-AdGOSyqmu1J-jgiSakyjvte7B4JHPZxHAknD39YbslmochffOiX\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" data-ft=\"{&quot;tn&quot;:&quot;-U&quot;}\" data-lynx-mode=\"async\">https:\/\/pib.socioambiental.org\/\u2026\/demarcacoes-nos-ultimos-go\u2026<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma maneira, sofreu a popula\u00e7\u00e3o negra, como tem sofrido historicamente &#8211; o golpe n\u00e3o nasceu ontem e nem morre amanh\u00e3 nem em outubro, independentemente de resultados de uma nova elei\u00e7\u00e3o. O Brasil tem a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no mundo (726 mil pessoas trancafiadas), e 64% dela \u00e9 composta por negros. A titula\u00e7\u00e3o de terras quilombolas tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7ou ao longo dos 13 anos e meio de governo progressista: Lula titulou 12 terras em oito anos; Dilma, 16, sendo que 15 de maneira parcial. Hoje, apenas 258 comunidades quilombolas &#8211; em 168 terras &#8211; contam com o t\u00edtulo de propriedade em um total de 762 mil hectares titulados. O n\u00famero total de comunidades quilombolas no pa\u00eds, cerca de 3 mil, destaca o quanto as pol\u00edticas p\u00fablicas est\u00e3o atrasadas neste quesito. Somemos a isso o exterm\u00ednio da juventude negra e os constantes despejos e remo\u00e7\u00f5es que seguem acontecendo nas periferias das grandes cidades, acentuados desde a realiza\u00e7\u00e3o dos grandes eventos como Copa do Mundo e Olimp\u00edadas, e perceberemos o quanto devemos ponderar antes de defender cegamente e sem questionamento este modelo de democracia. \u00c9 por isso mesmo que lutamos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fr\u00e1gil, facilmente golpeada por homens brancos, esta democracia pela qual tanto se faz barulho agora sempre mostrou ser tamb\u00e9m extremamente seletiva. A umas e uns, popula\u00e7\u00e3o negra, ind\u00edgenas, perif\u00e9ricos, ela nunca passou de f\u00e1bula com rituais que se repetiam a cada dois anos, momento das promessas jamais cumpridas, dos apertos de m\u00e3o sem compromisso e de palavras sem significado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecemos, contudo, que os problemas enfrentados pelos governos petistas s\u00e3o hist\u00f3ricos e sist\u00eamicos; nada disso nasceu em 2003, no primeiro mandato de Lula. E reconhecemos tamb\u00e9m as importantes conquistas que nos permitem avan\u00e7ar na consci\u00eancia popular, assim como na cr\u00edtica, desde baixo, como as cotas raciais e sociais nas universidades p\u00fablicas, que receberam investimentos significativos; o ProUni e o Pronatec; programas de sa\u00fade comunit\u00e1ria e que levaram m\u00e9dicos \u00e0s periferias; o incentivo a pequenos produtores rurais e \u00e0 agricultura familiar, como o PNAE; a difus\u00e3o de Pontos de Cultura que resgataram e valorizaram o fazer cultural e a identidade popular; a estrutura\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, que qualificou a vida das fam\u00edlias que pouco t\u00eam; ou ainda programas como o Minha Casa Minha Vida Entidades e o Luz Para Todos, que levaram moradia, luz e energia para grande parte do pa\u00eds; s\u00e3o avan\u00e7os importantes e, ao olharmos para a composi\u00e7\u00e3o do nosso Parlamento, extremamente conservador e elitista, tais vit\u00f3rias s\u00e3o mesmo feitos sem tamanho. Ainda assim nos reservamos o direito de fazer cr\u00edticas \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, incapaz, por sua ess\u00eancia, de reformar as estruturas de um pa\u00eds erguido sobre os esqueletos da escravid\u00e3o, do colonialismo e do patriarcado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E aqui vem a parte mais dif\u00edcil da resposta para a pergunta: por que democracia lutamos afinal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente por uma outra, em gesta\u00e7\u00e3o, permanente constru\u00e7\u00e3o popular, que surja de baixo e com participa\u00e7\u00e3o real e protagonismo de mulheres e homens trabalhadoras; somente assim poder\u00e1 suprir as verdadeiras necessidades do povo. Que preze pela vida das comunidades tradicionais, ind\u00edgenas e quilombolas. Que enfrente o patriarcado intr\u00ednseco \u00e0s nossas institui\u00e7\u00f5es. Que pense em um novo modelo de desenvolvimento, um que n\u00e3o priorize a constru\u00e7\u00e3o centralizada e impositiva de centrais hidrel\u00e9tricas, a carv\u00e3o ou nuclear, a produ\u00e7\u00e3o desenfreada de energia f\u00f3ssil e de f\u00e1bricas que incentivam mais e mais um consumo incessante, in\u00fatil e insustent\u00e1vel. Um modelo que n\u00e3o despeje rejeitos de min\u00e9rio sobre as cidades, matando pessoas, animais e um rio inteiro. Defendemos a soberania popular sobre os bens comuns, a distribui\u00e7\u00e3o das riquezas e o respeito \u00e0s diversidades de modos de existir, de resistir, de