{"id":3879,"date":"2021-12-15T16:43:04","date_gmt":"2021-12-15T19:43:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=3879"},"modified":"2025-06-17T09:57:39","modified_gmt":"2025-06-17T12:57:39","slug":"ha-3-meses-retomada-karandaty-mbya-guarani-reivindica-territorio-em-cachoeirinha-rs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=3879","title":{"rendered":"H\u00e1 3 meses, retomada Karanda&#8217;ty Mbya Guarani reivindica territ\u00f3rio em Cachoeirinha (RS)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>A retomada ao territ\u00f3rio ancestral defende a \u00e1rea conhecida como \u201cMato do J\u00falio\u201d contra projeto de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quem acessa o munic\u00edpio de Cachoeirinha (RS) vindo da BR-290 identifica uma \u00e1rea de mata fechada que pode ser vista j\u00e1 da estrada. A \u00e1rea de quase 300 hectares de floresta e banhados, ber\u00e7os da fauna e flora remanescentes do bioma Mata Atl\u00e2ntica, \u00e9 moradia de fam\u00edlias Mbya Guarani que retomam a terra ancestral localizada pr\u00f3xima \u00e0 regi\u00e3o central do munic\u00edpio. As terras abrigam uma mata nativa que inclui vegeta\u00e7\u00e3o em est\u00e1gio inicial de regenera\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo \u00e0 BR-290, e em est\u00e1gio m\u00e9dio e avan\u00e7ado ao norte, onde \u00e9 delimitada pela Av. Flores da Cunha, na regi\u00e3o central da cidade, e torna-se abrigo tamb\u00e9m das fam\u00edlias Guarani com a chegada da primeira &#8220;mit\u00e3&#8221;, nen\u00e9m, nascida na retomada Karanda&#8217;ty. O nome foi dado por Alexandre Kuaray, o xeramoi da retomada, ou seja o mais velho e s\u00e1bio.<\/p>\n\n\n\n<p>O retorno ao territ\u00f3rio ancestral ocorreu em 15 de setembro e, desde ent\u00e3o, as fam\u00edlias seguem ocupando e protegendo a \u00e1rea, que est\u00e1 em disputa entre munic\u00edpio e os 13 supostos herdeiros da regi\u00e3o, que mant\u00eam uma d\u00edvida de IPTU com o munic\u00edpio. A ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea pelas fam\u00edlias Guarani d\u00e1 fun\u00e7\u00e3o social \u00e0 propriedade, como define a Constitui\u00e7\u00e3o Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante sublinhar que a regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, seguida das miss\u00f5es e da regi\u00e3o litor\u00e2nea, s\u00e3o as \u00e1reas com a maior concentra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es Guarani (sendo Mbya no sul&nbsp; do Brasil, Ava-Katu-Et\u00e9 no Mato Grosso e Nhandeva-Xiripa em S\u00e3o Paulo), como apontam os dados publicados pela Comiss\u00e3o de Cidadania e Direito Humanos da Assembleia Legislativa do RS (ALRS) no material <a href=\"http:\/\/www.al.rs.gov.br\/download\/ccdh\/coletivos%20guarani%20no%20rs.pdf\">\u201cColetivos Guarani no Rio Grande do Sul \u2014 Territorialidade, Interetnicidade, Sobreposi\u00e7\u00f5es e Direitos Espec\u00edficos\u201d<\/a>. Tanto hoje como no passado, o comportamento territorial dos povos origin\u00e1rios tem sido mal compreendido pelos juru\u00e1 (termo Guarani em refer\u00eancia aos n\u00e3o-ind\u00edgenas) que invadiram seus territ\u00f3rios. Estes basearam sua conquista na expuls\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais e defendem, com isso, o direito \u00e0 posse da propriedade, sem levar em considera\u00e7\u00e3o o fen\u00f4meno conhecido como &#8220;itiner\u00e2ncia&#8221; pelos povos origin\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs povos aut\u00f3ctones platinos viviam, assim como quase todos os nativos das Terras Baixas sul-americanas, em regime de circula\u00e7\u00e3o sazonal entre aldeias e acampamentos. Conforme a \u00e9poca do ano, havia o deslocamento dos n\u00facleos dom\u00e9sticos de produ\u00e7\u00e3o por todo o vasto territ\u00f3rio tribal, independente da exist\u00eancia de aldeias e assentamentos \u201cmais\u201d permanentes ao estilo do que passaram a praticar os colonizadores\u201d, descreve o pesquisador Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza na obra <a href=\"https:\/\/acervo.socioambiental.org\/sites\/default\/files\/documents\/0UL00004.pdf\">Povos Ind\u00edgenas na Bacia Hidrogr\u00e1fica do Lago Gua\u00edba<\/a>, lan\u00e7ada em 2008 pela prefeitura de Porto Alegre.