{"id":2998,"date":"2020-12-30T11:31:09","date_gmt":"2020-12-30T14:31:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=2998"},"modified":"2025-06-17T12:27:49","modified_gmt":"2025-06-17T15:27:49","slug":"somos-sementes-prontas-para-germinar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=2998","title":{"rendered":"\u201cSomos sementes prontas para germinar\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>A luta do povo Xokleng ao retomar seu territ\u00f3rio ancestral, em que agiram bugreiros no passado e onde hoje o Estado amea\u00e7a com reintegra\u00e7\u00e3o de posse<\/em><\/strong><em>&nbsp;<\/em><br \/><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\"><p style=\"text-align:justify\">H\u00e1 dois anos, Vetch\u00e1 Tei\u00ea Xokleng Konglui morreu com aproximadamente 100 anos. Quando era um beb\u00ea de colo, foi expulso com a fam\u00edlia do territ\u00f3rio ind\u00edgena Xokleng, onde hoje \u00e9 a Floresta Nacional (Flona), Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o Federal em S\u00e3o Francisco de Paula. O umbigo de Vetch\u00e1 est\u00e1 enterrado neste solo.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/glUdgn1doFfs0HaTWHfGK3NlbFXiW80CoGP4kjkrUOeQLiFwxcphCugx9aiVxsrtJFw_JBUUsYayiI3eD4IB9o751xRCP8pBoufcYsLXp3LltLfiUXgW62nxXdAB\" alt=\"\"\/><figcaption> Kullung Vecth\u00e1 Tei\u00ea | Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\u201cMeu pai me trouxe aqui quando ainda era mata nativa e mostrou para mim e para os seus netos onde seu umbigo est\u00e1 enterrado\u201d conta Kullung Vetch\u00e1 Tei\u00ea, hoje com 63 anos. \u201cNo caminho ele vinha mostrando nossos antepassados. Vinha contando que l\u00e1 dentro da Flona tem a oca dos nossos parentes, ferramentas, trilhas\u201d. <br \/><br \/><br \/><br \/>Vetch\u00e1 Tei\u00ea foi um dos in\u00fameros Xoklengs que nasceram nesta localidade e tiveram que sair para sobreviver \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos bugreiros, bandidos contratados pelo governo e por empresas colonizadoras para ca\u00e7ar os ind\u00edgenas nas matas e liberar o territ\u00f3rio para alem\u00e3es e italianos que chegavam no sul do Brasil.&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">No dia 12 de dezembro deste ano, Kullung e Yoko, filhas do seu Vetch\u00e1, com suas fam\u00edlias e parentes apoiadores ingressaram na Floresta Nacional para ficar. \u201cNo passado, mataram meus parentes, atropelaram, cortaram as mulheres gr\u00e1vidas, mataram as crian\u00e7as, cortaram a orelha delas, acabaram com minha na\u00e7\u00e3o, aqui neste lugar. Mas gra\u00e7as a Deus sobrou um grupo, que antigamente era botocudo, hoje \u00e9 Xokleng. Estamos vivos, estamos aqui!\u201d, afirma Kullung. S\u00e3o cerca de 30 pessoas, sendo 14 crian\u00e7as; as duas filhas de Vetch\u00e1 e suas fam\u00edlias; a fam\u00edlia de Yoco Camlem, prima de Kullung, filha de Voia Camlem, que \u00e9 irm\u00e3o de Vetch\u00e1 Tei\u00ea; a fam\u00edlia de Woie Kriri Sobrinho Patte; e Merong Kamak\u00e3, guerreiro Patox\u00e1 H\u00e3-h\u00e3-h\u00e3e que \u00e9 solid\u00e1rio \u00e0 luta dos parentes. Entre as crian\u00e7as, est\u00e1 o tataraneto de Vetch\u00e1. Come\u00e7ava ali a retomada hist\u00f3rica do territ\u00f3rio ancestral do povo Xokleng, no Rio Grande do Sul. Uma a\u00e7\u00e3o direta, puxada por mulheres, de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica por parte dos Xoklengs contra as viol\u00eancias do Estado e seus ramos opressores: a justi\u00e7a, a pol\u00edcia, as mil\u00edcias (como os bugreiros).&nbsp;&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/od1v8lQxViQS75iumgskKjzXjjxd654Xi7uO4_oF-4bZ2eoe_x6_oya_RqH4bWyMlXiYlC6Ld8ARGI8WSzwGGBag5-AnNoJfduhZW_R8dEQVEANVag3VjUmuPSED\" alt=\"\"\/><figcaption> Os anci\u00e3os Xonkleng Vetch\u00e1 Tei\u00ea e Voia Camlem, nascidos na regi\u00e3o da  Flona e pais das mulheres que hoje promovem a retomada | Fotos: Arquivo  Pessoal Kullung Vetch\u00e1 Tei\u00ea <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/Bu0mdZN9N8xj6RUBtv0NzIZNg0NpAXZNjpY_jDhLu5Wt6vY3gqvgrnor6_04b7-pkTjwN1OcygOQZgyW8tj9Pvo_PqvNpyzuKiNVp-3ZQmEWewX-KG2nsEHHT6bR\" alt=\"\"\/><figcaption> Entre as crian\u00e7as, est\u00e1 o tataraneto de Vetch\u00e1  |  Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil  <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>REINTEGRA\u00c7\u00c3O DE POSSE<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Nos \u00faltimos dias, os descendentes do seu Vetch\u00e1 ocuparam com barracos de lona uma pequena parte da Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula, criada em 1968 e desde 2004 administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio). A \u00e1rea ocupada est\u00e1 na lateral direita da entrada do parque, perto da RS-484, solo coberto por planta\u00e7\u00e3o de Pinus.<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/8IMRezpDMRFgut4-pd79YyZqIe_8K046yTG03SVjTebBtMClEMvBEYKo3CPQVAFjg1nJTRz_dSs-lqZXag_rw2YgBOmuA1oRc7CC-jGGsH9pmoe_R3JNxtV49jnu\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Ap\u00f3s alguns dias de conv\u00edvio pac\u00edfico com os funcion\u00e1rios da Flona e de tentativas de di\u00e1logo, em conjunto com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, os ind\u00edgenas Xoklengs foram surpreendidos pelas a\u00e7\u00f5es da coordena\u00e7\u00e3o da Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o, hoje chefiada por Edenice Brand\u00e3o \u00c1vila de Souza. Segundo os ind\u00edgenas, a luz usada para carregar os celulares, na guarita de entrada da Flona, foi cortada. Nesta ter\u00e7a (29), a coordena\u00e7\u00e3o fez uma postagem com o t\u00edtulo \u201ccombatendo Fake News\u201d, em que informa sobre a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, de luz e de internet. Na postagem, diz que a luz estaria dispon\u00edvel das 7h \u00e0s 19h, enquanto houvesse vigilante na guarita. Na segunda-feira, enquanto est\u00e1vamos l\u00e1, das 7h da manh\u00e3 \u00e0s 14h, foram poucos os momentos em que avistamos algum funcion\u00e1rio presente na entrada.