{"id":3772,"date":"2021-11-22T14:35:18","date_gmt":"2021-11-22T17:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=3772"},"modified":"2025-06-17T10:00:51","modified_gmt":"2025-06-17T13:00:51","slug":"gotas-que-transbordam-pia-coletiva-junto-a-sede-da-amigos-da-terra-permite-acesso-publico-a-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=3772","title":{"rendered":"Gotas que Transbordam: pia coletiva junto \u00e0 sede da Amigos da Terra permite acesso p\u00fablico \u00e0 \u00e1gua"},"content":{"rendered":"\n<p> A pia desaparecida <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/image-e1637594074608-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3780\"\/><figcaption> <strong><em>Pia, que havia sido furtada, foi recolocada na frente da CaSAnAT. Foto: arquivo ATBR<\/em><\/strong> <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cPra mim, aquela pia \u00e9 um marco, ela representa essa situa\u00e7\u00e3o que a gente vive. Colocar uma pia na rua \u00e9 garantir acesso \u00e0 \u00e1gua, que \u00e9 um direito universal para todas, todos e todes. \u00c9 uma oportunidade bem importante de a gente poder demonstrar isso e fazer com que a sociedade veja, sinta. Muitas vezes essas coisas ficam escondidas, distantes das pessoas, ent\u00e3o a gente aproxima, mostra e trabalha isso\u201d, diz Fernando Costa, o Fernand\u00e3o, membro do conselho diretor da Amigos da Terra Brasil e bioconstrutor. Ele acredita que as cidades brasileiras deveriam garantir o \u201cm\u00ednimo pra todo mundo, que de certa forma, a nossa Constitui\u00e7\u00e3o em 1988 preconizou ali, colocou como quest\u00f5es importantes e muitas delas at\u00e9 hoje o Brasil ainda n\u00e3o conseguiu colocar em dia\u201d. A pandemia da COVID-19 fez crescer ainda mais o vis\u00edvel abismo entre classes sociais, mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso. \u201cHouve um grande aumento da popula\u00e7\u00e3o de rua n\u00e3o s\u00f3 na cidade de Porto Alegre, mas na maioria das capitais do Brasil durante a pandemia. Segundo um levantamento feito no Rio, 30% da popula\u00e7\u00e3o de rua de hoje tinha ido parar na rua no \u00faltimo ano\u201d, explica L\u00facia Ortiz, presidenta da Amigos da Terra Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA \u00e1gua \u00e9 um problema hist\u00f3rico do Brasil. Vem a pandemia e come\u00e7a a se discutir, a colocar em cheque nos f\u00f3runs internacionais a quest\u00e3o da higiene. Os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina colocaram que \u00e9 muito bonito se falar na import\u00e2ncia de lavar as m\u00e3os, s\u00f3 que n\u00e3o tem acesso \u00e0 \u00e1gua, tem uma precariedade tremenda no continente\u201d, destaca o arquiteto Leonardo Brawl M\u00e1rquez, cofundador da TransLabUrb. Tal precariedade de acesso \u00e0 \u00e1gua gerou, no primeiro semestre de 2020, o projeto idealizado pela ONG Cozinheiros do Bem e realizado em parceria com a TransLabUrb, o qual alocou sete pias espalhadas pela cidade em pontos estrat\u00e9gicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"384\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3774\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed1.jpg 512w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed1-300x225.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed1-500x375.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption><strong><em> Pia m\u00f3vel instalada pelo TransLabUrb. Foto: TransLAB.URB <\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\n\u201cA gente escolheu esses pontos, que estavam j\u00e1 relacionados com onde j\u00e1 tem uma frequ\u00eancia de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade\u201d. Mesmo sendo uma iniciativa que n\u00e3o faria mal a ningu\u00e9m e que tinha condi\u00e7\u00f5es de se sustentar financeiramente, a ideia teve permiss\u00e3o negada pela prefeitura de Porto Alegre, mas o bem n\u00e3o poderia ser impedido.