<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>O debate \u00e9 antigo, afinal os povos origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas lutam h\u00e1 pelo menos quinhentos anos pelo direito de existir em comunh\u00e3o com a natureza. Depois de expuls\u00e3o, assassinatos e s\u00e9culos de viol\u00eancia, a luta por ter seus modos de vida respeitados permanece. A disputa pelos territ\u00f3rios ancestrais \u00e9 uma luta presente no pa\u00eds: est\u00e1 em tr\u00e2mite no Supremo Tribunal Federal (STF) a decis\u00e3o sobre a tese do Marco Temporal. A presen\u00e7a desse debate e do tr\u00e2mite de Projetos de Lei que visam retirar os direitos ind\u00edgenas com o PL 490 na C\u00e2mara Federal provam que nem mesmo os direitos adquiridos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal s\u00e3o permanentes. A tese do marco temporal \u00e9 uma tese ruralista e que segundo esta interpreta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 considerada inconstitucional, os povos ind\u00edgenas s\u00f3 teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o das terras que estivessem em sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o. A tese \u00e9 defendida por empresas e setores econ\u00f4micos do agroneg\u00f3cio que t\u00eam interesse em explorar as terras ind\u00edgenas.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>A defesa da perman\u00eancia dos Mbya Guarani na retomada de Cachoeirinha reafirma o direito secular sobre essas terras, al\u00e9m do resguardo da \u00e1rea de mata, fundamental para manuten\u00e7\u00e3o dos modos de vida dos povos tradicionais e para dar qualidade de vida aos pr\u00f3prios moradores do munic\u00edpio de Cachoeirinha, uma vez que as \u00e1reas verdes mant\u00eam o equil\u00edbrio da umidade do ar e mitigam a polui\u00e7\u00e3o emitida pela urbaniza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os Mbya Guarani, a retomada ocorre como forma de lutar pela preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de mata. Seguindo o entendimento de que todos os seres t\u00eam direito \u00e0 vida e precisam ser respeitados, tendo a retomada a finalidade de proteger fauna e flora em um ambiente de harmonia, diante do contexto de acelerado avan\u00e7o da destrui\u00e7\u00e3o sobre as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o. Em especial quanto \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, como os fatos levam a compreender o caso.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ColetivoSementes\/videos\/468173847595694\/?hc_ref=ARQnxy-AGQsbfXNnFidX4SJcIUY-5rVqGvMLf8JlXXboMYlCcacpcLqCz6u_5Mz8lQg&amp;fref=nf&amp;__tn__=kC-R\"> <em>live <\/em>no Facebook<\/a>, no dia 29 de setembro, promovida pelo Coletivo Sementes, em que participou o pesquisador Jos\u00e9 Catafesto, ele esclareceu que o conceito de cidadania n\u00e3o \u00e9 algo que os ind\u00edgenas almejam, pois remete \u00e0 cidade e a um ideal de urbaniza\u00e7\u00e3o. O que os ind\u00edgenas realmente almejam, explicou, \u00e9 a \u201cflorestania\u201d \u2014 conceito criado pelo historiador. A neologia apresenta uma rela\u00e7\u00e3o com a terra e a sua \u201cteko\u00e1\u201d (aldeia, na linguagem Mbya Guarani).