{"id":1553,"date":"2019-09-18T11:52:22","date_gmt":"2019-09-18T14:52:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/?p=1553"},"modified":"2025-06-17T15:50:38","modified_gmt":"2025-06-17T18:50:38","slug":"o-ganha-ganha-por-tras-das-queimadas-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=1553","title":{"rendered":"O ganha-ganha por tr\u00e1s das queimadas da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Como o agroneg\u00f3cio e o mercado financeiro lucram com a devasta\u00e7\u00e3o da maior floresta tropical do mundo&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Texto, fotos e v\u00eddeos: Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil   <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/cU7IVW6PUIqKlWxH2TJfjF3xD4Iw4FDJMn1x5BGZbTQvO9bivSK_wK4P9INwMFqphU764yIgKNw5A50DZ_2nvc_3nrMLhY2H100-go3QS4FGV78A92DQqFd3-AN1qBejVJcAzJCr\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Com os p\u00e9s sobre a cinza do que antes era floresta, o Paj\u00e9 Isaka Huni Kuin expressa sua tristeza. \u201cEles n\u00e3o sabem a medicina que tem dentro da mata. Pensam que n\u00e3o serve, que \u00e9 floresta s\u00f3, mas tem muito valor. Dela tiramos a madeira de lei que a gente constr\u00f3i a nossa casa. Quando algum filho fica doente, eu j\u00e1 sei como vou tratar, sei qual medicina devo buscar. \u00c9 a nossa farm\u00e1cia viva. Se acabar com a floresta, a riqueza que eu tenho conhecimento se acaba, por isso que \u00e9 triste para mim todo esse fogo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/OtdSdu1PHcT8XSfXYQqKZpS7Z1yW-bJdAtSoiMxtibItr57cs0v1M8c89Tdj2zY0s093PKya1Uu6Nvk3jCagk7Zj_CU7cgjwnUnqmD8co9Ku4Glg5GrMJ7aFhvICGN1RgaWU4c7i\" alt=\"\"\/><figcaption>Paj\u00e9 Isaka perdeu toda sua farm\u00e1cia viva. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Dia 22 de agosto, <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/apublica.org\/2019\/08\/centro-de-cultura-indigena-huni-kuin-e-destruido-pelo-fogo-no-acre\/&amp;sa=D&amp;ust=1568811411432000&amp;usg=AFQjCNHusCXASjQ9jie8Ki5JzK-1VOYZBA\">as chamas arderam e queimaram, em poucas horas, cinco hectares de mata, o que corresponde a 50% da \u00e1rea total do Centro Cultural Huw\u00e3 Karu Yuxibu<\/a>. Desde outubro de 2018, a fam\u00edlia do Cacique Mapu, filho de Isaka, faz deste territ\u00f3rio, localizado a 50 km do centro de Rio Branco, capital do estado do Acre, um local de acolhimento para os parentes que vem estudar na cidade e ser tamb\u00e9m um espa\u00e7o de propaga\u00e7\u00e3o das medicinas do povo ind\u00edgena Huni Kuin.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/2tg84Sirv0D8t5PP5gd62jKPKlXpbFtprfyW3957rfcGT19YIky1SOdL1cHm_CYDjQwmNAodWpqe8FwM_nNqJDmHY4U_VGFGik8EagmY5o47LXx6uMDlGWOK43qD8hjxEuFvRgb2\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O Paj\u00e9 Isaka, 80 anos, estava almo\u00e7ando com sua fam\u00edlia quando sua esposa ouviu os estalos das folhas queimando. Sa\u00edram correndo com os fac\u00f5es para tentar impedir o avan\u00e7o do fogo sobre a mata, mas n\u00e3o tiveram sucesso. Com a chegada dos bombeiros, conseguiram evitar que as casas fossem destru\u00eddas. A planta\u00e7\u00e3o de mam\u00e3o, banana, a\u00e7a\u00ed, entre outras plantas foram consumidas. Tatus, tartarugas e macacos foram atingidos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Queimaram a floresta que \u00e9 farm\u00e1cia dos Huni Kuin. Suspeitam de fogo criminoso, a\u00e7\u00e3o que compromete a vida do paj\u00e9 Isaka e de sua fam\u00edlia. Para ele, Isaka, um feito de maldade.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A 250 km dali, j\u00e1 no Estado do Amazonas, no munic\u00edpio de Boca do Acre, a floresta do povo Apurin\u00e3 tamb\u00e9m ardeu. Dia 13 de agosto, o Dia do Fogo, 600 hectares da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso foram queimados. No territ\u00f3rios dos Apurin\u00e3s, o fogo, al\u00e9m de maldade, \u00e9 uma das etapas de um processo muito bem articulado de grilagem de terras da uni\u00e3o. O Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 denuncia este esquema que, na Amaz\u00f4nia Legal, n\u00e3o \u00e9 exclusivo da terra do seu povo. Atinge diversos povos ind\u00edgenas e terras da Uni\u00e3o. Em um roteiro de destrui\u00e7\u00e3o e lucro, os invasores desmatam, vendem as madeiras de lei, tocam fogo na mata que resta, cercam, passam a criar gado na \u00e1rea, vendem a carne e depois, ainda, plantam soja, milho ou arroz. Se n\u00e3o bastasse, ap\u00f3s as queimadas, este mesmo setor do agroneg\u00f3cio que lucra com um mercado internacional ainda tem a possibilidade de seguir ganhando dinheiro com as campanhas ambientais que pretendem &#8220;salvar&#8221; a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/Kp1nM6KKK8mkD9aNugMbXCFdRVMFsR3PwQYnGHoNu9luyl2AF_nAEPb57IQdm74uWP9WkFSCSRtk_V0bQP9Me4v799MxqZH_9vxF3rl11M6NIBNOEKOrv4mefW6dwVmlaKwJfRxb\" alt=\"\"\/><figcaption>Nas estradas do Acre, \u00e9 comum presenciar carretas carregando troncos gigantes de madeira . Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A luta dos caciques Apurin\u00e3 contra a grilagem e pela demarca\u00e7\u00e3o de suas terras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Foram 45.256 focos de fogo detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) na Amaz\u00f4nia de janeiro a agosto de 2019.<a href=\"https:\/\/ipam.org.br\/bibliotecas\/amazonia-em-chamas-onde-esta-o-fogo\/&amp;sa=D&amp;ust=1568811411427000&amp;usg=AFQjCNFruW52KFMVhOzxetPWdJ3PtVLQmQ\"> 20% desse fogo aconteceram em florestas p\u00fablicas que ainda n\u00e3o foram destinadas a nenhum uso<\/a>: parque, reserva, territ\u00f3rio ind\u00edgena. Entre elas, a Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso. Em 13 de agosto, o Dia do Fogo, conforme denuncia o Cacique Antonio Jos\u00e9, um grupo de grileiros queimou 600 hectares de florestas da \u00e1rea reivindicada pelos Apurin\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/IDCJo1ApraRQRjmJivWxfQy0-a37l6zih68gNfnivF-Jo-642HLBOUvkI17n6xdp74fX4h4IWVu1SoDGLaLpINnx-Mhr7PTdxfmzxMLzedWvxHtw19kQ3VuwS6pFD-iUvPbogsJe\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 abrindo a porteira dos lotes que d\u00e3o acesso \u00e0 Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Ao cruzar a quinta porteira, finalmente estamos perto da entrada da mata da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso, \u00e0 beira do Igarap\u00e9 Retiro. O Cacique Kaxuqui, que \u00e9 primo e companheiro de luta de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, desce da moto. Ant\u00f4nio nos convida a descer do carro, porque eles gostariam de falar. De um lado da cerca estamos n\u00f3s, do outro, incont\u00e1veis cabe\u00e7as de gado, que se espalham pelos cinco lotes que acabamos de atravessar. Os caciques nos explicam o que vemos ali. \u201cDevastaram nossas terras, coisas que n\u00f3s v\u00ednhamos preservando de 100 anos atr\u00e1s. Onde nasceu vov\u00f4, meu bisav\u00f4, meus tios tudo\u201d, lamenta Kaxuqui, 58. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 continua: \u201cEu tenho 54 anos, nunca sai daqui. Esse pessoal, esse que se diz dono daqui onde estamos pisando agora, n\u00e3o \u00e9 daqui n\u00e3o, \u00e9 descendente de portugu\u00eas. E n\u00f3s que somos ind\u00edgenas, que moramos aqui desde sempre, que comprovamos, estamos assim sem direito \u00e0 terra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Escute a den\u00fancia dos caciques Apurin\u00e3s:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Kaxuqui e Ant\u00f4nio Jos\u00e9 denunciando na cerca\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tKJzF8-DIQE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Os Apurin\u00e3s reivindicam a demarca\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso desde 1991. O processo se encontra nas m\u00e3os da FUNAI. Os ind\u00edgenas aguardam h\u00e1 anos a finaliza\u00e7\u00e3o dos estudos de identifica\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, onde vivem 46 pessoas de 7 fam\u00edlias. No in\u00edcio do processo, os Apurin\u00e3s reclamavam a demarca\u00e7\u00e3o de 57 mil hectares. Mesmo com o processo correndo na Justi\u00e7a, suas terras passaram a ser invadidas, terem a mata derrubada, transformadas em campo e, posteriormente, fazenda de cria\u00e7\u00e3o de gado. H\u00e1 um tempo atr\u00e1s, reduziram a reivindica\u00e7\u00e3o para 26 mil hectares, em uma tentativa de facilitar a demarca\u00e7\u00e3o. \u201cFizemos um acordo com os fazendeiros. O que j\u00e1 \u00e9 campo \u00e9 deles, o que \u00e9 mata \u00e9 nosso. Mas mesmo assim eles continuam invadindo e brocando a floresta\u201d, conta Ant\u00f4nio Jos\u00e9. Brocar \u00e9 o verbo que os Apurin\u00e3s usam para descrever a a\u00e7\u00e3o de quem derruba a mata. \u201cN\u00e3o \u00e9 por falta de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o. A gente tem tudo documentado. O IBAMA(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis), o Minist\u00e9rio P\u00fablico, o Terra Legal tem o conhecimento que isso aqui foi reivindicado enquanto tinha mata, enquanto estava intacto. S\u00f3 existe essa mata que voc\u00eas est\u00e3o vendo a\u00ed na beira do igarap\u00e9 porque a gente vem tentando preservar ela de 91 at\u00e9 agora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Para Lindomar Dias, do Conselho Mission\u00e1rio Indigenista, estas articula\u00e7\u00f5es de tomada de territ\u00f3rio se d\u00e3o h\u00e1 muito tempo. No caso dos ind\u00edgenas, acontece desde sempre. \u201cEfetivamente o Brasil, como pa\u00eds, nasce espoliando e roubando territ\u00f3rio dos povos origin\u00e1rios. E trata esses povos como se n\u00e3o fossem origin\u00e1rios. Tratam essa gente como se fossem estrangeiros, quando na verdade s\u00e3o donos. Adquiriram esses direitos n\u00e3o comprando os territ\u00f3rios, mas apenas vivendo, se confundindo com o territ\u00f3rio, se fundindo com ele\u201d. Para Dercy Teles, tradicional seringueira do munic\u00edpio de Xapuri, quem tamb\u00e9m escutamos na passagem pelo Acre, os ataques s\u00e3o movimentos de extin\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es que dependem da floresta. \u201cPara quem n\u00e3o contribui para o desenvolvimento do capitalismo, n\u00e3o \u00e9 de interesse a exist\u00eancia sobre um territ\u00f3rio\u201d, defende.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-1024x573.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1556\" width=\"331\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-1024x573.jpg 1024w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-300x168.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-768x430.jpg 768w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-500x280.jpg 500w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816-800x447.jpg 800w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/photo4906949519946655816.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Indignados, os caciques apontam para a dire\u00e7\u00e3o de cada \u00e1rea desmatada ou terra grilada. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 assinala cada respons\u00e1vel. \u201cO Joaquim derrubou 500 hectares por 2 mil, mais 500 por outros 2 mil e venderam para o Brana. Isso atr\u00e1s do Igarap\u00e9 Preto, dentro da nossa reivindica\u00e7\u00e3o. Tudo isso eles sabendo que \u00e9 uma Terra Ind\u00edgena. E hoje quem \u00e9 o dono \u00e9 o Brana, um cara l\u00e1 de Rio Branco. O Bezinho derrubou 392 hectares da Fazenda Riach\u00e3o extremando com a fazenda Cruzeiro, \u00e0 beira do Igarap\u00e9 Preto, onde tamb\u00e9m \u00e9 dentro da nossa reivindica\u00e7\u00e3o. O J\u00fanior do Bet\u00e3o j\u00e1 comprou. Isso n\u00f3s temos tudo no mapa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pecu\u00e1ria ostensiva em terras da uni\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/Ob1Ifp-AWdVYNkFWaeKVupeyC7JUlJRM0TD-ZJJZtBTqaTUBSQILuwwII2bKDhxOxjv5De6lxcTGoPkuEB3J6GmUHUN_Vdb0OLqAzdgNUPTPlgNerYkk-ynpDxe16XYufiFHZ7dz\" alt=\"\"\/><figcaption>Nas campos de gado, os f\u00f3sseis de \u00e1rvores denunciam queimadas antigas. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">S\u00e3o muitos nomes na ponta da l\u00edngua, um vinculado ao outro. Uns s\u00e3o respons\u00e1veis por entrar e cortar as \u00e1rvores. Outros por grilar a terra, cercar, encaminhar alguns pap\u00e9is. Quando baixa o \u201cbanzeiro\u201d, como chama Ant\u00f4nio Jos\u00e9 o burburinho pela invas\u00e3o da terra, outro vem e compra. E a\u00ed coloca gado, o neg\u00f3cio mais comum da regi\u00e3o. Segundo o IBGE, Boca do Acre tem o segundo maior rebanho de gado do estado do Amazonas. Perde apenas para o de seu vizinho, L\u00e1brea. Juntos, os munic\u00edpios contam com 510 mil cabe\u00e7as de gado, 38% do rebanho da Amazonas. <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584428-circulo-fechado-desmatamento-criacao-de-gado-e-abate-pelas-mesmas-maos\">S\u00e3o 6,4 bois para cada habitante.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O principal destino desse gado \u00e9 o frigorifico Frizam\/Agropam, em Boca do Acre. De acordo um levantamento do Idesam, de 2013, o matadouro respondia por 31,3% do total do abate no estado do Amazonas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Boca do Acre faz parte do Arco do Desmatamento, regi\u00e3o que a fronteira agr\u00edcola avan\u00e7a sobre a mata nativa da Amaz\u00f4nia. O munic\u00edpio possui 372 \u00e1reas embargadas pelo IBAMA. Isso acontece quando o fiscal do \u00f3rg\u00e3o constata que um pecuarista derrubou floresta sem autoriza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o est\u00e1 respeitando a \u00e1rea de reserva legal da propriedade. Com a fazenda embargada, fica proibida a cria\u00e7\u00e3o de gado. A pecu\u00e1ria ocupa 80% da \u00e1rea desmatada da Amaz\u00f4nia Legal, <a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/atuacao-tematica\/ccr2\/publicacoes\/roteiro-atuacoes\/docs-cartilhas\/desmatamento.pdf\">segundo o relat\u00f3rio de 2015 da Procuradoria do Meio Ambiente do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal<\/a>. Quase 40% das 215 milh\u00f5es de cabe\u00e7a de gado do pa\u00eds pastam na regi\u00e3o amaz\u00f4nica.  <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/LmykYGFrqc4Ip7lDT_ZgZ2dXm3FWmtIONA9crtGROecOAJ_J63iM_Ud1ZKuz6cc4A8zbRpf2_Y1ckxEuAqQK_PryIQdcEa0LNTBpERpQHhqHMBfSxRAxZQ_dEWeB2aVxXNgugnAC\" alt=\"\"\/><figcaption>As estradas de Rio Branco a Boca do Acre \u00e9 tomada de latif\u00fandios da pecu\u00e1ria. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\"> Em Boca do Acre, mesmo com o n\u00famero significativo de propriedades embargadas, o movimento no Frizam\/Agropam n\u00e3o reduziu nos \u00faltimos anos. Isso porque o gado de fazendas notificadas chegava ao estabelecimento com documentado falsos. Os animais s\u00e3o registrados como origin\u00e1rio de propriedade que n\u00e3o estavam proibidas de comercializar. <a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/reportagens\/circulo-fechado-desmatamento-criacao-de-gado-e-abate-pelas-mesmas-maos\/\">Segundo o gerente do frigor\u00edfico, nada pode fazer para fiscalizar estas fraudes.&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Acontece que o Frizam\/Agropam tem como acionista principal o pecuarista amazonense Jos\u00e9 Lopes, que possui nove fazendas embargadas em Boca do Acre. Segundo o jornalista Leonildo Rosas, do Blog do Rosas, Jos\u00e9 Lopes \u00e9 o maior pecuarista do Amazonas, dono de mais de cem mil cabe\u00e7as de gado. O \u201crei do gado\u201d, como \u00e9 conhecido, j\u00e1 foi tesoureiro de campanhas eleitorais e o dinheiro p\u00fablico tem forte influ\u00eancia no crescimento do seu imp\u00e9rio da carne. Lopes trabalhou nas campanhas do Senador Eduardo Braga (PMDB) e do governador do Amazonas, Omar Aziz (PSD). Tamb\u00e9m atuou na campanha do governador Amazonino Mendes (PFL), que administrou o Estado de 1999 a 2002. Dentro desse per\u00edodo, no ano 2000, a Ciama (Companhia de Desenvolvimento do Estado do Amazonas), empresa p\u00fablica do Governo do Amazonas, que tem entre suas finalidades promover o desenvolvimento ambiental no \u00e2mbito estadual, investiu mais de R$ 14 milh\u00f5es na sociedade com o frigor\u00edfico Frisam\/Agropam. Assim, a Ciama se converteu em uma das quatro s\u00f3cias do frigor\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">N\u00e3o para por a\u00ed: na ata da assembleia geral ordin\u00e1ria do Frisam\/Agropam de 03\/06\/2013, <a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/governo-do-am-e-socio-de-frigorifico-acusado-de-dano-ambiental\/\">da qual o portal Amaz\u00f4nia Real teve acesso<\/a>, consta que o frigor\u00edfico tem quatro s\u00f3cios: al\u00e9m de Jos\u00e9 Lopes e a Ciama, completam a lista Jos\u00e9 Lopes J\u00fanior e Alessandra Lopes.  <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Estes \u00faltimos, filhos de Jos\u00e9 Lopes, tem em seus nomes as terras com gado, cercas e porteiras, sem mata, que ultrapassamos para entrar na Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso, do povo Apurin\u00e3. \u201cO Jos\u00e9 Lopes registrou uma terra aqui que n\u00f3s vinha vov\u00f4 mais eu l\u00e1 do Bom Lugar at\u00e9 aqui buscar peixe no Po\u00e7\u00e3o do Arroz\u201d, lembra Ant\u00f4nio Jos\u00e9. \u201cA\u00ed era bom de peixe. Em 2010 o Lopes registrou esta \u00e1rea como Por\u00e3o do Arroz, ficou como dono. N\u00f3s que abrimos isso a\u00ed, o av\u00f4 do Kaxuqui que morava a\u00ed na beira. E n\u00f3s morando aqui h\u00e1 tantos anos e ningu\u00e9m nos reconhece\u201d. Kaxuqui completa: \u201cNunca vendemos um peda\u00e7o de terra. Pelo contr\u00e1rio. Queremos morar, dar o direito para nossos filhos, para os nossos netos. O que queremos \u00e9 o que \u00e9 nosso. O que queremos \u00e9 que respeite a nossa cultura, o nosso direito e o nosso modo de viver. A gente n\u00e3o quer fazenda, n\u00e3o quer gado, para n\u00f3s sermos reconhecidos a gente n\u00e3o precisa ser fazendeiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/-o3_X2ybS2sc_fGxBf9nYZlWlecN7ils4xhUcbIgDpFOc5JYh1trOqAxk6UF3N-9iIfjKYS6IIpsgosWeGTORE7MggLKugJMHo7OGXl6SZ3sRDlfO6390El40bq4acc-TokiAAK_\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 pede a demarca\u00e7\u00e3o da terra do seu povo. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Em um dado de 2013 do IBAMA, as multas para os crimes ambientais expedidas em nome de Jos\u00e9 Lopes somam mais de R$ 3 milh\u00f5es, resultado da destrui\u00e7\u00e3o de 955,14 hectares de floresta nativa da Amaz\u00f4nia Legal. Recentemente, o pecuarista foi preso em tr\u00eas opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal. Em maio, na opera\u00e7\u00e3o Ojuara, foi denunciado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, acusado de ser uma entre 22 pessoas envolvidas em crimes ambientais. Os acusados invadiam terras da Uni\u00e3o, comandavam desmatamentos e contratavam policiais militares para fazer a prote\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas e das \u00e1reas de desmatamento. Entre as ilegalidades, uma dilig\u00eancia falsa do IBAMA do Acre em setembro de 2017, serviu para alertar os fazendeiros sobre uma opera\u00e7\u00e3o nacional do IBAMA no m\u00eas seguinte. Nesta \u00e9poca, o superintendente do \u00f3rg\u00e3o era Carlos Gadelha, que tamb\u00e9m foi denunciado pelo MPF de estruturar empresa para oferecer defesas administrativas e judiciais para os desmatadores do sul do Amazonas contra a\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio IBAMA. Em 25 de junho, Jos\u00e9 Lopes foi solto por decis\u00e3o da desembargadora M\u00f4nica Sifuentes, do Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o (TRF-1), que substituiu a pris\u00e3o preventiva por medidas cautelares. Ele voltou a ser preso em 30 de julho na opera\u00e7\u00e3o Maus Caminhos. Jos\u00e9 Lopes \u00e9 acusado de receber R$ 1 milh\u00e3o em propina do m\u00e9dico Mouhamad Moustaf\u00e1, apontado como l\u00edder da organiza\u00e7\u00e3o criminosa que desviava recursos da sa\u00fade do Amazonas atrav\u00e9s do Instituto Novos Caminhos (INC). Al\u00e9m da Maus Caminhos, o pecuarista ainda responde por crimes ambientais no com\u00e9rcio ilegal de madeira detectados pela opera\u00e7\u00e3o Arquimedes. \u201cO cara \u00e9 preso e ainda tem todo o direito de criar o gado e vender, de dentro de uma terra da Uni\u00e3o. E continua derrubando e mandando derrubar. E n\u00f3s que estamos aqui preservando n\u00e3o temos o direito \u00e0 nossa