\u201cEle \u00e9 um sistema aut\u00f4nomo, porque quando o Marchezan <em>[prefeito Nelson Marchezan Jr., cujo mandato encerrou em 2020]<\/em> retirou at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o de colocar, a gente p\u00f4r esse neg\u00f3cio na rua j\u00e1 virou uma infra\u00e7\u00e3o, quem dir\u00e1 abrir o ch\u00e3o e acessar a rede do DMAE<em> [Departamento Municipal de \u00c1gua e Esgotos]<\/em>\u201d. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a parte mais dif\u00edcil foi conseguir fontes de fornecimento de \u00e1gua, mesmo mediante pagamento, o que fez Brawl se questionar.\u201cFoi rid\u00edculo ver que ningu\u00e9m tem acesso \u00e0 \u00e1gua, nenhum tipo de pessoa, mesmo n\u00f3s privilegiados. Diz\u00edamos: bota no meu endere\u00e7o, bota no meu CPF, eu pago a vista, eu pago como voc\u00eas quiserem. Mas n\u00e3o existe como acessar, isso foi bem emblem\u00e1tico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia da instala\u00e7\u00e3o da pia na cal\u00e7ada da CaSAnAT em outubro de 2020 foi inspirada na iniciativa da Cozinheiros do Bem.\u201cQuando eu vi a pia pela primeira vez ali, achei b\u00e1rbara a ideia. Achei uma coisa assim muito legal, porque tirando em alguns parques, tu n\u00e3o tens acesso \u00e0 \u00e1gua na rua, e ela tinha que estar dispon\u00edvel pra todo mundo. Tu andas em qualquer cidade da Europa, tu vais encontrar pontos p\u00fablicos de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para beber, para fazer qualquer coisa\u201d, relata o advogado Roberto Reb\u00e9s Abreu, conselheiro jur\u00eddico da Casa ALICE (Ag\u00eancia Livre para Informa\u00e7\u00e3o Cidadania e Educa\u00e7\u00e3o), organiza\u00e7\u00e3o vizinha da CaSAnAT no bairro Azenha, em Porto Alegre (RS). N\u00e3o \u00e9 apenas o acesso \u00e0 \u00e1gua que \u00e9 negado. As pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade n\u00e3o s\u00f3 tem seus direitos b\u00e1sicos vetados, s\u00e3o tratadas como&nbsp; lixo: \u201cUm morador de rua ou um preso que est\u00e1 entregue para uma penitenci\u00e1ria cuidar, s\u00e3o caras que as pessoas acham que se pode bater, que se pode violar seus direitos, isso t\u00e1 um absurdo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nem quando a Amigos da Terra decide colocar uma pia na cal\u00e7ada da sua pr\u00f3pria casa a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preenchida por algum tipo de paz. \u201cPercebemos inc\u00f4modos, acreditamos que justamente a pr\u00f3pria pia acaba sendo uma demonstra\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o injusto hoje o mundo se coloca, onde uma pia acaba sendo um privil\u00e9gio\u201d, coloca Fernand\u00e3o. Aquele singelo peda\u00e7o de ferro soldado a uma parede deveria ser uma fonte de vida e esperan\u00e7a, mas \u00e9 de dif\u00edcil compreens\u00e3o para alguns, afogados por seus privil\u00e9gios. \u201cEu sei que isso incomoda os vizinhos, eles n\u00e3o querem ter morador de rua perto. Cheguei a conversar com uma senhora e discuti isso, ela ficava muito brava porque aquilo ali era uma imundice, uma nojeira, uma jun\u00e7\u00e3o de desocupados. Eu disse para ela: a senhora tem a sua casa, lava as suas m\u00e3os, a senhora toma a sua \u00e1gua na sua casa. Onde os moradores de rua v\u00e3o ficar? Mas eles n\u00e3o ouvem isso n\u00e9. Foi t\u00e3o engra\u00e7ado, porque ela estava puxando um cachorrinho pela coleira, o cachorro fez coc\u00f4 e ela pisou em cima, ao mesmo tempo que falava mal de morador de rua. Ent\u00e3o \u00e9 uma coisa muito dif\u00edcil isso\u201d, conta