<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rea conta, h\u00e1 anos, com mobiliza\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o em apoio \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, al\u00e9m de movimentos articulados como a <a href=\"https:\/\/web.facebook.com\/APNVG?_rdc=1&amp;_rdr\">Associa\u00e7\u00e3o de Preserva\u00e7\u00e3o da Natureza \u2014 Vale do Gravata\u00ed (APN-VG)<\/a> e do grupo <a href=\"https:\/\/web.facebook.com\/Salveomatodojulio\/?_rdc=1&amp;_rdr\">Salve o Mato do J\u00falio<\/a>, que defendem o local como uma reserva ecol\u00f3gica e entendem que o local \u00e9 fundamental para a qualidade do ar da cidade, como recurso h\u00eddrico e tamb\u00e9m para o controle de esp\u00e9cies animais.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, a prefeitura de Cachoeirinha n\u00e3o entrou em contato com as fam\u00edlias e parece ignorar a exist\u00eancia da Retomada. A Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena se comprometeu em abastecer a retomada com \u00e1gua, por\u00e9m nada fez at\u00e9 agora. J\u00e1 a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (FUNAI) levou algumas cestas b\u00e1sicas em uma visita \u00e0 retomada nesses 3 meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a fala de Luiz Kara\u00ed sobre o que representa a retomada:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"H\u00e1 3 meses, retomada Karanda&#039;ty Mbya Guarani reivindica territ\u00f3rio em Cachoeirinha (RS)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yAcbLjl98J0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><br \/><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A disputa pela \u00e1rea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1rea conhecida como \u201cMato do J\u00falio\u201d \u00e9 uma antiga fazenda que vai da Avenida Flores da Cunha at\u00e9 depois da BR 290. O \u00fanico im\u00f3vel na \u00e1rea \u00e9 a casa constru\u00edda em 1815 pela fam\u00edlia Baptista Soares da Silveira e Souza e \u00e9 popularmente conhecida dessa forma, pois o \u00faltimo herdeiro a morar na casa foi J\u00falio, falecido no in\u00edcio dos anos 2000. A \u00e1rea que data do per\u00edodo colonial inclui uma antiga senzala. Como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico dessa regi\u00e3o, casar\u00e3o e senzala, ambos em estados de avan\u00e7ada deteriora\u00e7\u00e3o, est\u00e3o em processo de tombamento hist\u00f3rico pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (IPHAN).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um projeto capitaneado pelos herdeiros da \u00e1rea propunha a constru\u00e7\u00e3o de um loteamento na regi\u00e3o, incluindo duas ruas cortando o &#8220;Mato do J\u00falio&#8221;, ligando a Avenida Papa Jo\u00e3o XXIII ao Parque da Matriz e uma outra ligando a Flores da Cunha at\u00e9 a Perimetral Sul, que seria constru\u00edda junto \u00e0 BR 290. Al\u00e9m de vias secund\u00e1rias loteadas e um parque no entorno da Casa dos Baptistas. Sem pol\u00edticas p\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o popular, a prefeitura construiu em 2020 o Projeto de Lei 4463. O PL foi questionado pela falta de debate p\u00fablico para uma pauta que pretendia alterar o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e culminou na recomenda\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.mprs.mp.br\/media\/areas\/imprensa\/anexos_noticias\/recomendacao_cachoeirinha.pdf\">Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual (MP), \u00e0 C\u00e2mara Municipal, pela suspens\u00e3o do processo de altera\u00e7\u00e3o do plano diretor<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.seguinte.inf.br\/noticias\/coluna-do-martinelli\/10862_Mauricio-Medeiros,-novo-prefeito-de-Cachoeirinha-fala-sobre-tudo:-obras,-previdencia-e-reajuste-do-funcionalismo,-Mato-do-Julio,-eleicoes-de-22-e-24,-corrupcao-ou-inocencia-de-Miki\">Em entrevista ao site Seguinte<\/a>, o vice-prefeito de