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/vkTgQAS8lp1gdsRVVis-G4qGGGrOZDuZkXJkulvznGK5Zaogpp-NLFBuVD7yL-W7i6EY-HNI1xnT0kcDj33WqOWKkhzH97SDZOLed8K-lSw2Qf-wDC0jtpQo5Qb_\" alt=\"\"\/><figcaption> Registro dos ancestrais de Vetch\u00e1 Tei\u00ea e de Voia Camlem, ind\u00edgenas  nascidos na terra onde hoje \u00e9 a Retomada Xokleng |  Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Em outro movimento n\u00e3o esperado pelos ind\u00edgenas e at\u00e9 pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, a coordena\u00e7\u00e3o da Flona solicitou \u00e0 Justi\u00e7a Federal de Caxias do Sul a reintegra\u00e7\u00e3o de posse da \u00e1rea. No dia 23 de dezembro, v\u00e9spera do Natal, a ju\u00edza federal plantonista, Fernanda Cusin Pertile, emitiu mandado favor\u00e1vel \u00e0 retirada dos ind\u00edgenas. Foi um final de semana de tens\u00e3o.<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">\u201cN\u00f3s queremos ser ouvidos, ter uma audi\u00eancia com ICMBio, com Minist\u00e9rio P\u00fablico, com a ju\u00edza\u201d, reivindica Woie Kriri Sobrinho Patt\u00e9, uma das lideran\u00e7as da retomada Xokleng. \u201cNos ou\u00e7am porque estamos aqui! \u00c9 f\u00e1cil estar no escrit\u00f3rio, atr\u00e1s do computador e mandar uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Existem leis internacionais que o governo brasileiro aderiu [Conve\u00e7\u00e3o 169]. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT)&nbsp; diz claramente que precisamos ser ouvidos\u201d.&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/zcuZob08YCfCP3DteKIWVg_JU6lsG6WLSYPB10MyqSO5PVXZD7hLQRTnggnob0uMI4YiI4bx0k9iBoFWDvew7-jkp9oZq5l0CqMQUTnuqxEXHbpvHOcIdU1Sg5J1\" alt=\"\"\/><figcaption> Woie Kriri Sobrinho Patt\u00e9 fala sobre a situa\u00e7\u00e3o na retomada  |  Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil   <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o tinha como prazo a \u00faltima segunda, dia 28, no entanto at\u00e9 o momento n\u00e3o ocorreu. <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2020\/12\/tivemos-que-entrar-porque-esse-territorio-estava-sendo-privatizado-xokleng-ocupam-area-e-icmbio-pede-reintegracao\/\">Nos dias anteriores, a Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU) e o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) tentaram reverter a a\u00e7\u00e3o.<\/a> O MPF entrou com agravo de instrumento, mas este foi indeferido pelo plant\u00e3o do Tribunal Regional Federal da 4<sup>a<\/sup> Regi\u00e3o. A DPU entrou com reclama\u00e7\u00e3o junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) aludindo \u00e0 decis\u00e3o do Ministro Edson Fachin de n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse em terras ind\u00edgenas durante a pandemia de Coronav\u00edrus para evitar que a doen\u00e7a se alastre. No dia 26, a Pol\u00edcia Federal de Caxias do Sul se manifestou recomendando o adiamento da a\u00e7\u00e3o justamente devido \u00e0 pandemia.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A reintegra\u00e7\u00e3o de posse n\u00e3o ocorreu at\u00e9 o momento, embora o STF n\u00e3o tenha dado nenhum retorno \u00e0 reclama\u00e7\u00e3o da DPU at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta mat\u00e9ria.<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">\u201cEu n\u00e3o vou sair daqui. Vou ficar aqui. Hoje, se a Pol\u00edcia Federal vir, eu deito no ch\u00e3o e podem me matar. S\u00f3 saio daqui dentro do caix\u00e3o\u201d, bateu o p\u00e9 a senhora Kollung.&nbsp;&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/V9z6qqjnftFTeaJLWex1EHvwsNbbYxi6w3C2qsbp0-vPlUHaOBg9x236T7pIB2XZybCHJsY3SSqTSShAj02AtUEfQ6HDYL-ChRo4g5I_0WVHXOocgPPvclsIfpgQ\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">No dia 24 de dezembro, o Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) se manifestou em nota recomendando a suspens\u00e3o da reintegra\u00e7\u00e3o de posse e o encaminhamento de uma solu\u00e7\u00e3o negociada.&nbsp; Desde o dia 23, os Xoklengs Konglui j\u00e1 receberam a visita da Pol\u00edcia Federal, da Pol\u00edcia Militar e do Oficial de Justi\u00e7a Federal.&nbsp; \u201cGostaria que o governo nos ouvisse, cara a cara, mas por enquanto s\u00f3 vejo amea\u00e7as contra n\u00f3s. O que o governo est\u00e1 pensando? N\u00f3s somos raiz, n\u00f3s somos donos desta terra\u201d, insiste Kollung.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">No entanto, para al\u00e9m das interven\u00e7\u00f5es do governo, tamb\u00e9m chegaram visitas de solidariedade. N\u00f3s da Amigos da Terra Brasil, articulado com o Conselho Indigenista Mission\u00e1rio, estivemos na segunda-feira no territ\u00f3rio retomado. Prontos para cobrir qualquer viola\u00e7\u00e3o e produzir este conte\u00fado. Tamb\u00e9m subimos a serra com a solidariedade da Frente Quilombola RS. O Quilombo dos Machado, localizado na zona norte de Porto Alegre, enviaram alimentos e produtos de limpeza equivalentes h\u00e1 cerca de 5 cestas b\u00e1sicas. Produtos arrecadados atrav\u00e9s de doa\u00e7\u00f5es para o Quilombo dos Machados. A retomada, tamb\u00e9m, tem recebido doa\u00e7\u00f5es diretamente, atrav\u00e9s de articula\u00e7\u00e3o pelas redes sociais e pontos de coleta em Porto Alegre, Lajeado e S\u00e3o Francisco de Paula.