{"id":3007,"date":"2021-01-03T12:56:42","date_gmt":"2021-01-03T15:56:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=3007"},"modified":"2025-06-17T12:27:25","modified_gmt":"2025-06-17T15:27:25","slug":"a-gente-tem-pressa-por-acoes-concretas-e-reais-porque-sao-os-nossos-que-estao-sendo-sistematicamente-assassinados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=3007","title":{"rendered":"\u201cA gente tem pressa por a\u00e7\u00f5es concretas e reais, porque s\u00e3o os nossos que est\u00e3o sendo sistematicamente assassinados\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\"><p style=\"text-align:justify\"><em>Pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s o assassinato de Jo\u00e3o Alberto pelos seguran\u00e7as contratados pela rede Carrefour em Porto Alegre, Brasil, Patr\u00edcia Gon\u00e7alves, integrante do Conselho Diretor do Amigos da Terra Brasil e militante da Frente em Defesa dos Territ\u00f3rios Quilombolas no Rio Grande do Sul, analisa as medidas tomadas pela empresa e pela Justi\u00e7a. Ela defende uma mudan\u00e7a de paradigma no tecido social no que diz respeito \u00e0s comunidades pretas no Brasil.<\/em><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">No \u00faltimo 19 de dezembro de 2020, completou um m\u00eas do terr\u00edvel crime cometido contra Jo\u00e3o Alberto. Esse epis\u00f3dio \u00e9 reflexo do racismo estrutural e institucional vivenciado no Brasil. Beto, como era conhecido, foi brutalmente espancado at\u00e9 a morte pela seguran\u00e7a privada da rede de supermercados Carrefour e pela pol\u00edcia militar. Para analisar\u00a0 este caso\u00a0 cruel e racista, conversamos com Patr\u00edcia Gon\u00e7alves, integrante do Conselho Diretor do Amigos da Terra Brasil e militante da Frente em Defesa dos Territ\u00f3rios Quilombolas no Rio Grande do Sul.\u00a0<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">O crime ocorreu um dia antes do dia da consci\u00eancia negra, em Porto Alegre, uma das cidades brasileiras mais segregadas. Na mesma semana, se celebrava a elei\u00e7\u00e3o de uma banca negra na C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre, fato at\u00e9 ent\u00e3o nunca ocorrido. Patr\u00edcia relata que: <em>\u201cAs pessoas estavam felizes com a elei\u00e7\u00e3o da bancada negra, e tamb\u00e9m com a quest\u00e3o de g\u00eanero elegendo muitas mulheres, tanto em Porto Alegre como em diversas cidades do Brasil. Estamos caminhando para uma transforma\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os que \u00e9 muito necess\u00e1rio. E ao mesmo tempo que comemor\u00e1vamos e celebr\u00e1vamos, o racismo vem para colocar qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o das pessoas negras, das pessoas n\u00e3o brancas aqui no Brasil.\u201d<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">O caso do Jo\u00e3o Alberto ganhou grande impacto e mobiliza\u00e7\u00e3o nacional pela simetria com o assassinato de&nbsp; <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/06\/25\/ha-um-mes-reacao-ao-assassinato-de-george-floyd-iniciava-levante-antirracista-global\">George Floyd ( no dia 25 de maio de 2020, Floyd foi estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pesco\u00e7o durante uma abordagem, em Minneapolis, nos Estados Unidos) ganhando repercuss\u00e3o em diversos pa\u00edses com a campanha \u201cBlack Lives Matter\u201d [Vidas Pretas Importam, na tradu\u00e7\u00e3o literal].<\/a> Principalmente, o caso do Jo\u00e3o Alberto ganha grande repercuss\u00e3o porque isso exemplifica a realidade cotidiana de homens negros e mulheres negras.