preservar as culturas e a natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ora, gritamos contra a farsa de mais um golpe neoliberal e sua agenda de retrocessos, cada vez mais sofisticada, que ataca tamb\u00e9m outros pa\u00edses irm\u00e3os da Am\u00e9rica Latina (Honduras, Argentina, Paraguai, Haiti), verdadeiro laborat\u00f3rio de perversidade que, no Brasil, tem como epis\u00f3dio atual o julgamento de Lula. Mas o golpe n\u00e3o termina aqui, nesta condena\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, e nem nossa luta se resume a um julgamento. O avan\u00e7o segue correndo submerso, independente dos resultados das urnas para o novo presidente. Estamos nas ruas para lutar por uma democracia real, com soberania popular e justi\u00e7a ambiental, com protagonismo dos territ\u00f3rios, valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade e das culturas populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONTRA O RACISMO AMBIENTAL E MAIS UM GOLPE NEOLIBERAL.<br \/>\nDEMOCRATIZAR E ECOLOGIZAR A DEMOCRACIA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A foto no in\u00edcio da p\u00e1gina \u00e9 um registro da Marcha do dia 23 de janeiro, na Avenida Borges de Medeiros, Porto Alegre, em que o Amigos da Terra Brasil esteve presente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afinal, o que significa dizer \u201c\u00e9 pela democracia\u201d? N\u00e3o \u00e9 por Lula, o candidato, \u00e9 pela democracia. \u00c9 pelo seu direito de cidad\u00e3o, assim como pelo direito de todas e todos de decidir os rumos do pa\u00eds, sem a interfer\u00eancia do judici\u00e1rio na pol\u00edtica, menos ainda de um judici\u00e1rio elitizado, seletivo e desmoralizado. Foi isso o que dissemos na rua e o que tem sido dito pelo grosso dos movimentos que nessa semana tomam as ruas de Porto Alegre e do Brasil em vig\u00edlia ao julgamento do ex-presidente. A primeira parte da resposta \u00e9 mais simples: nos posicionamos radicalmente contr\u00e1rios ao governo que tomou o poder de golpe em 2016, sem legitima\u00e7\u00e3o das urnas e sem respaldo popular, a fim de acelerar o projeto neoliberal de venda dos bens naturais brasileiros e de ataque violento a direitos sociais e conquistas hist\u00f3ricas do povo, como as leis trabalhistas e de previd\u00eancia social, al\u00e9m do ataque a pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a mulheres, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e \u00e0 comunidade LGBTTTI. O golpe \u00e9 mis\u00f3gino, racista e homof\u00f3bico, e contra isso nos erguemos. Acreditamos que o julgamento de hoje, 24 de janeiro, encena\u00e7\u00e3o teatral que tem como cena final uma condena\u00e7\u00e3o j\u00e1 definida desde muitos PowerPoints atr\u00e1s, \u00e9 o prolongamento do golpe que instaurou este projeto neoliberal fascista que, incapaz de vencer uma elei\u00e7\u00e3o, toma todas medidas violentas e ileg\u00edtimas para se manter no poder e seguir um projeto que n\u00e3o se sustenta por via democr\u00e1tica. Percebam, por\u00e9m, o uso da palavra &#8220;acelerar&#8221; quando falamos no projeto de governo posto em pr\u00e1tica por golpistas. Poder\u00edamos ter usado da mesma forma &#8220;acentuar&#8221; ou &#8220;agravar&#8221; ou &#8220;radicalizar&#8221; e todos os termos serviriam, mais ou menos, para tensionar o fato de que este projeto n\u00e3o \u00e9 completamente novo. Lembremos de nomes como Henrique Meirelles e Joaquim Levy, homens do mercado financeiro respons\u00e1veis pelos rumos da economia nacional tamb\u00e9m nos governos PT. 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Reconhecemos, contudo, que os problemas enfrentados pelos governos petistas s\u00e3o hist\u00f3ricos e sist\u00eamicos; nada disso nasceu em 2003, no primeiro mandato de Lula. E reconhecemos tamb\u00e9m as importantes conquistas que nos permitem avan\u00e7ar na consci\u00eancia popular, assim como na cr\u00edtica, desde baixo, como as cotas raciais e sociais nas universidades p\u00fablicas, que receberam investimentos significativos; o ProUni e o Pronatec; programas de sa\u00fade comunit\u00e1ria e que levaram m\u00e9dicos \u00e0s periferias; o incentivo a pequenos produtores rurais e \u00e0 agricultura familiar, como o PNAE; a difus\u00e3o de Pontos de Cultura que resgataram e valorizaram o fazer cultural e a identidade popular; a estrutura\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, que qualificou a vida das fam\u00edlias que pouco t\u00eam; ou ainda programas como o Minha Casa Minha Vida Entidades e o Luz Para Todos, que levaram moradia, luz e energia para grande parte do pa\u00eds; s\u00e3o avan\u00e7os importantes e, ao olharmos para a composi\u00e7\u00e3o do nosso Parlamento, extremamente conservador e elitista, tais vit\u00f3rias s\u00e3o mesmo feitos sem tamanho. 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