<br \/><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Os Xokleng Konglui enfrentam hoje esta possibilidade de reintegra\u00e7\u00e3o de posse, que por tr\u00e1s, al\u00e9m do preconceito e viol\u00eancia hist\u00f3rica contra os povos ind\u00edgenas, traz tamb\u00e9m os interesses da iniciativa privada.&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p>HIST\u00d3RIA E FUTURO DOS XOKLENG NA FLONA<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/eVz_d8n584AJCDGRZt368NMVCUVcsdTWtXBVIDj0jCEjUUMrKb3qMFbkiA9rj5xJn15VVxRpKDuWWejNv0DR-KNy2jBKFgbBsBvVN9qts4jtKFVsFJMrCEAyqBGR\" alt=\"\"\/><figcaption> Neste registro, enviado por Kullung, Voia Camlem, Vetcha Tei\u00ea e  Compacam, todos nascidos nesta regi\u00e3o, voltam ao local e conversam sobre  suas fam\u00edlias. Kullung n\u00e3o soube informar a data exata desta conversa | Foto: Arquivo pessoal de Kullung Vectha Teie <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A sa\u00edda por sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia de Vetch\u00e1 Tei\u00ea, da fam\u00edlia de Voia Camlem e de Compacam do territ\u00f3rio onde, hoje, \u00e9 a Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, tanto na regi\u00e3o da serra ga\u00facha, como em todos os interiores deste Brasil. Em nota de solidariedade divulgada no dia 18 de dezembro pela Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (APIB), o processo violento de coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 destacado: \u201cPor s\u00e9culos os Xokleng foram v\u00edtimas de um brutal processo de coloniza\u00e7\u00e3o que quase levou ao completo desaparecimento do povo, que tradicionalmente ocupavam os territ\u00f3rios que estavam localizados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paran\u00e1\u201d. Desde a chegada dos portugueses em 1500, os povos origin\u00e1rios sofrem com a viol\u00eancia, seja a direta, atrav\u00e9s das armas, seja atrav\u00e9s das doen\u00e7as. No Rio Grande do Sul, muitas terras em que viviam ind\u00edgenas (Kaigangs, Xoklengs, Minuanos, Charruas, Guaranis) foram doadas pelo Estado para os colonos italianos e alem\u00e3es que rec\u00e9m chegavam. Os europeus que chegavam no nosso pa\u00eds,&nbsp; mesmo que pobres, ganharam terras, enquanto negros alforriados foram jogados nas ruas sem nada, enquanto ind\u00edgenas eram ca\u00e7ados e desterritorializados. Esta diferen\u00e7a hist\u00f3rica na territorializa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds n\u00e3o pode ser perdida de vista nunca na interpreta\u00e7\u00e3o da propriedade de im\u00f3veis hoje e na forma\u00e7\u00e3o da sociedade como um todo. <br \/><br \/>&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">No Rio Grande do Sul, os bandidos respons\u00e1veis por expulsar ou ca\u00e7ar os ind\u00edgenas, especialmente os Xoklengs, ficaram conhecidos como bugreiros. <a href=\"http:\/\/www.clicrbs.com.br\/sites\/swf\/dc_nos_35_bugreiros\/index.html\">Eram mil\u00edcias financiadas pelo governo ou por empresas estrangeiras que preparavam o terreno para os colonos que chegavam<\/a>. <br \/>Woie relembra, com indigna\u00e7\u00e3o: \u201ca sa\u00edda do povo Xokleng deste territ\u00f3rio foi for\u00e7ada brutalmente. Estes homens pegavam as mulheres gr\u00e1vidas, abriam a barriga da m\u00e3e, tiravam a crian\u00e7a e jogavam para cima, riam, diziam que parecia um macaquinho. Quando a crian\u00e7a caia, paravam ela com a ponta do fac\u00e3o, da foice. Matavam estas crian\u00e7as. Foi muito triste todas estas viola\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o n\u00f3s n\u00e3o sa\u00edmos daqui porque a terra n\u00e3o prestava, n\u00e3o. Sair do territ\u00f3rio era quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Fomos para o alto vale de Santa Catarina, onde tamb\u00e9m fomos massacrados pelo Dr. Blumenau. Hoje muitos conhecem a cidade pela Oktoberfest, mal sabem que fazem festa em cima do cemit\u00e9rio dos nossos parentes, em cima de sangue ind\u00edgena Xokleng\u201d. Blumenau \u00e9 a terra onde atuou um dos mais famosos assassinos, o <a href=\"https:\/\/www.blumenau.sc.gov.br\/secretarias\/fundacao-cultural\/fcblu\/memaoria-digital-ao-revista-blumenau-em-cadernos-60-anos-ao-martinho-bugreiro72\">Martinho Bugreiro<\/a>, que dizia que n\u00e3o matou 100 ind\u00edgenas, mas sim matou mais de mil. Junto com o seu bando, atuava como um \u201cEsquadr\u00e3o da morte\u201d de ind\u00edgenas. O povo Xokleng foi um dos principais alvos dos bugreiros, chegando quase \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. Hoje poucas fam\u00edlias restam ou se identificam com este povo. Os que sobreviveram, sofrem com a falta de territ\u00f3rio ou vivem em territ\u00f3rios de outros povos, como dos Kaingangs.<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/Fohk-uXWzJhIiuVhX1OUG6wi3gZfjVk5YNfyJ9Rumse8YPnh456d1FnhscbkohHlnuTQxugS0eJevadLoVxwR_klNa3CFMrGtzrA0kWwlMwLRVmVUaglgxn180bB\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">\u201cJ\u00e1 ouvi que \u2018tivemos a pacifica\u00e7\u00e3o do povo Xokleng\u2019. Nada disso! N\u00f3s est\u00e1vamos em paz.\u00a0 Quem estava nos matando, nos aniquilando era o branco. Ent\u00e3o eles que foram os pacificados\u201d, corrige Woie. Para ele, o Estado concedeu aos alem\u00e3es e aos italianos terras que j\u00e1 tinham donos. \u201cDoaram territ\u00f3rio para ter progresso. Mas que progresso? Exterminar um povo para dar o sustento a outros? Progresso plantando soja? Toda planta\u00e7\u00e3o, soja, milho, \u00e9 vendido para fora hoje. Progresso para 4, 5 fam\u00edlias? Este tal de progresso matou muitos \u00edndios do Brasil. Ent\u00e3o, n\u00e3o foi progresso n\u00e3o, foi exterm\u00ednio!