terra\u201d, desabafa Ant\u00f4nio Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">\tPara completar, a grande parte da carne de gado que passa pelo Frizam\/Agropam sequer \u00e9 usufru\u00edda pela popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Funcion\u00e1rios do frigor\u00edfico revelam que cerca de 20 carretas por m\u00eas partem com destino a outros pa\u00edses. China, Jap\u00e3o, Estados Unidos s\u00e3o alguns citados. \u201cAqui no Amazonas a gente n\u00e3o come carne do boi macho, s\u00f3 da vaca. Os garrote bom, a carne boa tudo vai para fora. Todo esse gado que causa esse preju\u00edzo aqui no Amazonas n\u00e3o \u00e9 para consumo dos amazonenses. Sim para estrangeiros, que acabam fornecendo o recurso para esse desmatamento\u201d, reclama o Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/80bo5gqOpvP1Vy2aouFjSmC2GjODUQcLoWsTaNp4qy3R9r3sn-UtspHBOTlHGS8X9K22hzjUN_UOg_JcszcPU1-qgjA2mOu0YWjAUba8A2P1kyx4bmtp19Iv2UMQpYiirZzAwi0h\" alt=\"\"\/><figcaption>A maioria do gado abatido em Boca do Acre tem sua carne enviada para o exterior. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Jos\u00e9 Lopes e sua fam\u00edlia \u00e9 um sobrenome a quem os Apurin\u00e3 resistem. S\u00e3o v\u00e1rios outros. A disputa \u00e9 desleal, al\u00e9m dos fazendeiros, os ind\u00edgenas enfrentam a omiss\u00e3o do estado. Seja na nega\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos, como sa\u00fade, energia, educa\u00e7\u00e3o, um dos fatores que faz com que parentes tenham que se afastar da vida na mata. Seja pela inefici\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas impedirem e punirem os invasores de terra. Seja por aqueles que usam indevidamente o Estado para propagar o seu discurso. Ou usam seu discurso para chegarem at\u00e9 o Estado. \u00c9 o caso do presidente Bolsonaro, mas tamb\u00e9m \u00e9 caso do Francisco Sales de Fran\u00e7a, o Mapar\u00e1. Vereador de Boca do Acre, \u00e9 um dos grileiros e desmatadores da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso. Mandou derrubar \u00e1rvores em 2017 e 2018. Segundo Ant\u00f4nio Jos\u00e9, s\u00e3o 200 hectares desmatados por Mapar\u00e1. O pol\u00edtico assume a a\u00e7\u00e3o. \u201cEle se sente fortalecido por ser vereador\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/2bN2Zr_XYww9woLZWAGYiviT9GdUtpWOAwwmzSE5PCgRUofWmqRyDYO6Cq0yUq1k2181alvUDRL8-gCTMs-ovVgivdsWWXRn79HqbgQa1e63JqI6dy3wlBvsnlKqp5J14Zjq-kHJ\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Kaxuqui em frente as casas da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">No dia 19 de agosto, o cacique Apurin\u00e3 gravou v\u00eddeos de den\u00fancias na margem do Igarap\u00e9 Preto. No outro lado da \u00e1gua, o barulho da motossera e dos troncos caindo. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 narra. \u201cVoc\u00ea pode ouvir a zuada do motor dele. S\u00f3 queria mostrar isso ao MP, \u00e0 Funai, de como est\u00e1 sendo destru\u00edda a mata da TI Val Para\u00edso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Cacique ANT\u00d4NIO JOS\u00c9 -  Pau caindo a beira do Igarap\u00e9 Preto\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SAUGbGNXqSc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Segundo o Cacique, a maior derrubada do ano na Terra Ind\u00edgena, 600 hectares, teve o incentivo do parlamentar de Boca do Acre. Mapar\u00e1 se elegeu dizendo que vai legalizar as terras invadidas, como as de Val Para\u00edso. \u201cTodo mundo sabe que vereador n\u00e3o tem capacidade de regularizar terras federais\u201d, rebate Ant\u00f4nio Jos\u00e9. Mas a gente tamb\u00e9m sabe que os discursos forjam legalidades.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/Uhe6p69axJceWu3g_7QiD7JrFmodPRoth6sUAaVtDxK81SAJHCqbd5o4wG1J7UdxoOi41FnA_DAUTzyjV1K71Z5bEIupai4Vf1W3MeUf6xOPcGuYRdRMWcjDvawjD6v3MMmo2wx4\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"209\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Nossa inten\u00e7\u00e3o ao visitar os Apurin\u00e3s, al\u00e9m de escutar os caciques e prestar solidariedade, era registrar essa \u201cbrocada\u201d de 600 hectares. No dia seguinte, sair\u00edamos ao amanhecer. Antes de deitarmos nas redes rec\u00e9m penduradas, Ant\u00f4nio Jos\u00e9 pega a pasta que carrega consigo. Nela, folhas de of\u00edcio com imagens de sat\u00e9lite dos \u00faltimos anos da \u00e1rea reivindicada pelos Apurin\u00e3s. Aproxima-se da lamparina de querosene, com os mapas na m\u00e3o. O cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 vai descrevendo a localidade e quantos hectares foram desmatados no \u00faltimo ano, repetindo o gesto de horas antes, ao lado da cerca. Desta vez, aponta as derrubadas no mapa. Tamb\u00e9m indica, indignado, quem \u00e9 o respons\u00e1vel por cada \u201cbrocada\u201d. J\u00e1 s\u00e3o milhares de hectares desmatados dentro dos 26 mil reivindicados pelos Apurin\u00e3s. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/veUaziDe9CRyKfXDGyh3GL0zpPePxndNB1B4TvL5C_w5fmYp72TLBVeQbBYARO0bR9JumsDCKSwnmbeZgC9eLaU6w9bPOaeBOHHMpIRQQkrpfandyNf5HjocCc1mRFYpU33g5qUu\" alt=\"\"\/><figcaption>O mapa mais recente da explora\u00e7\u00e3o da terra dos ind\u00edgenas Apurin\u00e3. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O INPE \u00e9 a fonte de informa\u00e7\u00f5es dos mapas, elaboradoras com o aux\u00edlio da FUNAI. Na parede da OPIAJBAM (Organiza\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas Apurin\u00e3 e Jamamadi de Boca do Acre), local em que encontramos Ant\u00f4nio Jos\u00e9, cartazes afixados indicam o legado de um curso recente. Os ind\u00edgenas est\u00e3o estudando o uso de um software de cartografia, a fim de emitirem os mapas de forma aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">A cartografia \u00e9 uma ferramenta de luta pelo direito fundi\u00e1rio e tamb\u00e9m contra o desmatamento. Vale lembrar que quando o tema das queimadas veio \u00e0 tona, o Presidente Bolsonaro sinalizou como seu governo lida com a ci\u00eancia ao demitir o diretor do INPE, Ricardo Galv\u00e3o, no dia 2 de agosto. Quando divulgado um estudo do aumento das queimadas na Amaz\u00f4nia (68% em rela\u00e7\u00e3o a julho de 2018), Bolsonaro declarou que o Instituto estaria a servi\u00e7o de alguma ONG e que os dados n\u00e3o estariam corretos. Ap\u00f3s Ricardo rebater as declara\u00e7\u00f5es de Bolsonaro, foi exonerado do cargo. A demiss\u00e3o foi alarmante para o meio cient\u00edfico e para os que trabalhavam na situa\u00e7\u00e3o das queimadas na Amaz\u00f4nia. Alguns dias depois, questionado sobre a exonera\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o com o Ricardo Galv\u00e3o, respondeu: &#8220;N\u00e3o pe\u00e7o, eu mando&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O com\u00e9rcio de madeira ilegal<\/strong> \t<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">No dia seguinte, partimos para quase 3 horas de caminhada. Nosso destino: os 600 hectares queimados no Dia do Fogo, 13 de agosto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/DN6TZ59QN7vGqgmiwaKxDd5YnUzm11wGwSIOl7U1B2Ejw9uuRZTg8nN9JQ4zgY7GBWN_eWP_OCRs8Zq89vyIjxUfulq4TpcVwCgJsxSvRHVV9ZiRvlmtvkW_OOGETCI2AY_FE_p3\" alt=\"\"\/><figcaption>Em tr\u00eas pontos na mata, encontramos gal\u00f5es de gasolina e \u00f3leo queimado usados nas motosserras. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Atravessamos v\u00e1rias vezes o igarap\u00e9, passamos por locais que j\u00e1 s\u00e3o campos e por dentro da mata. No meio do caminho, uma pausa. De cima do que resta do tronco de um cedro rec\u00e9m cortado, Ant\u00f4nio Jos\u00e9 relata: \u201cdia 19 de agosto passamos aqui para ver esta derrubada de 600 hectares que estamos indo ver e isso daqui estava intacto\u201d. Segundo o Cacique, os madeireiros entram na mata bruta, derrubam, tiram a madeira de lei, como o Cedro, a Ita\u00faba. Depois derrubam a mata por cima dos troncos. \u201cPara a gente n\u00e3o ver o tipo de madeira que eles tiraram\u201d. No pr\u00f3ximo ano, eles v\u00e3o queimar com a inten\u00e7\u00e3o de limpar e aproveitar o restante da madeira que ficou. A partir da\u00ed, come\u00e7am a formar o pasto para a cria\u00e7\u00e3o de gado. \u201cEste \u00e9 o modelo que eles usam para invadir e grilar as terras ind\u00edgenas que a gente protege. Isso aqui faz 5 dias, est\u00e1 tudo derrubado, e o IBAMA est\u00e1 a\u00ed em Boca do Acre, mas eles continuam derrubando\u201d, denuncia o cacique.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/B8nxmyVSKFAWqbtuQ3S1g2mqHjTanvfYNz3E97Xarw4d0rsCLmYBVjpL9KGk8hTyzYrYp46soh0qUj-5dGs2Vd6wDCTDRTIC2JivgebjfhK1jJOErR7fWvF0XpGm_n0pulew2HD-\" alt=\"\"\/><figcaption>\u00c1rvores rec\u00e9m cortadas, ainda n\u00e3o removidas na TI Val Para\u00edso. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">As madeiras que saem desta \u00e1rea s\u00e3o cortadas com motosserra no ver\u00e3o, segundo Ant\u00f4nio Jos\u00e9. No inverno, os madeireiros entram pelo igarap\u00e9, de balsa, carregam a embarca\u00e7\u00e3o e levam at\u00e9 o porto de Boca do Acre no entardecer. Ali, como relata o cacique, os criminosos tem um esquema para colocar as madeiras em um caminh\u00e3o ba\u00fa, que viaja j\u00e1 \u00e0 noitinha at\u00e9 Rio Branco. A carga passa pela estrada como se fosse um frete qualquer. Na capital do Acre, a madeira \u00e9 \u201cesquentada\u201d. Essa \u00e9 a express\u00e3o usada para designar o ato da madeira ser selada como se fosse oriunda do sistema de manejo florestal acreano. \u201c\u00c9 assim que eles fazem a retirada de madeira ind\u00edgenas para exporta\u00e7\u00e3o dentro da terra ind\u00edgena, dentro das terras da uni\u00e3o. Toda madeira que \u00e9 tirada do Amazonas \u00e9 ilegal\u201d.&nbsp; <br \/><br \/>Assista a den\u00fancia de Ant\u00f4nio Jos\u00e9: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 denunciando o corte de madeira ilegal na TI\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DvkqAeUn2Ec?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/HT6VdyKg6Dz8ayUuS2XjKR0LR5h6zGWCWWPlfOUnPlET3JHnFObHYs9W2U6_sRatwWG7d3ur0d3CuxbIFvrjDGdXY0Q3ICFNr5rzeOmdwye-FL6AHX4IeLPC9Rsdfl37Q5m0soiV\" alt=\"\"\/><figcaption>O que resta da madeira derrubada em meio \u00e0 mata da TI Val Para\u00edso. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/8006sj8lgFD2mwyZaU_cX22xO822dXS7shDKPjraXNp3oYx6QDoa7HcbvFX_KxBqn0leafuQYVoF5Bbixj6MGSh5mSPMcak-AS2mvUgFH_wfLFt7elmuEojyku5sS77yW81nwvRb\" alt=\"\"\/><figcaption>A madeireira Transacreana \u00e9 um dos principais destinos de troncos de manejo na AC-90<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/aVTDi7JvTF7Yyp67yUPdLi6COI3pVe1lxQONCF_Fv8ewlURaixkYzxmFQVu4ituG86DjvcxYavGL-vzIANLOak5HA5r5eEv5VQ5JHchsxqmoi09qnLJPHCeLiCzMfqQtYdNTM5oj\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e Kaxuqui em um dos capins queimados que passamos no caminho. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/8Zk_hksYetJGxQXmwAkt8vDlGjYNBs81kEAp17WMHn26eC0Q7P6ZdZLLPBB5K1VfobX7F57s8b_FkKDlJoS9m6OE7RCpSH8ZbacXpldK4JJEq9eBV93WCGNCghb-RN5y7qVKuZ7n\" alt=\"\"\/><figcaption>Travessia do Igarap\u00e9 Retiro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 queimada. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Ap\u00f3s o relato de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, seguimos pela mata, escutando ao fundo o ronco do motor da motossera. Caminhamos mais um tanto e, com dificuldade, o mato derrubado vazia uma barreira complicada de atravessar, chegamos \u00e0 \u00e1rea queimada. Assim como no territ\u00f3rio Huni Kuin, onde havia verde, h\u00e1 cinza. Troncos pretos ca\u00eddos. Tocos serrados, tamb\u00e9m carbonizados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/xogqCofMAD0kwoOCfGBn8OIktGDR2CgmUfgzP3fvU_FFi76a4FtmvGgJkaEmTpa4HXnW6nLjQ-HRbjSAl5sDIQjsr5HZteztUZ71S_M4d9gabdtyr4rux73Sp9glE_txWSB5XXri\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/0OKCZttl0a9ce0ArEgCXywuE6YaDoXZuSOf47dYs1BPUEN9-c2mKxbxxqIvuSO5-g2YWLJhWYaj4M5OLx-qaO-7wNOd5FkOk63qTenbxuvl01HGKIjR4mwrtN8EdAj4xWQB3axor\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 observa a destrui\u00e7\u00e3o de 600 ha de mata<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Alguns pequenos arbustos de \u00e1reas que resistiram ao fogo e a macega de mato derrubado dificultam a vis\u00e3o no horizonte. No entanto, subindo em algum tronco, olhando para um lado e para o outro, n\u00e3o se v\u00ea copa de \u00e1rvores em p\u00e9 nas imedia\u00e7\u00f5es. Uma faixa de destrui\u00e7\u00e3o. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 denuncia: \u201cEles pagam a queimada e depois assumem, d\u00e3o prosseguimento na retirada de madeira, semeando planta e criando gado. Est\u00e1 \u00e9 a forma de eles grilarem as terras da uni\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Aqui em Boca do Acre funciona desse jeito. Ningu\u00e9m tem documento de assentamento de INCRA. E todo mundo se apossa, todo mundo diz que tem. Faz financiamento, faz Cadastro Ambiental Rural e ficam como propriet\u00e1rio\u201d. Os caciques falam indignados, focados na oportunidade de den\u00fancia. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/pfpIDzr5MQKkodBYLs7iKmaefnm1mj3usyelFq2XEhlgfPHqx5jaFkK71wDVIOnqG82YHjJ55dvKsQ0S8xPpo7YSBc8ccxo8CZxRzUI5i-Ra7ia85PQ8OkOTQ6lL4dVPkvdDaX5G\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Tanto na estrada para os Huni Kuin (Rodovia AC-90, a Transacreana) quanto para os Apurin\u00e3 (BR-317) e para Xapuri (a mesma BR-317) impressiona a quantidade e extens\u00e3o dos latif\u00fandios de cria\u00e7\u00e3o de gado. Onde antes era floresta, \u00e9 campo. Uma imensid\u00e3o de capim. Restam em p\u00e9 somente algumas castanheiras, \u00e1rvores protegidas por lei. Algumas esplendorosas, vivas. Mas muitas j\u00e1 mortas, aniquiladas pouco a pouco pelas diversas queimadas que foram submetidas. Se mant\u00e9m em p\u00e9 porque, mesmo mortas, resistem por anos.