{"id":2130,"date":"2020-03-09T15:34:38","date_gmt":"2020-03-09T18:34:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=2130"},"modified":"2025-06-17T15:37:35","modified_gmt":"2025-06-17T18:37:35","slug":"mulheres-atingidas-por-barragens-em-altamira-sao-exemplo-de-luta-por-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=2130","title":{"rendered":"Mulheres Atingidas por Barragens em Altamira s\u00e3o exemplo de luta por direitos"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:justify\">\nO dia 8 de mar\u00e7o \u00e9 um marco internacional de luta das mulheres por direitos. Em Altamira, no Par\u00e1, as mulheres impactadas pela barragem de Belo Monte s\u00e3o exemplo de for\u00e7a e resist\u00eancia no enfrentamento aos desafios trazidos pela constru\u00e7\u00e3o de grandes empreendimentos. Com a chegada da hidrel\u00e9trica no Rio Xingu, mais de 10 mil fam\u00edlias precisaram sair de seus lares para ir morar em casas pr\u00e9-moldadas, desconectando-se do modo de vida que estavam acostumadas, a maioria das fam\u00edlias perdeu o v\u00ednculo comunit\u00e1rio e, em raras situa\u00e7\u00f5es, foi poss\u00edvel manter a rede de apoio e solidariedade que existia entre as mulheres h\u00e1 tantos anos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\nA popula\u00e7\u00e3o de Altamira aumentou de 99 mil habitantes em 2010, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), para 170 mil, segundo a prefeitura municipal de Altamira, em levantamento de 2013. O incremento populacional trazido pela constru\u00e7\u00e3o da barragem n\u00e3o foi acompanhado de pol\u00edticas p\u00fablicas ou por parte da empresa para estabelecer toda estas pessoas, em maioria trabalhadores e migrantes em busca de promessas de prosperidade. Com as obras para a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, os RUCs (Reassentamentos Urbanos Coletivos) constru\u00eddos pela empresa longe do centro para reassentar as fam\u00edlias impactadas, com escolas, sa\u00fade e transporte p\u00fablico deficit\u00e1rios, favoreceu um incremento na viol\u00eancia do munic\u00edpio. Como relata Francinete Novais, do RUC Laranjeira: <em>\u201ca empresa faz a propaganda que a casa \u00e9 boa, mas vai fazer quatro anos que eu moro nesta casa e eu j\u00e1 precisei reformar quatro vezes\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\nA cidade chegou a liderar o ranking das mais violentas do pa\u00eds em 2017 e caiu para o segundo lugar em 2019 segundo o Atlas da Viol\u00eancia. M\u00e3es, av\u00f3s, irm\u00e3s, tias, passaram a ver a juventude ser morta frequentemente. As creches e escolas que levam a marca da Prefeitura Municipal de Altamira e da empresa Norte Energia est\u00e3o sucateadas e n\u00e3o conseguem atender a toda a popula\u00e7\u00e3o. Hoje, h\u00e1 poucas alternativas para que os jovens possam ter seus momentos de lazer e educa\u00e7\u00e3o. Junto a isso, cresce tamb\u00e9m a viol\u00eancia contra a mulher, que se d\u00e1 para al\u00e9m de quando ocorre um feminic\u00eddio, ela acontece na dificuldade de di\u00e1logo com a empresa e as lideran\u00e7as mulheres. Est\u00e1 tamb\u00e9m na burocracia no atendimento de sa\u00fade que torna um entrave na realiza\u00e7\u00e3o de exames para as mulheres na sa\u00fade p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\nEm Altamira, as mulheres enfrentam o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o ao viver nos RUCs, localizados na periferia da cidade. Ivanir, desempregada, relata qual a situa\u00e7\u00e3o que passa ao procurar um emprego formal: <em>\u201cj\u00e1 coloquei v\u00e1rios curr\u00edculos, quando a pessoa v\u00ea que sou do RUC \u00c1gua Azul e dizem que aqui \u00e9 muito violento, mas eu moro aqui \u00e0 5 anos\u201d. <\/em>A dificuldade em conseguir emprego na regi\u00e3o central do munic\u00edpio e a falta de oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de renda dentro dos&nbsp; pr\u00f3prios reassentamentos. Francinete descreve que <em>\u201cv\u00e1rias mulheres que eu conhe\u00e7o est\u00e3o desempregadas. Eles <\/em>(Norte Energia) <em>n\u00e3o colocaram nenhuma atividade para gente, nem um curso, nada. Os homens t\u00eam prioridade para trabalhar. N\u00f3s mulheres tamb\u00e9m queremos trabalhar, n\u00e3o queremos depender de homem\u201d<\/em>, defende.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\nA gest\u00e3o financeira das fam\u00edlias tem sido um dos principais desafios com o desemprego de jovens e mulheres aliado ao pre\u00e7os na tarifa de energia el\u00e9trica. Hoje o valor pago pela energia na regi\u00e3o \u00e9 a mais cara do pa\u00eds, cerca de R$ 0,67\/KWh.Em compara\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Paulo, R$ 0,34\/KWh, o valor \u00e9 50% mais caro, segundo dados da ANEEL (Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica). Al\u00e9m de receber os impactos de Belo Monte, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve benef\u00edcios na conta de luz, pelo contr\u00e1rio a conta de luz que antes era em m\u00e9dia de R$ 70,00 mensais, passou a ser R$ 300,00 mensais.