\u201d<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">As retomadas de terras, que acontecem no sul do pa\u00eds desde a d\u00e9cada de 1970, s\u00e3o uma forma de tentar reparar o exterm\u00ednio n\u00e3o s\u00f3 da vida, mas do conhecimento ind\u00edgena. \u201cA terra \u00e9 nossa m\u00e3e, toda medicina \u00e9 da Natureza. Ent\u00e3o n\u00f3s queremos elas de volta\u201d, explica Woie. Kollung conta como se deu a decis\u00e3o de voltarem a S\u00e3o Francisco de Paula: \u201cEu disse para mim mesmo: antes do meu tio falecer, irm\u00e3o do meu pai, eu vou me levantar e vou buscar aquelas terras para minha na\u00e7\u00e3o. Mostrei este territ\u00f3rio para eles como meu pai mostrou para mim. Daqui a pouco eu vou falecer, minha irm\u00e3 tamb\u00e9m vai embora desta terra. Mas minha na\u00e7\u00e3o agora j\u00e1 conhece seu territ\u00f3rio. Hoje, estou aqui com o tataraneto do seu Vetch\u00e1\u201d.\u00a0<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/yW6VY_TfmS5882qir-DsH10mArv6wkRJSty4IppDxkWob_ts4RHv9Yd-CXPUWIMfeq4pIUvBp_rPr05msZeIRc0IEfZF6RgK5nINme5B3QAYDYCGbXswJXEj2hVc\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">\u201cA hist\u00f3ria \u00e9 viva\u201d, diz Woie. \u201cCada Xokleng que est\u00e1 aqui \u00e9 uma hist\u00f3ria viva que voltou\u201d.<br \/>\u00a0<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Segundo Woie, os ind\u00edgenas entraram com com pedido na FUNAI em 2011 para reconhecimento da \u00e1rea da Flona de S\u00e3o Francisco de Paula como territ\u00f3rio Xokleng, mas o processo est\u00e1 parado na institui\u00e7\u00e3o desde 2015. Com a imin\u00eancia da entrega da Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o \u00e0 Iniciativa Privada, os Xoklengs decidiram entrar na \u00e1rea no \u00faltimo 12 de dezembro.\u00a0<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/rxNm00xh_QqjFzJCvm5W8PPDiXZ4xqiFB21qp4kTly6pYaUV7krQUGfdj2dMtM4MT97NJskVVQSu7e23hvEz79rMc922tIH1Vp8KwBapAMum2zZpdv_DG2BZlK8R\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>PRIVATIZA\u00c7\u00c3O&nbsp;<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"645\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-1024x645.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3002\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-1024x645.png 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-300x189.png 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-768x484.png 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-500x315.png 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1-800x504.png 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/flona-3-1.png 1028w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula (Flona) faz parte do munic\u00edpio de S\u00e3o Francisco de Paula (RS) a 2h 30 min de Porto Alegre. A \u00e1rea \u00e9 gerida pelo ICMBio e est\u00e1 em vias de ser concedida \u00e0 iniciativa privada.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula se chama assim desde 1968. A \u00e1rea foi delimitada em 1945, quando o Instituto Nacional do Pinho (INP) criou um parque para experimento de planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores para extra\u00e7\u00e3o de madeira. Segundo Vanesa Arduin, historiadora que pesquisou o tema no seu trabalho de conclus\u00e3o na UFRGS, chamado \u201cFloresta \u2018Melhorada\u2019: <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/189494\">Uma an\u00e1lise sobre as pol\u00edticas de Reflorestamento no Rio Grande do Sul (1934-1965)<\/a>, a primeira a\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o por parte do Instituto foi o corte de arauc\u00e1rias nativas e o estudo do plantio desta \u00e1rvore. \u201cDepois de vinte anos estudando o monocultivo da Arauc\u00e1ria, viram que as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o favoreciam seu principal interesse que era a produ\u00e7\u00e3o da madeira em larga escala\u201d, explica Arduin. Em 1968, durante a Ditadura Militar, o governo extingue o INP e funda o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (INDF), que renomeia o parque administrado pelo INP para Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula. O INDF \u00e9 criado com a miss\u00e3o de desenvolver intensos programas de incentivo fiscal para os produtores que quisessem investir no reflorestamento. \u201cHoje S\u00e3o Francisco de Paula \u00e9 o munic\u00edpio com segunda maior \u00e1rea dedicada ao plantio de \u00e1rvores e o maior produtor de Pinus do estado, \u00e1rvore escolhida nas serras de S\u00e3o Paulo ao Rio Grande do Sul, pelas condi\u00e7\u00f5es de plantio e por sua celulose ser de fibra longa, a mesma da Arauc\u00e1ria, utilizada para fabrica\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is mais resistentes\u201d, comenta a historiadora Vanesa Arduin.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/sFCVsf0rA4LooA-aqOCv9LWMkcr9WAQWb8vORdlI5u_A1Vth-4Wpx0xPsb51RZUeomcyZ2jjyQcFeiKq_RjSwWwmIu-YNji0lVU3qSegNzUDSR358xgI0bocb5KV\" alt=\"\"\/><figcaption> Diversos caminh\u00f5es como este, carregados de madeira para venda, passaram  em frente \u00e0 retomada na manh\u00e3 de segunda | Foto: Alass Derivas <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">A Flona possui 1617 hectares, sendo que, segundo o site do ICMBio, 600 deles s\u00e3o de \u00e1rvores plantadas para comercializa\u00e7\u00e3o de madeira (arauc\u00e1ria, eucalipto e pinus) em cima de campos nativos, o que representa 40% da \u00e1rea total. Os 900 restantes s\u00e3o de mata nativa. Desde 2004, a Flona \u00e9 gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio).&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A Floresta Nacional est\u00e1 em vias de ser concedida \u00e0 iniciativa privada. Em 28 de maio de 2020, o <a href=\"https:\/\/documentacao.socioambiental.org\/ato_normativo\/UC\/5083_20200911_112706.pdf\">Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o publicou o decreto 10.381<\/a>, que qualifica a Floresta Nacional de Canela e a de S\u00e3o Francisco de Paula, no \u00e2mbito do Programa de Parcerias de Investimentos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica &#8211; PPI e inclu\u00eddos no Programa Nacional de Desestatiza\u00e7\u00e3o \u2013 PND, \u201cpara fins de concess\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos de apoio \u00e0 visita\u00e7\u00e3o, \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e \u00e0 gest\u00e3o das unidades.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">No dia 11 de setembro de 2020, foi realizada uma audi\u00eancia p\u00fablica na C\u00e2mara de Vereadores de S\u00e3o Francisco de Paula para tratar da licita\u00e7\u00e3o da concess\u00e3o dos servi\u00e7os da Flona. A audi\u00eancia est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zA9IQzKMAC0\">dispon\u00edvel na \u00edntegra no canal do ICMBio no Youtube<\/a>.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Na divulga\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia p\u00fablica, o site do ICMBio traz diversos argumentos defendendo a concess\u00e3o \u00e0 iniciativa privada, entre eles: \u201cas concess\u00f5es atraem mais visita\u00e7\u00e3o e contribuem para o desenvolvimento socioecon\u00f4mico em todo o entorno, al\u00e9m de gerar emprego e renda\u201d. <a href=\"https:\/\/www.icmbio.gov.br\/portal\/ultimas-noticias\/20-geral\/11346-governo-promove-audiencia-publica-para-concessao-da-flona-de-sao-francisco-de-paula-2\">A inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o modelo de concess\u00f5es de parques dos Estados Unidos da Am\u00e9rica<\/a>.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">At\u00e9 o momento, nenhuma empresa ganhou a licita\u00e7\u00e3o. Ou seja, a negocia\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">E os ind\u00edgenas Xoklengs entraram na disputa: <br \/>\u201cEstamos prontos para lutar e morrer pelo nosso territ\u00f3rio. Esta terra \u00e9 uma heran\u00e7a nossa e heran\u00e7a n\u00e3o se vende, n\u00e3o se troca, n\u00e3o se d\u00e1\u201d, defende Woie Patt\u00e9. \u201cO grande esp\u00edrito nos chamou e n\u00f3s estamos atendendo. Tem v\u00e1rias coisas que o branco n\u00e3o entende, como isso, o que \u00e9 esse chamado. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a entender, mas \u00e9 preciso respeitar\u201d.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/Hgjku0rYIqPj57YTyXnKYyGyhFbFknr9_KXfCRLYiErxjWqq18RTlT852-mxbbEgQf1q4I3ttsFIaqSAIzct7zCVf-DbZbj7lfDi8qEeX7RnOtUGaGULFebhQasi\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Os ind\u00edgenas Xoklengs est\u00e3o acampados na regi\u00e3o de entrada do Floresta, onde hoje \u00e9 uma planta\u00e7\u00e3o de Pinus. Estas \u00e1rvores s\u00e3o consideradas pelo governo e por muitas empresas como reflorestamento. Nem n\u00f3s, da Amigos da Terra Brasil, nem os ind\u00edgenas consideramos que monocultura de \u00e1rvores seja floresta. A historiadora Vanesa Arduin lembra que o que muitos chamam de reflorestamento era plantio para a explorar madeira. &#8220;Hoje se chama Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se fundou pra conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e sim para conservar a explora\u00e7\u00e3o a longo prazo&#8221;, destaca. S\u00e3o 40% de territ\u00f3rio com \u00e1rvores plantadas, que inclusive precisam de manejo. O que ser\u00e1 feito com esta \u00e1rea se a Floresta Nacional for realmente concedida \u00e0 iniciativa privada?&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Apesar de estarem h\u00e1 poucos dias na \u00e1rea, as mulheres Xoklengs j\u00e1 buscam recuperar a flora nativa da regi\u00e3o e cultivar sua medicina tradicional: \u201cN\u00f3s cuidamos das matas, n\u00f3s somos as matas. Da mata vem ra\u00edzes, alimento, a taquara. Aqui n\u00e3o tem taquara, n\u00e3o tem mel de abelha, n\u00e3o tem fruta nem raiz nativa, a nossa medicina tradicional, que tinha aqui, n\u00e3o tem mais, s\u00f3 tem pinus de reflorestamento. N\u00e3o se v\u00ea nem um p\u00e9 de uma nativa para alegrar a gente, s\u00f3 tem esse pinus a\u00ed, plantado, para dar riqueza para o governo. Mas n\u00f3s precisamos da mata, de onde vem nosso alimento. Acabou a mata, mas n\u00f3s somos a nativa desta terra. Os nativos Xokleng est\u00e3o aqui\u201d<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/0HUmf9s3hYK_2JkOfNHLrg1SPZ7yl4RSTcxULpXL7RLcTJQyEt4naa3WKHRHn8BE7CsnE2OEgcLIfqd0f-ZixLNzMJdVNDIVUNW4Xbye6hpvoOmckRPKNnEq18G6\" alt=\"\"\/><figcaption> Kullung resguarda suas mudas de guin\u00e9  |  Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Yoko Camlem \u00e9 filha de Voia Camlem, prima de Kollung, sobrinha do Vetch\u00e1 Tei\u00ea. Veio, com seu n\u00facleo familiar, de Santa Catarina para se somar na luta. Trouxe consigo, mudas de bananeira e de guin\u00e9. \u201cEu trouxe para que possa servir a toda comunidade que venha morar neste lugar, pensando no futuro, pensando nos meus netos, bisnetos, para que eles possam em breve utilizar destas plantas\u201d.