<br \/><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/GbtD12lQ-5QB1Hn7SP7rcpHHb-ctYHyuq9ocOdxF70paP3Wq04GPyEHNtkBpShktWnv-COzSrnu_PoIzobNtmAYgl-MF5aCSASxT8-RTuJO5lh9kVMe4FX8S2WJ8XD3W8vCTBbLk\" alt=\"\"\/><figcaption>Cacique Kaxuqui sentado em uma castanheira que antes era sustento. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Nos \u00faltimos 600 hectares desmatados na Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso, nem as castanheiras escaparam. Segundo Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e Kaxuqui, derrubaram 150 exemplares da esp\u00e9cie. Sentado no que resta do tronco de uma das que ainda n\u00e3o foi removida, Kaxuqui conta que os Apurin\u00e3s coletavam cerca de 500 latas de castanhas naquele local. Uma de suas principais fontes de renda. \u201cEssa aqui \u00e9 uma castanheira que n\u00f3s tir\u00e1vamos o sustento da nossa fam\u00edlia. Hoje ela est\u00e1 aqui queimada. Essa aqui n\u00e3o volta mais para esta terra. A terra que n\u00f3s preservava, a terra que n\u00f3s precisava est\u00e1 desse jeito, destru\u00edda pelos fazendeiros\u201d, lamenta Kaxuqui.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/d7U_30NW6n0apoqJcmcAXM5frDeALnQVUpivkOHWKsazKtbY1ZuN1tWEboqBYyIjkXSqNbYXRtNktQAxhSDXyFLZJbg7yKgdHmBhbufrnMBU3vNo7Kqa9FIuqDFM_sIIVLqUKlrn\" alt=\"\"\/><figcaption>F\u00f3ssil de castanheira \u00e9 um triste monumento da floresta que ali existiu. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Na estrada, vimos carca\u00e7as sendo consumidas por urubus. Troncos de v\u00e1rios metros de di\u00e2metros em cima de caminh\u00f5es. Escutamos sobre a amea\u00e7a que os caciques sofrem. No entanto, as castanheiras fossilizadas pelo fogo foram o s\u00edmbolo, os monumentos mais melanc\u00f3licos da destrui\u00e7\u00e3o que assola estes territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/3IlNKh72fFX7lgNrhYR7I8yMq3VS1DhO29Q7YWP2Sxb3gvZxxNgo0KsUs6Z5bWMFtC84GLvgr8E7ORXJaxF7PMR7YsZT96exTqgbrQJUkHxjeA6eIL2mZKIqG6mPoDgRBozhHt1y\" alt=\"\"\/><figcaption>Na AC-90, a rodovia Transacreana, muitos caminh\u00f5es de madeira est\u00e3o na estrada. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Os Apurin\u00e3s resistem, cercados pelo olhar ganancioso de jagun\u00e7os, fazendeiros e do mercado internacional. Kaxuqui j\u00e1 recebeu propostas para deixar a \u00e1rea. Ao rejeitar, passou a ter um drone sobrevoando por dias em volta da sua casa na mata. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 j\u00e1 teve a sua morada queimada e n\u00e3o anda mais por qualquer lugar. \u201cSou amea\u00e7ado, sou mal visto por defender minha terra. N\u00e3o vivo mais como vivia antes. Na cidade, me olham como se eu fosse mau para o povo, mau para o mundo. N\u00e3o entendo isso\u201d. S\u00e3o 54 anos vivendo no mesmo lugar, mas o respeito n\u00e3o \u00e9 regra. \u201cNasci aqui no Bananal, continuo vivendo, defendendo as mesmas terras. Os que me consideram s\u00e3o os meus amigos antigos, de 50 anos para frente. Esta meninada nova de 20 anos, 35 anos acha que eu estou atrapalhando o desenvolvimento. Porque eles querem estar aqui derrubando, ganhando dinheiro. N\u00e3o \u00e9 isso que a gente quer, a gente quer que todo mundo cres\u00e7a, mas respeitando o direito de cada cal\u201d. J\u00e1 solicitou na 6\u00aa C\u00e2mara Federal de Bras\u00edlia escolta policial, que foi concedida. Mas a pol\u00edcia local n\u00e3o possu\u00eda contingente para suprir a demanda. Sugeriu que ele deixasse o local. \u201cN\u00e3o tenho como sair daqui, meu conhecimento est\u00e1 aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/NcGrNt2Kdi3Y13in9dSyOWMrS0fLiThVgkd_t79oWz8yk2Er1l-Ut2yH-pHnm4-1tjO4saTMWc3IrHZEheorUGtHW9lXlsDCtAf8Zure2eTPsR5wVwI08oJMQE2IGeRshvX1XrCF\" alt=\"\"\/><figcaption>Ant\u00f4nio Jos\u00e9 e Kaxuqui exp\u00f5e os mapas que usam para analisar o aumento das queimada e da grilagem em suas terras. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">O que acontece com os Apurin\u00e3s n\u00e3o \u00e9 caso isolado. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um ataque sistem\u00e1tico que acontece contra os povos ind\u00edgenas e seus territ\u00f3rios em toda Amaz\u00f4nia e pelo Brasil. Nesta ofensiva, s\u00e3o diversos os atores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Tem aqueles que est\u00e3o na ponta, na explora\u00e7\u00e3o direta, atrav\u00e9s da invas\u00e3o das terras, da extra\u00e7\u00e3o de madeira, da cria\u00e7\u00e3o de gado ou, ainda, do garimpo. Como mostra a hist\u00f3ria a cima. E h\u00e1 tamb\u00e9m os que est\u00e3o na outra ponta, os que financiam estas ilegalidades. Por exemplo, pa\u00edses da Europa se manifestaram em defesa da Amaz\u00f4nia com as queimadas recentes, mas \u00e9 um continente que compra carne e madeira de \u00e1reas desmatadas h\u00e1 anos. A <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/08\/jbs-marfrig-e-frigol-compram-gado-de-desmatadores-em-area-campea-de-focos-de-incendio-na-amazonia\/\">JBS e Marfrig, empresas com destaque mundial na produ\u00e7\u00e3o de prote\u00edna animal, principais exportadoras de carne do Brasil para a Europa, compram gado de fazendas irregulares.<\/a> Em 2018, <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2018\/05\/grandes-varejistas-dinamarquesas-ligadas-ao-trabalho-escravo-e-crime-ambiental-no-brasil\/\">o Rep\u00f3rter Brasil fez uma mat\u00e9ria sobre venda de madeira ilegal para a Dinamarca.<\/a> Sete das principais lojas varejistas da constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o souberam dizer a proced\u00eancia da madeira brasileira que vendiam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/S5RW_6k4TtPdQ8DoHHyvSf-iwL2wFOp7VJQtiLhINVkSHY2UAWggj2sXcYsmHF6t05kDeqgRCJLysNJznWHUuJ-SLjhp_-X20aC3UJBfTfZHA8DcQ4myeaHOY_HBE3lFuGH5PkB-\" alt=\"\"\/><figcaption>Na AC-90, conhecida como Rodovia Transacreana, o gado pasta sobre ao lado das cinzas. Foto Douglas Freitas \/ Amigos da Terra Brasil <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Os atores desses ataques est\u00e3o e tem seus representantes na pol\u00edtica. A come\u00e7ar pelo presidente do pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2018\/02\/08\/nem-um-centimetro-mais-para-terras-indigenas-diz-bolsonaro\/\">Bolsonaro disse, durante a campanha, que n\u00e3o vai demarcar 1 cm de terra ind\u00edgena. <\/a><a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/09\/com-apoio-de-irmao-de-bolsonaro-ruralistas-tentam-impedir-demarcacao-de-terras-indigenas-em-sp\/\">O irm\u00e3o do presidente se articula com ruralistas para impedir, junto a representantes do governo, demarca\u00e7\u00f5es<\/a>.