{"id":11287,"date":"2026-05-07T15:34:29","date_gmt":"2026-05-07T18:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=11287"},"modified":"2026-05-07T15:34:57","modified_gmt":"2026-05-07T18:34:57","slug":"a-forca-politica-da-solidariedade-e-auto-organizacao-das-mulheres-na-reconstrucao-do-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/?p=11287","title":{"rendered":"A for\u00e7a pol\u00edtica da solidariedade e auto-organiza\u00e7\u00e3o das mulheres na reconstru\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"857\" height=\"640\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/mmmmmm.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11288\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/mmmmmm.jpg 857w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/mmmmmm-300x224.jpg 300w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/mmmmmm-768x574.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 857px) 100vw, 857px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Periferia Feminista, em Porto Alegre | Cr\u00e9dito: Beatriz Schwenck<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 2024, o Rio Grande do Sul viveu&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/amigos-da-terra-brasil\/2025\/05\/22\/um-ano-da-enchente-no-rio-grande-do-sul-o-que-e-memoria-para-alguns-para-muitos-ainda-e-realidade\/\">a maior crise hidrol\u00f3gica j\u00e1 registrada em sua hist\u00f3ria<\/a>, uma das cat\u00e1strofes socioambientais mais marcantes do Brasil recente. Chuvas com intensidade, dura\u00e7\u00e3o e abrang\u00eancia sem precedentes resultaram em inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos e enxurradas com impactos devastadores do ponto de vista econ\u00f4mico, social e ambiental. As cat\u00e1strofes e crimes socioambientais, eventos extremos ligados \u00e0 crise clim\u00e1tica, acontecem com cada vez mais frequ\u00eancia em todo o Brasil e nos lembram da urg\u00eancia de colocar no centro do debate o questionamento aos modelos de desenvolvimento baseados na explora\u00e7\u00e3o das pessoas, da natureza e do trabalho das mulheres. Esses eventos escancaram o que chamamos, a partir da economia feminista, dw conflito capital-vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/sof-sempreviva-organizacao-feminista\/2024\/05\/16\/mulheres-na-reconstrucao-do-rio-grande-do-sul-com-feminismo-e-justica-socioambiental\/\">a atua\u00e7\u00e3o comprometida dos movimentos sociais foi fundamental<\/a>.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/04\/07\/inspirada-por-vilma-espin-marcha-mundial-das-mulheres-promove-acao-de-solidariedade-as-cubanas\/\">Marcha Mundial das Mulheres<\/a>&nbsp;(MMM),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/amigos-da-terra-brasil\/\">Amigas da Terra Brasil<\/a>,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/04\/20\/fruto-de-luta-de-40-anos-politica-pelos-direitos-de-atingidos-por-barragens-deve-ser-regulamentada-antes-das-eleicoes\/\">Movimento de Atingidos e Atingidas por Barragens<\/a>&nbsp;(MAB),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/04\/27\/mst-lanca-primeira-fabrica-de-leite-em-po-em-sp-temos-que-continuar-ocupando-o-latifundio\/\">Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra<\/a>&nbsp;(MST),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/25\/mst-e-mtst-voce-realmente-conhece-essas-organizacoes\/\">Movimento dos Trabalhadores Sem Teto<\/a>&nbsp;(MTST),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/04\/05\/uma-historia-oral-do-movimento-negro-unificado-por-tres-de-seus-fundadores\/\">Movimento Negro Unificado<\/a>&nbsp;(MNU), a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/04\/14\/sao-reivindicacoes-unificadas-dos-trabalhadores-diz-presidente-da-cut-sp-sobre-marcha-nacional-em-brasilia\/\">Central \u00danica dos Trabalhadores<\/a>&nbsp;(CUT), entre outros tantos coletivos de economia solid\u00e1ria, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es locais formam uma densa rede de articula\u00e7\u00e3o da sociedade civil organizada que garantiu o resgate, acolhimento, infra-estrutura, alimenta\u00e7\u00e3o e suporte de fam\u00edlias atingidas pelas enchentes e daquelas que, mesmo n\u00e3o tendo sido tocadas diretamente pelas \u00e1guas, tiveram o cotidiano interpelado por ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas organiza\u00e7\u00f5es tiveram o papel fundamental de distribuir marmitas, roupas, colch\u00f5es, cobertores, m\u00f3veis para fam\u00edlias que perderam tudo. Muitas das pessoas que recebiam doa\u00e7\u00f5es passaram a se envolver na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, vinculando-se aos movimentos, revelando as rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade. S\u00e3o essas rela\u00e7\u00f5es que sustentam a mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e que a economia feminista reconhece como parte constitutiva da economia do ponto de vista substantivo, aquela que sustenta a vida, mas que os indicadores oficiais se recusam a contabilizar. Hoje, dois anos depois, essa rede segue o trabalho de cobrar e denunciar a viola\u00e7\u00e3o de direitos, com a reivindica\u00e7\u00e3o da garantia de condi\u00e7\u00f5es para reconstru\u00e7\u00e3o da vida nos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversas a\u00e7\u00f5es marcam o m\u00eas de maio em mem\u00f3ria e registro das enchentes. Exposi\u00e7\u00f5es de fotos, debates, mesas-redondas recuperam o per\u00edodo das enchentes e colocam no centro do debate sobre a reconstru\u00e7\u00e3o as pessoas atingidas e suas organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios, os movimentos sociais se articulam em uma frente popular em Porto Alegre, mobilizados para impedir processos de avan\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e de privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos na capital. Talvez a mais emblem\u00e1tica dessas lutas seja a mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra a privatiza\u00e7\u00e3o do Departamento Municipal de \u00c1gua e Esgoto, o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo sistema de prote\u00e7\u00e3o de cheias da capital que, por falta de manuten\u00e7\u00e3o adequada, teve um desempenho insatisfat\u00f3rio na conten\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e na drenagem delas, contribuindo para o agravamento dos impactos sofridos em 2024.\u00a0<br><br><strong>Cozinhas comunit\u00e1rias: a nossa chama \u00e9 o fogo da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"473\" height=\"628\" src=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/marcha-m-.jpg?wsr\" alt=\"\" class=\"wp-image-11289\" srcset=\"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/marcha-m-.jpg 473w, https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/marcha-m--226x300.jpg 226w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marmitas preparadas na cozinha solid\u00e1ria do Periferia Feminista.\u00a0|\u00a0Cr\u00e9dito: Acervo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Depois das enchentes, a rede de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/02\/17\/cozinhas-solidarias-exemplo-de-resistencia-frente-ao-fracasso-do-neoliberalismo\/\">cozinhas comunit\u00e1rias<\/a>&nbsp;do Rio Grande do Sul cresceu em tamanho, solidez e capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Hoje, s\u00e3o mais de 323 cozinhas comunit\u00e1rias cadastradas no Conselho Estadual de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea). Al\u00e9m de refletir a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular, esse n\u00famero tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para um impacto severo das enchentes e do processo de empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o do estado: a necessidade urgente de garantir a seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o atingida. As cozinhas distribuem refei\u00e7\u00f5es a partir de alimentos destinados pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/31\/volta-do-paa-relembre-o-que-e-o-programa-e-como-ele-impacta-familias-brasileiras\/\">Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos<\/a>&nbsp;(PAA) e de doa\u00e7\u00f5es, e se sustentam com o trabalho de muitas m\u00e3os na organiza\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, preparo dos alimentos, manuten\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, lavar panelas, conversar com quem retira a marmita\u2026.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma dessas cozinhas \u00e9 a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/05\/30\/espaco-periferia-feminista-e-inaugurado-no-morro-da-cruz-em-porto-alegre\/\">Periferia Feminista<\/a>, projeto animado pela Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul localizado no Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre. Este projeto teve in\u00edcio em 2021, come\u00e7ou como uma horta comunit\u00e1ria, cujo objetivo sempre foi a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de fortalecimento dos v\u00ednculos comunit\u00e1rios e de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no bairro, assentado na mobiliza\u00e7\u00e3o da MMM e de movimentos parceiros como a organiza\u00e7\u00e3o Amigas da Terra. Os primeiros encontros no espa\u00e7o, ainda na pandemia de covid-19, tinham como fator mobilizador a falta d\u2019\u00e1gua, problema