&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/WjaVKDTzdFLUJ2wzcph7U6jb5yeqQ-iTyiNoFHPmTZnx3jrv869JXJ6ifvBz3ASfH0tLRcoJ_DPgDEAj_Hf9_zqcbhzuzT0sPMGb7ZyUEoAEYObLQgzgzuhyloxc\" alt=\"\"\/><figcaption> Yoko Camlem veio, com seu n\u00facleo familiar, de Santa Catarina para se somar na luta   |  Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil     <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\"><p style=\"text-align:justify\">Woie conta que os ind\u00edgenas chegaram na retomada no dia 12, de corpo presente, mas sempre estiveram espiritualmente. \u201cEnt\u00e3o precisamos fazer a ocupa\u00e7\u00e3o, a autodemarca\u00e7\u00e3o, com nosso corpo, para que sejamos ouvidos. A lei possui uma balan\u00e7a, mas porque quando \u00e9 para o nosso lado o peso nunca vale?<br \/><br \/>Um exemplo de que a balan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 igual \u00e9 a possibilidade do Supremo Tribunal Federal adotar, nos julgamentos, a tese do Marco Temporal. <a href=\"https:\/\/racismoambiental.net.br\/2020\/10\/31\/como-a-luta-do-povo-xokleng-chegou-ao-stf-e-vai-decidir-o-futuro-das-terras-indigenas\/\">O parecer 001\/2017 da Advocacia geral da Uni\u00e3o dita que povos ind\u00edgenas s\u00f3 t\u00eam direito a reivindicar terras que j\u00e1 estavam ocupadas em 5 de outubro de 1988, dia em que a Constitui\u00e7\u00e3o foi promulgada<\/a>. Ou seja, todas retomadas que aconteceram depois de 1988 seriam despejadas. At\u00e9 parece que ind\u00edgenas n\u00e3o seguiram sendo expulsos de suas terras a partir de 1988, como \u00e9 o caso dos Guaranis Kaiow\u00e1s v\u00edtimas dos latifundi\u00e1rios no Centro-oeste; dos Yanomamis, atingidos pelo garimpo ilegal na Amaz\u00f4nia; dos Krenaks, com seus rios polu\u00eddos pela lama da mineradora multinacional Vale do Rio Doce. A vota\u00e7\u00e3o do Marco Temporal foi adiada duas vezes este ano e ainda n\u00e3o tem nova data. Ela <a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2020\/05\/mpf-recomenda-funai-devolva-mj-procedimentos-regularizacao-terras-indigenas\/\">inviabilizou a demarca\u00e7\u00e3o de pelo menos 27 terras ind\u00edgenas<\/a>, que tiveram seus processos devolvidos do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica para a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). Al\u00e9m disso, outras 310 terras ind\u00edgenas est\u00e3o com processos de demarca\u00e7\u00e3o estagnados, de acordo com o Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (<a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/\">Cimi<\/a>). O tema chegou ao STF com o julgamento envolvendo justamente o territ\u00f3rio Ibirama Laklan\u00f5, do povo Xokleng, que \u00e9 alvo de uma a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse \u2013 com base no \u201cmarco temporal\u201d \u2013 movida pelo Estado de Santa Catarina. H\u00e1 dois anos que ind\u00edgenas e apoiadores est\u00e3o mobilizados lutando pela n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o do Marco Temporal.<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/ngS2tvIA5UvglY_DCKNiBHwD1_GunbZLwgqDZ42EUhz7Zh0bn_dMiu5cN_nB8iv7hRjCcJ0ab5YrrapkQqVY3EVKnWgPHRZ1tNhn7VH62gqEcRwalDDDRpO8C9IM\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/ZBwWFXiwSL_473VIl8UoYvhhORFJi1LvuFihmW-MgsC6G1yb2wJwomzeotQ8F3Yntba5vi88Ee3NJ5Ti6ucxTpWgdzGUL26cqJ-Q9SnUdZT1gJNAY3lxBv5iDAMV\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/5Qrqv2Lcvw8EJ1XgDyKPJlH0WM4MvJwfG5iJ2E7c8MA0Adj5pvDE_08agCcUDlkqjtnKCH4xl_xgUmN5axkSuKwwF97YCW1i3soc8IB7alzIjgAfr_ysFeNHoh-W\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/nmlXacuF3u3kn3fy0M6a0MLBuXLDiEnq-xIGwkWSO9MXGjsDgPmTfCTr_zS3sIM3a9Qfz21ubFRtEbg2_ml5Vwfovox7E2Kz335TBlFTpnE2WjCy273uU41thW4Z\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\u201cColocamos nosso corpo para tentar fazer com que esta balan\u00e7a da Justi\u00e7a seja de igual para igual\u201d, insiste Woie. Fizemos esta retomada neste momento porque n\u00e3o tivemos resposta da Funai e agora vem essa not\u00edcia da privatiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o queremos desculpas, queremos a homologa\u00e7\u00e3o, a demarca\u00e7\u00e3o\u201d. Woie alega que n\u00e3o quer que seu povo seja apenas artigo de museu, hist\u00f3ria contada pelos brancos.\u201c\u00c9 f\u00e1cil colocar turistas na sede e falar que era um territ\u00f3rio ind\u00edgena, mostrar no museu. Mas a\u00ed quando chegamos aqui no parque fecham a porta na nossa cara, pedem reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Nossas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es precisam desta terra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Jovem lideran\u00e7a, estudante universit\u00e1rio, Woie Kriri Sobrinho Patt\u00e9 \u00e9 consciente que a luta que seu povo est\u00e1 travando \u00e9 arriscada. Sabe not\u00edcias de outros povos, sabe o pa\u00eds que vive, sabe a viol\u00eancia incrustada no nosso territ\u00f3rio. Por isso, faz um apelo.&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/cX91B-iJfHTL4VZk7-_4rgMxjFGL0WX1tEQGX6xuXXGLx2N-SE6TWWZUIwHdap3R0vwP-mPR8uuF_nsQm65iDJ-0Nkn3ehpvfhPPiTpeisXlpXttWFdsnuXvWJae\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">\u201cQuero dizer a sociedade que ou\u00e7am nosso chamado, ou\u00e7am nosso clamor de sobreviv\u00eancia. Que fa\u00e7am este governo nos ouvir e devolver para n\u00f3s o que \u00e9 nosso. Os governos internacionais precisam pressionar a respeitarem o que \u00e9 nosso. Existem tratados internacionais que precisam ser v\u00e1lidos. A Constitui\u00e7\u00e3o Federal precisa ser respeitada, precisam demarcar a nossas terras. Estes pa\u00edses europeus que ocuparam o Brasil precisam reparar nossas terras roubadas. A ONU precisa se posicionar. Porque n\u00f3s n\u00e3o sabemos mais para onde correr. Porque quando uma lideran\u00e7a se levanta para defender seu povo, ele \u00e9 criminalizado, processado. Processado \u00e9 pouco, quando n\u00e3o \u00e9 esperado em uma esquina, numa beira de