<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\"><em>\u201c<\/em><strong><em>Esse \u00e9 o nosso cotidiano. N\u00f3s vivemos em um pa\u00eds que n\u00e3o nos reconhece enquanto humanidade, que n\u00e3o nos reconhece enquanto for\u00e7a potente de transforma\u00e7\u00e3o social. N\u00f3s sobrevivemos ao imenso projeto de exterm\u00ednio, genoc\u00eddio e epistemic\u00eddio.<\/em><\/strong><em> Aqui no Brasil, al\u00e9m da escravid\u00e3o, a coloniza\u00e7\u00e3o, por exemplo, financiou pol\u00edticas eugenistas que projetaram em 100 anos a popula\u00e7\u00e3o iria embranquecer com a&nbsp; vinda da imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, e da\u00ed sim se tornaria uma popula\u00e7\u00e3o civilizada. Se investiu dinheiro p\u00fablico para isso, se defendeu essa ideia e, como consequ\u00eancia, a\u00e7\u00f5es de desterritorializa\u00e7\u00e3o ainda maiores dos nossos povos origin\u00e1rios e os povos negros que aqui estavam em fun\u00e7\u00e3o desta l\u00f3gica que acredita em apenas um modelo de pensar&nbsp; atrav\u00e9s dos corpos brancos do ocidente, \u00e9 um modelo correto e civilizado. E a gente sobreviveu a isso! De forma habilidosa e estrat\u00e9gica, sobrevivemos a isso.\u201d, descreve Patr\u00edcia.&nbsp;&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Este n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado. A rede Carrefour tem um hist\u00f3rico muito problem\u00e1tico, com casos de agress\u00e3o f\u00edsica, viola\u00e7\u00e3o de direitos, em todo o territ\u00f3rio brasileiro. Patricia nos descreve alguns exemplos: <em>\u201ctemos o caso de uma funcion\u00e1ria que ap\u00f3s receber tratamento racista dos colegas de trabalho, fez uma den\u00fancia e o tratamento que a empresa deu foi a demiss\u00e3o. Tamb\u00e9m, temos o caso de um funcion\u00e1rio que faleceu em um estabelecimento de trabalho e a a\u00e7\u00e3o da empresa foi seguir as atividades normalmente, camuflando o corpo exposto, sem dignidade. <\/em><strong><em>O corpo negro n\u00e3o recebe nenhuma dignidade da empresa que usufruiu do seu trabalho por muito tempo.<\/em><\/strong><em> Temos casos de clientes que s\u00e3o perseguidos, violentados, que n\u00e3o podem transitar de forma digna nos estabelecimentos destas redes de supermercados porque sempre s\u00e3o vistos como suspeitos e violentados. E, agora, o caso do Jo\u00e3o Alberto que foi cruelmente assassinado.\u201d<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Al\u00e9m do caso Carrefour, outras redes do setor aliment\u00edcio s\u00e3o violadoras de direitos aqui no Brasil. Em Porto Alegre, h\u00e1 outros casos envolvendo a disputa territorial com as comunidades quilombolas. Por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/cidades\/2017\/06\/audiencia-marca-prazo-para-incra-entregar-estudos-sobre-quilombo-dos-machado\/\">a rede Walmart, que \u00e9 uma corpora\u00e7\u00e3o que explora a m\u00e3o de obra de trabalhadores, tenta desterritorializar a comunidade Quilombo dos Machados<\/a>. Patr\u00edcia conta a hist\u00f3ria dessa comunidade e descreve como a comunidade sente os impactos do racismo institucional:<em> \u201cA comunidade tem uma hist\u00f3ria de vida muito anterior \u00e0 chegada da rede Walmart e mesmo assim nosso sistema jur\u00eddico n\u00e3o consegue e n\u00e3o quer compreender isso. Atualmente, a comunidade precisa&nbsp; investir muito tempo e energia numa disputa hom\u00e9rica para garantir que a justi\u00e7a seja feita. E para n\u00f3s, \u00e9 muito dif\u00edcil passar por esse crivo jur\u00eddico, conseguir se fazer desenvolver em um processo que d\u00ea retorno a nossa luta, nossa constru\u00e7\u00e3o e nosso ideal de mundo. \u00c9 extremamente complexo e dif\u00edcil para uma comunidade quilombola ser avaliada e analisada por esse sistema. Mas, a regra que temos \u00e9 que a propriedade da terra vale mais do que as pessoas e por isso se faz necess\u00e1rio enfrentar este cen\u00e1rio e espa\u00e7o. E conseguir de diferentes formas e narrativas diversas disputar o que \u00e9 um&nbsp; territ\u00f3rio quilombola, o que \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de um mundo poss\u00edvel nestes territ\u00f3rios, onde o pr\u00f3prio sistema renegou outras espacialidades e colocou essas pessoas nesses espa\u00e7os onde se construiu e constituiu toda sua l\u00f3gica de territorialidade\u201d.