Abreu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" width=\"384\" height=\"512\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3775\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed2.jpg 384w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed2-225x300.jpg 225w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed2-375x500.jpg 375w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><figcaption><strong><em> Morador de rua usando a pia em frente \u00e0 CaSAnAT<\/em><\/strong><br \/><strong><em>Foto: Arquivo ATBR <\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 sociedade, o preconceito \u00e9 vigente. \u201cO pessoal para com o carrinho pra se lavar na frente da casa, isso gera uma ocupa\u00e7\u00e3o da cal\u00e7ada, a galera j\u00e1 atravessa a rua. \u00c9 um preconceito a pobreza, \u00e9 um medo das pessoas\u201d, relata Fernand\u00e3o. Apesar das dificuldades, os moradores de rua n\u00e3o t\u00eam op\u00e7\u00e3o. Ou se submetem a algum tipo de desconforto, ou ficam sem sa\u00edda. \u201cNas minhas idas \u00e0 obra da casa ALICE, mais de uma vez passei por moradores de rua. Tinha uma mo\u00e7a que me disse que lavava todas as roupas dela ali, que era o \u00fanico lugar que ela tinha\u201d, conta o conselheiro jur\u00eddico da ALICE. Devido \u00e0 dificuldade de se manter vivo em uma sociedade que culturalmente marginaliza aqueles desprovidos de um \u201cpadr\u00e3o de vida\u201d, sobreviver quando se \u00e9 um morador de rua muitas vezes se trata de sorte e em meio a uma pandemia, a coisa s\u00f3 piora, como sublinha Brawl: \u201cGrande parte da realidade dessas pessoas \u00e9 acessar a \u00e1gua por meio do favor. Ele chega e pede uma \u00e1gua do estabelecimento que est\u00e1 aberto. Eles s\u00e3o muito t\u00e1ticos, a popula\u00e7\u00e3o de rua tem a sua rede de apoio. Ent\u00e3o assim, se fecha o com\u00e9rcio, e foi o que aconteceu, com esse fechamento as pessoas passaram quase a totalidade das horas sem acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. Esse foi o grande impacto no munic\u00edpio de Porto Alegre\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Amigos da Terra Brasil tem mais de meio s\u00e9culo de exist\u00eancia e nunca havia tido uma sede pr\u00f3pria. Na d\u00e9cada de 2000, iniciou-se uma campanha em busca de uma casa. Foi assim que, no ano de 2005, o sonho se concretizou. A CaSAnAT foi um projeto possibilitado gra\u00e7as a uma ced\u00eancia do Patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o. Anteriormente uma constru\u00e7\u00e3o abandonada e em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, ela foi transformada em um espa\u00e7o de trabalho em equipe e solidariedade, em permanente transforma\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo, na pr\u00e1tica, sobre as pol\u00edticas p\u00fablicas urbanas . \u201cA gente foi pro Rinc\u00e3o Gaia, umas 30 pessoas. Passamos o fim de semana desenhando a casa, pensando a \u00e1gua, pensando os espa\u00e7os, pensando nos fluxos da \u00e1gua, como a gente queria se relacionar com o meio ambiente, com a cidade. Todo o projeto arquitet\u00f4nico foi feito ali\u201d, conta L\u00facia Ortiz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as restaura\u00e7\u00f5es de cunho sustent\u00e1vel feitas pela equipe, foi desenvolvida uma instala\u00e7\u00e3o pioneira em Porto Alegre, de um leito de evapotranspira\u00e7\u00e3o: sistema de tratamento dos efluentes feitos no pr\u00f3prio lugar. \u201cEnt\u00e3o a gente n\u00e3o joga esgoto na rede de esgoto, a gente n\u00e3o tem esse custo pra cidade, a gente trata o esgoto na Amigos da Terra e a gente devolve a \u00e1gua pura pro fluvial da cidade para ir pro Gua\u00edba\u201d. O principal objetivo da Organiza\u00e7\u00e3o e, posteriormente da casa, \u00e9 fazer projetos