Cachoeirinha, Maur\u00edcio Medeiros, afirmou que esteve reunido com os herdeiros da \u00e1rea conhecida como \u201cMato do J\u00falio&#8221; no in\u00edcio de novembro. Segundo o vice-prefeito, os herdeiros da regi\u00e3o estariam preocupados com a letargia do processo que define o destino da \u00e1rea. Contudo, estes nunca pagaram o IPTU sobre a \u00e1rea e a d\u00edvida soma o valor de mais de R$ 25 milh\u00f5es. Segundo Medeiros, o Minist\u00e9rio P\u00fablico orientou a prefeitura a contratar um estudo t\u00e9cnico para definir o que pode ser desenvolvido na regi\u00e3o. A \u00e1rea est\u00e1 avaliada pela prefeitura em R$ 200 milh\u00f5es. Segundo o mesmo site, um acordo foi firmado pelo governo Miki Breier com os herdeiros da \u00e1rea, em que o munic\u00edpio receberia 10 dos 256 hectares da \u00e1rea privada, em troca de uma d\u00edvida judicializada de IPTU.<\/p>\n\n\n\n<p>Maur\u00edcio, agora, comanda o munic\u00edpio ap\u00f3s o afastamento do prefeito Miki Breier por processo do Minist\u00e9rio P\u00fablico que o acusa de receber propina de empresas terceirizadas que prestam servi\u00e7os no munic\u00edpio. Ele afirma que pretende dar seguimento \u00e0 pol\u00edtica implementada por Miki para a \u00e1rea. <br \/><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Abandono gera inseguran\u00e7a<\/strong><br \/><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos motivos para a defesa de destrui\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o foi um recente caso de tentativa de estupro a uma professora que passava pelo Parc\u00e3o, em Cachoeirinha, regi\u00e3o pr\u00f3xima ao chamado \u201cMato do J\u00falio\u201d. A not\u00edcia reacendeu a discuss\u00e3o e motivou uma nota da prefeitura reiterando que reenviar\u00e1 o PL com proposta de altera\u00e7\u00e3o do plano diretor para incluir o projeto imobili\u00e1rio na \u00e1rea de mata \u00e0 C\u00e2mara do munic\u00edpio: \u201c<em>A Prefeitura informa que ir\u00e1 reenviar o projeto \u00e0 atual legislatura na esperan\u00e7a de que compreendam toda sua extens\u00e3o e import\u00e2ncia para a seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o de Cachoeirinha\u201d.<\/em><br \/><\/p>\n\n\n\n<p>O caminho adotado pela prefeitura para o problema estrutural de inseguran\u00e7a das mulheres para exercerem seu direito de ir e vir poderia ser trabalhado de forma transversal: com campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o, com educa\u00e7\u00e3o nas escolas, trazendo o debate para a sociedade e capilarizando uma transforma\u00e7\u00e3o real e a longo prazo junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, escolhe-se utilizar deste motivo para apoiar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e destruir uma \u00e1rea que tem um papel fundamental de controle do clima do munic\u00edpio, al\u00e9m de ser local de moradia de toda uma sociobiodiversidade.<br \/>Vale destacar que h\u00e1 um batalh\u00e3o da Brigada Militar h\u00e1 uma quadra de dist\u00e2ncia do Parc\u00e3o de Cachoeirinha, divisa com a \u00e1rea preservada. Al\u00e9m disso, <a href=\"https:\/\/www.mprs.mp.br\/noticias\/41623\/\">ainda em 2016, o MP municipal j\u00e1 indicava a necessidade de cercamento da \u00e1rea<\/a>: \u201cO cercamento consta, inclusive, no Plano Diretor do Munic\u00edpio e existe uma d\u00edvida ativa de R$ 10 milh\u00f5es em IPTU\u201d, afirmou a Procuradora-Geral do Munic\u00edpio, Maria Loreny Bitencourt da Silva, citando os valores da \u00e9poca. Na referida reuni\u00e3o, foi o primeiro momento em que o munic\u00edpio teve acesso aos dados dos 13 herdeiros para direcionar a execu\u00e7\u00e3o dos tributos e a responsabilidade pela seguran\u00e7a e preserva\u00e7\u00e3o ambiental no local.