&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Ela complementa: <strong><em>Por isso, \u00e9 preciso enfrentar essas empresas e esse sistema jur\u00eddico racista com as nossas l\u00f3gicas. Esse \u00e9 um sistema que nos enxerga como invasores, como ocupantes de um espa\u00e7o. Ele n\u00e3o consegue compreender que n\u00f3s estamos operando em um projeto de retomada de territ\u00f3rio e retomada do que \u00e9 nosso por direito em fun\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias de uma s\u00e9rie de crimes que exerce desde a forma\u00e7\u00e3o do Brasil contra os corpos negros e as formas de territorializa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os negros. Um sistema que tem dificuldade em compreender o que \u00e9 a l\u00f3gica da retomada, da reconquista do que \u00e9 nosso por direito. E essa \u00e9 a&nbsp; experi\u00eancia que estamos vivenciando em Porto Alegre, onde existem <\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/coronavirus\/2020\/09\/77-dos-moradores-de-quilombos-de-porto-alegre-precisaram-sair-de-casa-para-trabalhar-diz-pesquisa\/\"><strong><em>8 comunidades quilombolas reconhecidas e uma em processo de reconhecimento<\/em><\/strong><\/a><strong><em>, no qual essas comunidades est\u00e3o recontando a hist\u00f3ria, retomando o espa\u00e7o e se afirmando diante de um sistema que \u00e9 cego para reconhecer essa diversidade e que \u00e9 racista em operar contra essa diversidade.&nbsp;<\/em><\/strong><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A luta em defesa pela regulariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios quilombolas e ind\u00edgenas \u00e9 urgente. Patr\u00edcia explica ainda o que compreendem por retomada e as intersec\u00e7\u00f5es entre a luta quilombola e ind\u00edgena:<strong><em>\u201c<\/em><\/strong><em>A l\u00f3gica das retomadas \u00e9 um aprendizado que nasce a partir da rela\u00e7\u00e3o com os povos origin\u00e1rios, que seguem essa orienta\u00e7\u00e3o de reconquistar seu espa\u00e7o e de retomar o que \u00e9 seu por direito por estarem habitando todo o territ\u00f3rio brasileiro. E quando chega a coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, expropriando essas comunidades, afastando-as e desmembrando-as e por isso elas vem cobrar essa d\u00edvida do Estado brasileiro, que nunca reparou na sua total integridade. Diante da ina\u00e7\u00e3o do estado, comunidades ind\u00edgenas e quilombolas se unem e retomam seus territ\u00f3rios.\u201d<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A disputa \u00e9 pela moralidade vigente<\/strong><br \/><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Assim como o racismo institucional, o racismo estrutural tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por moldar as formas de viol\u00eancia contra os corpos negros: <em>\u201cEsse sistema jur\u00eddico racista, ele enxerga os nossos territ\u00f3rios como o lugar do bandido, o lugar do tr\u00e1fico, o lugar das pessoas vulgares, das pessoas que podem ser violentadas. Tamb\u00e9m, enxerga nossos territ\u00f3rios como o corpo da mulher que est\u00e1 aberta \u00e0 viola\u00e7\u00e3o, a mulher que pode ser violentada pelo sistema.