em prol do coletivo, \u201cqualquer coisa que a gente faz \u00e9 pra ter uma constru\u00e7\u00e3o coletiva que fique pra cidade, que seja uma tecnologia social que possa ser de baixo custo, apropriada pras pessoas pra poderem usar nas suas realidades, seja na periferia urbana, seja nas aldeias ind\u00edgenas, onde for\u201d. Mesmo assim, o preconceito social e o Governo Bolsonaro n\u00e3o puderam deixar a propriedade passar \u201cdespercebida\u201d. Assim, o Minist\u00e9rio da Economia, regido por Paulo Guedes, criou a Secretaria Especial de Desestatiza\u00e7\u00e3o, Desinvestimentos e Mercados. Esta tem a fun\u00e7\u00e3o de vender tudo o que \u00e9 Patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o e do governo para o mercado. A primeira a\u00e7\u00e3o por eles promulgada em cunho regional, pois existe um escrit\u00f3rio por regi\u00e3o, assim que assumiu um militar na superintend\u00eancia do Rio Grande do Sul, foi uma visita \u00e0 CaSAnAT. L\u00e1, ele tirou fotos, alegou que a casa n\u00e3o tinha reboco, que era prec\u00e1ria, que as aberturas eram de madeira&#8230; \u201cTudo aquilo que a gente recuperou na casa ele disse que n\u00e3o tava bom. Queria uma casa de luxo? \u00c9 essa vis\u00e3o classista, sem nenhuma t\u00e9cnica, sem nenhum crit\u00e9rio de conhecer o processo\u201d.  O processo judicial de reintegra\u00e7\u00e3o de posse movido pelo governo Bolsonaro pela desocupa\u00e7\u00e3o da CaSAnAT, no presente momento, tramita normalmente na Justi\u00e7a Federal. <\/p>\n\n\n\n<p>O descaso do atual governo infelizmente vai ainda mais al\u00e9m. Apesar de a \u00e1gua ser um direito universal, para alguns isso ainda \u00e9 dif\u00edcil de compreender.\u201cA \u00e1gua n\u00e3o pode ser um produto que d\u00ea lucro, que fa\u00e7a com que alguns setores ganhem com ela. A \u00e1gua tem que ser um bem da vida, um bem da natureza. N\u00f3s somos constitu\u00eddos basicamente de \u00e1gua, precisamos dela. At\u00e9 passamos algum tempo sem comer, mas n\u00e3o podemos ficar sem beber. O nosso Planeta, apesar do nome Terra, \u00e9 70% \u00e1gua. Ent\u00e3o ela \u00e9 um bem fundamental e tinha que estar acess\u00edvel a todos\u201d, sublinha Roberto Abreu. A falta desse recurso essencial gera uma cultura de falta de higiene para aqueles que vivem em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Multiplicada pelos anos vividos na rua, vagando de marquise em marquise, o corpo, mas principalmente as m\u00e3os, ferramenta mais antiga em posse do ser humano, criam uma camada triste de podrid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" width=\"384\" height=\"512\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3776\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed3.jpg 384w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed3-225x300.jpg 225w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed3-375x500.jpg 375w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><figcaption> <strong><em>No in\u00edcio do projeto, os moradores de rua tinham aux\u00edlio no uso da pia. Foto: TransLAB.URB <\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cA galera sempre chegou podre. Na primeira pia que a gente instalou, eu tive que fazer essa fun\u00e7\u00e3o de ensinar. O cara n\u00e3o tem acesso a nada n\u00e9, ent\u00e3o n\u00e3o entendia. Na hora de lavar a m\u00e3o, o cara n\u00e3o sabe. Tu aprende a lavar a m\u00e3o com a fam\u00edlia, mas o cara n\u00e3o teve isso, ent\u00e3o ele lavava, me olhava e ria. Eu falava: n\u00e3o, lava mais, olha o caldo preto que t\u00e1 saindo. Umas crostas assim, os caras ficavam muito mais tempo pra lavar a m\u00e3o, porque j\u00e1 chega podre\u201d, conta Brawl sobre sua experi\u00eancia no projeto das pias pela cidade. Como se n\u00e3o