&nbsp; O processo de demarca\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no governo Bolsonaro, \u00e9 amea\u00e7ado de ser transferido para o Minist\u00e9rio da Agricultura, onde reinam os ruralistas. Proposta semelhante a que propunha a PEC 215, em que a palavra final sobre a consolida\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena ficava a cargo do Congresso Nacional, onde, hoje a maior e mais poderosa bancada \u00e9 a ruralista. <a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2019\/03\/22\/nova-frente-parlamentar-da-agropecuaria-reune-257-deputados-e-senadores-com-25-psl-de-bolsonaro-so-fica-atras-de-pp-e-psd\/\">Esta bancada \u00e9 a chamada Frente Parlamentar Agropecu\u00e1ria, um lobby bancado por associa\u00e7\u00f5es e empresas do agroneg\u00f3cio, que conta agora com 257 signat\u00e1rios, entre deputados federais e senadores. <\/a>No dia 4 de julho, Bolsonaro declarou, em um encontros com estes pol\u00edticos: <a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/noticias\/esse-governo-e-de-voces-diz-bolsonaro-a-ruralistas\/\">&#8220;Esse governo \u00e9 de voc\u00eas&#8221;<\/a>.&nbsp; Como mais um exemplo de ataque, o Congresso prop\u00f4s a recente <a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2019\/08\/abertura-de-terras-indigenas-para-exploracao-sera-retirada-de-pec-187-apos-mobilizacao\/\">PEC 343, que d\u00e1 \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (FUNAI) o poder para decidir pela libera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 50% dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas a ruralistas, garimpeiros e outros setores, sem consulta \u00e0s comunidades tradicionais<\/a>. Nesta lista de atores, n\u00e3o podemos esquecer da Rede Globo, maior emissora de televis\u00e3o do pa\u00eds, que h\u00e1 dois anos tem como principal publicidade nos seus hor\u00e1rios nobres a campanha \u201cAgro \u00e9 tech, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u201d. Uma s\u00e9rie de campanhas publicit\u00e1rias que glorificam e exp\u00f5e mentiras sobre o agroneg\u00f3cio brasileiro, como, por exemplo, que vem da\u00ed a fonte dos alimentos do pa\u00eds. \u00c9 mentira. <a href=\"http:\/\/www.mst.org.br\/2017\/11\/03\/agricultura-familiar-e-responsavel-por-70-dos-alimentos-consumidos-no-brasil.html\">A maior parte da alimenta\u00e7\u00e3o do povo brasileiro vem da agricultura familiar. <\/a>Al\u00e9m destas publicidades, a Globo decide o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 pauta em um sistema de promiscuidade com grandes setores do agroneg\u00f3cio, de empresariado, dos setores que historicamente atacam o povo do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:justify\">Estes s\u00e3o alguns exemplos dos que os ind\u00edgenas e outras comunidades tradicionais enfrentam no Brasil. Abaixo, alguns acontecimentos de viol\u00eancia direta, s\u00f3 dos \u00faltimos dias, em setembro:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2019\/09\/retomada-guarani-mbya-da-ponta-do-arado-sofre-ataques-a-tiros-o-segundo-no-ano\/\">Retomada Guarani Mbya da Ponta do Arado, em Porto Alegre, sofre ataque a tiros; o segundo no ano<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/midianinja.org\/news\/apos-assassinato-de-colaborador-da-funai-indigenistas-reforcam-pedido-por-mais-seguranca\/\">Indigenista colaborador da FUNAI \u00e9 assassinado no Amazonas<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2019\/09\/cimi-regional-sul-repudia-ataque-contra-retomada-guarani-mbya-de-terra-de-areia\/\">Homens se dizendo policiais atacam ind\u00edgenas guaranis de Terra de Areia, RS<\/a><\/li><li><a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2019\/09\/19\/em-um-final-de-semana-tres-ataques-a-comunidades-indigenas-no-rs\/\">Mbya Guarani recebem amea\u00e7as de homens armados na Terra Ind\u00edgena Guadjayvi, em Charqueadas, Rs, territ\u00f3rio diretamente impactado pelo projeto da Mina Gua\u00edba, da Copelmi<\/a>.&nbsp;<\/li><li><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mt\/mato-grosso\/noticia\/2019\/09\/17\/ponte-de-acesso-a-5-aldeias-indigenas-e-queimada-em-mt.ghtml\">Ponte de acesso a 5 aldeias ind\u00edgenas \u00e9 queimada em MT <\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Os ataques s\u00e3o hist\u00f3ricos e permanentes. E mais complexos do que parecem &#8211; <strong><a href=\"http:\/\/www.amigosdaterrabrasil.org.br\/2019\/09\/28\/o-ganha-ganha-por-tras-das-queimadas-da-amazonia-parte-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre numa nova aba)\">descubra na segunda parte da mat\u00e9ria &#8220;O ganha-ganha por tr\u00e1s das queimadas da Amaz\u00f4nia: quanto valem a preserva\u00e7\u00e3o e as falsas solu\u00e7\u00f5es do capitalismo &#8216;verde&#8217;, e quem compensa as compensa\u00e7\u00f5es?&#8221;<\/a><\/strong><br \/><\/p>\n\n\n\n<p>\n\nVeja mais fotos da ronda de solidariedade pelo ACRE:\n\n<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/-tIPlkuIvSCPE7x2K0yORkKPga-ubFgUbSFjC8Tf3a_mKXLoCj7dqvOSIo3OXPMxDFkB1MckU_erCQXTheG32f-j0znT3NmvzC4M-XWT1piGPIBul6mwlGNZdW2QTyX9jw9Y02aa\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/MzgpE4MASfZTMMIu4vCahiU6Bqi4yKW5xZlfWWKmUfkr1_7O4ftp5ZVYh8-6aJZhVh19lH7t-6NxEaFM5L4qndbvG1qrcKr7EtWpDa4W4b81qo4L3Owa8dPJtRAQtd2bL4LyV_VY\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/ulR9sDuIxvjge3EDf8NWHO9HL4Az1nI4ZiumNR7Konrjgd7NHCSKpq1OxwAjTCzXHBY_WAL5GP_VssgMOFueQt5DT4rmHjCBZFdopTFaSzUQBCVQhsjn0d95UAy7wjiHKO3wI9Hh\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/tHLznrLrVISHFraJ7HE1q0i6HFz7577VqyR6UG7cOefqMVhFnPvMw3Ip6OQsnrWNMRu3QXvBmWFwfwx8kq5pSJXSUnLNn3Ver3EZGCN7CU_CTVTERrVLhRsXwcmdyZZ6NdRNXASA\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/ytz7rFtQDqYdXGHyfGSAuUBbwL3-Bk1m6Sd-M_DuquV5EBcANR-m1hwx_T4k_P8BS1Q7jZHVOk65-dcHYgHWIh3VzzyoDLPpneQdQChGc3yzko94fBOUcnfxOqbUzgtoqw6VQWy9\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/A5YtvG9js8vieUMOYuHhgcaW2GkrzHomTFKFlOgQdd0CTWaw6BJY6wL0iqF-lO8OS-KV4sm5SGF8Xq79WQnrU8pUTKUhHUVGYV0DGIXyyd4keQjr69e-oKoRCV5qkG31P5pWIyJx\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/p-YLsSDw3SO4OqQE4MBFoJkEiEjouQKcWREoG7JkpUtg9wGuzgM5RrVq1U8_BhPtMh7EEpQLFeFRTvgQ2143IvTB1jvz59kYbF0CSaY144mf7wVoZziQBTtUv3cyWOUO_0ZXbv58\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/At0fWIWNIgNRQ8eGwYcBBE8KcaobohJdAEh_6Cvex9u5TCHTTLbR0qzoCR8ZvJ-DIYYG_S95_Fs_TGKsToMjcF141uFsrO3ElHZbTEpPUGf_Y3H5t5091Spm0hnVV90yykGRYGsB\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" 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Pensam que n\u00e3o serve, que \u00e9 floresta s\u00f3, mas tem muito valor. Dela tiramos a madeira de lei que a gente constr\u00f3i a nossa casa. Quando algum filho fica doente, eu j\u00e1 sei como vou tratar, sei qual medicina devo buscar. \u00c9 a nossa farm\u00e1cia viva. Se acabar com a floresta, a riqueza que eu tenho