<\/em><strong><em> \u00c9 uma composi\u00e7\u00e3o do sistema racista e patriarcal que opera muito bem unificando l\u00f3gicas de opress\u00e3o &#8211; opress\u00e3o contra nossos territ\u00f3rios<\/em><\/strong><em>. Al\u00e9m da agress\u00e3o f\u00edsica que geram desterritorializa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m h\u00e1 uma desconfigura\u00e7\u00e3o destes territ\u00f3rios, ao qual buscam refor\u00e7ar como espa\u00e7os sem qualidades e despotencializados, e isso qualifica o modelo violador na disputa territorial, pois aqui no Brasil a disputa territorial n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o legal, ela tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o moral.&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\"><em>Ent\u00e3o, se justifica expulsar e violentar o que \u00e9 desqualificado. H\u00e1 uma l\u00f3gica de que os corpos negros, corpos ind\u00edgenas, as mulheres recebem entona\u00e7\u00f5es de caracter\u00edsticas que n\u00e3o s\u00e3o as caracter\u00edsticas do que se considera pessoas de intelig\u00eancia, com potencial, pessoas protagonistas de suas hist\u00f3rias, pessoas que precisam ser tuteladas para seguir sua vida em plenitude. E portanto, n\u00f3s tamb\u00e9m precisamos combater isso, pois assim estamos combatendo uma quest\u00e3o moral, que tem essa parceria com quest\u00f5es de justificar atitudes violadoras.\u201d&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Por isso, Patr\u00edcia pondera que \u00e9 preciso enxergar nestes territ\u00f3rios as suas diversidades, as potencialidades e as formas diversificadas e sofisticadas que esses territ\u00f3rios operam e organizam a sua luta. <em>\u201cA partir do ch\u00e3o dos territ\u00f3rios, que a gente percebe o que est\u00e1 acontecendo, uma forma que atue considerando essa diversidade e essa complexidade que o jogo do viver nos exige. Sabemos que viver exige coragem, e viver uma luta antirracista exige muito mais coragem, muito mais atrevimento, muito mais posicionamento\u201d.&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Ela faz ainda um chamado \u00e0 escuta:<em> \u201cPensamos que qualquer grupo ou organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que est\u00e1 disposto, se colocando para somar neste enfrentamento, precisa, antes de qualquer coisa, precisa praticar uma&nbsp; escuta sens\u00edvel para o que est\u00e1 sendo dito a partir do ch\u00e3o do territ\u00f3rio. Escutar o que as pessoas est\u00e3o experienciando as opress\u00f5es e as viol\u00eancias, o que essas pessoas julgam que \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar e ser feito, quais s\u00e3o as t\u00e9cnicas seculares que elas est\u00e3o utilizando para dar conta da vida. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, n\u00f3s enquanto esquerda, n\u00e3o realizemos essa escuta. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel acreditar que \u00e9 preciso formar, colocando as l\u00f3gicas ocidentais para dentro dos territ\u00f3rios como se as pessoas que vivem as lutas di\u00e1rias n\u00e3o entendessem o que est\u00e1 acontecendo. As pessoas entendem. Cotidianamente, fazem escolhas complexas e dif\u00edceis. Portanto, enquanto esquerda precisamos praticar a escuta, a sensibilidade, a solidariedade com esses grupos, com essas articula\u00e7\u00f5es, para da\u00ed sim potencializar a luta\u201d<\/em>, completa.<em>.