estrada e morto, assassinado, e nunca acontece nada com quem mata. Foi acidente, atropelamento. S\u00f3 lideran\u00e7as s\u00e3o atropeladas? Hoje, sou eu que estou falando. N\u00e3o tenho medo de morrer, tenho medo de perder nosso territ\u00f3rio. Pode me ca\u00e7ar, pode me mandar amea\u00e7as. Eu tenho d\u00f3 dessas pessoas que n\u00e3o respeitam o seu pr\u00f3ximo. Sou uma lideran\u00e7a Xokleng e vou lutar pelo povo Xokleng. Vou lutar para que a futura gera\u00e7\u00e3o do povo Xokleng continue viva. O que eles n\u00e3o sabem \u00e9 que quando matam uma lideran\u00e7a, tem v\u00e1rias outras para assumir o lugar. Podem derrubar um homem, mas h\u00e1 mil homens de p\u00e9 para ocupar este espa\u00e7o. Somos a natureza. Assim como uma \u00e1rvore d\u00e1 sua semente, n\u00f3s damos a nossa, que j\u00e1 est\u00e3o prontas para germinar\u201d.&nbsp;<br \/><\/p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/5W8q5WabCiA-Fw2yjx0LAV7Uz2yI7m_6XZngVZFCLKeKEoLdfekThmocRV3E92VXB6VyGFLuPk0gcFEUb4ZQBbPND8TdPrZA8nzh_VThtJHJ10-qOg6xdodOIKhq\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><p style=\"text-align:justify\">Ao lado de guerreiros como Woie e Merong, as filhas de Vetch\u00e1 Tei\u00ea e Voio Camlem, as duas Yoko e Kullung, colocam seus corpos por uma real conserva\u00e7\u00e3o da mata nativa, o que, como disse Kulung, \u00e9 o que ela se considera, uma mata nativa. Colocando seus corpos, reparam a hist\u00f3ria, reconfigurando o territ\u00f3rio injusto deste pa\u00eds e tamb\u00e9m semeando para todos um mundo em que seja poss\u00edvel respirar e ser livre.&nbsp;<\/p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Veja mais fotos da retomada:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/SnsLhIEwdRFWW4gDIa7ouKW_6ZOAJHpCkuZrtvneviT11FWmLR3cT7iwhkQ6_TblwiFJwfiJMDoNyzYrar0SmBnQ8i4fylUgsbmj25WZ2AhSoAODZ1Ptk9gTJPrO\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/jDnHbd0bg7qtt6d52z0gtNVq0xfJLnzOOaPgCU9WON8gwmUFobBpGT4i_wpURRVUtKPHXYDOaAI4XiQeF4-Q-1nHTiRgaAd2W9DwNjISlhZbPS5ZxQByn3LkXoxU\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/TL-y4JMytWTgzBF9F1U1nR-kvvdUohC4q3QRgFHMAY3j-MWnFL_MpsHDtAPYhSsq_4xquxpV_0bPWuwjR_NN6ka5WVh8nLo4dc9HF22wN89GqZEaupfzgCWxdZ71\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/SEhce7r5PGX9E_kDA--9YT4JFCURW9MZmMMxENJk1ve2WvpCrbO1CnP28lM9OUgWuBdH8CYCVX_7We7339Geqh44czS-hGWY6-SG6N6k8bIHTKa5WCFsRru0wcCu\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/qU9s1shX_cTr5Bxqxov6lM91Um9EiCsOixSsY0HmfiHt6TEpVqGu621y-VnWufbCAzmuOEP0TY-kFjXnuJEp0ufOYS75Yc8_jaUcgMLub2Ck1TEDkA7cCjkeMNhX\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/mhIudOfVyEP9GL9yUhXM71-gShNZn8YgFKHaYdpkVqK9ZM6XEt6SQOPq44YWrGBz8pwxjic9KLs14QaPeUYIzyb7Y1Imc3Hhk_UxM7b9enxqQu0c5X_V7hFicpDE\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/ei6t6iV4z1n1Tn-EztnFlit7ahHCKHe3eIeY6OC95PfgahQHRhqff4dun095F3VaO_2UD8IRlMkMlpBrxqHceO7F2kSMxjxq4tO7exA6QbKRwms3_rAfmgcxMh37\" alt=\"\"\/><figcaption> Foto: Alass Derivas\/Amigos da Terra Brasil    <\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A luta do povo Xokleng ao retomar seu territ\u00f3rio ancestral, em que agiram bugreiros no passado e onde hoje o Estado amea\u00e7a com reintegra\u00e7\u00e3o de posse&nbsp; H\u00e1 dois anos, Vetch\u00e1 Tei\u00ea Xokleng Konglui morreu com aproximadamente 100 anos. Quando era um beb\u00ea de colo, foi expulso com a fam\u00edlia do territ\u00f3rio ind\u00edgena Xokleng, onde hoje \u00e9 a Floresta Nacional (Flona), Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o Federal em S\u00e3o Francisco de Paula. O umbigo de Vetch\u00e1 est\u00e1 enterrado neste solo.&nbsp; \u201cMeu pai me trouxe aqui quando ainda era mata nativa e mostrou para mim e para os seus netos onde seu umbigo est\u00e1 enterrado\u201d conta Kullung Vetch\u00e1 Tei\u00ea, hoje com 63 anos. \u201cNo caminho ele vinha mostrando nossos antepassados. Vinha contando que l\u00e1 dentro da Flona tem a oca dos nossos parentes, ferramentas, trilhas\u201d. Vetch\u00e1 Tei\u00ea foi um dos in\u00fameros Xoklengs que nasceram nesta localidade e tiveram que sair para sobreviver \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos bugreiros, bandidos contratados pelo governo e por empresas colonizadoras para ca\u00e7ar os ind\u00edgenas nas matas e liberar o territ\u00f3rio para alem\u00e3es e italianos que chegavam no sul do Brasil.&nbsp; No dia 12 de dezembro deste ano, Kullung e Yoko, filhas do seu Vetch\u00e1, com suas fam\u00edlias e parentes apoiadores ingressaram na Floresta Nacional para ficar. \u201cNo passado, mataram meus parentes, atropelaram, cortaram as mulheres gr\u00e1vidas, mataram as crian\u00e7as, cortaram a orelha delas, acabaram com minha na\u00e7\u00e3o, aqui neste lugar. Mas gra\u00e7as a Deus sobrou um grupo, que antigamente era botocudo, hoje \u00e9 Xokleng. Estamos vivos, estamos aqui!\u201d, afirma Kullung. S\u00e3o cerca de 30 pessoas, sendo 14 crian\u00e7as; as duas filhas de Vetch\u00e1 e suas fam\u00edlias; a fam\u00edlia de Yoco Camlem, prima de Kullung, filha de Voia Camlem, que \u00e9 irm\u00e3o de Vetch\u00e1 Tei\u00ea; a fam\u00edlia de Woie Kriri Sobrinho Patte; e Merong Kamak\u00e3, guerreiro Patox\u00e1 H\u00e3-h\u00e3-h\u00e3e que \u00e9 solid\u00e1rio \u00e0 luta dos parentes. Entre as crian\u00e7as, est\u00e1 o tataraneto de Vetch\u00e1. Come\u00e7ava ali a retomada hist\u00f3rica do territ\u00f3rio ancestral do povo Xokleng, no Rio Grande do Sul. Uma a\u00e7\u00e3o direta, puxada por mulheres, de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica por parte dos Xoklengs contra as viol\u00eancias do Estado e seus ramos opressores: a justi\u00e7a, a pol\u00edcia, as mil\u00edcias (como os bugreiros).