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\nO atual processo de desenvolvimento do modelo capitalista e tamb\u00e9m do atual modelo energ\u00e9tico \u00e9 o que mais viola direito humanos e neste processo as mulheres s\u00e3o as mais impactadas. Quando uma barragem \u00e9 instalada em um territ\u00f3rio, as mulheres s\u00e3o as que mais sofrem. Como afirma Josiane, uma das atingidas e reassentadas: <em>\u201cquando falta de \u00e1gua, somos n\u00f3s mulheres que mais sofremos, pois somos n\u00f3s que temos que cozinhamos, limpamos a casa, lavamos roupa\u201d<\/em>. Por isso, muitas vezes, a defesa da \u00e1gua passa a ser uma tarefa das mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Tamb\u00e9m, quando a hidrel\u00e9trica chega aos territ\u00f3rios, s\u00e3o as mulheres as primeiras a se organizarem e lutarem por seus direitos e, de modo consequente, passam a ser perseguidas por sua for\u00e7a ser uma amea\u00e7a a conclus\u00e3o do megaempreendimento. Infelizmente, temos a triste experi\u00eancia do ocorrido com Dilma e Nicinha, lutadoras contra a viola\u00e7\u00e3o de direitos na constru\u00e7\u00e3o das barragens, que foram assassinadas por colocar suas for\u00e7as em defesa de seus territ\u00f3rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">E diante de tantos desafios, as mulheres t\u00eam seguido firmes. Seguem como protagonistas em defesa da vida, do corpo-territ\u00f3rio, da vida comunit\u00e1ria, da vida dos seus territ\u00f3rios e da manuten\u00e7\u00e3o de seu modo de vida. \u00c9 neste sentido que passam a ser guardi\u00e3s dos territ\u00f3rios, sendo co-criadoras para resistir e reinventar a luta em defesa das vidas, por democracia e por direitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Veja o depoimento das mulheres atingidas por barragens de Altamira que, tomadas de consci\u00eancia dos seus direitos, seguem tomando voz e lutando contra a viola\u00e7\u00e3o promovidas pelo sistema capitalista-patriarcal:&nbsp;<\/p>\n\n<iframe width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uO2kK0xwCuk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 8 de mar\u00e7o \u00e9 um marco internacional de luta das mulheres por direitos. 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Ivanir, desempregada, relata qual a situa\u00e7\u00e3o que passa ao procurar um emprego formal: \u201cj\u00e1 coloquei v\u00e1rios curr\u00edculos, quando a pessoa v\u00ea que sou do RUC \u00c1gua Azul e dizem que aqui \u00e9 muito violento, mas eu moro aqui \u00e0 5 anos\u201d. A dificuldade em conseguir emprego na regi\u00e3o central do munic\u00edpio e a falta de oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de renda dentro dos&nbsp; pr\u00f3prios reassentamentos. Francinete descreve que \u201cv\u00e1rias mulheres que eu conhe\u00e7o est\u00e3o desempregadas. Eles (Norte Energia) n\u00e3o colocaram nenhuma atividade para gente, nem um curso, nada. Os homens t\u00eam prioridade para trabalhar. N\u00f3s mulheres tamb\u00e9m queremos trabalhar, n\u00e3o queremos depender de homem\u201d, defende. A gest\u00e3o financeira das fam\u00edlias tem sido um dos principais desafios com o desemprego de jovens e mulheres aliado ao pre\u00e7os na tarifa de energia el\u00e9trica. Hoje o valor pago pela energia na regi\u00e3o \u00e9 a mais cara do pa\u00eds, cerca de R$ 0,67\/KWh.Em compara\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Paulo, R$ 0,34\/KWh, o valor \u00e9 50% mais caro, segundo dados da ANEEL (Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica). Al\u00e9m de receber os impactos de Belo Monte, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve benef\u00edcios na conta de luz, pelo contr\u00e1rio a conta de luz que antes era em m\u00e9dia de R$ 70,00 mensais, passou a ser R$ 300,00 mensais. O atual processo de desenvolvimento do modelo capitalista e tamb\u00e9m do atual modelo energ\u00e9tico \u00e9 o que mais viola direito humanos e neste processo as mulheres s\u00e3o as mais impactadas. Quando uma barragem \u00e9 instalada em um territ\u00f3rio, as mulheres s\u00e3o as que mais sofrem. Como afirma Josiane, uma das atingidas e reassentadas: \u201cquando falta de \u00e1gua, somos n\u00f3s mulheres que mais sofremos, pois somos n\u00f3s que temos que cozinhamos, limpamos a casa, lavamos roupa\u201d. Por isso, muitas vezes, a defesa da \u00e1gua passa a ser uma tarefa das mulheres.&nbsp; Tamb\u00e9m, quando a hidrel\u00e9trica chega aos territ\u00f3rios, s\u00e3o as mulheres as primeiras a se organizarem e lutarem por seus direitos e, de modo consequente, passam a ser perseguidas por sua for\u00e7a ser uma amea\u00e7a a conclus\u00e3o do megaempreendimento. Infelizmente, temos a triste experi\u00eancia do ocorrido com Dilma e Nicinha, lutadoras contra a viola\u00e7\u00e3o de direitos na constru\u00e7\u00e3o das barragens, que foram assassinadas por colocar suas for\u00e7as em defesa de seus territ\u00f3rios.&nbsp; E diante de tantos desafios, as mulheres t\u00eam seguido firmes. 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