&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Para pensar caminhos poss\u00edveis para transformar o atual modelo de sociedade em uma sociedade antirracista, Patr\u00edcia afirma que \u201c<strong><em>\u00e9 preciso realizar medidas concretas e reais de acordo com repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e humanit\u00e1rias porque s\u00e3o crimes sistematicamente realizados contra as nossas humanidades. Ent\u00e3o, a postura <\/em><\/strong><strong>[do Carrefour] <\/strong><strong><em>de apenas pedir desculpas e pagar milh\u00f5es para fazer propaganda em hor\u00e1rio nobre na televis\u00e3o para tentar limpar o nome da empresa, n\u00e3o repara estes crimes. Pedir desculpas e dizer que n\u00e3o concorda com essas pr\u00e1ticas, n\u00e3o promovem as a\u00e7\u00f5es transformadoras necess\u00e1rias a uma postura antirracista. A gente tem pressa&nbsp; por a\u00e7\u00f5es concretas e reais, porque s\u00e3o os nossos que est\u00e3o sendo sistematicamente assassinados, s\u00e3o nossos sonhos que s\u00e3o despeda\u00e7ados, as nossas fam\u00edlias desmembradas, vitimadas por este projeto racista, que opera a mais de 5 s\u00e9culos aqui no Brasil.<\/em><\/strong><em>&nbsp;<\/em><br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\"><a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2020\/11\/20\/justica-por-beto-amigos-da-terra-contra-o-racismo\/\">Amigos da Terra Brasil, repudia a viol\u00eancia e o ato de assassinato do Jo\u00e3o Alberto<\/a>, assim como de Marielle Franco, da Claudia Ferreira, do menino Miguel, de pessoas negras que s\u00e3o encarceradas aos montes dentro da l\u00f3gica que vem operando h\u00e1 s\u00e9culos neste pa\u00eds e que criminaliza corpos racializados.<em> \u201cN\u00f3s acreditamos que s\u00e3o muitos os respons\u00e1veis pelo extermin\u00edo dos sonhos negros no Brasil. Foram muitas m\u00e3os que espancaram Jo\u00e3o Alberto e executaram-o al\u00e9m da seguran\u00e7a privada do Carrefour e da pol\u00edcia militar. Foram todas as m\u00e3os que pactuam com esse sistema racista. E essas m\u00e3os seguem violando a mem\u00f3ria deste corpos, porque essas pessoas s\u00e3o violentadas e tem um tratamento que as julga na sua morte e as condena como criminosas. Ent\u00e3o, \u00e9 muito cruel o tratamento que o Brasil vem dando e colocando para as pessoas negras e as pessoas ind\u00edgenas. E a cada dia que passa \u00e9 mais perigoso ser negra e ser negro no Brasil. E por isso \u00e9 preciso solidariedade, \u00e9 preciso a\u00e7\u00f5es antirracistas, para que estes crimes parem de acontecer. E Amigos da Terra Brasil se colocam ao lado desses territ\u00f3rios nas suas lutas, se disp\u00f5em como companheiro e companheira de resist\u00eancia. Aqui a gente faz uma aposta que tem por objetivo a vit\u00f3ria da vida, com tudo que ela capaz de trazer de potencialidade, de diversidade, de for\u00e7a, e acreditamos que estamos dando passos em uma caminhada bonita que materializa uma constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, com suporte t\u00e9cnico, com parceria pol\u00edtica para a transforma\u00e7\u00e3o antirracista.\u201d\u00a0<\/em><\/p><br \/>A entrevista de <em>Patr\u00edcia Gon\u00e7alves<\/em> foi publicada pela <a href=\"https:\/\/rmr.fm\/entrevistas\/joao-alberto-silveira-freitas-beto-comunidades-indigenas-e-quilombolas-brasil-carrefour-porto-alegre\/\">R\u00e1dio Mundo Real<\/a> e \u00e9 poss\u00edvel ouvir abaixo:<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/rmr.fm\/wp-content\/uploads\/brasil-es-1.mp3\"><\/audio><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s o assassinato de Jo\u00e3o Alberto pelos seguran\u00e7as contratados pela rede Carrefour em Porto Alegre, Brasil, Patr\u00edcia Gon\u00e7alves, integrante do Conselho Diretor do Amigos da Terra Brasil e militante da Frente em Defesa dos Territ\u00f3rios Quilombolas no Rio Grande do Sul, analisa as medidas tomadas pela empresa e pela Justi\u00e7a. Ela defende uma mudan\u00e7a de paradigma no tecido social no que diz respeito \u00e0s comunidades pretas no Brasil. No \u00faltimo 19 de dezembro de 2020, completou um m\u00eas do terr\u00edvel crime cometido contra Jo\u00e3o Alberto. Esse epis\u00f3dio \u00e9 reflexo do racismo estrutural e institucional vivenciado no Brasil. Beto, como era conhecido, foi brutalmente espancado at\u00e9 a morte pela seguran\u00e7a privada da rede de supermercados Carrefour e pela pol\u00edcia militar. Para analisar\u00a0 este caso\u00a0 cruel e racista, conversamos com Patr\u00edcia Gon\u00e7alves, integrante do Conselho Diretor do Amigos da Terra Brasil e militante da Frente em Defesa dos Territ\u00f3rios Quilombolas no Rio Grande do Sul.