bastasse a falta de incentivo da sociedade e do pr\u00f3prio governo para a disponibiliza\u00e7\u00e3o p\u00fablica da \u00e1gua, a CaSAnAT sofreu uma parada for\u00e7ada no meio do seu projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNum domingo \u00e0 luz do dia, passa um carroceiro que trabalha com reciclagem, pega a pia e deixa a \u00e1gua jorrando durante o fim de semana, na cal\u00e7ada\u201d, conta a presidente da Amigos da Terra Brasil. \u201cAcabou sendo levada a pia. Era uma pia de ferro, o que tornava meio l\u00f3gico ser levada, mas a gente tentou soldar ela ali, ent\u00e3o fizemos ela de ferro justamente para poder n\u00e3o quebrar e poder ser uma pia que fosse mais resistente\u201d, relata Fernand\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, ocorrida no dia 27 de junho de 2021, fez a equipe da CaSAnAT questionar se sua iniciativa de fato fazia sentido, se estava atingindo as pessoas realmente, pois em uma sociedade de mentalidade Capitalista, at\u00e9 mesmo o carroceiro que precisa do dinheiro da reciclagem para se sustentar d\u00e1 fim a uma iniciativa como essa apenas pelo dinheiro f\u00e1cil.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"384\" height=\"512\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3777\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed4.jpg 384w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/unnamed4-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><figcaption><strong><em> Com o furto da pia, o desperd\u00edcio de \u00e1gua se tornou realidade. Foto: Arquivo ATBR  <\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Vivemos em uma era de questionamentos e de constantes mudan\u00e7as de rota, por\u00e9m, quando o esp\u00edrito de solidariedade e de justi\u00e7a social correm pelas veias de algu\u00e9m, mesmo sendo apedrejado, o moinho n\u00e3o para de girar. \u201cA ideia \u00e9 manter o projeto, colocar a pia de novo, vamos insistir. Estamos nos organizando para estarmos mais presentes na casa. A partir do momento que a pia t\u00e1 ali e a gente t\u00e1 na casa, isso gera uma intera\u00e7\u00e3o como gerou em todas as vezes que a gente tava ali\u201d, conta Costa, e acrescenta que placas j\u00e1 est\u00e3o instaladas, contendo as instru\u00e7\u00f5es de uso da pia, de como limpar as m\u00e3os corretamente. O objetivo \u00e9 apresentar as inten\u00e7\u00f5es, mostrar que aquele \u00e9 um local de di\u00e1logo e que a pia est\u00e1 ali apenas para o bem.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2021-11-18-at-16.54.29-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3778\"\/><figcaption><strong><em>Pia coletiva da  CaSAnAT  recebeu nova sinaliza\u00e7\u00e3o. Foto: Arquivo ATBR <\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>No cora\u00e7\u00e3o de todo o ativista, a esperan\u00e7a transborda: \u201cN\u00f3s n\u00e3o temos a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o acreditar em um futuro melhor, se estamos aqui fazendo esse trabalho, temos que acreditar. Esse acreditar \u00e9 acreditar nas pessoas, nesse poder popular, nesse processo de incid\u00eancia cotidiana em toda essa quest\u00e3o da cidade, que nos faz acreditar que as pessoas, enxergando um dos problemas estruturais do sistema, essa dificuldade de pensar. Essa participa\u00e7\u00e3o da cidade, essa intera\u00e7\u00e3o\u2026 Pensar nisso no teu tempo di\u00e1rio \u00e9 todo um contexto. Qual \u00e9 a parte que a gente participa, e coisas que \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 nem por op\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma necessidade\u201d, pensa Fernando Costa, membro do conselho diretor da Amigos da Terra Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pia desaparecida \u201cPra