recorrente no Morro da Cruz. Logo depois, o projeto se tornou um ponto importante de distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas. A horta era uma semente de organiza\u00e7\u00e3o das mulheres e ali elas foram germinando os esfor\u00e7os de elabora\u00e7\u00e3o de uma economia solid\u00e1ria popular, agroecol\u00f3gica, feminista. O primeiro projeto de cozinha era um espa\u00e7o de apoio interno para o grupo, que permitia o preparo coletivo dos alimentos nos dias de mutir\u00e3o na horta e assim, al\u00e9m de alimentar as mulheres e suas crian\u00e7as, tamb\u00e9m provocava o debate sobre a necessidade urgente de coletivizar as tarefas de reprodu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>No alto do Morro, o espa\u00e7o da Periferia Feminista n\u00e3o foi atingido diretamente pelas inunda\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, com a enchente, o coletivo reposicionou o trabalho coletivo para o preparo e distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es. O grupo de mulheres do Periferia Feminista aprendeu a cozinhar em grandes propor\u00e7\u00f5es e passou a preparar refei\u00e7\u00f5es para distribuir no bairro, pensando em casas que estavam abrigando fam\u00edlias que haviam sa\u00eddo de suas casas. Juntas, elas foram driblando os desafios de gerir uma cozinha comunit\u00e1ria sem abastecimento de \u00e1gua ou energia el\u00e9trica, efeito das cheias na parte baixa da cidade. Nos meses que seguiram as \u00e1guas, chegaram a distribuir mais de mil marmitas por dia. Com o tempo e com o retorno das fam\u00edlias abrigadas \u00e0s suas casas, esse coletivo de mulheres avaliou que a demanda por alimentos no Morro da Cruz continuava urgente e assim decidiu continuar com o preparo e distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, esse grupo de 26 mulheres, a maioria moradoras do Morro da Cruz, distribui cerca de 300 refei\u00e7\u00f5es por dia, e tamb\u00e9m organiza no espa\u00e7o a horta comunit\u00e1ria, um coletivo de costura e bordado, um brech\u00f3, uma padaria comunit\u00e1ria, al\u00e9m de atividades de educa\u00e7\u00e3o popular com as crian\u00e7as e mulheres. Ali, as mulheres distribuem toneladas de alimentos toda semana para moradores do bairro e nos d\u00e3o uma verdadeira aula sobre a pot\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o feminista territorialmente enraizada e da import\u00e2ncia das alian\u00e7as entre movimentos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Organizadas, elas&nbsp;tamb\u00e9m ocupam um assento no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/17\/entenda-o-que-e-o-consea-e-o-seu-papel-no-combate-a-fome\/\">Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional<\/a>&nbsp;(Consea), recebem pesquisadoras\/es de diferentes \u00e1reas, organizam atividades conjuntamente com outras parcerias e interc\u00e2mbios de experi\u00eancias. Aquele espa\u00e7o come\u00e7ou com uma horta e hoje abriga diversas atividades e projetos. \u00c9, como elas mesmas dizem, \u201cum organismo vivo de cuidados\u201d, formado por uma cozinha-cora\u00e7\u00e3o, que abriga mais do que equipamentos de cozinha industrial e corte e costura: abriga um projeto pol\u00edtico popular, solid\u00e1rio e feminista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres do Periferia Feminista nos ensinam uma importante li\u00e7\u00e3o: nessas iniciativas comunit\u00e1rias, preparar comida n\u00e3o \u00e9 refor\u00e7ar o lugar das mulheres na cozinha. \u00c9 escancarar a nossa contribui\u00e7\u00e3o, muitas vezes invis\u00edvel, para as tarefas de reprodu\u00e7\u00e3o e sustentabilidade da vida. De forma coletiva, elas politizam isso, alimentando a comunidade tamb\u00e9m com projetos de uma vida melhor, com acesso \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, com abastecimento de \u00e1gua e saneamento b\u00e1sico, com organiza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o popular nos planos de reconstru\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Beatriz Schwenck \u00e9 soci\u00f3loga, especialista em pol\u00edticas p\u00fablicas e justi\u00e7a de g\u00eanero.