\u00a0 O crime ocorreu um dia antes do dia da consci\u00eancia negra, em Porto Alegre, uma das cidades brasileiras mais segregadas. Na mesma semana, se celebrava a elei\u00e7\u00e3o de uma banca negra na C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre, fato at\u00e9 ent\u00e3o nunca ocorrido. Patr\u00edcia relata que: \u201cAs pessoas estavam felizes com a elei\u00e7\u00e3o da bancada negra, e tamb\u00e9m com a quest\u00e3o de g\u00eanero elegendo muitas mulheres, tanto em Porto Alegre como em diversas cidades do Brasil. Estamos caminhando para uma transforma\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os que \u00e9 muito necess\u00e1rio. E ao mesmo tempo que comemor\u00e1vamos e celebr\u00e1vamos, o racismo vem para colocar qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o das pessoas negras, das pessoas n\u00e3o brancas aqui no Brasil.\u201d O caso do Jo\u00e3o Alberto ganhou grande impacto e mobiliza\u00e7\u00e3o nacional pela simetria com o assassinato de&nbsp; George Floyd ( no dia 25 de maio de 2020, Floyd foi estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pesco\u00e7o durante uma abordagem, em Minneapolis, nos Estados Unidos) ganhando repercuss\u00e3o em diversos pa\u00edses com a campanha \u201cBlack Lives Matter\u201d [Vidas Pretas Importam, na tradu\u00e7\u00e3o literal]. Principalmente, o caso do Jo\u00e3o Alberto ganha grande repercuss\u00e3o porque isso exemplifica a realidade cotidiana de homens negros e mulheres negras. \u201cEsse \u00e9 o nosso cotidiano. N\u00f3s vivemos em um pa\u00eds que n\u00e3o nos reconhece enquanto humanidade, que n\u00e3o nos reconhece enquanto for\u00e7a potente de transforma\u00e7\u00e3o social. N\u00f3s sobrevivemos ao imenso projeto de exterm\u00ednio, genoc\u00eddio e epistemic\u00eddio. Aqui no Brasil, al\u00e9m da escravid\u00e3o, a coloniza\u00e7\u00e3o, por exemplo, financiou pol\u00edticas eugenistas que projetaram em 100 anos a popula\u00e7\u00e3o iria embranquecer com a&nbsp; vinda da imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, e da\u00ed sim se tornaria uma popula\u00e7\u00e3o civilizada. Se investiu dinheiro p\u00fablico para isso, se defendeu essa ideia e, como consequ\u00eancia, a\u00e7\u00f5es de desterritorializa\u00e7\u00e3o ainda maiores dos nossos povos origin\u00e1rios e os povos negros que aqui estavam em fun\u00e7\u00e3o desta l\u00f3gica que acredita em apenas um modelo de pensar&nbsp; atrav\u00e9s dos corpos brancos do ocidente, \u00e9 um modelo correto e civilizado. E a gente sobreviveu a isso! De forma habilidosa e estrat\u00e9gica, sobrevivemos a isso.\u201d, descreve Patr\u00edcia.&nbsp;&nbsp; Este n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado. A rede Carrefour tem um hist\u00f3rico muito problem\u00e1tico, com casos de agress\u00e3o f\u00edsica, viola\u00e7\u00e3o de direitos, em todo o territ\u00f3rio brasileiro. Patricia nos descreve alguns exemplos: \u201ctemos o caso de uma funcion\u00e1ria que ap\u00f3s receber tratamento racista dos colegas de trabalho, fez uma den\u00fancia e o tratamento que a empresa deu foi a demiss\u00e3o. Tamb\u00e9m, temos o caso de um funcion\u00e1rio que faleceu em um estabelecimento de trabalho e a a\u00e7\u00e3o da empresa foi seguir as atividades normalmente, camuflando o corpo exposto, sem dignidade. O corpo negro n\u00e3o recebe nenhuma dignidade da empresa que usufruiu do seu trabalho por muito tempo. Temos casos de clientes que s\u00e3o perseguidos, violentados, que n\u00e3o podem transitar de forma digna nos estabelecimentos destas redes de supermercados porque sempre s\u00e3o vistos como suspeitos e violentados. E, agora, o caso do Jo\u00e3o Alberto que foi cruelmente assassinado.