mim, aquela pia \u00e9 um marco, ela representa essa situa\u00e7\u00e3o que a gente vive. Colocar uma pia na rua \u00e9 garantir acesso \u00e0 \u00e1gua, que \u00e9 um direito universal para todas, todos e todes. \u00c9 uma oportunidade bem importante de a gente poder demonstrar isso e fazer com que a sociedade veja, sinta. Muitas vezes essas coisas ficam escondidas, distantes das pessoas, ent\u00e3o a gente aproxima, mostra e trabalha isso\u201d, diz Fernando Costa, o Fernand\u00e3o, membro do conselho diretor da Amigos da Terra Brasil e bioconstrutor. Ele acredita que as cidades brasileiras deveriam garantir o \u201cm\u00ednimo pra todo mundo, que de certa forma, a nossa Constitui\u00e7\u00e3o em 1988 preconizou ali, colocou como quest\u00f5es importantes e muitas delas at\u00e9 hoje o Brasil ainda n\u00e3o conseguiu colocar em dia\u201d. A pandemia da COVID-19 fez crescer ainda mais o vis\u00edvel abismo entre classes sociais, mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso. \u201cHouve um grande aumento da popula\u00e7\u00e3o de rua n\u00e3o s\u00f3 na cidade de Porto Alegre, mas na maioria das capitais do Brasil durante a pandemia. Segundo um levantamento feito no Rio, 30% da popula\u00e7\u00e3o de rua de hoje tinha ido parar na rua no \u00faltimo ano\u201d, explica L\u00facia Ortiz, presidenta da Amigos da Terra Brasil. \u201cA \u00e1gua \u00e9 um problema hist\u00f3rico do Brasil. Vem a pandemia e come\u00e7a a se discutir, a colocar em cheque nos f\u00f3runs internacionais a quest\u00e3o da higiene. Os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina colocaram que \u00e9 muito bonito se falar na import\u00e2ncia de lavar as m\u00e3os, s\u00f3 que n\u00e3o tem acesso \u00e0 \u00e1gua, tem uma precariedade tremenda no continente\u201d, destaca o arquiteto Leonardo Brawl M\u00e1rquez, cofundador da TransLabUrb. Tal precariedade de acesso \u00e0 \u00e1gua gerou, no primeiro semestre de 2020, o projeto idealizado pela ONG Cozinheiros do Bem e realizado em parceria com a TransLabUrb, o qual alocou sete pias espalhadas pela cidade em pontos estrat\u00e9gicos.&nbsp; \u201cA gente escolheu esses pontos, que estavam j\u00e1 relacionados com onde j\u00e1 tem uma frequ\u00eancia de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade\u201d. Mesmo sendo uma iniciativa que n\u00e3o faria mal a ningu\u00e9m e que tinha condi\u00e7\u00f5es de se sustentar financeiramente, a ideia teve permiss\u00e3o negada pela prefeitura de Porto Alegre, mas o bem n\u00e3o poderia ser impedido.\u201cEle \u00e9 um sistema aut\u00f4nomo, porque quando o Marchezan [prefeito Nelson Marchezan Jr., cujo mandato encerrou em 2020] retirou at\u00e9 a libera\u00e7\u00e3o de colocar, a gente p\u00f4r esse neg\u00f3cio na rua j\u00e1 virou uma infra\u00e7\u00e3o, quem dir\u00e1 abrir o ch\u00e3o e acessar a rede do DMAE [Departamento Municipal de \u00c1gua e Esgotos]\u201d. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a parte mais dif\u00edcil foi conseguir fontes de fornecimento de \u00e1gua, mesmo mediante pagamento, o que fez Brawl se questionar.\u201cFoi rid\u00edculo ver que ningu\u00e9m tem acesso \u00e0 \u00e1gua, nenhum tipo de pessoa, mesmo n\u00f3s privilegiados. Diz\u00edamos: bota no meu endere\u00e7o, bota no meu CPF, eu pago a vista, eu pago como voc\u00eas quiserem. Mas n\u00e3o existe como acessar, isso foi bem emblem\u00e1tico\u201d. A ideia da instala\u00e7\u00e3o da pia na cal\u00e7ada da CaSAnAT em outubro de 2020 foi inspirada na iniciativa da Cozinheiros do Bem.