\u00a0 Integrante da equipe t\u00e9cnica da SOF e militante da MMM<\/em><br><br>Esse conte\u00fado foi originalmente publicado no Jornal Brasil de Fato, em: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/sof-sempreviva-organizacao-feminista\/2026\/05\/04\/a-forca-politica-da-solidariedade-e-auto-organizacao-das-mulheres-na-reconstrucao-do-rio-grande-do-sul\/\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/sof-sempreviva-organizacao-feminista\/2026\/05\/04\/a-forca-politica-da-solidariedade-e-auto-organizacao-das-mulheres-na-reconstrucao-do-rio-grande-do-sul\/<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2024, o Rio Grande do Sul viveu&nbsp;a maior crise hidrol\u00f3gica j\u00e1 registrada em sua hist\u00f3ria, uma das cat\u00e1strofes socioambientais mais marcantes do Brasil recente. Chuvas com intensidade, dura\u00e7\u00e3o e abrang\u00eancia sem precedentes resultaram em inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos e enxurradas com impactos devastadores do ponto de vista econ\u00f4mico, social e ambiental. As cat\u00e1strofes e crimes socioambientais, eventos extremos ligados \u00e0 crise clim\u00e1tica, acontecem com cada vez mais frequ\u00eancia em todo o Brasil e nos lembram da urg\u00eancia de colocar no centro do debate o questionamento aos modelos de desenvolvimento baseados na explora\u00e7\u00e3o das pessoas, da natureza e do trabalho das mulheres. Esses eventos escancaram o que chamamos, a partir da economia feminista, dw conflito capital-vida. Neste cen\u00e1rio,&nbsp;a atua\u00e7\u00e3o comprometida dos movimentos sociais foi fundamental.&nbsp;Marcha Mundial das Mulheres&nbsp;(MMM),&nbsp;Amigas da Terra Brasil,&nbsp;Movimento de Atingidos e Atingidas por Barragens&nbsp;(MAB),&nbsp;Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra&nbsp;(MST),&nbsp;Movimento dos Trabalhadores Sem Teto&nbsp;(MTST),&nbsp;Movimento Negro Unificado&nbsp;(MNU), a&nbsp;Central \u00danica dos Trabalhadores&nbsp;(CUT), entre outros tantos coletivos de economia solid\u00e1ria, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es locais formam uma densa rede de articula\u00e7\u00e3o da sociedade civil organizada que garantiu o resgate, acolhimento, infra-estrutura, alimenta\u00e7\u00e3o e suporte de fam\u00edlias atingidas pelas enchentes e daquelas que, mesmo n\u00e3o tendo sido tocadas diretamente pelas \u00e1guas, tiveram o cotidiano interpelado por ela.&nbsp; Essas organiza\u00e7\u00f5es tiveram o papel fundamental de distribuir marmitas, roupas, colch\u00f5es, cobertores, m\u00f3veis para fam\u00edlias que perderam tudo. Muitas das pessoas que recebiam doa\u00e7\u00f5es passaram a se envolver na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, vinculando-se aos movimentos, revelando as rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade. S\u00e3o essas rela\u00e7\u00f5es que sustentam a mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e que a economia feminista reconhece como parte constitutiva da economia do ponto de vista substantivo, aquela que sustenta a vida, mas que os indicadores oficiais se recusam a contabilizar. Hoje, dois anos depois, essa rede segue o trabalho de cobrar e denunciar a viola\u00e7\u00e3o de direitos, com a reivindica\u00e7\u00e3o da garantia de condi\u00e7\u00f5es para reconstru\u00e7\u00e3o da vida nos territ\u00f3rios. Diversas a\u00e7\u00f5es marcam o m\u00eas de maio em mem\u00f3ria e registro das enchentes. Exposi\u00e7\u00f5es de fotos, debates, mesas-redondas recuperam o per\u00edodo das enchentes e colocam no centro do debate sobre a reconstru\u00e7\u00e3o as pessoas atingidas e suas organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios, os movimentos sociais se articulam em uma frente popular em Porto Alegre, mobilizados para impedir processos de avan\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e de privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos na capital. Talvez a mais emblem\u00e1tica dessas lutas seja a mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra a privatiza\u00e7\u00e3o do Departamento Municipal de \u00c1gua e Esgoto, o \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo sistema de prote\u00e7\u00e3o de cheias da capital que, por falta de manuten\u00e7\u00e3o adequada, teve um desempenho insatisfat\u00f3rio na conten\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e na drenagem delas, contribuindo para o agravamento dos impactos sofridos em 2024.\u00a0 Cozinhas comunit\u00e1rias: a nossa chama \u00e9 o fogo da revolu\u00e7\u00e3o Depois das enchentes, a rede de&nbsp;cozinhas comunit\u00e1rias&nbsp;do Rio Grande do Sul cresceu em tamanho, solidez e capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Hoje, s\u00e3o mais de 323 cozinhas comunit\u00e1rias cadastradas no Conselho Estadual de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea). Al\u00e9m de refletir a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular, esse n\u00famero tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para um impacto severo das enchentes e do processo de empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o do estado: a necessidade urgente de garantir a seguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o atingida. As