\u201d Al\u00e9m do caso Carrefour, outras redes do setor aliment\u00edcio s\u00e3o violadoras de direitos aqui no Brasil. Em Porto Alegre, h\u00e1 outros casos envolvendo a disputa territorial com as comunidades quilombolas. Por exemplo, a rede Walmart, que \u00e9 uma corpora\u00e7\u00e3o que explora a m\u00e3o de obra de trabalhadores, tenta desterritorializar a comunidade Quilombo dos Machados. Patr\u00edcia conta a hist\u00f3ria dessa comunidade e descreve como a comunidade sente os impactos do racismo institucional: \u201cA comunidade tem uma hist\u00f3ria de vida muito anterior \u00e0 chegada da rede Walmart e mesmo assim nosso sistema jur\u00eddico n\u00e3o consegue e n\u00e3o quer compreender isso. Atualmente, a comunidade precisa&nbsp; investir muito tempo e energia numa disputa hom\u00e9rica para garantir que a justi\u00e7a seja feita. E para n\u00f3s, \u00e9 muito dif\u00edcil passar por esse crivo jur\u00eddico, conseguir se fazer desenvolver em um processo que d\u00ea retorno a nossa luta, nossa constru\u00e7\u00e3o e nosso ideal de mundo. \u00c9 extremamente complexo e dif\u00edcil para uma comunidade quilombola ser avaliada e analisada por esse sistema. Mas, a regra que temos \u00e9 que a propriedade da terra vale mais do que as pessoas e por isso se faz necess\u00e1rio enfrentar este cen\u00e1rio e espa\u00e7o. E conseguir de diferentes formas e narrativas diversas disputar o que \u00e9 um&nbsp; territ\u00f3rio quilombola, o que \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de um mundo poss\u00edvel nestes territ\u00f3rios, onde o pr\u00f3prio sistema renegou outras espacialidades e colocou essas pessoas nesses espa\u00e7os onde se construiu e constituiu toda sua l\u00f3gica de territorialidade\u201d.&nbsp; Ela complementa: Por isso, \u00e9 preciso enfrentar essas empresas e esse sistema jur\u00eddico racista com as nossas l\u00f3gicas. Esse \u00e9 um sistema que nos enxerga como invasores, como ocupantes de um espa\u00e7o. Ele n\u00e3o consegue compreender que n\u00f3s estamos operando em um projeto de retomada de territ\u00f3rio e retomada do que \u00e9 nosso por direito em fun\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias de uma s\u00e9rie de crimes que exerce desde a forma\u00e7\u00e3o do Brasil contra os corpos negros e as formas de territorializa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os negros. Um sistema que tem dificuldade em compreender o que \u00e9 a l\u00f3gica da retomada, da reconquista do que \u00e9 nosso por direito. E essa \u00e9 a&nbsp; experi\u00eancia que estamos vivenciando em<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3008,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[600,602,1837],"tags":[],"class_list":["post-3007","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antirracismo","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-retomadas-e-direito-a-cidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3007","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3007"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3007\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9805,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3007\/revisions\/9805"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3008"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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