\u201cQuando eu vi a pia pela primeira vez ali, achei b\u00e1rbara a ideia. Achei uma coisa assim muito legal, porque tirando em alguns parques, tu n\u00e3o tens acesso \u00e0 \u00e1gua na rua, e ela tinha que estar dispon\u00edvel pra todo mundo. Tu andas em qualquer cidade da Europa, tu vais encontrar pontos p\u00fablicos de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para beber, para fazer qualquer coisa\u201d, relata o advogado Roberto Reb\u00e9s Abreu, conselheiro jur\u00eddico da Casa ALICE (Ag\u00eancia Livre para Informa\u00e7\u00e3o Cidadania e Educa\u00e7\u00e3o), organiza\u00e7\u00e3o vizinha da CaSAnAT no bairro Azenha, em Porto Alegre (RS). N\u00e3o \u00e9 apenas o acesso \u00e0 \u00e1gua que \u00e9 negado. As pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade n\u00e3o s\u00f3 tem seus direitos b\u00e1sicos vetados, s\u00e3o tratadas como&nbsp; lixo: \u201cUm morador de rua ou um preso que est\u00e1 entregue para uma penitenci\u00e1ria cuidar, s\u00e3o caras que as pessoas acham que se pode bater, que se pode violar seus direitos, isso t\u00e1 um absurdo\u201d.&nbsp; Nem quando a Amigos da Terra decide colocar uma pia na cal\u00e7ada da sua pr\u00f3pria casa a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 preenchida por algum tipo de paz. \u201cPercebemos inc\u00f4modos, acreditamos que justamente a pr\u00f3pria pia acaba sendo uma demonstra\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o injusto hoje o mundo se coloca, onde uma pia acaba sendo um privil\u00e9gio\u201d, coloca Fernand\u00e3o. Aquele singelo peda\u00e7o de ferro soldado a uma parede deveria ser uma fonte de vida e esperan\u00e7a, mas \u00e9 de dif\u00edcil compreens\u00e3o para alguns, afogados por seus privil\u00e9gios. \u201cEu sei que isso incomoda os vizinhos, eles n\u00e3o querem ter morador de rua perto. Cheguei a conversar com uma senhora e discuti isso, ela ficava muito brava porque aquilo ali era uma imundice, uma nojeira, uma jun\u00e7\u00e3o de desocupados. Eu disse para ela: a senhora tem a sua casa, lava as suas m\u00e3os, a senhora toma a sua \u00e1gua na sua casa. Onde os moradores de rua v\u00e3o ficar? Mas eles n\u00e3o ouvem isso n\u00e9. Foi t\u00e3o engra\u00e7ado, porque ela estava puxando um cachorrinho pela coleira, o cachorro fez coc\u00f4 e ela pisou em cima, ao mesmo tempo que falava mal de morador de rua. Ent\u00e3o \u00e9 uma coisa muito dif\u00edcil isso\u201d, conta Abreu.&nbsp; Em meio \u00e0 sociedade, o preconceito \u00e9 vigente. \u201cO pessoal para com o carrinho pra se lavar na frente da casa, isso gera uma ocupa\u00e7\u00e3o da cal\u00e7ada, a galera j\u00e1 atravessa a rua. \u00c9 um preconceito a pobreza, \u00e9 um medo das pessoas\u201d, relata Fernand\u00e3o. Apesar das dificuldades, os moradores de rua n\u00e3o t\u00eam op\u00e7\u00e3o. Ou se submetem a algum tipo de desconforto, ou ficam sem sa\u00edda. \u201cNas minhas idas \u00e0 obra da casa ALICE, mais de uma vez passei por moradores de rua. Tinha uma mo\u00e7a que me disse que lavava todas as roupas dela ali, que era o \u00fanico lugar que ela tinha\u201d, conta o conselheiro jur\u00eddico da ALICE. Devido \u00e0 dificuldade de se manter vivo em uma sociedade que culturalmente marginaliza aqueles desprovidos de um \u201cpadr\u00e3o de vida\u201d, sobreviver quando se \u00e9 um morador de rua muitas vezes se trata de sorte<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3780,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1836,602,1837,1835],"tags":[],"class_list":["post-3772","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agua-e-mineracao","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-retomadas-e-direito-a-cidade","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3772"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9705,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3772\/revisions\/9705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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