&nbsp;&nbsp; REINTEGRA\u00c7\u00c3O DE POSSE Nos \u00faltimos dias, os descendentes do seu Vetch\u00e1 ocuparam com barracos de lona uma pequena parte da Floresta Nacional de S\u00e3o Francisco de Paula, criada em 1968 e desde 2004 administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio). A \u00e1rea ocupada est\u00e1 na lateral direita da entrada do parque, perto da RS-484, solo coberto por planta\u00e7\u00e3o de Pinus. Ap\u00f3s alguns dias de conv\u00edvio pac\u00edfico com os funcion\u00e1rios da Flona e de tentativas de di\u00e1logo, em conjunto com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, os ind\u00edgenas Xoklengs foram surpreendidos pelas a\u00e7\u00f5es da coordena\u00e7\u00e3o da Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o, hoje chefiada por Edenice Brand\u00e3o \u00c1vila de Souza. Segundo os ind\u00edgenas, a luz usada para carregar os celulares, na guarita de entrada da Flona, foi cortada. Nesta ter\u00e7a (29), a coordena\u00e7\u00e3o fez uma postagem com o t\u00edtulo \u201ccombatendo Fake News\u201d, em que informa sobre a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, de luz e de internet. Na postagem, diz que a luz estaria dispon\u00edvel das 7h \u00e0s 19h, enquanto houvesse vigilante na guarita. Na segunda-feira, enquanto est\u00e1vamos l\u00e1, das 7h da manh\u00e3 \u00e0s 14h, foram poucos os momentos em que avistamos algum funcion\u00e1rio presente na entrada.&nbsp; Em outro movimento n\u00e3o esperado pelos ind\u00edgenas e at\u00e9 pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, a coordena\u00e7\u00e3o da Flona solicitou \u00e0 Justi\u00e7a Federal de Caxias do Sul a reintegra\u00e7\u00e3o de posse da \u00e1rea. No dia 23 de dezembro, v\u00e9spera do Natal, a ju\u00edza federal plantonista, Fernanda Cusin Pertile, emitiu mandado favor\u00e1vel \u00e0 retirada dos ind\u00edgenas. Foi um final de semana de tens\u00e3o. \u201cN\u00f3s queremos ser ouvidos, ter uma audi\u00eancia com ICMBio, com Minist\u00e9rio P\u00fablico, com a ju\u00edza\u201d, reivindica Woie Kriri Sobrinho Patt\u00e9, uma das lideran\u00e7as da retomada Xokleng. \u201cNos ou\u00e7am porque estamos aqui! \u00c9 f\u00e1cil estar no escrit\u00f3rio, atr\u00e1s do computador e mandar uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Existem leis internacionais que o governo brasileiro aderiu [Conve\u00e7\u00e3o 169]. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT)&nbsp; diz claramente que precisamos ser ouvidos\u201d.&nbsp; A a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o tinha como prazo a \u00faltima segunda, dia 28, no entanto at\u00e9 o momento n\u00e3o ocorreu. Nos dias anteriores, a Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU) e o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) tentaram reverter a a\u00e7\u00e3o. O MPF entrou com agravo de instrumento, mas este foi indeferido pelo plant\u00e3o do Tribunal Regional Federal da 4a Regi\u00e3o. A DPU entrou com reclama\u00e7\u00e3o junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) aludindo \u00e0 decis\u00e3o do Ministro Edson Fachin de n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse em terras ind\u00edgenas durante a pandemia de Coronav\u00edrus para evitar que a doen\u00e7a se alastre. No dia 26, a Pol\u00edcia Federal de Caxias do Sul se manifestou recomendando o adiamento da a\u00e7\u00e3o justamente devido \u00e0 pandemia.&nbsp; A reintegra\u00e7\u00e3o de posse n\u00e3o ocorreu at\u00e9 o momento, embora o STF n\u00e3o tenha dado nenhum retorno \u00e0 reclama\u00e7\u00e3o da DPU at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta mat\u00e9ria. \u201cEu n\u00e3o vou sair daqui. Vou ficar aqui. Hoje, se a Pol\u00edcia Federal vir, eu deito no ch\u00e3o e podem me matar. S\u00f3 saio daqui dentro do caix\u00e3o\u201d, bateu o p\u00e9 a senhora Kollung.&nbsp;&nbsp; No dia 24 de dezembro, o Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) se manifestou em nota recomendando a suspens\u00e3o da reintegra\u00e7\u00e3o de posse e o encaminhamento de uma solu\u00e7\u00e3o negociada.&nbsp; Desde o dia 23, os Xoklengs Konglui j\u00e1 receberam a visita da Pol\u00edcia Federal, da Pol\u00edcia Militar e do Oficial de Justi\u00e7a Federal.&nbsp; \u201cGostaria que o governo nos ouvisse, cara a cara, mas por enquanto s\u00f3 vejo amea\u00e7as contra n\u00f3s. O que o governo est\u00e1 pensando? N\u00f3s somos raiz, n\u00f3s somos donos desta terra\u201d, insiste Kollung.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, para al\u00e9m das interven\u00e7\u00f5es do governo, tamb\u00e9m chegaram visitas de solidariedade. N\u00f3s da Amigos da Terra Brasil, articulado com o Conselho Indigenista Mission\u00e1rio, estivemos na segunda-feira no territ\u00f3rio retomado. Prontos para cobrir qualquer viola\u00e7\u00e3o e produzir este conte\u00fado. Tamb\u00e9m subimos a serra com a solidariedade da Frente Quilombola RS. O Quilombo dos Machado, localizado na<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3006,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[600,602,1837,5,1835],"tags":[],"class_list":["post-2998","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antirracismo","category-justica-ambiental-nas-cidades","category-retomadas-e-direito-a-cidade","category-soberania-alimentar","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2998"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9806,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2998\/revisions\/9806"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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