\n\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A retomada ao territ\u00f3rio ancestral defende a \u00e1rea conhecida como \u201cMato do J\u00falio\u201d contra projeto de especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria Quem acessa o munic\u00edpio de Cachoeirinha (RS) vindo da BR-290 identifica uma \u00e1rea de mata fechada que pode ser vista j\u00e1 da estrada. A \u00e1rea de quase 300 hectares de floresta e banhados, ber\u00e7os da fauna e flora remanescentes do bioma Mata Atl\u00e2ntica, \u00e9 moradia de fam\u00edlias Mbya Guarani que retomam a terra ancestral localizada pr\u00f3xima \u00e0 regi\u00e3o central do munic\u00edpio. As terras abrigam uma mata nativa que inclui vegeta\u00e7\u00e3o em est\u00e1gio inicial de regenera\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo \u00e0 BR-290, e em est\u00e1gio m\u00e9dio e avan\u00e7ado ao norte, onde \u00e9 delimitada pela Av. Flores da Cunha, na regi\u00e3o central da cidade, e torna-se abrigo tamb\u00e9m das fam\u00edlias Guarani com a chegada da primeira &#8220;mit\u00e3&#8221;, nen\u00e9m, nascida na retomada Karanda&#8217;ty. O nome foi dado por Alexandre Kuaray, o xeramoi da retomada, ou seja o mais velho e s\u00e1bio. O retorno ao territ\u00f3rio ancestral ocorreu em 15 de setembro e, desde ent\u00e3o, as fam\u00edlias seguem ocupando e protegendo a \u00e1rea, que est\u00e1 em disputa entre munic\u00edpio e os 13 supostos herdeiros da regi\u00e3o, que mant\u00eam uma d\u00edvida de IPTU com o munic\u00edpio. A ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea pelas fam\u00edlias Guarani d\u00e1 fun\u00e7\u00e3o social \u00e0 propriedade, como define a Constitui\u00e7\u00e3o Federal. \u00c9 importante sublinhar que a regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, seguida das miss\u00f5es e da regi\u00e3o litor\u00e2nea, s\u00e3o as \u00e1reas com a maior concentra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es Guarani (sendo Mbya no sul&nbsp; do Brasil, Ava-Katu-Et\u00e9 no Mato Grosso e Nhandeva-Xiripa em S\u00e3o Paulo), como apontam os dados publicados pela Comiss\u00e3o de Cidadania e Direito Humanos da Assembleia Legislativa do RS (ALRS) no material \u201cColetivos Guarani no Rio Grande do Sul \u2014 Territorialidade, Interetnicidade, Sobreposi\u00e7\u00f5es e Direitos Espec\u00edficos\u201d. Tanto hoje como no passado, o comportamento territorial dos povos origin\u00e1rios tem sido mal compreendido pelos juru\u00e1 (termo Guarani em refer\u00eancia aos n\u00e3o-ind\u00edgenas) que invadiram seus territ\u00f3rios. Estes basearam sua conquista na expuls\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais e defendem, com isso, o direito \u00e0 posse da propriedade, sem levar em considera\u00e7\u00e3o o fen\u00f4meno conhecido como &#8220;itiner\u00e2ncia&#8221; pelos povos origin\u00e1rios.&nbsp; \u201cOs povos aut\u00f3ctones platinos viviam, assim como quase todos os nativos das Terras Baixas sul-americanas, em regime de circula\u00e7\u00e3o sazonal entre aldeias e acampamentos. Conforme a \u00e9poca do ano, havia o deslocamento dos n\u00facleos dom\u00e9sticos de produ\u00e7\u00e3o por todo o vasto territ\u00f3rio tribal, independente da exist\u00eancia de aldeias e assentamentos \u201cmais\u201d permanentes ao estilo do que passaram a praticar os colonizadores\u201d, descreve o pesquisador Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza na obra Povos Ind\u00edgenas na Bacia Hidrogr\u00e1fica do Lago Gua\u00edba, lan\u00e7ada em 2008 pela prefeitura de Porto Alegre. O debate \u00e9 antigo, afinal os povos origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas lutam h\u00e1 pelo menos quinhentos anos pelo direito de existir em comunh\u00e3o com a natureza. Depois de expuls\u00e3o, assassinatos e s\u00e9culos de viol\u00eancia, a luta por ter seus modos de vida respeitados permanece. A disputa