cozinhas distribuem refei\u00e7\u00f5es a partir de alimentos destinados pelo&nbsp;Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos&nbsp;(PAA) e de doa\u00e7\u00f5es, e se sustentam com o trabalho de muitas m\u00e3os na organiza\u00e7\u00e3o, log\u00edstica, preparo dos alimentos, manuten\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, lavar panelas, conversar com quem retira a marmita\u2026. Uma dessas cozinhas \u00e9 a&nbsp;Periferia Feminista, projeto animado pela Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul localizado no Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre. Este projeto teve in\u00edcio em 2021, come\u00e7ou como uma horta comunit\u00e1ria, cujo objetivo sempre foi a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de fortalecimento dos v\u00ednculos comunit\u00e1rios e de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no bairro, assentado na mobiliza\u00e7\u00e3o da MMM e de movimentos parceiros como a organiza\u00e7\u00e3o Amigas da Terra. Os primeiros encontros no espa\u00e7o, ainda na pandemia de covid-19, tinham como fator mobilizador a falta d\u2019\u00e1gua, problema recorrente no Morro da Cruz. Logo depois, o projeto se tornou um ponto importante de distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas. A horta era uma semente de organiza\u00e7\u00e3o das mulheres e ali elas foram germinando os esfor\u00e7os de elabora\u00e7\u00e3o de uma economia solid\u00e1ria popular, agroecol\u00f3gica, feminista. O primeiro projeto de cozinha era um espa\u00e7o de apoio interno para o grupo, que permitia o preparo coletivo dos alimentos nos dias de mutir\u00e3o na horta e assim, al\u00e9m de alimentar as mulheres e suas crian\u00e7as, tamb\u00e9m provocava o debate sobre a necessidade urgente de coletivizar as tarefas de reprodu\u00e7\u00e3o social. No alto do Morro, o espa\u00e7o da Periferia Feminista n\u00e3o foi atingido diretamente pelas inunda\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, com a enchente, o coletivo reposicionou o trabalho coletivo para o preparo e distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es. O grupo de mulheres do Periferia Feminista aprendeu a cozinhar em grandes propor\u00e7\u00f5es e passou a preparar refei\u00e7\u00f5es para distribuir no bairro, pensando em casas que estavam abrigando fam\u00edlias que haviam sa\u00eddo de suas casas. Juntas, elas foram driblando os desafios de gerir uma cozinha comunit\u00e1ria sem abastecimento de \u00e1gua ou energia el\u00e9trica, efeito das cheias na parte baixa da cidade. Nos meses que seguiram as \u00e1guas, chegaram a distribuir mais de mil marmitas por dia. Com o tempo e com o retorno das fam\u00edlias abrigadas \u00e0s suas casas, esse coletivo de mulheres avaliou que a demanda por alimentos no Morro da Cruz continuava urgente e assim decidiu continuar com o preparo e distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es.&nbsp; Atualmente, esse grupo de 26 mulheres, a maioria moradoras do Morro da Cruz, distribui cerca de 300 refei\u00e7\u00f5es por dia, e tamb\u00e9m organiza no espa\u00e7o a horta comunit\u00e1ria, um coletivo de costura e bordado, um brech\u00f3, uma padaria comunit\u00e1ria, al\u00e9m de atividades de educa\u00e7\u00e3o popular com as crian\u00e7as e mulheres. Ali, as mulheres distribuem toneladas de alimentos toda semana para moradores do bairro e nos d\u00e3o uma verdadeira aula sobre a pot\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o feminista territorialmente enraizada e da import\u00e2ncia das alian\u00e7as entre movimentos sociais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11288,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[603],"tags":[2121,974,1960,2123,494,2124,495,2120,248,834,2122,2119],"class_list":["post-11287","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-brasil-de-fato","tag-cozinha-solidaria-morro-da-cruz","tag-economia-feminista","tag-emergencia-climatica-2","tag-enchentes-rs","tag-feminismo","tag-feminismo-no-enfrentamento-da-emergencia-climatica","tag-feminismo-popular","tag-horta-comunitaria-do-morro-da-cruz","tag-marcha-mundial-das-mulheres","tag-morro-da-cruz","tag-mulheres-em-luta","tag-periferia-feminista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11287"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11291,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11287\/revisions\/11291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/11288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/amigasdaterrabrasil.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}<!-- This website is optimized by Airlift. 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