conhecimento se acaba, por isso que \u00e9 triste para mim todo esse fogo\u201d. Dia 22 de agosto, as chamas arderam e queimaram, em poucas horas, cinco hectares de mata, o que corresponde a 50% da \u00e1rea total do Centro Cultural Huw\u00e3 Karu Yuxibu. Desde outubro de 2018, a fam\u00edlia do Cacique Mapu, filho de Isaka, faz deste territ\u00f3rio, localizado a 50 km do centro de Rio Branco, capital do estado do Acre, um local de acolhimento para os parentes que vem estudar na cidade e ser tamb\u00e9m um espa\u00e7o de propaga\u00e7\u00e3o das medicinas do povo ind\u00edgena Huni Kuin. O Paj\u00e9 Isaka, 80 anos, estava almo\u00e7ando com sua fam\u00edlia quando sua esposa ouviu os estalos das folhas queimando. Sa\u00edram correndo com os fac\u00f5es para tentar impedir o avan\u00e7o do fogo sobre a mata, mas n\u00e3o tiveram sucesso. Com a chegada dos bombeiros, conseguiram evitar que as casas fossem destru\u00eddas. A planta\u00e7\u00e3o de mam\u00e3o, banana, a\u00e7a\u00ed, entre outras plantas foram consumidas. Tatus, tartarugas e macacos foram atingidos. Queimaram a floresta que \u00e9 farm\u00e1cia dos Huni Kuin. Suspeitam de fogo criminoso, a\u00e7\u00e3o que compromete a vida do paj\u00e9 Isaka e de sua fam\u00edlia. Para ele, Isaka, um feito de maldade. A 250 km dali, j\u00e1 no Estado do Amazonas, no munic\u00edpio de Boca do Acre, a floresta do povo Apurin\u00e3 tamb\u00e9m ardeu. Dia 13 de agosto, o Dia do Fogo, 600 hectares da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso foram queimados. No territ\u00f3rios dos Apurin\u00e3s, o fogo, al\u00e9m de maldade, \u00e9 uma das etapas de um processo muito bem articulado de grilagem de terras da uni\u00e3o. O Cacique Ant\u00f4nio Jos\u00e9 denuncia este esquema que, na Amaz\u00f4nia Legal, n\u00e3o \u00e9 exclusivo da terra do seu povo. Atinge diversos povos ind\u00edgenas e terras da Uni\u00e3o. Em um roteiro de destrui\u00e7\u00e3o e lucro, os invasores desmatam, vendem as madeiras de lei, tocam fogo na mata que resta, cercam, passam a criar gado na \u00e1rea, vendem a carne e depois, ainda, plantam soja, milho ou arroz. Se n\u00e3o bastasse, ap\u00f3s as queimadas, este mesmo setor do agroneg\u00f3cio que lucra com um mercado internacional ainda tem a possibilidade de seguir ganhando dinheiro com as campanhas ambientais que pretendem &#8220;salvar&#8221; a Amaz\u00f4nia. A luta dos caciques Apurin\u00e3 contra a grilagem e pela demarca\u00e7\u00e3o de suas terras Foram 45.256 focos de fogo detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) na Amaz\u00f4nia de janeiro a agosto de 2019. 20% desse fogo aconteceram em florestas p\u00fablicas que ainda n\u00e3o foram destinadas a nenhum uso: parque, reserva, territ\u00f3rio ind\u00edgena. Entre elas, a Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso. Em 13 de agosto, o Dia do Fogo, conforme denuncia o Cacique Antonio Jos\u00e9, um grupo de grileiros queimou 600 hectares de florestas da \u00e1rea reivindicada pelos Apurin\u00e3s. Ao cruzar a quinta porteira, finalmente estamos perto da entrada da mata da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso, \u00e0 beira do Igarap\u00e9 Retiro. O Cacique Kaxuqui, que \u00e9 primo e companheiro de luta de Ant\u00f4nio Jos\u00e9, desce da moto. Ant\u00f4nio nos convida a descer do carro, porque eles gostariam de falar. De um lado da cerca estamos n\u00f3s, do outro, incont\u00e1veis cabe\u00e7as de gado, que se espalham pelos cinco lotes que acabamos de atravessar. Os caciques nos explicam o que vemos ali. \u201cDevastaram nossas terras, coisas que n\u00f3s v\u00ednhamos preservando de 100 anos atr\u00e1s. Onde nasceu vov\u00f4, meu bisav\u00f4, meus tios tudo\u201d, lamenta Kaxuqui, 58. Ant\u00f4nio Jos\u00e9 continua: \u201cEu tenho 54 anos, nunca sai daqui. Esse pessoal, esse que se diz dono daqui onde estamos pisando agora, n\u00e3o \u00e9 daqui n\u00e3o, \u00e9 descendente de portugu\u00eas. E n\u00f3s que somos ind\u00edgenas, que moramos aqui desde sempre, que comprovamos, estamos assim sem direito \u00e0 terra\u201d. Escute a den\u00fancia dos caciques Apurin\u00e3s: Os Apurin\u00e3s reivindicam a demarca\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Val Para\u00edso desde 1991. O processo se encontra nas m\u00e3os da FUNAI. Os ind\u00edgenas aguardam h\u00e1 anos a finaliza\u00e7\u00e3o dos estudos de identifica\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, onde vivem 46 pessoas de 7 fam\u00edlias. No in\u00edcio do processo, os Apurin\u00e3s reclamavam a demarca\u00e7\u00e3o de 57 mil hectares. Mesmo com o processo correndo na Justi\u00e7a, suas terras passaram a ser invadidas, terem a mata derrubada, transformadas em campo e, posteriormente, fazenda de cria\u00e7\u00e3o de gado. H\u00e1 um tempo atr\u00e1s, reduziram a reivindica\u00e7\u00e3o para 26 mil hectares, em uma tentativa de facilitar a demarca\u00e7\u00e3o. \u201cFizemos um acordo com os fazendeiros. O que j\u00e1 \u00e9 campo \u00e9 deles, o que \u00e9 mata \u00e9 nosso. Mas mesmo assim eles continuam invadindo e brocando a floresta\u201d, conta Ant\u00f4nio Jos\u00e9. Brocar \u00e9 o verbo que os Apurin\u00e3s usam para descrever a a\u00e7\u00e3o de quem derruba a mata. \u201cN\u00e3o \u00e9 por falta de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o. A gente tem tudo documentado. O IBAMA(Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis), o Minist\u00e9rio P\u00fablico, o Terra Legal tem o conhecimento que isso aqui foi reivindicado enquanto tinha mata, enquanto estava intacto. S\u00f3 existe essa mata que voc\u00eas est\u00e3o vendo a\u00ed na beira do igarap\u00e9 porque a gente vem tentando preservar ela de 91 at\u00e9 agora\u201d. Para Lindomar Dias, do Conselho Mission\u00e1rio Indigenista, estas articula\u00e7\u00f5es de tomada de territ\u00f3rio se d\u00e3o h\u00e1 muito tempo. No caso dos ind\u00edgenas, acontece desde sempre. \u201cEfetivamente o Brasil, como pa\u00eds, nasce espoliando e roubando territ\u00f3rio dos povos origin\u00e1rios. E trata esses povos como se n\u00e3o fossem origin\u00e1rios. Tratam essa gente como se fossem estrangeiros, quando na verdade s\u00e3o donos. Adquiriram esses direitos<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1592,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,8,1835],"tags":[],"class_list":["post-1553","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-justica-climatica-e-energetica","category-florestas-e-biodiversidade","category-saeb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1553"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9894,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1553\/revisions\/9894"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1592"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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