pelos territ\u00f3rios ancestrais \u00e9 uma luta presente no pa\u00eds: est\u00e1 em tr\u00e2mite no Supremo Tribunal Federal (STF) a decis\u00e3o sobre a tese do Marco Temporal. A presen\u00e7a desse debate e do tr\u00e2mite de Projetos de Lei que visam retirar os direitos ind\u00edgenas com o PL 490 na C\u00e2mara Federal provam que nem mesmo os direitos adquiridos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal s\u00e3o permanentes. A tese do marco temporal \u00e9 uma tese ruralista e que segundo esta interpreta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 considerada inconstitucional, os povos ind\u00edgenas s\u00f3 teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o das terras que estivessem em sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o. A tese \u00e9 defendida por empresas e setores econ\u00f4micos do agroneg\u00f3cio que t\u00eam interesse em explorar as terras ind\u00edgenas.&nbsp; A defesa da perman\u00eancia dos Mbya Guarani na retomada de Cachoeirinha reafirma o direito secular sobre essas terras, al\u00e9m do resguardo da \u00e1rea de mata, fundamental para manuten\u00e7\u00e3o dos modos de vida dos povos tradicionais e para dar qualidade de vida aos pr\u00f3prios moradores do munic\u00edpio de Cachoeirinha, uma vez que as \u00e1reas verdes mant\u00eam o equil\u00edbrio da umidade do ar e mitigam a polui\u00e7\u00e3o emitida pela urbaniza\u00e7\u00e3o.&nbsp; Segundo os Mbya Guarani, a retomada ocorre como forma de lutar pela preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de mata. Seguindo o entendimento de que todos os seres t\u00eam direito \u00e0 vida e precisam ser respeitados, tendo a retomada a finalidade de proteger fauna e flora em um ambiente de harmonia, diante do contexto de acelerado avan\u00e7o da destrui\u00e7\u00e3o sobre as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o. Em especial quanto \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, como os fatos levam a compreender o caso.&nbsp; Em uma live no Facebook, no dia 29 de setembro, promovida pelo Coletivo Sementes, em que participou o pesquisador Jos\u00e9 Catafesto, ele esclareceu que o conceito de cidadania n\u00e3o \u00e9 algo que os ind\u00edgenas almejam, pois remete \u00e0 cidade e a um ideal de urbaniza\u00e7\u00e3o. O que os ind\u00edgenas realmente almejam, explicou, \u00e9 a \u201cflorestania\u201d \u2014 conceito criado pelo historiador. A neologia apresenta uma rela\u00e7\u00e3o com a terra e a sua \u201cteko\u00e1\u201d (aldeia, na linguagem Mbya Guarani). A \u00e1rea conta, h\u00e1 anos, com mobiliza\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o em apoio \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, al\u00e9m de movimentos articulados como a Associa\u00e7\u00e3o de Preserva\u00e7\u00e3o da Natureza \u2014 Vale do Gravata\u00ed (APN-VG) e do grupo Salve o Mato do J\u00falio, que defendem o local como uma reserva ecol\u00f3gica e entendem que o local \u00e9 fundamental para a qualidade do ar da cidade, como recurso h\u00eddrico e tamb\u00e9m para o controle de esp\u00e9cies animais. At\u00e9 agora, a prefeitura de Cachoeirinha n\u00e3o entrou em contato com as fam\u00edlias e parece ignorar a exist\u00eancia da Retomada. A Secretaria Especial de Sa\u00fade Ind\u00edgena se comprometeu em abastecer a retomada com \u00e1gua, por\u00e9m nada fez at\u00e9 agora. J\u00e1 a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (FUNAI) levou algumas cestas b\u00e1sicas em uma visita \u00e0 retomada nesses 3 meses. Confira a fala de Luiz Kara\u00ed sobre o que representa a retomada: A disputa pela \u00e1rea A \u00e1rea conhecida como \u201cMato do J\u00falio\u201d \u00e9 uma antiga fazenda que vai da Avenida Flores da Cunha at\u00e9 depois da BR 290. 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